8-bit game set in Mirandela Portugal

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8-bit game set in Mirandela Portugal
Mirandela, Portugal
October '18
Viemos a Mirandela 😄⛲🍦 #mirandela #instatravel #portugal #landscape #river #nature (em Mirandela)
Mirandela - BA (Brazil). Old church located in a former village turned into native indigenous area. Photo by John Dantas. (em Aldeia Mirandela)
Mirandela, Portugal *by Laurent Dupont
Más de 840 efectivos combaten las llamas, que avanzaron hacia Bragança, alcanzaron viviendas deshabitadas y obligaron al cierre de varias carreteras. DETALLES: https://eyboricua.com/?p=139803
A Princesa de Carrazeda
No ano de 1925, Mirandela era uma cidade suspensa entre o peso ancestral do granito e o fumo modernista da Linha do Tua. A República, ainda jovem e ligeiramente histérica, tentava impor a ordem do relógio e da estatística num território onde o tempo era frequentemente medido pela velocidade com que o azeite escorria da prensa. Foi neste cenário de transição que o Capitão Reinaldo de Azurém desembarcou na estação ferroviária, envolto numa nuvem de vapor e numa aura de infalibilidade militar.
Reinaldo era o protótipo do oficial positivista. O seu bigode era uma obra de engenharia, encerado com tal rigor que as pontas pareciam prontas para furar o nevoeiro ou o peito de um monárquico reticente. A sua farda, de um cinza-ferro imaculado, não permitia uma única dobra que não tivesse sido previamente aprovada pelo regulamento de infantaria. Ele fora enviado de Lisboa com uma missão crítica: coordenar o transbordo de novos vagões de mercadorias, garantindo que o progresso de ferro e carvão chegasse aos confins do Reino — perdão, da Nação — sem os atrasos bucólicos típicos da província.
— "O progresso, senhor Chefe de Estação," — dizia Reinaldo, consultando o seu relógio de bolso com a precisão de um astrónomo — "é uma linha reta. E eu não admito curvas no meu itinerário moral."
Contudo, a geografia de Mirandela tem formas de curvar a vontade dos homens mais retilíneos. Numa tarde de um outono invulgarmente quente, onde o Rio Tua parecia um espelho de prata derretida, Reinaldo decidiu esticar as pernas — de forma regulamentar, claro — pelo Jardim do Império. Foi ali que a ordem da República colapsou perante a desordem do desejo.
Do meio de um bosque de tílias, emergiu um som que Reinaldo nunca ouvira nos manuais de estratégia. Era uma música líquida, uma melodia que parecia feita de veludo e pecado, amplificada pela cornucópia dourada de um gramofone de luxo. Seguindo o som, o Capitão deparou-se com uma visão que desafiava a estética austera da ditadura democrática: um chalé de vidro e ferro forjado, uma estrutura que parecia ter sido roubada de uma exposição universal em Paris e montada, peça por peça, no coração de Trás-os-Montes.
Ali, no centro de uma varanda adornada com samambaias exóticas e vapores de ópio que cheiravam a pêssegos maduros e a promessas de campanha eleitoral, residia Armida.
Armida apresentava-se como uma "Artista de Variedades Metafísicas". Corria o rumor, espalhado por ela própria entre os clientes da Farmácia local, de que era a reencarnação de uma princesa de Bizâncio que fugira da queda de Constantinopla num tapete voador. No entanto, as más línguas de Carrazeda de Ansiães juravam que ela era apenas a filha de um mestre-escola que descobrira cedo demais o poder do kohl nos olhos e da seda no corpo.
Armida vestia-se com camadas de gaze transparente e xailes de seda de Manila que se moviam como se tivessem vontade própria. Quando viu o Capitão Reinaldo, imobilizado pelo choque estético, ela não se levantou. Flutuou. Pelo menos, na mente de Reinaldo, ela parecia flutuar sobre um divã de veludo púrpura que exalava o perfume de mil laranjeiras.
— "Pára, meu capitão de ferro e fumo!" — exclamou ela, a sua voz soando como o licor de cereja a cair numa taça de cristal. — "Deixa que o vapor da tua locomotiva se dissipe no meu jardim. Para quê contar carris, medir distâncias e verificar horários se podes viver num eterno domingo de outono? Olha para o rio, Reinaldo. O Tua não tem horários. O Tua não tem destino. O Tua apenas... é."
