Soundtrack para uma quarentena #26: Salto - Salto
Já sigo os Salto há tempo do suficiente para me lembrar dos vídeos da sessão acústica nos primeiros dias do Mar Shopping. Esta banda já anda por cá há algum tempo, e o seu álbum epónimo, de 2012, é um diamante em bruto não só da banda em si, como dos seus participantes.
Na sua génese, os Salto são Gui Tomé Ribeiro e Luís Montenegro, e isso nota-se neste álbum. Todas as letras e músicas são da autoria destes dois músicos, com a exceção da “Sem 100”, com as duas personalidades, gostos, e influências a transparecerem em cada nota.
Começam por ser uma banda acústica. Mas por altura do álbum Os Salto estavam, sem dúvida, na vanguarda da indie-pop-trónica, com canções catchy, cheias de Groove, energia, e a misturar elementos mais acústicos com uma base forte eletrónica. Isto cria um som atrativo, profundamente energético, dançável, e ridiculamente cantável: peguei no cd depois de bastante tempo sem o ouvir, para me aperceber que ainda sabia as letras todas de cor.
A primeira faixa, “Deixar Cair” abre com aquele conjunto de sons indiscritíveis mas extraordinariamente memorável, num crescendo grandioso que é cortado pela guitarra cortada, seguida do clássico um dois três quatro, só para se atirar de cabeça a um ritmo absolutamente viciante. Há uma base de guitarras, mas os sintetizadores e aquele baixo com um sidechain que percorre a faixa toda criam uma das músicas mais memoráveis da minha (nossa?) adolescência.
Os Salto marcaram profundamente uma subcultura portuense específica, criando uma legião de fãs ferrenhos (eu fazia [faço?] parte dessa subcultura). Em parte pela personalidade dos membros, mas também porque a música, em grande parte devido às letras, são bastante relatable mas interessantes, mesmo que por vezes ligeiramente herméticas (até hoje não tenho a certeza do que quer dizer Vem depois de mim aquilo que sobrou / é tarde mas enfim, amanhã procuro o que / sobrou). E essa subcultura foi de facto uma plataforma de lançamento. Perguntem a muita gente, e ainda se vão lembrar da versão antiga da “Sem 100” (que era incrível, note-se).
Boa parte do que tornou este álbum tão marcante, no entanto, foi a sonoridade. No espectro portuense, ainda não tinha aparecido nenhuma grande banda a fazer a mistura exatamente como os Salto a fizeram. E continuariam a fazer. Os projetos a solo de Luís Montenegro, por exemplo (destaque para Lewis M. e Rapaz Ego) contam essa história, da vontade do sair do universo do pop-rock simples e bruto. E isso nota-se bem na miríade de influências que estas faixas incluem, como o interlúdio “Arcade” ou a faixa “888:88”, que mostram uma base de Garage ou de Glitch Hop bem funky, ou a “Sem 100”, a mostrar um peso enorme de Downtempo e Dubstep (era 2012, e Dubstep ainda era fixe, ok?). O álbum todo caminha essa linha entre o eletrónico e o Indie Rock, e geralmente mantém uma sonoridade coesa, apenas com algumas músicas (“Sem 100”, estou a olhar para ti) a saltar como um espinho. Num ponto ou outro nota-se, aliás, que é um álbum de estreia, onde o som ainda está a ser explorado como ferramenta. Essas ferramentas já vão ser utilizadas como tal em álbuns seguintes, com estruturas muito mais coesas e com um elemento técnico profundamente refinado.
Ainda assim, este epónimo tem uma atração especial, em parte exatamente devido a essa carga de experimentação. Algumas faixas disparam para lados completamente diferentes do rumo geral, o que cria um sentimento de exploração de algo misterioso e novo, embora com uma familiaridade e intimidade fora do comum. São diferentes sensibilidades que se conjugam num puzzle bizarro, e é precisamente por conseguirmos ver as peças diferentes que este álbum marca tanto.
Ou se calhar sou só eu que sou saudosista, e deixei que este álbum marcasse os meus teenage years. Não o nego. Este álbum acompanhou-me durante muitos anos. E ainda assim, quase uma década depois de começar a ouvir falar desta banda, o álbum de estreia ainda é fácil de ouvir, e divertido. Tantos anos depois, e ainda guarda toda a energia.
Mas a sério, malta, façam aí uma edição de b-sides e faixas cortadas. Quero ouvir a outra “Sem 100” só mais uma vez.
JK, 07/04/2020










