Couro Branco
O lugar era um gelo, mas a gente estava sempre lá. Na quitinete dela. Ombro a ombro, no sofá de couro branco. Apesar da amizade, não éramos íntimos. Nem chegávamos a dividir o mesmo cobertor. Timidez demais, perigos e entraves, você sabe como é. Havia o vinho, claro, e a maconha, uma paixão comum. Aquela pontinha babada de seda, indo de uma boca a outra. Ela curtia, mas sem exageros. Beber e fumar atrapalha a fruição dos clássicos, e às vezes dá margem a confusões indesejadas, uma pena.
Naquela noite, não era pra ser diferente. A maconha tinha acabado antes de começar o primeiro filme. Normal. Do vinho, ainda sobravam duas garrafas. Já tínhamos secado outras duas, e ela avisou que ia parar. Eu fui em frente. Era um tinto doce, barato, comprado no postinho da esquina, e tudo bem. Nenhum de nós se importava com a excelência da bebida, a genealogia da uva. Não é isso o que vai determinar a qualidade das nossas fantasias, e nem da nossa memória.
Aliás, me desculpe. Do título do filme, eu não me lembro. Era um documentário muito antigo, de um século atrás, sobre um esquimó (ela prefere inuíte) e sua família. Um grupo de pessoas primitivas caçando e pescando, sobrevivendo no Ártico. Tem seu valor, não vou negar. Só não era pra mim. Não aprovei a escolha dela, mas não disse nada, não estava a fim de discutir, só queria beber. No fundo, você sabe, sou um cinéfilo de araque, um diletante com segundas intenções. Não me interessam tanto os filmes, mas as interações que promovem. O que me atrai, numa narrativa, é o mundo real que ela invariavelmente deixa de retratar, são as lacunas que eu preencho, e acho que a maioria de nós é assim, só não é costume de ninguém confessar seus defeitos intelectuais. Os espirituais, por outro lado, são bem mais fáceis de admitir.
O filme era bom, era ruim, e daí? Eu não estava prestando atenção. Ela equilibrava no colo uma bacia de pipocas, e aquilo me distraía, o vapor que se erguia da comida, um cheiro enjoado de química e manteiga. O filme era mudo, e a mastigação dela, um festival de rojões. Os grãos de milho entre seus molares, mal estourados, me lembravam ossinhos sendo moídos, ou então lenha estalando na lareira. Um fogo acolhedor, entre a língua e o palato. Estava frio, já disse, mas de repente passei a sentir calor, ou talvez eu só pressagiasse algum calor. Talvez. Se era o excesso de vinho ou o de expectativas, não sei.
Sei que a moagem da pipoca e o avanço daquela família de esquimós sobre o gelo foram me embalando, já passava da meia-noite. Eu olhava pra telona da tevê, setenta polegadas, um despropósito pras dimensões daquela salinha, a televisão mais ampla que a janela, que a cidade, que a vida lá fora, e olhava também pros pés da minha amiga, descobertos, uma provocação, despontando de uma abertura na manta de lã com que enrolava as pernas, esticadas sobre o pufe. Ela estava de meias coloridas, listradas, sempre as usa assim, são meias divertidas, supostamente engraçadas, se acha tão divertida que até suas meias precisam reafirmar isso. Você não está com frio nos pés, eu perguntava, a cada cinco minutos, na fé de que ela me permitisse massagear seus dedos, explorar cada vão entre eles, mas ela dizia que não, frio nenhum, seus pés eram quentes, duas brasas, veja o filme, preste atenção, só cuide pra não derramar vinho no sofá de couro branco.
Como se isso fosse viável, dormir e beber simultaneamente. Tomar cuidado? Saber me cuidar seria tão bom. Dormir e beber, beber e dormir, dormir, beber. Não, não dava, impossível. De vez em quando, uma agitação no filme me sacudia. Um escorregão num barranco, um trenó que derrapasse numa curva imaginária, e minha taça de plástico quase ia parar no tapete. Eu estava sensível demais, atento a coisas que não existiam. Sensível, atento ou, vá lá, vulnerável. Uma rajada de vento mais escandalosa, uma lança que voasse rente a minha orelha, o mar de uma praia glacial molhando minhas meias brancas. Eu me assustava ao toque de uma onda, dava um pulo, abria os olhos, um de cada vez, o sol contra os paredões de gelo. Tão intensa aquela luz que eu já não enxergava ou definia qualquer coisa ao redor, só sabia que o importante era evitar, a qualquer custo, o desperdício do vinho, a perda de uma gota sequer, pois tudo, até mesmo o mais ácido dos vinagres, haverá de ser vital a estas temperaturas e latitudes, a vida nunca foi tão difícil quanto aqui e agora.
