Na ponta dos dedos, Christos Nikou, 2023 - Ótimo ⭐⭐⭐⭐
Num futuro distópico, o amor verdadeiro pode ser confirmado com um teste de laboratório. Os dois candidatos a almas gêmea precisam, após uma série de atividades de convivência, retirar dolorosamente, cada um, a unha de um dos dedos da mão. O material coletado é, então, posto numa espécie de microondas retrô que mostra a porcentagem de sentimento envolvido na relação. 100% é o esperado.
Há cerca de três anos, Anna (interpretada por Jessie Buckley, que também no ótimo Entre Mulheres) passou vitoriosa pelo teste com seu atual parceiro, Ryan (Jeremy Allen White, The Bear). Após esse tempo de convivência, porém, a professora começa a questionar o seu relacionamento. Será que Ryan é realmente o amor da sua vida?
Inquieta (e procurando emprego), Anna começa a trabalhar escondida em um renomado laboratório que oferece o curioso teste na cidade. Parece que a mulher segue um desejo incontrolável de saber mais informações sobre como o procedimento funciona, já que que refazê-lo pode expor ao marido as dúvidas que começam a rondar sua cabeça.
Começa aí uma jornada ambígua para a personagem principal. Enquanto ela se aproxima dos princípios românticos que orientam o teste (e vai acreditando no seu potencial de juntar almas gêmeas), Anna também conhece Amir, seu parceiro de trabalho diário, por quem vai nutrindo, aos poucos, um sentimento que extrapola a amizade.
Cresce nela o conflito entre razão e emoção que é fácil de entender: como por em prioridade os sentimentos quando a resposta objetiva já está dada? Anna passa por todo esse processo de dúvida em silêncio. Poupar o esposo dessa bagunça interna parece ser o seu objetivo, como se, antes de extravasar, ela buscasse a razão dos próprios sentimentos, mas a razão nunca vem. Ou melhor, a razão machuca.
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As cenas dos carros são ótimas metáforas para entendermos em que situação emocional as personagens se encontram. Enquanto Anna ignora os avisos de revisão que o próprio automóvel pisca insistentemente à sua frente, Amir tem dificuldades em desemperrar o vidro da porta do passageiro. Cada um, passando por dificuldades nas suas solidões.
Em um outro momento, quando Amir dá uma carona à Anna e o vidro emperra novamente, vemos os dois num malabarismo cooperativo para solucionar o infortúnio enquanto o carro continua rodando, como se os dois pudessem ajudar um ao outro nos perrengues da vida.
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O final é inconclusivo: o que será de Anna e Amir? Mas, como saber?