Reinaldo sentiu a sua bússola moral, que até então apontava invariavelmente para o Norte do Dever, começar a girar loucamente. O positivismo que ele carregava no peito como uma armadura começou a derreter sob o olhar de Armida — dois buracos negros de magnetismo que pareciam prometer uma geografia onde as linhas nunca eram retas e os impostos nunca eram pagos.
— "Eu... eu tenho ordens, senhora," — balbuciou Reinaldo, embora a sua mão já não estivesse no punho da espada, mas sim a ajustar nervosamente o colarinho.
— "As únicas ordens que deves seguir são as do teu sistema nervoso," — retorquiu Armida, fazendo um sinal a um criado, vestido com uma túnica de fauno, para que mudasse a agulha do gramofone. — "Entra no meu chalé de vidro. Aqui, Lisboa é uma alucinação de burocratas. Aqui, a República é apenas um baile de máscaras onde ninguém sabe a música. Aqui, tu não és um capitão. Tu és um poema que ainda não foi escrito."
Armida utilizava o "Magnetismo de Salão", uma mistura de sugestão hipnótica e iluminação estratégica com lâmpadas de magnésio escondidas entre as palmeiras. Para Reinaldo, o chalé de vidro começou a expandir-se até ocupar todo o horizonte. Os vagões de mercadorias tornaram-se miniaturas insignificantes na sua mente. O cheiro do carvão foi substituído pelo aroma inebriante do ópio e das rosas francesas.
Ao cruzar o limiar do jardim de Armida, o Capitão Reinaldo de Azurém deixou para trás a farda, o bigode encerado e a noção de que o progresso era uma linha férrea. Ele estava a entrar numa dimensão onde a única lei era o capricho de uma mulher que transformara Mirandela numa ilha de decadência bizantina. O gramofone começou a tocar um fado em marcha-atrás, e Reinaldo, num transe beatífico, sentou-se aos pés de Armida, pronto para esquecer que o século XX alguma vez existira.
O jardim estava montado. O progresso fora travado por um gramofone e uma princesa de Carrazeda. A Primeira República podia cair em Lisboa, mas em Mirandela, o Capitão Reinaldo acabava de descobrir que a eternidade cheirava a seda e a pêssego.
Passaram-se meses, embora para Reinaldo de Azurém o tempo se tivesse transformado numa substância viscosa e doce, semelhante ao xarope de groselha. Na estação ferroviária de Mirandela, os vagões de mercadorias acumulavam-se num caos metálico; os relógios de precisão suíça, que o Capitão outrora tanto zelava, tinham parado ou sido vendidos pelos subalternos para pagar dívidas de jogo. O "Capitão de Ferro" era agora uma lenda urbana que os habitantes locais sussurravam ao passar pelas sebes altas do Jardim do Império.
Dentro do chalé de vidro, a farda de Reinaldo — aquela armadura de cinza-ferro que simbolizava a ordem e o progresso — fora submetida à maior das humilhações. Armida, com o seu senso de humor cruel e decadente, pendurara-a num poste de madeira no meio das camélias, onde agora servia de espantalho para afastar os pardais que tentavam bicar as suas raras orquídeas de seda. No lugar das botas de cano alto e das esporas, Reinaldo usava agora pantufas de veludo com pompons de plumas de avestruz e um roupão de seda rosa-pálido, bordado com dragões que pareciam sofrer de melancolia crónica.
A metamorfose era total. O bigode, outrora uma linha reta de autoridade militar, descaíra, amolecido pelos vapores constantes de essência de baunilha e pela ausência absoluta de disciplina. Reinaldo passava os dias numa espécie de transe estético, reclinado sobre montanhas de almofadas bordadas, ouvindo o gramofone tocar fados em marcha-atrás, o que, segundo Armida, "revertia o karma negativo da saudade lusitana".
— "Sente o silêncio do mundo, meu herói de seda," — sussurrava Armida, enquanto lhe polia as unhas com pó de pérolas. — "Lisboa é uma febre que já passou. O governo, as revoltas, os impostos... tudo isso são sombras de homens que ainda não descobriram que a única guerra que vale a pena lutar é contra a sobriedade."
O golpe de misericórdia na vontade de Reinaldo, contudo, não vinha da música ou dos véus, mas da dieta surrealista a que fora submetido. Armida, ciente de que o estômago de um transmontano é a âncora da sua realidade, decidira sabotar essa ligação à terra. Se o Reinaldo de outrora era feito de pão de trigo e carne de porco, o Reinaldo de Armida seria construído a partir de açúcar e fantasia.