Mas eu bocejava, tenho o hábito da inanição, não o orgulho, apenas o vício, e reconheço que é uma falha. Queria ficar numa boa, aproveitar a praia e o sol, sim, sou um homem solar, me aborrece o congelamento geral da paisagem e das perspectivas. Mas aquele esquimó, agora não lembro o nome dele, me desculpe, era um guerreiro obstinado e não me dava sossego. Se eu quisesse comer, me advertiu, teria que trabalhar. Disse isso e me passou uma lança muito bonita, talhada especialmente pra mim, li meu nome gravado nela e a tomei como um presente de boas-vindas. Emocionado, a empunhei, firme, embora sem jeito, com a mão esquerda, minha mão ruim (a direita, lembre-se, segurava a taça de plástico).
O esquimó pôs um indicador diante dos lábios, pediu discrição e me apontou as morsas, havia um bando delas perto de nós, os machos humanos. Agora é com a gente, cochichou, e nos agachamos junto às pedras da praia, pois lá não havia areia, só pedras redondas, do tamanho de corações, da mesma cor de nossos casacos de pele, ignoro o animal de que teriam sido roubados, e bem devagar fomos nos aproximando das marolas onde as morsas se espreguiçavam. Parecíamos, nós também, duas rochas, apreensivas, porém competentes, pedras especializadas em matar, nos movendo um centímetro a cada cem anos, eu somente um tanto fora de forma, jamais tive a chance de desenvolver um abdômen de predador, e me ressinto disso.
Ao comando do esquimó, experiente, atacamos. Foi como abrir uma gaveta de brinquedos ancestrais, tudo tão excitante: a tocaia, o bote, os gritos, os animais se lançando ao mar, em pânico, bem mais ágeis do que nos faria supor tanta banha. A debandada das morsas era admirável em sua plástica, o medo é um excelente coreógrafo, e admiráveis eram os seus músculos, e a trama de fibras e nervos retesando-se debaixo de toda aquela gordura, a suculência de uma carne que queria continuar vivendo incondicionalmente. Sim, há dignidade nessas fugas, e a dignidade é sempre apetitosa.
A preguiça abandonou meu corpo, eu era outro homem, uma criatura dinâmica e integrada, e foi com alegria que o esquimó e eu lançamos nossos arpões contra uma das morsas, e apesar de a ferirmos de morte, minha lança perfurando seu pescoço, ainda tivemos de brigar, os três, por cerca de dez minutos, o esquimó e eu puxando a presa furiosa por uma corda grossa, talvez de cânhamo, num cabo de guerra exaustivo, mas otimistas, pois já não tínhamos mais nada a perder. A vitória era nossa, era só uma questão de paciência, de exaurir a vítima, sangrá-la até que ela consentisse com o próprio sangramento, até que concordasse conosco, sim, é preciso que eu morra sob vossos esforços, e foi isso que fizemos, nós a matamos, ou ela é que morreu por nós, deixou-se comer e transfigurar, entrando em comunhão com nosso futuro.
Eu suava, eu fervia debaixo das peles. Era minha primeira morsa, e o esquimó me ensinou a abri-la da maneira correta, a destacar o couro de suas camadas de gordura, e o fez quase frugalmente, como se descascasse uma manga gigante e perfumosa. Aprendi a eviscerar a caça sem magoar a beleza de seus órgãos, apreciando a virgindade de cada tripa, aprendi a desmembrá-la sem ser rude, e a desencaixar sua ossatura, peça por peça, sem desperdiçar uma só gota do sangue que ia se empoçando no bojo daquela carcaça.
Comi bem. Eu tirava grandes nacos da carne crua daquele bicho, e os mastigava demoradamente, com dentes que até então desconhecia, como desconhecia, até aquele momento, o próprio significado da palavra intimidade. Eu lambia a faca que o esquimó me emprestara, sua lâmina larga e rústica, e aos poucos, convidado a um mergulho primal, a uma imersão naquele manancial de calor que fumegava diante de mim, fui me deixando submergir, me acomodando de costas entre o fígado, o estômago e os intestinos da morsa, e a vesti como quem veste a capa de um imperador, o rei do Alasca, e lá dentro era quente, úmido e familiar, tão confortável que adormeci de novo, seguro, o esquimó velando por nós, você sabe como é, a amizade masculina vive desses disfarces, dessa brutalidade camuflada, são duras vigílias.
