L' ira di Polifemo. 40x40 acrilico tela.


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L' ira di Polifemo. 40x40 acrilico tela.
⟨ ❝ C H A R L E S S T A R K ❞
MIGUEL. Charles Chevalier Stark tem 28 anos e é Vice-presidente da Stark Co. . Costumam dizer que parece com Sam Heughan.
Your past made who you are.
Aimée Chevalier não era uma jovem francesa qualquer, era um ícone nos anos 80. Ruiva, alta, de porte régio e mais rica do que a maioria dos milionários de toda a França reunidos, um prato cheio para as colunas de fofoca e os paparazzi. Christian Stark, no entanto, era um mero guarda-costas recém saído da marinha. Durante três anos ele a protegeu, dos quinze até os dezoito, e durante esse tempo não pôde de deixar de se apaixonar pela francesa, treze anos mais nova do que ele. Sua moralidade, no entanto, não o impediu de se envolver com sua adorada patroa, assim que ela completou dezoito anos. Aimée era sedutora e sempre era vista testando os limites impostos pelo guarda, mas jamais imaginou que o americano fosse ser tão vil ao ponto de socar seus amantes até a sua fatalidade. Depois que terminou tudo com o guarda, mantendo o relacionamento dos dois no escuro que jamais sairia de lá, mandando-o de volta para os Estados Unidos, a ruiva descobriu a fatalidade do destino que lhe fora imposta. Grávida de um lunático, um louco ciumento com tendências homicidas. Assim que descobriu, tentou ir a uma clínica de aborto, já que não desejava laço algum com aquele homem, mas seu pai a desvendou antes disso, obrigando-a a ter um filho que não queria, uma desonra ao seu nome e ao seu corpo. A mídia enlouqueceu com o sumiço da queridinha dos holofotes e as teorias da conspiração jorravam das páginas de jornal. Sete meses depois, nos Alpes Suíços, Charles veio a nascer, enlouquecendo sua mãe de vez com seu primeiro grito gutural.
O pai de Aimée, Adrian, não podia suportar que sua filha tivesse sido capaz de cogitar a possibilidade de abortar – católico ortodoxo que era –, mesmo com um traste como pai do menino, mas tampouco tinha paciência para aguentar um bastardo em sua própria propriedade. Por mais que Charles fosse uma criança divertida, até certo ponto, logo Adrian se desfez do neto, pouco se importando se ele iria viver ou não. Mandou-o aos Estados Unidos, também, aos cuidados de uma babá, paga pelo silêncio, e uma enorme quantia de dinheiro para que Christian nunca mais os perturbasse. O garoto, de não mais que dois meses, estava praticamente sozinho em uma cidade desconhecida, rumo a um pai que, Freud explicaria, estava beirando a loucura, e ninguém se importava. Ninguém sabia quem ele era. Três anos se passaram, e Charles foi obrigado pelo pai a viver em escolas particulares, enquanto o homem se debruçava sobre seu trabalho, perseguindo, talvez, o sonho de se redimir para com a bela francesa, que não aparecia mais nos holofotes e se tornou um vulto anêmico na vida social parisiense. O homem usou bem o dinheiro que Adrian o ofertou, e começou seu próprio negócio, anos depois se tornando um dos maiores no ramo da segurança. De tenente mal pago, Christian se tornara a sensação de Manhattan, com suas festas e vida noturna constantemente sendo mencionadas, de Nova York à França.
Charles cresceu em internatos, sempre longe dos olhos do pai e, piada seja dita, da mãe. Por mais que tenha herdado basicamente toda a sua aparência, uma coisa Christian impusera no filho, sua personalidade vulcânica. De bebê divertido e chorão, o ruivo se tornou em um pequeno diabo em todos os internatos pelos quais passava. Era uma vergonha, aos olhos do pai e da mãe, mas não poderia ser diferente. Ele era um bastardo, vergonha estava intrínseca à sua vida. Passou por todo tipo de escola, desde as militares até as só para meninos, mas nunca se adaptou a nenhuma delas. Anos depois, Christian enlouqueceu ao saber do noivado da Chevalier com um francês qualquer, e finalmente contou a Charles sua origem, trazendo-o para perto de si aos dezesseis anos. Ele era uma barganha, Christian contara, ele seria usado para que sua mãe não se casasse com o francês. Charles estava tão desesperado por algum tipo de afeição que aceitou as condições do pai, sendo mandado para a França, dias depois. Um joguete do xadrez que Aimée e Christian jogavam há mais de dezenove anos. Assim que chegou a França, encontrar a mansão dos Chevalier não foi difícil, e marcar uma reunião com Aimée e Adrian, minimamente fácil. Três segundos depois da ruiva entrar na sala, e ela congelou. Charles, para ela, era um fantasma, um assunto que já devia ter sido cuidado há milhares de anos. Ele, também, não pôde balbuciar mais do que um “bonjour” por mais de três minutos.
