O vídeo de Four out of Five e a reconstrução do Arctic Monkeys
Por: Amanda Jardim
Em entrevista recente à BBC Radio, o frontman Alex Turner fala de sua inspiração para nomear o último álbum do Arctic Monkeys: “Eu sinto como se todos os meus álbuns favoritos fossem lugares que você poderia visitar e passar um tempo se quisesse. Então me parece que faz sentido nomear o álbum com o nome de um lugar”. O Tranquility Base Hotel + Casino seria então este lugar imaginário em que somos convidados pela banda a visitar e se hospedar por um tempo, como chama o refrão de Four out of Five, o primeiro single do álbum que teve seu vídeo lançado semana passada: “Take it easy for a little while/Come and stay with us”.
O convite no refrão de Four out of Five em destaque no vídeo
Esse lugar imaginário, no entanto, não parece ter sido feito do zero, mas sim reconstruído a partir de algo antigo. Outro verso de Four out of Five sugere isso: “And you won’t recognize the old headquarters”. Enquanto em Batphone essa reconstrução parece ser melhor detalhada: “They have re-decorated it all/They've changed all the lights and the bar's down the side”. Essa ideia de reconstrução pode passar despercebida enquanto se escuta o álbum, mas fica clara no vídeo de Four out of Five. Depois de sermos apresentados a esse novo lugar através das letras das músicas e da maquete do projeto na capa do álbum (maquete esta inclusive construída pelo próprio Turner), aparentemente somos apresentados ao processo de criação deste lugar-álbum no vídeo do primeiro single. Não é sem motivo que ele começa com o lider do Arctic Monkeys sentado ao piano, instrumento que segundo ele foi o ponto de partida do álbum. Ainda na entrevista à BBC Radio, ele explica como não poderia voltar a fazer a mesma música do álbum antecessor, o AM de 2013: “A guitarra pareceu perder a sua habilidade de me dar ideias (...), o que era completamente contrário à maneira como eu me sentia quando sentava neste piano. De repente a minha imaginação estava em ignição novamente”.
Alex sentado ao piano, o início de tudo
Turner então levanta do piano e caminha por um corredor em direção a outra sala, quando vemos o que parece ser um flashback de um segundo Alex caminhando por um túnel (este Alex não nos é estranho, mas voltaremos nele adiante). Enquanto isso, vemos pelas costas de Alex uma luz vermelha irradiar da sala do piano enquanto ele a deixa. A cor vermelha será um elemento de destaque recorrente no vídeo, que também entenderemos melhor à frente.
Quem seria o outro Alex?
Alex caminha para longe da sala do piano e da luz vermelha.
Em um dos flashbacks, vemos o outro Alex caminhando em direção à mesma luz.
Alex chega então a uma sala diferente, onde vemos a maquete da capa do álbum. Aqui parece ser o momento em que ele começa a colocar em prática o projeto que teve início com a inspiração trazida pelo piano. Da maquete passamos para a cena em que ele e o baixista Nick O’Malley visualizam a planta e o que parece ser a oferta de um dos serviços que o futurístico complexo de hotel e casino na lua vai oferecer: Virtual Reality Packages, mais uma das menções a tecnologia e ficção científica que permeiam o tema do álbum. A sequência do vídeo até aqui e a aparição de Nick também reforça o processo de criação do álbum já mencionado por Alex em diversas entrevistas: ele começou compondo sozinho no piano e depois aprimorou o projeto em grupo com a banda. O cachorro que acompanha Alex parece representar a sua única companhia na fase em que escrevia sozinho, como ele sugere em outra entrevista recente à revista francesa Les Inrockuptibles, enquanto fala sobre a ansiedade que acompanha o lançamento de um novo álbum: “Tudo de repente acelera, e eu começo a me arrepender dos dias em que eu estava sozinho em casa, escrevendo ao lado do meu cachorro, sem planejamento nenhum”.
O cachorro que acompanha Alex para fora da sala do piano era sua única companhia na fase em que ele escrevia sozinho.
