Prison.
Era a noite das meninas, haviam ido todas juntas ao Zanzibar e Minka estava feliz pela apresentação ter lotado e ainda ter visto Maddox por lá. A alemã agora estava na pequena varanda do apartamento de Lilith, quatro das meninas estavam sentadas sobre o carpete da sala quando a anfitriã veio com um tabuleiro. A princípio a recepcionista tentou ignorar, o cilindro de maconha ainda aceso foi passado para si novamente e ela puxou algumas vezes, fechando os olhos e curtindo a prisão da tragada ainda na garganta e a marola ao redor. Os olhos avermelhadinhos alteravam sua percepção do mundo e aquela leveza do corpo indicava que a qualquer momento ela poderia sair voando por aí.
“Sabem aquele filme?”, a falsa ruiva citou empolgada enquanto as outras já com os dedos diziam as frases de invocação de presença. O indicador começou a se mover pela tábua ouija, e Minka olhou desconfiada para dentro. “Foi um filme bem ruim.” Alisson quem falou, dando uma golada no martini que passou para Minka, esta que tragou mais uma vez e devolveu a pontinha do beck que tinham dividido ali. Zorn após sorver de um gole da bebida, deu a última tragada e dispensou ao infinito e além aquela pontinha que já queimava a o dedo. “Hadrian, e o que quer conosco?” Puxaram a atenção da alemã. — Isso não tem graça. — Minka disse da porta de vidro, viu o rodar de olhos e sabia que para elas era apenas uma brincadeira, mas a alemã acreditava.
“Qual é, Minnie, você sabe que essas coisas não existem. A sua crença altera um pouco a sua percepção de realidade, é só.” Minka desencostou da grade de proteção e já entrou na sala pegando sua bolsa. As meninas se alarmaram, porque não queriam ofender a garota ao mencionar o nome do avô paterno dela. — Se não acreditam, por que brincam? — Apontou para o tabuleiro. Lilith suspirou cansada. “Tudo bem, deixa essa bolsa aí... eu vou guardar.” — NÃO TI... — Tarde demais, as mãos foram tiradas do tabuleiro, as amigas riram enquanto Minka estreitou o olhar. — Eu preciso mesmo ir.
Ignorou a insistência e as piadas, saindo do apartamento e descendo as escadas, o lugar não tinha mais do que quatro andares, mas a amiga morava no último. O elevador era velho e sempre estava desligado após as onze, até as cinco da manhã para economizarem. Minka ciente disso desceu os degraus as pressas, o segundo lance de escadas lhe fez travar os passos, a luz amarelada piscava diversas vezes deixando o ambiente mais assustador do que realmente era. — Para com isso, chega.... — Falou consigo, não tinha nada ali, fora só uma brincadeira besta de suas amigas. Mesmo que um mantra de que estava tudo bem ficasse se repetindo em sua cabeça, ela correu os degraus até o corredor do térreo, empurrou a porta com força e atravessou o halll correndo. “Está bem, menina?” O senhor que estava passando pelo portão perguntou ao que ela quase o derrubou para sair dali.
Olhava a procura de um táxi, mas em Crosby era difícil achar um pelas ruas.
Apertou a alça de tecido de sua bolsa enquanto olhava para as botas de salto, o som parecia ecoar pela rua vazia. Ele não pode mais te machucar, ele está morto agora e você está bem, você está segura. Repetia enquanto olhava para trás, o coração batia tão rápido que o termo “sair pela boca” começava a a fazer algum sentido.
Parou em um farol ao ter um carro passando, os meninos pareciam ouvir alguma música black enquanto ostentavam uma garrafa pelo lado de fora e assoviaram para a menina a chamando pra dentro do carro. Minka apenas ignorou, vendo o carro seguir o rumo e a rua voltar a ficar vazia. Entretanto, foi nesse momento que o a gélido passou a tocar sua nuca, ela fechou os olhos ainda sem se mover e as rajadas continuavam devagar como se pausadas por uma respiração lenta.
— Me deixa em paz. — Pediu com a voz trêmula, os olhos se abrindo e a falta de coragem a impedindo de olhar para trás, Minka tentou virar pouco do rosto quando aquela sombra escura a suas costas a fez soltar um ofego de medo. “Pode me dar licença?” O homem falou, carregando sua bolsa de pesca pela madrugada. Ela abriu espaço e ele passou por si. “Que mulher louca”. O ouviu dizer.
— Me desculpa. — Disse sem graça, era tudo da sua cabeça. Atravessou a rua em passos rápidos finalmente, a caminhada de vinte minutos foi reduzida a doze e ela estava ofegante, a mão sendo enfiada dentro da bolsa enquanto ela vasculhava a procura do chaveiro extravagante, abriu o portão e apenas o bateu, subindo a escada correndo e entrando em sua casa. Trancou a porta e se jogou no sofazinho ali do hall, as lágrimas correram pelo seu rosto e ela olhou para a porta, o chão tremeu, mas era apenas o trem passando a três metros de sua casa.
Olhou para a foto na estante de livros acoplada ao assento em que estava e sorriu, o avô materno abraçado a ela com aquele sorriso imenso e as varas de pesca. Ela tocou o vidro da fotografia e riu de si mesma, “tem que ter medo dos vivos”, era o que seu avô dizia. — É, chega de bebidas para mim hoje. — Riu sem graça, que papel bobo havia se prestado. — Brisa torta. — Murmurou e se levantou, indo para a cozinha porque a larica estava forte.
O salto contra o piso, foi a única coisa que a protegeu de ouvir o trincar do seu quadro, exatamente sobre o seu rosto.