Ela era linda. Sua mãe era a criatura mais bonita de toda a criação, e ele entendia o porquê de seu pai ter se apaixonado por ela. Uma sensação de alívio se sobrepôs sobre ele, mas ela logo foi jogava no lixo, com os tópicos da conversa. Não conseguiu convence-los a desistir do casamento, não deveria, também. Charles não sabia o que Christian fizera, tampouco o que a mãe pretendera fazer com ele, assim que descobriu estar grávida. Adrian, naquele recinto, fora o único que se importara minimamente com ele, mas já era tarde demais. Ainda naquela visita a Paris, o avô o reconheceu como neto e entregou-lhe a honra de ser um Chevalier, mesmo que não merecesse tal alcunha. Ofereceu a ele um refúgio seguro do pai, mas o ruivo não acreditava que o homem pudesse fazê-lo tão mal. Nas outras visitas que fez a Paris, Aimée recusou-se a vê-lo terminantemente, e ele não sabia seu motivo, então, guardar rancor da mãe não foi difícil. O raio que a partisse, então. Voltou aos Estados Unidos, uma embalagem de cigarros a mão e a vontade louca de bater em alguém fervilhando em seu âmago.
A faculdade se seguiu, e Charles foi obrigado a estudar direito para poder ser o próximo presidente da companhia de Christian – cada dia mais louco de rancor por Aimée, mas incapaz de correr atrás da mulher pela ordem de restrição que ela impôs sobre ele. Charles não poderia ter se sentido menos deslocado em Harvard – a sua admissão, era óbvio, fora comprada pelo pai, que desejava algum título para o filho –, mas fez o que o mais velho o ordenara, seguiu seus passos e formou-se, com muitas mulheres em seu encalço, iradas com a forma com a qual as tratava. Três anos a mais, e Charles já não se aguentava. Cocaína, ecstasy, todo tipo de droga era usado pelo ruivo, e ninguém dava a mínima se ele morria ou não. De certa forma, era isso que merecia, pensava. Era um erro, segundo as palavras do pai, um maldito erro. Por meio de uma carta, seu avô finalmente desfraldara o mistério que envolvia sua concepção, e revelara a Charles que seu pai não era um salvador, mas sim um anjo da morte; ele o tinha entregue para um assassino. Seu próprio avô. Aos vinte e seis anos, Charles Stark sofrera uma overdose, grato, pela primeira vez, por sua vida, enfim, terminar, mas não parecia esse ser o desejo de alguém lá em cima, ou lá embaixo, tanto faz. Miguel veio ao seu encontro, o salvou, e tudo o que ele teve que fazer foi aceita-lo dentro de seu corpo, torna-lo material, como ele mesmo afirmara.
Os anos que se seguiram passaram como um borrão para Charles. Não sentia mais como se fosse ele mesmo e, de fato, não era. Continuar se relacionando com o pai não mais lhe parecia uma tarefa escusa, como pensava há dois anos atrás. Miguel o tinha curado de praticamente tudo. Era praticamente uma nova pessoa. Passara a interpretar um personagem e, lhe parecia, seus problemas haviam se extinguido tão logo passara a se envolver em ações fracamente humanitárias. Nada podia esconder, no entanto, seu gosto por boates e por sexo. Era um herdeiro de Manhattan, apenas estava agindo como tal.
And you should never forget it.
Charles sempre foi ensinado pelo seu entorno que a calma e a seriedade levavam a perfeição, a sempre dar passos calculados, para que não fizesse o tipo de besteira que seu pai cumpriu quando foi para a cama com a mãe. O homem nunca se considerou vingativo e sedento por reparação, mas, em seu âmago, Charles sente raiva de todos, na maior parte do tempo. Libertino, completamente louco, mal-amado e de pavio curto, o ruivo não aprendeu coisa alguma em seus anos de formação. É impulsivo e tem a franca mania de se portar como se o restante das pessoas não merecessem seu tempo, sendo considerado esnobe pela maioria de seus subalternos. É um fumante ávido e pouco se importa se gostam ou não de seus hábitos. Ainda que não se dê ao trabalho de verbalizar ou goste de pensar sobre isso, Charles sabe que foi um erro mal calculado por parte dos pais, uma consequência a ser lidada, e esse fato já o machucou muito, quando era criança. Agora, ele só se importa consigo mesmo.
