Sinto um calafrio percorrer todo meu corpo, e uma ardência que vem de dentro um tanto estranha, altiva. Não levanto da cama, se for um sonho, então que venha e me tenha. Um flash me entrega ao susto da lembrança de me ver por dentre o cabelo no rosto como observadora. Olho nos meus olhos semicerrados e reviro. Olho nos meus olhos de novo e reviro. O espelho. O espelho da sala. À essa altura por entre as pernas me desarma um formigamento intenso, quente. Outro flash me apunhala o estômago com o tremor do gozo, justo naquele segundo em que absolutamente nada fez sentido. Qualquer pensamento rotineiro era regido pelo abismo do êxtase, do transe. Do moço. Caramba, esqueci do moço!
Não foi um sonho, então. Ele está ao meu lado na cama exalando um perfume de homem, do tipo que não se compra; vem na marra, na experiência do tempo. Moreno de costas largas, lábios fartos. Subestimei seus traços quando o vi encostado à coluna do bar. Mas, você sabe, o segredo é ficar embaixo. De baixo, inexplicavelmente, ele ficou ainda melhor. Agora eu lembro do encontro dos seus olhos com os meus, das mãos travadas no meu cabelo, do movimento firme. Ah, eu lembro! E do estalo molhado que só um pau enrijecido perfeitamente encaixado numa buceta de quatro conseguem fazer. Bendito espelho. Um arrepio na nuca me desperta do devaneio da noite anterior. Procuro algum relógio ou vestígio de luz no quarto que me dê a calma de não ter perdido a hora. Pelo sim, pelo não, tento levantar-me bamba, dolorida, turva de desejos e reflexos.
- Bom dia… – a voz grave dele me paralisa.
- Bom dia… É, hum… Estou atrasada para um almoço em família que terá na minha casa. Preciso ir.
- Raquel, nós estamos na sua casa. – diz parecendo se divertir com minha expressão atordoada. Quem ele pensa que é pra tirar sarro da minha ressaca?
Não escondo a surpresa de perceber que ele sabe meu nome e eu sequer lembro como chegamos. E que estamos na minha casa. Minha casa, minha parede de gesso. Eu lembro agora. Aquele olhar me engolindo, o sorriso de canto de boca impagável de tesão.
- Então é você que precisa ir. – as palavras saem quase que em murmúrio. Estou vidrada na parede de gesso, tanto que consigo ouvir a sinfonia de gemidos, batidas e barulho que regi. A cada lembrança me excita a ideia do que ele estaria fazendo do outro lado. Confesso que espero que ontem “a da vez” tenha sido eu, ainda que em pensamento.
- Mas eu ainda não acabei com você. – sete palavras capazes de acordar qualquer mulher da sua mais entorpecente fantasia ditas em alto e bom som. Escolhi bem. Uma trepada no café não vai mal, você sabe.
Pisco duas vezes para assimilar o que está acontecendo, mas não resisto. Sinto a força com que agarra meu quadril e como sua língua febril dança sob meu corpo. Essa era a hora em que eu devia assumir o controle, expulsá-lo. Já havia conseguido o que queria, afinal. Mas nunca fui boa com esse negócio de controle; me perco, me deixo, me entrego. Faço o que me dá na telha, não ligo. Prefiro o nervoso de me reconhecer em outros corpos, do que a curiosidade contida pela vergonha. E à medida que o efeito da bebida passa, a sensibilidade aumenta diante do toque de seus dedos tão bem treinados à desviar qualquer calcinha. Principalmente, a minha. Dessa forma, só encontro um jeito de controlar a situação: fico por cima.
- Agora eu mando e você obedece. – Vou mostrar à ele quem ainda não acabou com quem. Engulo em seco no arquejo da certeza de que foi mais forte, mais fundo, mais eu. Delírio na harmonia do vai e vem do meu rebolado com aquele pau duro, vibrante, inevitavelmente molhado. Mas nada supera a imponência da sensação de controlar a respiração dele pela contração da minha buceta. Aperto seu pau, de dentro, como se minha vida dependesse disso. De certa forma, depende. Naquele momento depende. Olho nos olhos dele que reviram. Aperto mais. Olho nos olhos dele que reviram de novo. Solto e sinto-o pulsar. Eu comando. Quem cavalga agora, sou eu.
É notória a distinção de quem tem o hábito das escapadas tão bem ensaiadas pra parecer casuais. Junta suas coisas pelo chão sem pressa, o que me faz pensar que talvez tenha uma coreografia pra quando calçar os sapatos. Tudo soa teatral, planejado. Conheço esse tipo. São dos bons, nenhuma palavra, mas um festival de sorrisos insinuantes e olhares marotos. E assim sai, quase como quem procura uma desculpa e só encontra da delonga dos minutos o aval da saída sem explicação. Não ligo. O acompanhando até a porta seguindo o ritmo de seus passos e me despeço em gestos. Diria seu nome se me lembrasse. E diria obrigada se precisasse.
Assim que o vejo sumir no elevador, me jogo ao sofá recapitulando cada cena. Ou a vaga imagem que tenho delas. Mas uma batida na porta me aviva dos anseios que, mais uma vez, estavam prestes a imergir. Um espasmo fino me atinge o meio das pernas, um nó me vem à garganta. O olho mágico me revela: 302 está à minha porta.