Assim nasceu a Alheira de Chocolate e Pétalas de Rosa.
Era uma visão que faria qualquer mestre-fumeiro de Mirandela benzer-se e pedir a intercessão de todos os santos do calendário. Em vez de carne de aves e porco, a alheira era recheada com uma ganache de cacau das colónias, misturada com pinhões macerados em licor de absinto e pétalas de rosas damascenas que Armida cultivava em estufas escondidas. A pele, em vez de tripa natural, era uma película finíssima de açúcar queimado que estalava ao toque, libertando um aroma que obliterava qualquer pensamento lógico.
— "Come, Reinaldo," — ordenava ela, servindo a iguaria num prato de prata lavrada. — "Não precisas da força bruta da proteína para a tua nova vida. Esta alheira não se mastiga com os dentes, sonha-se com o palato. É o sabor da rendição absoluta."
Reinaldo comia. Cada dentada na alheira de chocolate era como um prego de prata no caixão da sua masculinidade militar. O açúcar inundava-lhe o sistema nervoso, mergulhando-o num estado de estupor glicémico que ele confundia com iluminação espiritual. Ele já não via o Rio Tua como uma via de transporte para o progresso; via-o como um fluxo de champanhe estagnado, onde os patos eram, na verdade, pequenos poetas disfarçados.
Houve um momento, algures em meados de novembro, em que um vestígio do antigo Capitão tentou emergir. Reinaldo olhou para uma bacia de champanhe cristalino e viu o seu reflexo. Por um segundo, a visão de um homem de meia-idade, vestido de rosa e com as bochechas pegajosas de chocolate, provocou-lhe um calafrio.
— "Armida... os vagões..." — balbuciou ele, tentando levantar-se da montanha de almofadas. — "O país... a República precisa de carris..."
Armida não se perturbou. Aproximou-se dele com um vaporizador de cristal e borrifou-o com uma nuvem de essência de ópio e violetas.
— "Os carris são apenas cicatrizes na terra, meu amor. O país é uma invenção de homens que usam colarinhos demasiado apertados. Olha para as bolhas no champanhe, Reinaldo. Vês como elas sobem? São mensagens dos deuses gregos. Eles estão a felicitar-te pela tua reforma antecipada da realidade."
Reinaldo voltou a cair no divã. As bolhas pareciam-lhe, de facto, oráculos de sabedoria. Ele passou as três horas seguintes a tentar batizar cada bolha com o nome de uma musa clássica. O seu mundo reduzira-se ao tamanho daquele chalé de vidro. Ele acreditava piamente que Mirandela era agora o centro de um novo Império Bizantino, do qual ele era o Imperador Consorte, e que a sua única função era manter o gramofone com corda e a alheira de chocolate no prato.
Armida observava-o com o triunfo de quem capturara um leão e o transformara num gato de sala. Ela não queria apenas o homem; queria a destruição do que ele representava. Ao neutralizar o Capitão Reinaldo, ela provava que a sua "magia de salão" era superior a qualquer decreto-lei de Lisboa.
Mirandela, lá fora, continuava a sua vida rústica e dura. O fumo das locomotivas reais cruzava o céu, mas para Reinaldo, no seu torpor de pétalas e cacau, o fumo era apenas a caligrafia de um fantasma que ele já não sabia ler. O jardim de Armida era uma prisão de doçura, um vácuo de dever onde o herói se dissolvia, colherada a colherada, na mais deliciosa e satírica das derrotas.
Enquanto o Capitão Reinaldo de Azurém tentava, com uma paciência infinita e açucarada, ensinar um pavão albino a marchar em passo de ganso ao som de uma valsa invertida, o mundo exterior — esse lugar de botas cardadas e impostos sobre o sal — perdia a paciência. A ausência de notícias do oficial responsável pela Linha do Tua tinha chegado aos ouvidos do Ministério da Guerra, onde os despachos se acumulavam como folhas mortas. Contudo, em Lisboa, as crises de governo eram tantas que ninguém tinha tempo para procurar um capitão desaparecido num jardim transmontano.