But then an Angel touched you.
Miguel nunca se importou verdadeiramente com os anseios de Charles. Para o arcanjo, o ruivo era uma mera criança mimada que não tinha sua cota de amor maternal. A convivência dos dois no corpo do Chevalier se tornou em um campo minado, até Miguel conseguir controlar Charles o suficiente para fazê-lo ver o tipo de encruzilhada em que estava se pondo e deixa-lo agir de sua própria forma, até mesmo contra sua vontade. O anjo interviu em todas as partes da personalidade do ruivo, tornando-o em um homem sério e, até certo ponto, honesto – nem um arcanjo poderia operar um milagre tão grande quanto esse, só Deus era capaz de fazê-lo. O vazio que Charles sentia foi restaurado pela pouca paciência que Miguel tinha em lidar com as muitas cicatrizes do homem. Foi escolhido por uma razão, e Miguel é o único que sabe dela. A lista de conexões e o pequeno exército que o Chevalier tem ao seu dispor são parte desse motivo, mas Miguel nunca revelou algo a mais.
Maybe they can help you remember.
Conheceu Ophelia Rosseti quando fez uma visita aos corredores da Columbia University. A garota parecia ser interessante aos seus olhos. Mas não assumiu isso nunca em todas as vezes que ocasionalmente se encontraram, já que não maior parte do tempo ela apenas o irrita.
Tem uma certa simpatia por Arthur Harris, por vezes pensando que seria bom eles serem mais próximos. Mas com Miguel dominando todo o tempo, não leva o pensamento a diante.
A forma Miguel e Dave Fischer se conheceram não era amigável, uma visita policial a Stark Co. para averiguar uma denuncia. Depois que o fato se repetiu algumas vezes, adquiriu certa intimidade com o policial a ponto de considerá-lo um amigo.
⟨ ❝ D E N N I S L O W E N S Ö H N ❞
Eles costumavam chamá-lo de Apolo, da mitologia grega, mas agora, ele é apenas Dennis Löwensohn, com seus meros vinte e seis anos. Em Valençay, ele se ocupa como estudante de medicina (especialização em Estudos Forenses) na Università Godness & residente no Panacea General Hospital. Parece que os deuses se inspiraram em Chris Wood na hora de criá-lo, porque Dennis é realmente parecida com ele!
THE WORLD WILL NOT FORGET WHO YOU ARE.
Austero, pragmático e imprevisível na maior parte do tempo, Dennis sempre fez jus ao nome ao qual Giulia o dera, apresentando-se como uma ameaça a tudo e a todos que o cercam, fosse por conta de seu sorriso inebriante ou de seus feitos que sempre acabavam por desencadear situações caóticas. Dono de uma paciência curta e extremamente inquieto, o moreno nunca pôde figurar no rol de pessoas mais comportadas, tampouco das que apresentavam muita quietude — pelo contrário, Dennis sempre foi inquieto, incapaz de se manter parado por um segundo sequer. Por vezes mais seco do que o necessário, é difícil ver o Löwensohn demonstrar emoções mais genuínas, ainda que a calidez natural lhe seja uma aliada quando precisa comunicar a parentes de moribundos que seus pacientes não terão mais do que alguns momentos a mais de vida — ou quase vida, dependendo da perspectiva. Não se importar, criar uma barreira que o separe da dor que os outros parecem sentir sempre que alguém os falha sempre foi o objetivo, especialmente quando era ele o alvo da dor. Filho único, o moreno não poderia deixar de ser mimado, especialmente por Giulia esperar tanto tempo por alguém como ele, podendo ser levemente irritante às vezes e, de fato, inconsequente quando não precisa vestir a máscara que o impede de se ver em um abismo com todas as emoções e temerosidades que perpassam os olhos dos outros em sua vida. A compaixão no moreno, assim como todos os sentimentos negativos que possui — simplesmente é forte demais, intensa demais para que ele possa controlá-la, de forma que opta por se fechar para qualquer abertura. Sempre que se abriu, de toda maneira, ele se machucou. Maquiavélico poderia começar a descrever grande parte de suas ações, em última análise, ainda que não seja algo que Dennis admitiria em situações normais, assim como a possessividade e o apreço por desafios que uma pessoa em sã consciência repudiaria.