Dormir foi bom, ou deveria ter sido, tão bom quanto comer. Mas logo acordei mareado e aflito. Na verdade, alguém me acordou, e do pior jeito possível. Uma mulher muito branca, de feições selvagens, estava sentada sobre mim. Me mantinha preso sob a avalanche de seu corpo, manejando uma manta de fios brilhantes que, a pretexto de me aquecer, me amordaçava. Tudo à minha volta era neve, e nem sinal do esquimó. Teria me largado, me traído? Chamei por ele, meu relapso protetor, sussurrei seu nome, aquele nome de que já esqueci, ou achei que sussurrava, pois não tinha mais fôlego nem coragem pra falar ou fazer coisa nenhuma, o frio voltando a me incomodar, me travando a ação, a mandíbula. Eu nem pensava mais em me safar, só tentava ler e reconhecer o rosto da mulher que me atacava, ou decifrá-lo à luz poente daquelas geleiras, mas tudo, num segundo, virou escuridão. Eram os cabelos dela sobre mim, uma cabeleira negra e esvoaçante, uma noite sedosa, e ela lutando comigo, não com ódio ou mesmo técnica, mas com movimentos até burocráticos, eu diria, pois a luta parecia ser a própria natureza daquela mulher, e isso se não for, quem sabe, a natureza de todas.
Achei que seria vencido, e quis chorar, não me envergonho de confessar isso a um amigo. Eu estava fraco, o embate contra a morsa já tinha sido bárbaro o bastante. Mas sou teimoso e, apesar daquela sensação tão real, tão absorvente, de estar sendo enterrado vivo, me bateu a lembrança redentora do vinho: meu Deus, a taça de vinho! Onde é que ela estava, eu não podia derramar o vinho, eu prometi que tomaria cuidado, o sofá de couro branco, o que foi que eu fiz?
Reuni o que me restava de energia e gritei o mais alto que pude, gritei o nome do esquimó, até espantar dali aquela mulher gelada, e ela de fato sumiu, estourou no ar como um demônio ou uma pipoca, desistiu de mim e se desintegrou, só deixando, na ventania da sala, a sua manta de fios brilhantes, revolta, libertada de sentidos e ameaças, embolando-se com a neve, no tapete — ou seria uma manta de lã, xadrez?
Sim, a manta de lã. Eu a localizei no tapete da sala, debaixo da minha taça de plástico, emborcada, uma mancha vermelha se expandindo até o assoalho de tacos. Na tevê, um filme japonês já ia pela metade, quem estava assistindo? Chequei o sofá, ninguém comigo, e o ambiente polvilhado de pipocas. Minha amiga tinha vazado. Ela devia estar no banheiro, ou então na cama. Eu mesmo estava com vontade de mijar, as pernas enrijecidas, a calça e a cueca, só então percebi, emboladas com a manta, no chão, e também sujas de vinho. Levantei com dificuldade, a cabeça virada, e minha bunda, desgrudando do couro branco, fez um grande som de beijo.
No filme, um japonês se erguia da neve. Respirava fundo, como se quisesse se livrar da influência de um pesadelo. Esteve perto da morte, logo vi, e parecia aliviado. Olhou pro céu, pro vento no cume das montanhas que o cercavam, e puxou uma corda grossa a qual estavam presos vários amigos seus, desacordados, soterrados pela nevasca. Acordou a todos, chacoalhando um por um, e apontou, ao grupo que ressuscitava, o acampamento que precisavam alcançar, um sítio antes perdido, encoberto, um destino de sonho, e que ressurgia a poucos metros dali, tão perto deles, tão convidativo, embora fosse somente uma bandeira triangular, vermelha, tremulando sobre a fenda escura de uma pequena barraca.
Achei o controle remoto debaixo de uma almofada, abaixei o volume e pude escutar, vindo lá de dentro, o chiado do chuveiro. Me vesti, e achei melhor descer sem me despedir ou mijar. Apenas saí pra rua e já me senti arrependido. Não devia ter saído, foi um erro, a bexiga estourando. Lá fora o frio era ainda maior, mas disso você já sabia, está cansado de saber, você é meu amigo e acredita em mim, jamais acreditaria na versão dela, ela é louca.
Texto de Luís Henrique Pellanda, revisão de Giovani Kurz | Esc. Escola de Escrita e ilustração de Foca Cruz.
Nanook (Allakariallak) foi o personagem central de Nanook do Norte (Nanook of the North), documentário dirigido por Robert J. Flaherty em 1922. Yuki-onna foi interpretada por Mieko Harada em Sonhos (Yume), filme escrito e dirigido por Akira Kurosawa em 1990.
Sobre Cafés e Cigarros é uma série de breves viagens literárias promovidas por Atomic Tangerine.








