O Néctar do Sado
O sol de agosto em Setúbal, no ano de 2025, não era apenas uma fonte de luz; era um elemento sólido, uma massa de calor que cheirava a maresia, a gasóleo dos barcos de pesca e, sobretudo, ao óleo fervente das fritadeiras de choco. Na Avenida Luísa Todi, o coração pulsante da cidade, o mormaço instalava-se sobre as esplanadas como uma manta húmida, fazendo com que os turistas suassem em lugares onde nem sabiam que tinham glândulas sudoríparas. Mas no meio do caos de pratos de plástico, guardanapos de papel que voavam com a brisa do Sado e gritos de gaivotas oportunistas, havia um ponto de ordem. Havia Ganímedes.
Ganímedes — ou simplesmente "Gani" para os clientes habituais e para o dono do café, o Sr. Joaquim — não era um príncipe de Troia, pelo menos não daquela Troia cujas ruínas jaziam do outro lado do rio. Ele era o príncipe da "Pérola do Choco", uma esplanada estratégica situada exatamente onde o cheiro a sardinha assada se cruza com o perfume caro das lojas de marca. Gani tinha vinte e poucos anos e uma beleza que parecia um erro genético de tão perfeita. Tinha os caracóis dourados que pareciam esculpidos em manteiga de Azeitão, uns olhos da cor exata do Moscatel de Setúbal quando é visto contra a luz de outubro, e uma pele bronzeada pelo sol da Figueirinha, sem nunca descascar.
A sua função era humilde, mas ele exercia-a com uma dignidade olímpica. Gani era o "moço de balcão" mais requisitado da Península de Setúbal. Enquanto os seus colegas tropeçavam em carrinhos de bebé e se esqueciam de trazer o picante, Gani flutuava. Ele equilibrava tabuleiros carregados de imperiais geladas com a destreza de um trapezista do circo Cardinali. Quando ele passava entre as mesas, o tempo sofria uma dilatação estranha. Os reformados que discutiam o preço do peixe no Mercado do Livramento calavam-se subitamente; as senhoras que bebiam chá morno esqueciam-se da canela; e até os polícias municipais, conhecidos pela sua firmeza, hesitavam em passar multas de estacionamento se Gani estivesse por perto a sorrir enquanto servia um café curto.
O fenómeno era puramente estético, mas em Setúbal, a estética é política. Gani era o embaixador informal da cidade. Ele sabia que o segredo de uma boa imperial não estava apenas na pressão do barril, mas no ângulo em que o copo era entregue ao cliente. Ele sabia que um prato de choco frito, se não viesse acompanhado por um limão cortado com simetria matemática, era apenas comida; com ele, era uma oferenda sagrada.
No entanto, ser o mortal mais belo da margem sul tinha os seus desafios satíricos. O Sr. Joaquim, um homem cujo pescoço tinha sido substituído por uma prega de gordura endurecida por décadas de fritos, sabia que Gani era o seu melhor ativo financeiro. "Gani, limpa a mesa cinco! Estão lá umas suecas que já pediram três garrafas de vinho só para te verem a abrir o saca-rolhas!", gritava ele do balcão, com o suor a escorrer-lhe pela testa como se fosse o próprio Rio Sado a transbordar.
Gani obedecia sem reclamar. Havia nele uma mansidão que raiava o divino. Ele não tinha ambições de ser modelo no Instagram, embora tivesse seguidores suficientes para derrubar o servidor da Meta se decidisse publicar uma foto em tronco nu na Praia de Albarquel. Ele gostava daquela vida. Gostava do som metálico dos talheres, do burburinho constante das gentes, do eco do sino da Igreja de S. Julião e da visão constante da Serra da Arrábida, que se erguia no horizonte como uma barreira de esmeralda contra o resto do mundo.
Mas o verão de 2025 trazia algo diferente no ar. A gentrificação tinha chegado a Setúbal com a força de uma traineira desgovernada. Os novos habitantes, que compravam apartamentos renovados no centro histórico por preços que fariam um deus grego chorar, começavam a frequentar a "Pérola do Choco". Olhavam para Gani não apenas com admiração, mas com cobiça. Queriam levá-lo dali, transformá-lo num acessório de decoração para festas em coberturas de luxo ou num ícone de uma marca de chinelos sustentáveis.