MAKE A MYTH OF YOURSELF.
Olga não deveria ser mãe, o consenso entre os parentes fora categórico. A mulher deveria se dedicar meramente aos estudos e às técnicas de saque que a trariam patrocínios e medalhas, assim como taças mais do que disputadas por toda a Europa. Provinda de uma família de judeus não muito ortodoxos ao sul da Romênia, a mulher dedicou grande parte de sua infância, adolescência e juventude ao tênis, fazendo com que se tornasse realmente boa no que escolhera — ou melhor, no que seus parentes escolheram — para como sua profissão, seu chamado de vida. Em último caso, o esporte trouxe um senso de responsabilidade e concentração a uma mulher que, não fosse a distração, tornaria-se tão selvagem e insensata como o restante de suas amigas. Seus pais desejavam evitar aquele tipo de comportamento destrutivo, temendo não só pela vida da menina, mas pela reputação de uma família tão tradicional nos círculos sociais romenos. Aos vinte e três anos, todo o sacrifício e esforço, assim como o apoio familiar foram recompensados, e a morena já tinha em sua posse diversas medalhas — algumas de bronze, era verdade, mas as de ouro sempre estiveram em maior número em seu rol de conquistas —, patrocínios escandalosos e um círculo social pouco menos restringido do que era antes, apenas com a família e alguns amigos mais próximos. Com a fama e o nome construído, era a hora de colher os frutos que plantara com o próprio suor, participando de eventos de caridade e, vez ou outra, escapando da bolha de perfeição que os pais criaram para si ao se envolver em romances tórridos de uma única noite. Não demoraria muito, entretanto, até que, em uma dessas noites, Olga cometesse o maior erro de sua vida, acabando por engravidar de um completo — ainda que divertido — desconhecido. Nunca soube o verdadeiro nome, até mesmo porque não ousaria sequer mencionar quem era para o moreno, de forma que, ao se ver naquela situação, não pôde deixar de cogitar o aborto e até mesmo o abandono da criança, assim que saísse de si.
Sua carreira fora perdida por conta do filho que agora carregava no útero, e não podia se contentar com aquilo. Ela não desejava ter aquela criança, tampouco olhar para ela e se lembrar que tudo o que um dia ela já fora jamais voltaria, fosse por estar velha demais para o esporte profissional, fosse porque toda a reputação que plantara para si, assim como a imagem da família estariam manchados por conta de um deslize bobo, mas que determinara o restante de sua vida. Olga estava decidida a dar a criança assim que nascesse, uma vez que a família a rechaçaria caso descobrissem que ela terminara com a gravidez por escolha própria. Não desejava contato algum para com a criança, tampouco se lembrar de que algum dia já cometera um erro tão fatal quanto aquele, incapaz de sentir amor por algo que a tinha destruído desde que a ciência de sua existência se tornara pública. Enviada para o norte da Romênia no intuito de se manter longe de tabloides e revistas sensacionalistas, assim como das fofocas saudáveis que os atletas costumavam espalhar, Olga passou boa parte da gravidez reclusa dentro de um dos casarões da família, a luz solar sempre conseguindo se infiltrar em cada um dos cômodos do local, ainda que o ambiente fosse conhecido por ser sombrio, na maior parte do tempo. Quanto mais a gravidez prosseguia, entretanto, ela já não conseguia mais se imaginar sem a criança que carregava no ventre, ligando-se a ela até a hora do corte do cordão umbilical.
Naquele momento, toda e qualquer ideia de adoção se quebrou em sua cabeça, mas já era tarde demais. Os novos pais de seu menininho já estavam a postos, e levaram-no, assim como parte de si. Não havia como Olga cria-lo, de toda forma, e ela sabia que estava sendo egoísta por conta daquilo, especialmente por querer voltar a exercer o seu esporte. Pensara que estaria livre do fantasma do filho que dera, mas ele a assombraria pelo restante de seus dias. Em uma viagem de pouco mais de um dia, o recém-nascido acabou por parar em um casarão nos entornos de Florença, longe o suficiente de qualquer influência que a família de Olga pudesse inferir neles. Haviam adotado legalmente a criança, dado anonimamente todas as condições para que a tenista voltasse à sua carreira assim que possível. Ela jamais poderia reclamar dos termos daquele acordo. Era imperativo o controle dos Löwensohn sobre o menino a quem denominaram Dennis.
