Sonho do dia 9 de Agosto de 2018
Era manhĂŁ quando acordei com o barulho da porta principal se fechando. Um bilhete estava na cabeceira da minha cama, dizendo o de sempre, para que eu cuidasse dos meus 4 irmĂŁos mais velhos e que nĂŁo faltasse mais aula.
“Deve ser fácil ser minha mãe, só trabalha, nunca para em casa e deixa tudo para mim, como se eu tivesse obrigação de cuidar desses marmanjos ou de fazer qualquer coisa.” - pensei.
Claro que nĂŁo fomos para o colĂ©gio, preferĂamos ficar na rua com nossos vizinhos; meus irmĂŁos com seus amigos e eu com o meu namorado ou com a minha melhor amiga, a qual morava no começo da rua. As pessoas da vizinhança eram simpáticas, todas se conheciam há anos, havia jovens de várias idades, casas cujas paredes floridas embelezavam e alegravam o lugar.
Mesmo querendo, eu nunca ficava muito longe dos meus irmĂŁos, pois eram ciumentos e nĂŁo paravam de me vigiar, principalmente quando decidia ficar com o meu namorado, cuja feiĂşra era motivo de chacota por todos na rua. Isso parou, no entanto, apĂłs o seu desaparecimento.
O bairro todo se mobilizou Ă sua procura, no começo, mas nĂŁo demorou para que o assunto fosse deixado de lado. Logo, sua casa, que ficava em frente Ă minha, foi abandonada pela famĂlia, que se recusou a fazer qualquer alteração nos mĂłveis, nem ninguĂ©m teve coragem de entrar para roubar algo. As faixas amarelas continuavam lá, embora acreditava-se que as investigações policiais tinham sido suspensas por falta de interesse… Flores já nĂŁo mais cresciam na parede da triste casa abandonada; o clima da vizinhança passou de alegre para triste, porĂ©m, apĂłs um curto perĂodo, voltou a ser alegre.
“Como Ă© possĂvel que as pessoas tenham superado tĂŁo rápido o desaparecimento do nosso vizinho?” - Perguntei Ă minha melhor amiga, que comia bolo sentada numa espreguiçadeira na sua varanda enquanto assistia ao jogo de futebol dos rapazes.
“ Ah, sabe como é, né...” - ela falava com tom indiferente - “Nem vale a pena mais se preocupar com isso, o corpo dele já deve ter apodrecido em algum lugar bem distante daqui.”
“Quem poderia tê-lo assassinado?!”
“Os pais dele? Sei lá. Ninguém se importa. Vire a página, você vai encontrar outro namorado... mais bonito, eu espero.”
Ao cair da tarde, eu e meus irmãos voltamos para casa, pois nossa mãe chegaria em breve, no entanto, quando já abria a porta principal, olhei para trás a avistei a casa abandonada.
“Querem ver o que tem lá?” - perguntei, com uma voz misteriosa e um sorriso discreto. Não esperei que me respondessem, atravessei a rua correndo e entrei na casa escura, fétida e triste. Sabia que meus irmãos me acompanhariam, nunca tiravam os olhos de mim, dois deles até dormiam no mesmo quarto que eu! Ligamos as lanternas dos nossos celulares e começamos a vasculhar a casa.
“VocĂŞ Ă© louca, nĂŁo pode fazer isso!” - falou o primogĂŞnito da famĂlia.
Os outros três só tapavam o nariz e mexiam nos objetos empoeirados da sala. Fiz um barulho para amendrotá-los e comecei a rir, mas logo em seguida escutei um barulho diferente, que ecoava de algum lugar e não vinha de nenhum dos meus irmãos.
Seguimos devagar para o quarto do meu namorado, mas não encontramos nada além de uma gosma preta na cama e no chão. Aproveitei enquanto eles estavam muito entretidos a investigar a origem dessa gosma estranha e saà em direção ao quintal, onde notei que um cheiro podre se intensificava à medida em que me aproximava de uma porta de madeira virada para o quintal perto de algumas plantas murchas. Sem mais delongas, abri-a rapidamente. Tomei um susto quando meu irmão mais velho apareceu atrás de mim com sua lanterna; juntos vimos que ali dentro não tinha nada além de morcegos.
Voltamos para casa e conversamos bastante sobre isso antes de dormir. Nossa mĂŁe brigou conosco por termos faltado aula novamente e disse que nĂŁo trabalharia no dia seguinte sĂł para ter certeza de que aquela fora a Ăşltima vez e que nĂŁo mais deixarĂamos de ir Ă escola.
