Inteligência e esperteza
Talvez o aspecto mais urgente do pensamento sobre o jeito desenvolvido aqui esteja na possibilidade de uma inteligência sem recurso às regras gerais ou ao conhecimento como representação. Esse tipo de inteligência se mostra decisivo nos momentos mais críticos, justamente quando uma ordem instituída é interrompida por uma força insurgente e, em seu lugar, ainda não há outra ordem de inteligibilidade que aponte os caminhos a tomar. Foi esse o trágico, por exemplo, dos acontecimentos de junho de 2013. Abriu-se ali uma clareira na ordem presente, e em um dado momento pareceu que poderia vir uma grande mudança. Na ausência, porém, de algum grau de organização das potências transformadoras, o vácuo criado foi preenchido – como a história mostra ser a regra – por uma reação conservadora (por vezes fascista) ainda mais violenta que a situação anterior.
Daí a necessidade de uma inteligência, de uma possibilidade de aprendizado e de pedagogia que permita, naquele ponto em que o acontecimento ainda não foi fixado na representação, uma ação que não seja aleatória, mas estratégica. É o que se observa no ciclo de ocupações das escolas, por exemplo, em que os estudantes devem aprender a ocupar ocupando, se virar por conta própria, ou seja, dar um jeito de lidar com essa situação a partir da qual um futuro se torna possível. Nessas situações sem paradigma conhecido, uma outra inteligência é decisiva. Parece pertinente, inclusive, substituir a palavra “inteligência”, mais ligada ao conhecimento enquanto representação, por uma palavra como “esperteza”, relacionada à prática e ao imediato. Se o inteligente sabe organizar o mundo através das categorias gerais, o esperto sabe se dar bem em situações singulares e contingentes. Outras expressões similares – ligadas, como visto, ao campo semântico do jeito – incluem “malandragem”, “ginga” e “jogo de cintura”.
O jeito e a esperteza, assim, quem sabe permitam pensar uma prática sem teoria, um discurso sem metadiscurso, uma performance sem forma, um modo sem essência e – como em Benjamin e Agamben – um meio sem fim. Talvez tornem possível um pensamento e uma prática, na contingência radical, que escapem à dialética entre poder instituinte e poder instituído, uma gestão dos movimentos insurgentes fora da esfera institucional ou representativa.
O jeito é, rigorosamente, mais inteligente que a regra. Enquanto a aplicação de regras gerais reduz a complexidade da experiência à simplicidade das categorias, a lida com a singularidade, criadora das próprias ferramentas, abre a inteligência à riqueza do desconhecido.
Isso tem a ver com o materialismo radical do jeito, avesso aos idealismos que permitem a manutenção de formas abstratas como se fossem fins em si mesmas. Essa materialidade se mostra, por exemplo, quando se diz que um mecanismo material tem um jeito específico par funcionar. Se digo, por exemplo, que para abrir, com uma dada chave, uma dada fechadura, tem que dar um jeitinho, não se trata de algo que eu possa transmitir com palavras, isto é, como representação, ao meu interlocutor. O que estou dando a entender é simplesmente que, no momento de abrir a porta, será necessário experimentar, tateando na própria materialidade, com as possibilidades concretas, até encontrar o jeitinho necessário. Uma vez aprendido ou pêgo esse jeito, porém, ele pode automatizar-se, tornando-se tarefa fácil – e até mesmo inconsciente – chegar em casa e abrir a porta, se repetido o gesto um número vezes.
É nesse sentido que o jeito, embora opere a transição entre impossibilidade e possibilidade, não pode ser relacionado ao místico. Ou melhor: ele é místico apenas do ponto de vista da inteligibilidade, mas não do da matéria. Um exemplo esclarecedor é o do truque de mágica, que opera uma impossibilidade visto da perspectiva – por assim dizer – performativa, mas que, do ponto de vista concreto, reduz-se a uma habilidade motora bem desenvolvida – a prestidigitação. Daí que um acontecimento insurgente possa parecer ininteligível, místico, aos olhos de pretensos intérpretes, mas que não o seja necessariamente para aqueles cuja criatividade política está em jogo. Mistificar o acontecimento é perigoso, nesse sentido, sempre que implicar em um bloqueio dessa inteligência política em processo.
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