A salvação, portanto, não veio de um comando superior, mas da base da pirâmide hierárquica. Os sargentos Carlo e Ubaldo, da Guarda Fiscal de Mirandela, eram homens talhados no granito e temperados na aguardente. Carlo era um veterano com uma cicatriz no sobrolho que parecia um mapa de estradas vicinais; Ubaldo era um mestre da logística que conseguia contar sacas de contrabando através de uma parede de nevoeiro. Para eles, o desaparecimento de Reinaldo não era uma tragédia romântica; era uma irregularidade administrativa grave que estava a atrasar o desembaraço alfandegário de três vagões de adubo.
— "Digo-te eu, Ubaldo," — resmungava Carlo, enquanto subiam a colina em direção ao chalé de vidro, empunhando os seus bastões de serviço com uma autoridade sombria — "isto de 'magnetismo de salão' é coisa de quem nunca teve de carregar uma saca de centeio às costas. O Capitão sempre foi um homem de ordem. Deixou-se levar por uma saia de seda e por aquele barulho de latas a que chamam música de gramofone."
Ubaldo não respondeu, mas trazia consigo o segredo da operação. Sob o braço, envolto num pano de linho sujo, carregava o Escudo de Bronze da República. Na verdade, tratava-se de uma placa oficial de latão, arrancada da fachada de uma repartição de finanças que fora desativada na semana anterior. Ubaldo tinha passado a noite a poli-la com cinza, areia e uma fúria patriótica, até que a superfície do metal refletisse a luz com a intensidade de um farol costeiro.
Ao cruzarem o limiar do jardim de Armida, os sargentos sentiram o primeiro ataque sensorial. O ar, saturado de vapores de ópio e essência de violetas, tentou envolver as suas mentes como um cobertor húmido.
— "Rápido, Ubaldo! Os lenços!" — ordenou Carlo.
Seguindo um plano tático meticuloso, os dois sargentos amarraram ao rosto lenços generosamente embebidos em vinagre de vinho tinto de mesa. O odor ácido e rústico do vinagre funcionou como uma barreira química contra a decadência bizantina de Armida. Onde o ar cheirava a pêssego e pecado, o vinagre impunha o cheiro da taberna e da realidade.
Atravessaram o roseiral de seda e depararam-se com o espetáculo da queda. Reinaldo, o orgulhoso Capitão de Azurém, estava de cócoras sobre a relva, vestindo o seu roupão de seda rosa com pompons. Tinha uma pena de pavão na mão e tentava convencer a ave a alinhar o bico com o horizonte.
— "Um-dois, um-dois... esquerda, direita... pavão de infantaria, firme!" — balbuciava Reinaldo, com os olhos vidrados de quem acabara de consumir três alheiras de chocolate seguidas.
Armida, que repousava no seu divã de veludo sob o chalé de vidro, percebeu a intrusão. Levantou-se com a fluidez de uma cobra de seda, agitando os seus véus de Manila.
— "Quem ousa trazer o cheiro a vinagre de adega para o meu santuário de sonhos?" — gritou ela, a sua voz vibrando com um magnetismo que faria um homem comum ajoelhar-se de imediato. — "Sargentos, retirem-se! O vosso Capitão agora é um cidadão do Império do Ócio! Ele não deve obediência a leis de papel!"
Carlo sentiu uma tontura, um desejo súbito de se deitar no relvado e pedir uma massagem nos pés, mas o cheiro a vinagre no nariz devolveu-lhe a agressividade republicana.
— "O Capitão deve obediência ao regulamento disciplinar e ao horário dos comboios, senhora! Ubaldo, agora! Ativa o dispositivo de reflexão!"
Ubaldo saltou sobre um canteiro de camélias e desembainhou a placa de latão das Finanças. O sol da tarde de Mirandela, batendo diretamente no metal polido, projetou um feixe de luz dourada e impiedosa que atingiu Reinaldo em cheio no rosto.
— "Capitão! Olhe para aqui! Olhe para a cara que a República lhe deu!" — rugiu Ubaldo.
O choque foi eletrizante. No reflexo daquele bronze oficial, desprovido de filtros de ópio ou de iluminação de magnésio, Reinaldo não viu o Imperador Consorte de Bizâncio. A luz da placa de latão agiu como um bisturi sobre a névoa mental. No espelho da burocracia, Reinaldo viu a verdade satírica da sua condição: um oficial de meia-idade, com um bigode descaído e sujo de cacau, usando um traje que parecia o de uma cortesã francesa reformada. Viu as olheiras provocadas pela privação de sono e pelo excesso de açúcar, e viu, acima de tudo, a ridícula pantufa de pompom que agora calçava no pé esquerdo.