De madrugada, escutei o mesmo barulho que escutei mais cedo na casa abandonada. Os olhos arregalados de pavor do meu irmĂŁo se encontraram com os meus. Tal barulho parecia vir do nosso quarto, mas nĂŁo tivemos coragem de procurar a fonte. Foi entĂŁo que senti algo envolver os meus braços e se espalhar para o resto do meu corpo, fazendo com que eu permanecesse imĂłvel. Era como se fosse uma raĂz quente e Ăşmida que me segurava fortemente contra a cama e suas extremidades perfuravam o meu corpo, penetrando as minhas veias e entrando na minha boca.
A intensa dor que senti na hora me fez desmaiar e só acordei bastante tempo depois, pelo que pareceu, numa sala branca com lâmpadas incandescentes acesas no teto. Uma mão repousava levemente sobre a minha e me virei para ver a quem a mesma pertencia.
“Pensei que nunca mais nos verĂamos.” - Falou o meu namorado, sorrindo.
“Eu morri?” - Perguntei a ele, calmamente, já aceitando o destino.
“É isso que você acha? Porque eu me sinto bem vivo…” - Riu.
Levantei da cama sem me lembrar de como fui parar lá. As lembranças eram como sonhos já passados, há muito tempo esquecidos e substituĂdos por outros melhores. As pessoas naquele lugar viviam bem, apesar de parecerem doentes. Eu mesma estava assim, com a pele flácida, pálida e frágil; meus ossos estavam fracos e eu mal conseguia andar. Notei que a maioria ali se vestia com um macacĂŁo branco que se moldava ao corpo, outros estavam com roupas pretas que cobriam tudo exceto suas cabeças. As pessoas sorriam, mas era como se nĂŁo quisessem estar ali de verdade, no entanto, para onde iriam? Era um lugar fechado, nĂŁo se sabia se era dia ou se era noite. Havia animais tambĂ©m, criados em jaulas grandes num compartimento climatizado e aconchegante. Eles se comportavam bem, assim como as pessoas, embora ninguĂ©m tivesse consciĂŞncia situacional plena.
Os nossos alimentos eram servidos numa grande mesa no pátio, onde todos se reuniam pontualmente ao tocar o sino. Apenas comidas naturais, bem preparadas, para todos os gostos. As mesinhas e bancos ficavam ao redor de uma grande árvore, onde todos de branco se reuniam para comer - e comiam muito bem, incluindo eu, porém reparei que aqueles vestidos de preto não tocavam na comida, só nos observavam com semblante sério. Eles não falavam com a gente, nem sorriam, nem demonstravam qualquer emoção.
Várias atividades nos eram oferecidas para que nos sentĂssemos felizes e satisfeitos, tais como pintar, dirigir, jogar, praticar esportes, etc.
O sino tocou indicando que havia chegado a hora de dormir e fomos todos para um corredor cheio de portas e, na parede, ao lado de cada porta, tinha uma abertura para por os macacões.
Notei que o meu macacĂŁo estava com mais volume e, assim que coloquei na abertura, ele foi sugado completamente. Observei que as pessoas despidas no meu lado tinham furinhos espalhados por todo o corpo, assim como eu. Passei pela porta para ser higienizada, vesti um novo macacĂŁo e fui dormir.
Sonhei que estava vendo o meu corpo junto com vários outros corpos num porĂŁo escuro, minha boca estava aberta e meus olhos, brancos. Vários morcegos voavam e alguns deles estavam sugando o meu sangue. RaĂzes entravam em mim e tambĂ©m nas outras pessoas; o cheiro era insuportável.
Acordei assustada e saà às pressas pela porta que faz a higienização, mas dessa vez eu estava ainda vestida. Ouvia vozes ao longe, segui-as pelo corredor vazio até ter uma visão mais clara do que estava acontecendo no pátio, mas não pude entender a conversa, pois as pessoas de preto falavam umas com as outras num idioma desconhecido. Na enorme mesa, bebidas e comidas de coloração vermelha que cheiravam a sangue estavam postas. As pessoas riam e conversavam na penumbra embaixo da árvore enquanto alimentavam-se e, pela primeira vez, pude ver que seus dentes eram pontiagudos e que suas unhas eram grandes e afiadas; quando bebiam um gole daquela bebida pastosa ou comiam um pedaço do “bolo de beterraba”, as veias de seus pescoços ficavam protuberantes e escureciam. Arrepiei-me toda ao assistir tal coisa. Voltei imediatamente para o meu quarto e não mais dormi até tocar o sino da hora do café da manhã.