Dennis nunca realmente soube que Giulia e Pietro não eram seus pais, ainda que se portasse diferentemente dos Löwensohn na maior parte do tempo. Giulia não podia ter filhos, de forma que ele foi o alvo de todo o senso materno que a italiana poderia dar a uma criança, tratando-o como seu próprio filho, como se tivesse saído de seu corpo e fosse parte dela. Pietro, ao seu modo, via no menino uma oportunidade, algum tipo de faísca que ele possuía que ele estava tentado a domar para que acendesse os fogareiros mais resistentes aos seus interesses. Quando bebê, o nome já fazia questão em ser entoado com uma nota de gozação, uma vez que a criança era um pesadelo para os empregados do casarão Löwensohn. Era incansável, destrutivo e pouco dado às regras que o imprimiam, como se pensasse realmente que estava acima de todas elas, até que Pietro o levou em uma caçada, quando tinha pouco mais de dez anos. Até então, ele só pegara em uma aljava e em um arco nas poucas vezes em que Pietro o tentara ensinar alguma disciplina, mas era completamente diferente atirar em um animal, e não em um alvo imóvel. Algo no menino mudou por conta daquela caçada, e Giulia nunca imaginaria que ele havia matado o primeiro ser quando voltara com Pietro, pouco mais surpreso do que esperava estar.
Ele era diferente, e os Löwensohn não sabiam o que fazer quanto àquilo. Nenhuma criança de dez anos deveria saber manusear com tanta habilidade uma arma branca como aquela, em especial uma tão desconcentrada e ativa quanto ele. Pietro viu no garoto um diamante bruto, pronto para ser dilapidado. Ele poderia ser disciplinado, poderia se tornar em um homem de valor, diferente da criança rebelde a qual criara naqueles muitos anos. Os campeonatos de arco-e-flecha se seguiram, e era imperativo que ele participasse de todos. Os pais o apoiaram em todas as competições e Dennis sempre chegava com uma, duas ou até mesmo três medalhas pelo correr das ligas. Campeão da liga júnior amadora, das competições de tiro ao alvo com arco composto e impecável em cada um dos seus movimentos — era talentoso, sim, mas os treinos também sempre foram intensos, de forma que o moreno sempre parecia estar à frente dos competidores, tal como a mãe biológica, ainda que não soubesse de sua procedência secreta. Ele era um atleta, e a única coisa que o acalmava parecia ser a arma que segurava sempre que em uma competição. Nunca deixaria de sê-lo, na verdade, mas com a juventude, o foco de Dennis se tornou outro. O menino disciplinado por conta do esporte encontrou outra coisa que desejava mais do que as medalhas ganhas durante as competições; não pare tê-la consigo, mas talvez para estudar, admirar. Era de comum conhecimento que o moreno podia ser um agente do caos normalmente, infiltrando-se no sistema como uma pestilência, de forma que sempre saía isento de todos os males que causava — fossem eles dolosos ou não —, mas quando divergia para as mulheres, nunca teve o verdadeiro tato para com elas lidar.
Louise se aproveitou daquele aspecto em especial no garoto, que nunca tinha sentido aquele tipo de sentimento antes. Usou, fez o que desejava com ele, e então o descartou — ao que tudo indicava —, levando consigo boa parte de um romantismo que parecia ter sido implantado justamente por causa dela. Ela conseguiu bagunçar com toda a disciplina que Pietro o tinha imposto, tornando-o mais leve, menos rijo como o pai desejava e muito mais agradável ao olhar feminino, e então sumiu. Não como uma pessoa que simplesmente desejava sair da cidade e esquecer um romance antigo; na verdade, Louise parecia ter desaparecido, assim como toda a sua família, de uma hora para a outra. Giulia e Pietro encararam o filho como se ele fosse um lunático pelas baboseiras que entoara quando a procurara, dias depois, preocupado demais com a menina. O arco-e-flecha não parecia ser efetivo para acalmá-lo, tampouco as muitas horas de treino às quais Pietro e seu treinador o submetiam durante os dias — nunca estava disposto à noite. Louise se tornou a sua obsessão, assim como o desaparecimento repentino, de forma que todo o futuro que os pais planejaram para si foram jogados no lixo quando Dennis se recusou a continuar vivendo como um desportista.
