Quando minha amiga Robin estava morrendo, ela me perguntou se eu conhecia um padre com o qual ela poderia conversar e que não seria, como ela colocou, "muito severo." Eu conhecia o homem perfeito, um amigo da nossa família, um padre saído de um velho filme em preto e branco, o tipo que parece não mais existir em uma Igreja Católica cheia de escândalos. Como o padre Chuck O'Maley, o padre novaiorquino interpretado por Bing Crosby, padre Kevin O'Neil canta como um anjo e toca piano; ele é bonito, gentil e engraçado. Mais importante, ele tem um dom. Ele consegue iluminar a escuridão ao redor daqueles que estão morrendo e daqueles que estão por perto. Quando ele segurou a mão do meu irmão inconsciente no hospital, os médicos ficaram impressionados que a pressão sanguínea de Michael havia notavelmente caído. O único problema foi a relutância do padre Kevin em ministrar pra o morto. As lágrimas caíam fortemente do seu rosto. Mesmo assim ele fez e ficou muito íntimo da Robin. Anos depois, ele ainda mantém uma foto dela em seu escritório. Como nos vimos durante esse choroso natal, a morte não faz feriado. Eu pedi ao padre Kevin, que sabe desse assunto tão profundamente, se ele poderia oferecer uma meditação a respeito. Isso foi o que ele escreveu:
Como alguém comemora o natal com a memória fresca do brutal assassinato de 20 crianças e 7 adultos em Newtown; com a clara imagem dos bombeiros de Webster correndo para salvar vidas e acabando enredados em um incêndio causado por um maníaco que escreveu que sua atividade favorita era "matar pessoas"? Como podemos celebrar o amor de Deus se tornando carne quando Deus não parece fazer nada amoroso? Se nós acreditarmos, como acreditamos, que Deus é todo-poderoso e onisciente, porque Ele não usa todo esse conhecimento e força pra o bem em face de todos os males que tocam as nossas vidas?
As mortes na proximidade do natal em calmas cidades da costa leste avivaram em mim uma lembrança de 30 anos atrás dos meus primeiros meses como sacerdote na paróquia de Boston. Eu fui acordado durante a noite e chamado para o hospital feminino de Brigham pois uma garotinha de 3 anos havia falecido. A família era do Peru. Meu espanhol era ruim. Quando eu cheguei, a mãe da garotinha estava segurando o corpo sem vida dela com toda a família abraçando-a.
Eles olharam pra mim no momento que entrei. Verdade seja dita, lá era o último lugar que queria estar. Junto dos pais que acabaram de perder sua filha. Eu não tinha nenhuma palavra, em inglês ou espanhol, que não pareceria vazia ou barata naquele momento. Mas eu fiquei. Eu orei. Sentei lá com eles até depois do amanhecer, algumas vezes em silêncio, outras falando, pra deixá-los saber que eles não estavam sozinhos em seu sofrimento e luto. A pergunta em seus corações então, como a de muitos corações hoje em dia, é "Por que"?
Verdade seja dita: eu não sei. Eu tenho o treinamento teológico para me ajudar a oferecer alguma explicação ao inexplicável. Mas as perguntas permanecem. Eu lembro de visitar uma grande amiga horas antes dela morrer para lembra-la que a morte não é o fim, que nós acreditamos na Ressurreição. Eu perguntei a ela, "você ainda está aí?" Ela replicou, "Eu estou indo e voltando." Não havia nada que eu queria mais do que trazer em um saco uma prova e dizer, "Viu? Você pode ficar confiante agora." Mas não existe absolutamente nenhuma prova. Eu só fiquei lá com ela. Uma vida de fé é frequentemente ficar "indo e voltando" tanto para os crentes como para aqueles que ministram pra eles.
Implícita aqui é a questão de como olhamos pra Deus agir e entrar nas nossas vidas. Por alguma razão, certamente desconhecida para a maioria de nós, Deus tem escolhido entrar no mundo hoje através dos outros, através de nós. Temos histórias de intervenções miraculosas, momentos relâmpagos, mas muito mais frequente o Deus de incondicional amor chega até nós em forma humana, exatamente como Deus fez há 2000 anos.
Eu creio diferentemente agora do que há 30 anos. Primeiro, eu não espero ter todas as respostas, nem eu acredito que as pessoas estão realmente procurando por elas. Segundo, eu não procuro a mão de Deus para parar o mal. Eu não espero que o conforto venha de longe. Eu realmente acredito que Deus entra no mundo através de nós. E mesmo eu ainda tendo os "Por quê?" para responder, eles não são tanto "Por que, Deus?" para responder. Nós somos humanos e mortais. Nós iremos sofrer e morrer. Mas como nós somos com o outro em meio a esse sofrer e morrer é o que faz toda diferença sobre onde a presença de Deus é sentida ou não e onde somos confortados ou não.
Uma coisa certa é isto: Fé é vivida em família e comunidade, e Deus é experimentado em família e comunidade. Precisamos um do outro para estarmos na presença de Deus. Quando meu irmão mais novo, Brian, faleceu de repente aos 44 anos de idade. Eu estava perguntando, "Por que?" e experimentei um amor incondicional da minha família e amigos. Eles não podiam explicar o motivo dele ter morrido. Mesmo se pudessem, isso não o traria de volta. Mesmo assim as diversas maneiras que as pessoas se aproximaram de mim me deixaram saber que eu não estava sozinho. Eles realmente eram a presença de Deus pra mim. Eles me ajudaram a orar no funeral do Brian. Eles me consolaram enquanto eu tentava confortar os outros. O sofrimento nos isola. A presença do amor nos traz de volta, nos faz pertencer a algo.
Um teólogo contemporâneo descreveu o perdão como sendo "entrar no caos do outro". O natal é realmente a celebração de Deus que entrou no caos do nosso mundo na pessoa de Jesus, perdão encarnado. Eu nunca achei fácil estar com pessoas que sofrem, entrar no caos dos outros. Porém, toda vez em que o fiz, foi um presente pra mim, muito melhor que uma caixa bonita cheia de laços. Eu fui tirado de mim mesmo para estar em amor na presença de outra pessoa, e eles eram a presença do amor para mim.
Eu nunca responderei satisfatoriamente a questão do "Por que?" pois não importa que resposta eu dê, ela sempre parecerá pequena. O que eu sei é que a presença de um amor incondicional acalma um coração partido, cura as feridas, e renova-nos à vida. Esse é um presente que todos nós podemos dar, particularmente para aqueles que sofrem. Quando esse presente é dado, o amor de Deus está presente e o Natal acontece todo os dias.
*Tradução livre de "Why, God?", escrito pela Maureen Dowd, em sua coluna no NYTimes.