Assim que tive oportunidade, contei para o meu namorado tudo o que experienciei na noite anterior. Ele nĂŁo acreditou no inĂcio, mas tambĂ©m achou estranho o fato de nĂŁo ter memĂłria de como chegou naquele lugar.
“O macacão que a gente usa…” - comecei a falar, baixinho - “...provavelmente absorve aos poucos o nosso sangue e, quando a gente tira, ele é sugado e vai para um armazém de onde eles preparam suas comidas.”
“Será?!” - Ele estava surpreso - “Caramba, faz todo o sentido. Eu também sinto que quando tiro a minha roupa ela está um pouco mais pesada e volumosa… Mas como os nossos corpos estão nesse porão escuro que você viu se na verdade estamos aqui?”
O sino tocou novamente: Hora de trocar os macacões para o nosso lazer.
Não vi mais o meu namorado depois da nossa conversa no pátio durante o café da manhã. Passei o resto do dia observando pessoas pintando e esculpindo figuras aleatórias, até de repente ser carregada pelos braços por um homem de preto e ser, em seguida, colocada numa fileira onde várias pessoas de branco com olhares confusos esperavam algo ruim acontecer.
Um homem aproximou-se de nĂłs. Era bonito, alto, vestia um sobretudo vermelho por cima da roupa toda preta e tinha olhos igualmente pretos. Caminhando por nĂłs da fileira, ele olhava profundamente nos olhos de um por um, sem falar, sem expressar qualquer emoção. No entanto, ao chegar em mim, seu cenho franziu e ele olhou para o homem de preto que me trouxe, fazendo sinal positivo com a cabeça. Vários pensamentos me vieram Ă tona, do porquĂŞ de ter sido eu a escolhida. Será que ele viu que eu escapei Ă noite? Será que ele percebeu que eu estava estressada ou desconfiada pelo gosto do meu sangue? Como ele soube que fui eu? Ele leu a minha mente? Ele escutou os meus batimentos cardĂacos acelerados?
O homem de preto me segurou com força e me arrastou consigo por alguns metros, quando foi derrubado por uma leoa de repente. Vários animais corriam para todos os lados, um avestruz quase me atropelou; uma girafa comia as folhas da árvore do pátio ao longe; um elefante destruĂa os mĂłveis; pássaros voavam desesperados procurando uma saĂda; chacais tentavam entrar em salas; guepardos comiam gente enquanto que os outros animais, de diversas espĂ©cies, tentavam encontrar um lugar para se proteger e viver em liberdade. As pessoas de branco se escondiam em lugares mais altos para nĂŁo serem alvo dos predadores, e as de preto se trancavam em salas. NĂŁo consegui avistar o meu namorado no caos, imaginei atĂ© que ele teria sido o responsável pela soltura dos animais de suas jaulas.
O suposto chefe dos vampiros estava tranquilo, sendo protegido pelos seus companheiros. Entraram numa salinha e fecharam a porta.
Eu estava escondida atrás de um balcĂŁo que dava para a cozinha, perto do pátio. Assim que senti que podia, corri o mais rápido possĂvel atĂ© a porta onde o chefe entrou… ainda bem que nĂŁo estava trancada. No entanto, na salinha nĂŁo havia mĂłvel algum ou saĂda de ar. Estava vazia.
Fiquei procurando alguma coisa para empurrar ou para pisar, pensando eu que teria alguma passagem secreta, pois não haveria outra explicação, ou haveria?
Passados alguns minutos, comecei a sentir falta de ar. Tentei abrir a porta, mas não havia maçaneta nem nenhum outro meio de abri-la por dentro, então gritei por socorro, até não mais conseguir.
Sentei-me no chĂŁo, com a visĂŁo já turva. Vi que aos poucos a minha pele derretia numa gosma preta e eu perdia a consciĂŞncia… e assim se sucedeu atĂ© eu retornar para o meu corpo verdadeiro na penumbra, onde os morcegos dormiam e as raĂzes me envolviam. Tentei me mexer, mas nĂŁo consegui, a dor aumentava sempre que tentava falar ou me mexer. O cheiro de excremento, morte e sangue era muito forte. Lágrimas escorriam pelos meus olhos ao observar um feixe de luz que atravessava o porĂŁo.