— "Mas que... que ignomínia é esta?" — bradou Reinaldo, a sua voz recuperando subitamente o timbre de quem dá ordens de fogo em plena batalha do Marne. — "Eu sou um herói do Exército Português! Eu sou o responsável pelos vagões da Linha do Tua! E estou aqui a fazer companhia a galináceos exóticos vestido de cor-de-rosa!"
Reinaldo arrancou o roupão de seda com tal violência que os fios de Manila voaram pelo ar como teias de aranha rasgadas. Ficou em ceroulas de linho — uma imagem que, embora não fosse gloriosa, era pelo menos regulamentar e honesta.
Armida tentou aproximar-se, estendendo as mãos carregadas de anéis de ametista para recuperar o seu prisioneiro.
— "Não, Reinaldo! A luz desse bronze é uma mentira dos materialistas! Volta para o meu abraço de chocolate!"
Mas Reinaldo já estava sob a guarda dos seus sargentos. Carlo entregou-lhe um capote de infantaria que trazia de reserva, cobrindo as ceroulas do oficial.
— "O tempo das flores acabou, Capitão," — disse Carlo, com um respeito bruto. — "Temos três vagões de adubo parados na via 2 e o Chefe de Estação está a ter um ataque de nervos."
Reinaldo, ainda ligeiramente trôpego devido ao choque glicémico, mas com os olhos agora focados na placa das Finanças, endireitou as costas. O "Escudo de Bronze" tinha triunfado sobre o "Gramofone Enfeitiçado". A realidade fria de Mirandela, com o seu vinagre e o seu latão oficial, tinha reclamado o seu herói, deixando para trás um chalé de vidro que, sem o olhar de Reinaldo para o validar, começava a parecer apenas uma estufa de jardim mal amanhada e com as vidraças sujas de poeira.
O colapso do reino de Armida em Mirandela, naquele final de tarde de 1925, não ocorreu com o estrondo de uma batalha, mas com o som seco de vidro a estalar e o silêncio súbito de um gramofone que ficara sem corda. Quando o Capitão Reinaldo de Azurém, agora coberto pelo capote de infantaria de Carlo, desviou o olhar das sedas de Armida para a placa de latão das Finanças, a arquitetura da ilusão ruiu por completo. O chalé de vidro, que momentos antes parecia um palácio bizantino, revelou-se sob a luz crua do crepúsculo como uma estrutura decrépita, com as vidraças baças de gordura e as armações de ferro forjado cobertas de ferrugem republicana.
Armida, a "Princesa de Carrazeda", percebeu que o seu magnetismo de salão tinha sido derrotado por algo que ela desprezava profundamente: a burocracia e o cheiro a vinagre. Ela não era mulher para se submeter à humilhação de um tribunal militar ou, pior ainda, ao julgamento das beatas de Mirandela que já se amontoavam à porta do jardim, armadas com rosários e curiosidade mórbida.
— "Incultos! Filisteus de botas cardadas!" — gritou ela, a sua voz perdendo o tom de seda e recuperando o sotaque áspero das encostas do Douro. — "Mirandela é uma terra de gente que tem a alma feita de cortiça e o coração de granito! Vocês preferem a ordem dos carris à liberdade dos sonhos! Vou para o Estoril! Lá, os generais têm sensibilidade para o ópio e os ministros sabem que um pecado bem vestido vale mais que dez orçamentos de Estado!"
Com um gesto dramático que quase derrubou o pavão albino, Armida correu em direção às margens do Rio Tua. Ali, atracado num cais improvisado feito de caixas de vinho vazias, esperava o seu veículo de fuga: um bote adornado com figuras de cisnes mecânicos. Na verdade, como Ubaldo notou com um olhar clínico, os cisnes eram apenas tábuas de contraplacado pintadas de branco, movidas por dois rapazes da aldeia que, escondidos sob uma lona, pedalavam furiosamente um mecanismo de bicicleta para fazer mover o barco.
— "Adeus, Reinaldo! Fica com os teus vagões de adubo e com a tua farda de cinza-ferro!" — exclamou Armida, enquanto o bote de cisnes partia rio abaixo, em direção ao Porto, deixando para trás um rasto de pétalas de rosa murchas e o eco de uma gargalhada histérica.
