É como se tivesse vazio, mas não está sabe, Ana? Eu tenho te dito isso há tanto tempo, mas acho que nem você e nem ninguém entenderia. Eu sinto um nó que aperta até me sufocar e me pesa inteira por dentro. Eu lembro de tudo, lembro de você, lembro de mim, de quem eu fui, quem eu deixei de ser. De todos os eus que ficaram, mas eu não queria deixar. Porque sempre fui apegada demais as coisas e não soube dizer adeus. Eu fico abraçada a memória daquilo como se fosse a melhor coisa que já me aconteceu. Mas não foi, eu sei que não foi, era tão ruim quanto é agora. A dor só mudou de nome e ganhou uma versão mais atualizada. Mas ela continua me sufocando. E tem horas que, simplesmente, não dá mais. Eu não aguento sempre ter que me preparar para o pior. E virar água e chorar por qualquer coisa, por coisas que nem estão acontecendo. Eu choro por coisas que aconteceram a tanto tempo atrás que eu nem sei mais se foram reais ou não. Eu choro sempre porque eu não sou suficiente, ninguém é perfeito, muito menos eu. E isso me incomoda demais, Ana. Porque eu quero ser perfeita, mas não posso ser. Então, eu fico nessa merda de ciclo infinito de quero e não posso. E eu lembro que eu erro sempre. Que eu podia ter feito tal coisa, mas eu sei que se eu revivesse aquilo eu iria fazer do mesmo jeito. Eu me odeio tanto, Ana, por querer controlar tudo, mas eu não consigo me controlar. Eu não consigo controlar as variáveis. Eu quero chorar por quem eu sou, quem eu fui e quem eu vou ser. Eu queria que todo mundo fosse feliz, inclusive eu. Mas no meu caso é mais difícil porque tem eu e eu vivo sentindo esse aperto no peito, essa dor no corpo, essa tristeza que instala um nó na minha garganta e me dói tanto a cabeça, o peito e me pesa as costas. Essa dor eu convivo com ela sempre e ela adora dar as mãos ao medo e valsar com ele dentro de mim, e eles me impedem. Mas às vezes até que eu gosto deles, Ana, pelo menos eles são uma companhia melhor que eu mesma.