Das primeiras ideias no piano até o conceito do lugar-álbum representado pela maquete
A aprimoração do projeto em parceria com o restante da banda
A cor vermelha volta a aparecer nos uniformes de trabalhadores que parecem estar seguindo a liderança de Alex na execução deste projeto. Enquanto ele assiste o outro Alex ainda caminhando pelo mesmo túnel de metrô (filmado na estação Marienplatz, em Munique, Alemanha) em direção a algum lugar. Estamos mais perto de descobrir o que a cor vermelha representa, quem é esse Alex e aonde ele está indo.
Alex comanda os trabalhadores de uniforme vermelho que parecem executar uma reforma do hotel.
Alex assiste com uma expressão pensativa o outro Alex caminhando em direção a algum lugar pelo túnel.
Cenas externas finalmente nos dão uma perspectiva melhor do lugar em que se passa o vídeo: trata-se do castelo Howard, em Yorkshire, Inglaterra, que já foi palco de diversas filmagens de filmes, mas talvez o mais relevante aqui seja Barry Lyndon, de 1975, dirigido por Stanley Kubrick. Não há cineasta melhor para se referenciar em um vídeo sobre hotéis e ficção científica, e essa referência não está apenas na locação do vídeo, mas também nas cenas filmadas em perspectiva com um ponto de fuga (curiosamente, o nome da segunda faixa do álbum é One Point Perspective) e o clima por vezes sinistro que pode lembrar cenas de O Iluminado, de 1980.
A locação do vídeo é a mesma do filme Barry Lyndon, de Stanley Kubrick.
Cenas filmadas em perspectiva com um ponto de fuga e o clima por vezes assustador do vídeo também parecem fazer referência ao cineasta e ao filme O Iluminado.
O outro Alex finalmente deixa o túnel e chega ao seu destino, que descobrimos ser o hotel aonde o Alex do piano está. Aqui começamos a entender que o Alex do piano estava tentando conduzir o outro Alex a este lugar, e a identidade deste outro Alex começa a ficar clara. O visual sem barba e com cabelo penteado com gel, lembra muito o visual do cantor em 2013, na era AM. A sugestão aqui é a de que o hotel aonde eles se encontram representa a banda no passado, em seu último álbum. E o Alex do presente, o de barba e no piano, está tentando conduzir o outro Alex do passado à uma reconstrução desse lugar, à uma reconstrução da própria banda. Quando ele canta “You won’t recognize the old headquarters” ele pode estar se referindo ao fato de que você não vai reconhecer o AM neste novo álbum, e em consequência, o próprio Arctic Monkeys.
O vídeo atinge seu ápice quando o Alex do passado abre com a chave do Tranquility Hotel + Casino a porta para o futuro da banda. Aqui vemos que a cor vermelha representa esta mudança, já que é a luz que o Alex do passado encontra ao abrir a porta e que o conecta ao Alex do presente e à sala do piano.
O Alex do passado contempla o que a banda costumava ser (o AM) e percebe que precisa caminhar em uma direção diferente.
O Alex do presente atinge então o seu objetivo, quando assiste pelos monitores o Alex do passado e o restante da banda tocando a música do novo álbum. Ele conseguiu levar a sua antiga versão e o Arctic Monkeys aonde queria.
O Alex do presente está no comando durante toda a performance da banda.
O Alex do passado está ali apenas para representar a trajetória que o Alex do presente precisou percorrer até chegar neste álbum
O vídeo então nada mais é do que a narrativa de como este novo lugar-álbum foi criado, e pode servir como um teaser para o que vem a seguir. Na última cena, quando Alex parte de carro, vemos no canto superior esquerdo da tela, flutuando no céu, o que parece ser o novo hotel. Esse cliffhanger pode sugerir que talvez conheceremos de fato o Tranquility Base Hotel + Casino em uma continuação em um próximo vídeo. Nos resta esperar pelo convite.