Gani, porém, permanecia imune. Ele pertencia àquela calçada, àquele cheiro de rio misturado com lodo e esperança. O que ele não sabia — e o que ninguém naquela avenida movimentada poderia prever — é que a cobiça não vinha apenas de agentes de modelos ou de reformados ricos de Cascais. Alguém muito mais poderoso, alguém que observava o mundo através de binóculos de ouro a partir de uma suíte presidencial no Troia Design Hotel, tinha posto os olhos nele.
Lá em cima, num Olimpo improvisado com ar condicionado central e serviço de quartos de vinte e quatro horas, Zeus (que na Terra usava o pseudónimo de "Dr. Zé Vasconcelos", um consultor internacional de ética duvidosa) estava aborrecido. O néctar que lhe serviam no hotel sabia a conservantes. A ambrosia era apenas mousse de chocolate de pacote. Ele precisava de algo autêntico. Ele precisava do brilho que só o rapaz da "Pérola do Choco" possuía.
Enquanto Gani limpava uma mancha de ketchup de uma mesa de metal, o céu sobre o estuário começou a ganhar uma tonalidade dourada artificial, um filtro de Photoshop em tempo real que anunciava que a normalidade estava prestes a ser revogada por decreto divino. Gani olhou para o relógio; o seu turno estava quase a acabar. Mal sabia ele que o seu próximo turno duraria uma eternidade, e que o uniforme de avental seria em breve substituído por algo muito mais leve, mas infinitamente mais pesado de carregar.
A profecia da beleza estava prestes a cumprir-se sob o som ruidoso de uma águia que, naquele momento, sobrevoava o Montijo e ajustava os seus óculos de aviador para o mergulho final.
Eram precisamente dezasseis horas e quarenta e cinco minutos quando o tempo em Setúbal decidiu descarrilar. O microclima da Arrábida, habitualmente previsível nas suas brisas vespertinas, estagnou. Na esplanada da "Pérola do Choco", o ar tornou-se subitamente espesso, com uma densidade de xarope que tornava difícil até o ato de pedir uma bica cheia. Os clientes, mergulhados num torpor pós-prandial exacerbado pelo vinho da casa, não notaram imediatamente a sombra que se projetava sobre a estátua de Bocage.
Ganímedes estava a limpar a mesa sete — uma mesa difícil, ocupada por um grupo de turistas que insistia em comer as cascas das gambas — quando sentiu um arrepio na espinha que não vinha do ar condicionado. No horizonte, sobre o edifício da Segurança Social, o céu rasgou-se. Não era um rasgão de trovoada, mas uma distorção ótica, como se alguém tivesse aplicado um filtro de "Saturação Divina" sobre o azul do Sado.
Foi então que ela apareceu. Do topo do prédio mais alto da zona, uma silhueta desceu com a velocidade de um míssil de cruzeiro. À medida que se aproximava, a silhueta ganhava definição: era uma águia, sim, mas uma águia que parecia ter saído de um catálogo de moda hipster de luxo. Tinha uma envergadura de asa que cobria três faixas de rodagem da Avenida Luísa Todi e, fixos sobre o bico adunco e dourado, ostentava uns óculos de sol de aviador que refletiam, com uma nitidez perturbadora, toda a frente ribeirinha da cidade.
— Foge, Gani! É o fisco! — gritou o Sr. Joaquim, agitando um pano de cozinha gorduroso, convencido de que aquela ave de rapina era o novo drone de fiscalização da Autoridade Tributária.
Mas Gani não fugiu. Estava paralisado, não pelo medo, mas por uma súbita compreensão estética. A águia não cheirava a penas ou a animal selvagem; cheirava a um perfume caro de duty-free, uma mistura de âmbar, sândalo e poder absoluto. A ave aterrou com a leveza de um floco de neve sobre o balcão de metal, derrubando apenas um cinzeiro de plástico da Sagres.
