sobre '3º andar jardim suspenso' | natacha amaro | setúbal |2014 | fevereiro.
Boa tarde a todas e a todos.
Cabe-me apresentar a obra “3º andar jardim suspenso”. Antes de qualquer comentário ou consideração, e certamente com algum egocentrismo, penso que devo tentar lançar luz sobre a razão da minha presença aqui. O Filipe, há uns meses atrás, fez-me este convite. Desafiou-me. (Con)Venceu-me. Foi indiferente aos meus apelos de falta de experiência, de conhecimento literário. Saltou no escuro e disse: “eu sei que tu o podes apresentar”. E perante o voto de confiança, não pode haver hesitações ou dificuldades. Mas com riscos, com debilidades e fragilidades. A ver vamos. Não poderia, nunca, era deixar de dizer que esta é uma oportunidade única para mim: uma vez na vida apresento um livro de poesia.
E não é um livro qualquer nem um local qualquer. Este espaço, o museu do trabalho, com título de nome maior da música, da etnografia, do estudo, do desmesurado interesse por tudo o que fosse genuína e artisticamente português, é o ninho onde germinam as sementes da cultura, das artes, da amizade, da camaradagem. Michel Giacometti gostaria, certamente, de aqui estar hoje, de assistir à apresentação e mergulhar na obra, de apertar a mão ao autor e lamentar a publicação apenas por ser tão tardia.
Sem quaisquer pergaminhos para propor análise de conteúdo ou recensão reflectida sobre o 3º andar jardim suspenso, opto por expor sentimentos, partilhar um tempo e um espaço sensível de agrado e beleza.
Embrenhei-me no 3º andar jardim suspenso e, ao jeito de Vergílio Ferreira, senti que “veio ter comigo hoje a poesia”. E “veio num raio de sol, num murmúrio de vento”.
Primeiro, a sua capa. Vermelha, intensa, quente. A lembrar-me as "últimas palavras de agora", do livro:
“amo o vermelho
sobre este teu corpo faz-me lembrar um determinado
couvre-pieds de veludo. de vermelho. sangrado”
A letragem parca, redonda, delicada. Preta e branca e vermelha. Uma declaração simples: poema. Uma editora com nome engraçado, doce, açucarado.
O interior, de uma pureza desconcertante – limpo, asséptico, cru. Mas, ao mesmo tempo, caloroso na clareza de discurso.
Consigo seguir a coluna vertebral do livro mesmo sem o tentar ou sequer querer. Entramos no jardim suspenso e na teia de relações daquele espaço e tempo. Partilho uma afinidade enorme com as referências a Lisboa, a cidade onde habito, às “minhas” ruas (a Cecílio de Sousa, a Marcos Portugal, a da Imprensa Nacional), os passeios que percorro todos os dias a pé num eterno circuito casa-trabalho. Mas encontramos também a explicação, a homenagem, a génese do livro. Logo, logo a espreitar, a palavra mulher:
“mulher . afluxo de mar(es)
de ondas
na praia
sabedoria
fruto do
tempo
músculo do espaço (...)”
Sucedem-se os versos. E aos poucos saímos de um quotidiano de arroz bom e chapéus de chuva vermelhos para mergulharmos em confissões mais apaixonadas. “Língua fulgurante, lóbulo de tanto arrepio, magia única”. E aqui abraçamos a paixão em cada linha, a intensidade de cada página.
“quando
nas
noites
queimadas
com
incenso
e silêncio
te
debruças
e
em mim
desvendas
que contar
não
posso”
E continuamos com uma sensibilidade totamente à flor da pele: são os cabelos, os seios, os olhos, as mãos... Mas fazemos caminho, continuamos.
Retornamos à cidade, às antenas, aos telhados, à varanda, ao telefone que desperta, à higiene pessoal até ao encontro com o camarada. E aqui sinto uma viragem, um enfoque noutra dimensão: o alentejo, domicílio genético e afectivo do autor. São homenagens veladas a homens que se tornaram heróis da resistência anti-fascista - José Adelino dos Santos; Germano Vidigal; António Gervásio - e também a lutas emblemáticas - “a gesta das oito horas de trabalho”. Inicia-se o périplo pela planície, uma viagem afectiva pelos campos e pelas cidades, com tarefa implícita, mais ou menos subreptícia. E acompanhamos o desfiar de um rosário geográfico, paisagístico, histórico mas muito auto-biográfico. Profundamente auto-biográfico. Numa ligação estreita à terra e ao que se viveu mas também ao momento (daquele) presente: o Partido, as tarefas, os ideais.
“volto
a(o)
combate”
Mais uma afinidade. A dedicação, a entrega, a procura de dar o melhor pelos outros, por nós, pela sociedade nova que queremos construir. O percurso de revolucionário profissional que esta escrita intersectou.
O remate final das “última(s) palavra(s) de agora” devolvem-nos à paixão, ao amor, à dedicação, à admiração. Declaração de amor completa, profunda.
“a ti
mulher
de todas as faces do amor
doce.acesa.livre.
sofisticada.
de armas.
exemplar”
pg. 193
Este livro é, em si, um jardim, suspenso em sentimentos e factos da vida, enraizado na militância e na beleza. Um poema-jardim. À espera de ser vivido e partilhado.
A apresentadora não quer nem deve criar falsas imagens do que lê. Mas tem a sua leitura, a sua percepção, que decorre das suas experiências individuais e colectivas. E neste esforço de apresentação carregado de angústia mas também de alegria, termina com desejos: que leiam o livro, que sintam as palavras, que partilhem a emoção. Para finalizar, afirmo que é para mim um orgulho e um tremendo privilégio ter no meu currículo esta apresentação.
natacha amaro. setúbal.22.02.2014














