Sonho de Quarentena
Nanda - cap 01
19 de Abril de 2020
Era outono, as árvores coloriam a antiga cidade alegremente, representando a Nova Era, desinente do golpe de Estado. Estrangeiros lotavam as ruas a comemorar a escolha do novo governante, enquanto que a população local não saía de casa, temerosa com a situação em que se encontrava. Sua nação não mais a pertencia, fora tomada por estrangeiros e nada se sabia a respeito da Nova Era, além do fato de um senhor de origem ocidental que nunca antes estivera lá seria o seu novo governante. Ele sequer sabia falar o idioma local, mas estava determinado a mudar - para melhor - toda a estrutura do país e de sua capital, onde moraria dali em diante com sua filha e sua esposa.
O luxuoso castelo de pedras cinzas no centro da cidade não mais abrigava a família real, mas políticos. O trem, que antes era o principal meio de transporte da plebe, agora é apenas mais uma atração turística que representa a Antiga Ordem, pois fora substituído por linhas de metrô e de ônibus. A capital fora rapidamente modernizada, com espaços públicos e comércios. O novo sistema e a tecnologia permitiram a ascensão das classes menos favorecidas, que puderam ter suas casas reformadas, de forma a respeitar a arquitetura detalhista estilo barroco e a cultura local, bem como todas as novas construções feitas na cidade, fazendo com que, aos poucos, o governante conseguisse a simpatia do povo.
Sua filha, Fernanda, ficou muitíssimo próxima às pessoas dali, quase nunca ficava no palácio em que morava. Viajava sempre para outras cidades nas redondezas e para o seu país de origem. Certa vez, trouxe consigo uma amiga. “ Ótimo, vamos morar juntas! O pai não se importa… se duvidar ele sequer vai notar a sua presença! “ - disse ela, animada com a resposta positiva da amiga.
Seu pai, de fato, não notara que havia uma pessoa a mais no imenso palácio, pois estava constantemente ocupado com seus afazeres políticos e raramente trocava ideias com a família. Sua esposa tampouco se interessava nas travessuras de sua filha adolescente, e isso fazia com que Fernanda se aproveitasse de seus pais permissivos para fazer o que bem quisesse.
Todos a respeitavam, era como uma celebridade da Capital. Ela era pouco atraente, mas o seu jeito jovial encantava a todos que por ela passavam e, como era de se esperar, fazia muito sucesso entre os homens mais velhos. Sua amiga a acompanhava sempre, mas nunca interferia nos seus romances casuais e os mantinha em segredo para que não causassem problemas, pois muitos homens envolvidos eram conhecidos de seu pai.
As duas adoravam ir à praia, mesmo não sendo própria para banho devido à forte maré. Lá haviam pousadas luxuosas, mas simples, com piscinas de água morna e hidromassagem. Já era tarde e o homem com quem Fernanda estava havia ido embora, deixando as duas amigas sozinhas na piscina. “Sinto que estou diferente” - falou Fernanda com o tom de voz triste e preocupado, mas sua amiga não estava atenta a isso. “É porque esse ano você vai ficar maior de idade, com isso vem as responsabilidades e tal… Mas a sua festa de aniversário precisa ser inesquecível! Já tenho umas ideias…” “Acho que estou grávida.”
O silêncio das duas permitiu o som das águas e do vento repercutirem no vazio da madrugada. A amiga levantou e caminhou em direção à praia, deixando Fernanda sozinha com seus pensamentos perturbadores.











