O antigo diretor do New York Times Bill Keller publicou hoje um artigo de opinião que me parece tenebroso, sobre o caso de Bradley Manning. A questão central é sobre o que teria acontecido caso o soldado tivesse decidido utilizar meios como o Times ou o Washington Post para divulgar documentos confidenciais do Governo norte-americano que acabaram a sair pela WikiLeaks.
Apesar de reconhecer que a partilha com outros meios ajudou à divulgação da informação (com parabéns particulares devidos ao Guardian, com todo o trabalho feito em termos de data journalism), Keller basicamente declara que Manning teria ficado mais bem servido no que toca a proteção se tivesse optado pelo NYT. Mas não só. Dá-se ao luxo de tecer considerações sobre a relação "complicada, provavelmente tensa" que teriam tido com o militar. Eu leio isto como um "ainda bem que não ficámos com aquilo".
E Keller subscreve a seguinte declaração do então chefe da delegação de Washington Max Frankel sobre Daniel Ellsberg, fonte dos documentos do Pentágono:
“When the government moved to prosecute Ellsberg, we felt no obligation to assist him,” Max Frankel, who was The Times’s Washington bureau chief at the time, recalled the other day. “He was committing an act of civil disobedience and presumably knew that required accepting the punishment. We were privately pleased that the prosecution overreached and failed, but we did not consider ourselves his partner in any way.”
If he had dealt with The Times, maybe we would better understand Bradley Manning.
Custa-me compreender o que me parece ser um descartar de responsabilidades por parte de um jornal tão importante como é o New York Times. E deixa-me satisfeito por Keller já não ser diretor da Grey Lady. Não se pode abandonar a fonte à sua sorte, muito menos num caso deste calibre. Não é a coisa certa a fazer-se. Não pode ser.