Não mais parecia defini-lo, de toda forma. Obcecado com as mais diversas teorias, passou boa parte do final de sua adolescência buscando motivos ou razões para algo como aquilo ter acontecido, mas nada parecia lógico ou mesmo conivente com a realidade. Dennis se tornara uma pessoa completamente diferente da que era antes de Louise, e aquilo era, tragicamente, a realidade que se apresentava aos seus olhos. Assim que se formou — não com muitos louvores, o moreno simplesmente nunca teve cabeça ou paciência para a escola, tampouco para a instituição por trás dela —, entretanto, sabia que teria que sair de casa antes que os próprios pais o expulsassem. Passaria o restante dos dias procurando pela morena, buscando pela resposta a uma pergunta que insistia em martelar em sua cabeça desde que ela sumira, anos antes, não fosse a ligação anônima que recebeu na noite de sua formatura. Valençay, era tudo o que a voz desconhecida murmurara, e, estranhamente, ele sabia exatamente do que se tratava.
Ela só podia estar lá. Arrumando as mais notórias desculpas, Dennis conseguiu convencer os pais a bancá-lo na faculdade local, a mexerem seja lá quais contatos tinham para fazer com que ele conseguisse entrar no curso de medicina do local — não que fosse estudar muito, mas era a única maneira de aceitarem a escolha do moreno. Estranhamente, ele se adaptara à Godness, à medicina e à própria guinada que sua vida parecia ter dado naquele pequeno espaço de tempo. Louise nunca apareceu, mas Dennis também escolheu não sair de Valençay tão cedo, incapaz de lidar com mais uma perda de algo conhecido para si.
⟨ ❝ F L E U R B L A N C H É ❞
BENIGNUS. Fleur Blanché tem 25 anos e é modelo. Costumam dizer que parece comDeborah Ann Woll.
Your past made who you are.
Nasceu em Marselha, na França, e desde então, a mulher estava destinada a grandeza, mesmo que seus pais desejassem algo diferente para a menina. Filha de um rico dono de vinícolas na Riviera francesa e de uma engenheira de alimentos renomada, Fleur cresceu em um ambiente cálido a qualquer garota de três anos. As babás que cuidavam da pequena herdeira, no entanto, diziam que o anjinho que os pais conceberam tinha um punhado de decisões endemoniadas, vez ou outra. Três anos se passaram, e a vida não poderia ser melhor para a garota. Aos dois, já era capaz de montar a cavalo – acompanhada, é claro, mas seu orgulho gostava de contradizer a realidade, forçando-a a afirmar cavalgar sem a ajuda de alguém. Era tida como uma boneca de porcelana pelos pais, mas, fora as aparências, Fleur era selvagem como o mais raivoso dos corcéis. A educação se deu em domicílio, dados os constantes esforços de Desirée e Jean para proteger a ruiva dos olhos públicos, uma vez que a família não era muito bem vista na sociedade parisiense da época.
Aos dez anos, entretanto, enquanto trotava a cavalo pela vinícola dos Blanché, Fleur não pôde deixar de perceber algo estranho nos limites da propriedade. Lembrava-se de ter contraído os lábios e ter feito o sinal para que Adèlaide corresse o mais rápido que podia. Em menos de cinco minutos, sua visão se tornou nada menos do que um mero borrão rubro. Não se lembrava de ter descido do cavalo, aterrorizado com o cheiro do sangue, só de, momentos depois, ser levada pelos empregados à visão do pai, completamente ensanguentada e sem entender coisa alguma. Jean não pediu explicações, só se manteve longe da filha tempo o suficiente para que pudesse se acalmar. Fleur ainda não sabia de quem era o sangue, porque todos estavam a encarando como se fosse um demônio, mas, assim que o pai mandou-a vestir roupas limpas, tomar um banho e aprontar suas coisas, a menina só conseguiu chorar. Quando perguntou o que tinha acontecido, Jean não deu um mero olhar para a filha, não conseguia encará-la e dizer que Desirée estava morta e a culpa era sua. O homem deveria ter previsto a morte da mulher, mas pensara que, estando longe de Paris, encarcerados dentro de uma propriedade segura, eles não os achariam, mas fora demasiado ingênuo. Agora, Fleur, seu pequeno anjinho, teria que ir embora, e ele não poderia culpar ninguém a não ser a si mesmo. De malas feitas, os Blanché não ficaram na propriedade sequer para o enterro da mulher e a menina, já dentro do avião, ainda não sabia o que tinha acontecido. Jean tentou explicar a ela que coisas ruins aconteciam ao tipo de pessoa que eram há séculos, que eles eram diferentes de tudo o que a menina conhecia. Ele a demonstrou como conseguia controlar o ar ao seu bel prazer, e, na época, a ruiva pensou que tinha enlouquecido com a morte da mãe.