Reinaldo de Azurém ficou imóvel no cais, vendo o vulto de seda desaparecer na curva do rio. Sentia-se como se tivesse acabado de acordar de um coma de algodão-doce. O seu corpo, habituado durante meses à dieta de alheiras de chocolate e champanhe, estava a sofrer uma crise de abstinência glicémica que lhe fazia tremer as mãos e o bigode.
— "Sargento Carlo..." — sussurrou Reinaldo, a voz ainda fraca — "Sinto que o mundo está a girar... e que o Rio Tua cheira a açúcar queimado."
— "É o veneno daquela francesa de Carrazeda a sair-lhe do sistema, Capitão," — respondeu Carlo, agarrando o oficial pelo braço com a firmeza de quem segura uma saca de contrabando. — "O que o senhor precisa não é de um médico, é de um exorcismo transmontano. Ubaldo, prepara a estalagem. Precisamos de fogo, ferro e fumo."
O Capitão foi levado para uma pequena estalagem perto da Estação Ferroviária, um lugar onde as paredes de pedra não permitiam a entrada de magnetismos ou vapores de ópio. O tratamento de choque foi decidido ali mesmo, sobre uma mesa de madeira tosca. Não houve tisanas ou repouso; o tratamento de Reinaldo seria puramente gastronómico.
O estalajadeiro, um homem que parecia ter sido esculpido a partir de um penedo de Trás-os-Montes, trouxe o antídoto: uma terrina de barro com vinho tinto de reserva, tão espesso que quase se podia cortar à faca, e um prato com três Alheiras de Mirandela genuínas. Estas não eram sonhadas; eram grelhadas sobre brasas de carvalho, com a pele estaladiça e o recheio de pão, alho, azeite e carne de aves a transbordar, libertando um aroma que cheirava a séculos de sobrevivência e tradição.
— "Coma, Capitão," — ordenou Ubaldo. — "Isto é a República. Isto é a terra. Deixe que o alho de Mirandela expulse o chocolate de Bizâncio."
Reinaldo deu a primeira dentada. O choque foi térmico e espiritual. O sal e o picante do alho atingiram o seu paladar como uma carga de cavalaria. À segunda dentada, o açúcar de Armida começou a bater em retirada; à terceira, Reinaldo sentiu o sangue voltar às bochechas e a espinha dorsal a endireitar-se. O vinho tinto, ácido e potente, lavou os resquícios das pétalas de rosa da sua garganta.
— "Pelos deuses do progresso..." — exclamou Reinaldo, limpando a gordura do queixo com o capote de Carlo. — "Eu estava a morrer de fome num jardim de luxo! Como pude trocar o sabor desta chouriça por aquela lama de cacau?"
— "O homem é um animal de hábitos, Capitão," — disse Carlo, servindo mais vinho. — "E a senhora Armida sabia que o seu hábito era a ordem. Ela apenas lhe deu uma ordem doce."
Pela manhã, Mirandela acordou com o som de uma locomotiva a apitar com uma fúria renovada. No cais da estação, o Capitão Reinaldo de Azurém, de farda lavada e bigode encerado com uma mistura de cera de abelha e determinação, comandava o transbordo dos vagões de adubo com uma energia que assustava os ferroviários. O seu olhar estava focado nos carris, no metal e no carvão.
O chalé de vidro foi demolido na semana seguinte pela Guarda Fiscal, que encontrou lá dentro apenas restos de gramofones partidos e faturas por pagar de uma confeitaria do Porto. Armida nunca mais foi vista em Mirandela, embora corresse o rumor de que abrira um casino místico no Estoril, onde os ministros da República perdiam a cabeça e o orçamento de Estado em troca de previsões astrológicas feitas com borras de chocolate.
Reinaldo de Azurém serviu a Pátria até à reforma, sendo conhecido como o oficial mais rigoroso e menos doce de todo o exército. No entanto, diz-se que, até ao fim da sua vida, ele mantinha um tique nervoso no bigode sempre que passava por uma pasteleria. O seu único luxo, que nunca dispensava, era uma alheira grelhada ao jantar, afirmando com a autoridade de um veterano:
— "Em Portugal, a única magia que sobrevive ao tempo é aquela que se frita na brasa. Tudo o resto... tudo o resto são véus de Manila que o vento do Tua leva para o mar."
A redenção de Reinaldo estava completa. O progresso da Linha do Tua continuou o seu curso, livre de cisnes mecânicos e princesas bizantinas, provando que, no coração de Trás-os-Montes, a realidade é um prato que se serve quente, salgado e com o peso inquestionável da verdade gastronómica.
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