Um homem próximo de mim, durante um momento de raiva, em que tentava arrumar um aparelho eletrônico depois de um pedido meu, falou: "É, você não sabe fazer nada. Sempre precisa de mim. Mulheres só servem para o fogão mesmo."
Eu sei que é mentira. Mas dentro de mim, essas palavras me bagunçaram de uma forma diferente. Eu entendo o motivo pelo qual isso está errado, mas me machucou. Muito. Se eu estivesse realmente certa do que sou, do que faço, do meu esforço, não questionaria meu trabalho, meus hábitos, minha potencialidade e inteligência.
Fiz yoga e meditei. Era fácil culpá-lo por ser rude. Era fácil dizer que nem no momento em que eu estivesse mais raivosa, poderia proferir essas palavras e ofensas. Mas eu poderia dizer sim. Podemos ser muito ruins, às vezes. O que não quer dizer que somos de todo ruins.
O que me restou foi pensar: O que eu sinto diante dessas palavras? O que eu penso delas? E, bom, me incomodaram porque ainda tinha - tenho e estou tentando deixar ter - uma crença na escassez. De que a inteligência exata é a única inteligência. De que eu sou burra e inútil. De que eu preciso ganhar meu próprio dinheiro logo e de qualquer forma. Mas para quê? Não estou explorando ninguém, não quero nada além do que já tenho e está tudo bem para quem me ajuda. Me subordinar a fazer coisas sem amor e sem precisar seria afirmar a crença duas vezes: O mundo é sofrimento.
Mas não é bem assim. O mundo está doente, dentre tantos outros fatores, também pela falta de pessoas que trabalhem em suas empolgações. Que vivam com seus corações. Que olhem o outro não como concorrente, mas como um irmão, como uma parte do próprio Deus encarnado.
O auto conhecimento e o trabalho interno são um dom do amor, da compreensão do outro. Por que o amor não é valorizado?
Se estamos aqui com um propósito, ganhar dinheiro para depois morrermos certamente não é um deles. E por que então isso é mais valorizado e visto como certo?
Porque somos cegos. A racionalidade é falha.
Pensei então no que já tenho como opção para trabalho, o que é, de fato, baseado no cuidado, baseado no amor, coisa que eu faço e faço bem. Por que deixei de lado? Porque esse mundo gosta do que é ruim, mas rápido, mas certo. O risco de ser quem você é pode doer, mas não tanto quanto o suicídio subjetivo do seu próprio ser.
E assim eu vou: Com calma, com fé, fazendo o que acredito e sendo o que acredito. O que já me trouxe a lugares antes sonhados: ao meu curso, à minha cidade, ao meu trabalho, aos meus amigos. Talvez essas palavras mexeram tanto comigo porque essas minhas raízes não estavam bem estabelecidas. Pretendo "trabalhar" internamente para que estejam.
E nesse momento, o mundo precisa disso. Cada um tem sua habilidade para o bem coletivo, que é diferente, que é importante e que é unica. Então, vamos todos juntos e de mãos dadas, ser quem viemos para ser neste pequeno planeta azul.