Ao aterrissar nos Estados Unidos, no entanto, Fleur tinha a completa certeza de que ela não era louca – seu pai era o lunático, na questão. Não conseguiu acreditar em uma palavra do que ele a falou, temendo pela sanidade do único parente vivo. Meses depois, vivendo em uma casa no subúrbio de Nova York, no entanto, a ideia já não lhe parecia tão absurda. Ele passou a ensiná-la os princípios básicos, pedindo desculpas por não a ter contado tudo e se lastimando porque, talvez, Desirée ainda estivesse viva se o tivesse feito. Fleur passou o restante da infância frequentando uma escola de classe média, temendo até a sua própria sombra, mas, aos dezesseis anos, não aguentava mais se esconder do que quer que estivesse caçando aos Blanché. Seu sonho sempre fora estrelar nas passarelas, vestir do Dior ao Valentino, se sentir como uma verdadeira princesa. Assim que se formou no ensino médio, ao invés de seguir para a faculdade, como seu pai esperava que fizesse, Fleur recusou-se a ser mais uma no sistema superior americano. Rumou para Nova York, onde sofreu as piores barbáries, sendo aliciada desde os fotógrafos até os empresários que se apresentavam. Uma alma caridosa, no entanto, mostrou-se para a garota e a arrumou uma chance. A chance de sua vida.
Não demorou muito, e o rosto da ruiva estava estampado pela Times Square. Ela sabia que era arriscado, e sabia que deveria continuar praticando seus poderes, para sua própria segurança, mas, ao pisar na passarela ou ser fotografada, ela esquecia que o mundo era tão vil a ponto de existirem coisas inexplicáveis. Voltava a fazer sentido, por assim dizer. O pai conseguir, ao menos, fazê-la entrar na Benignus, mas não era como se Fleur realmente se importasse com o que a associação de bruxos fazia. Estava concentrada em outras coisas, e o sobrenatural que arruinara a sua vida não podia tocar nela, enquanto estivesse trabalhando. Pensava assim, pelo menos.
Aos vinte e cinco, sua carreira está mais do que consolidada, mas os perigos que começaram a surgir há mais de quinze anos estão mais próximos do que Fleur jamais poderia imaginar.
And you should never forget it.
Fleur gosta de pensar que é uma moça francesa educada e flexível quanto aos modos dos outros. Entretanto, ela mesma não consegue se comportar como uma dama fora das passarelas, sendo orgulhosa e levemente mandona, quando a situação não lhe apetece. Exigente consigo mesma e, de certa forma, perfeccionista quando está trabalhando, a mulher é um verdadeiro enigma para quem a conhece a primeira vista, um poço de contradições que deixaria qualquer um maluco tentando entender. Fleur, desde pequena, foi ensinada por tutoras e babás que uma mulher deve conseguir a felicidade por si só, não dependendo de homem nenhum e, de alguma maneira, internalizou o pensamento para a sua vida, desde a social até a íntima. Constantemente, a ruiva tem que se policiar para o caso de falar alguma besteira em redes sociais, temendo pela sua carreira, mas tende a sempre ter uma opinião muito bem baseada, assim que abre a boca para começar a falar.
Maybe they can help you remember.
Conheceu Richard Barton quando o homem a salvou de um acidente e não conseguiu acreditar que ele possa tê-lo predito, como disse. Fleur se vê constantemente intrigada pela condição do homem, e não consegue trata-lo normalmente, mesmo que saiba que o homem é completamente normal, excetuando-se a sua cegueira.
É uma amiga de longa data de Mabel Callum, mesmo que, talvez, a psiquiatra não a considere como tal. A mulher já tratou de Fleur, há menos de um ano atrás, e desde então as duas tem alguma intimidade na relação, fora a de médico-paciente.