O silêncio na avenida foi absoluto. Até as gaivotas, habitualmente as donas do pedaço e conhecidas pela sua agressividade sociopata, recuaram para cima dos telhados, observando a cena com um respeito que nunca tinham concedido a nenhum inspetor de pescas.
A águia olhou para Ganímedes. Por trás das lentes espelhadas dos óculos de sol, o jovem viu o cosmos. Viu galáxias a nascer, viu a queda de impérios e, inexplicavelmente, viu o resultado do Vitória de Setúbal para a próxima década. A ave soltou um grito que soou como um acorde de harpa distorcido por um amplificador de estádio.
— Ganímedes de Azeitão! — a voz não saía do bico da ave, mas parecia ressoar diretamente dentro do crânio do rapaz. — O Dr. Zé Vasconcelos tem uma proposta de emprego para ti. O estágio profissional acabou. Estás convocado para o Conselho de Administração do Universo.
Sem esperar por uma resposta ou por uma carta de recomendação, a águia cravou as suas garras de ouro nos suspensórios de cabedal do avental de Gani. Com um bater de asas que levantou uma nuvem de guardanapos e fez voar os chapéus de sol de cinco esplanadas vizinhas, a criatura elevou-se.
O rapto foi acompanhado por uma banda sonora improvisada de buzinas de carros presos no trânsito e gritos de "Ó senhor guarda, olhe o rapaz!". Ganímedes, suspenso a trinta metros de altura, viu a sua vida passar-lhe à frente dos olhos: os verões na Figueirinha, as noites na discoteca Absurdo, as bifanas no "Rei do Choco". Mas, à medida que subiam, a nostalgia era substituída por uma estranha euforia.
Sobrevoaram o Ferry-Boat, que parecia um brinquedo de banheira cortando as águas verdes do estuário. Os golfinhos roazes, os famosos residentes do Sado, saltaram em uníssono numa saudação coreografada que parecia retirada de um espetáculo de Las Vegas. Gani olhou para baixo e viu o Sr. Joaquim, minúsculo na Luísa Todi, a tentar anotar o número da matrícula da águia num bloco de pedidos.
— Para onde me levas? — perguntou Gani, enquanto o vento da Arrábida lhe despenteava os caracóis perfeitos. — Tenho o turno da noite! O Sr. Joaquim corta-me as pernas se eu faltar!
— O Sr. Joaquim agora é o menor dos teus problemas, ó rapaz — respondeu a águia, enquanto ajustava a rota em direção à Península de Troia. — Vais servir néctar que não vem em pacotes de cartão. Vais servir deuses que reclamam mais do que os turistas alemães, mas que pagam em imortalidade.
A águia Zeus (pois quem mais poderia ostentar tal arrogância aviária?) fez uma curva apertada sobre a Ponta do Adoxe. O destino não era o Monte Olimpo clássico, mas uma reinterpretação moderna do mesmo: uma cobertura triplex com piscina infinita no topo de uma das torres de Troia, um lugar onde o acesso era restrito a deuses, semideuses e detentores de contas offshore de alto gabarito.
À medida que desciam para o heliporto privado da cobertura, decorado com estátuas de mármore que piscavam o olho aos visitantes, Ganímedes percebeu que o seu mundo de imperiais e choco frito tinha acabado. Ele estava prestes a entrar num domínio onde a etiqueta era mortal e o vinho nunca acabava. A águia largou-o suavemente sobre um tapete persa que custava mais do que todo o stock de bebidas da "Pérola do Choco".
A ave sacudiu as penas e, num clarão de luz que cheirava a ozono e a loção pós-barba de luxo, transformou-se. Ali, diante de Gani, estava um homem de meia-idade, com um bronzeado de quem passa a vida em iates, vestindo uma camisa de seda aberta até ao terceiro botão e uma pulseira dourada que brilhava mais do que o sol de Setúbal.
— Bem-vindo a Troia, miúdo — disse Zeus, tirando os óculos de sol. — Deixa o avental na entrada. O néctar está no frigorífico inteligente e a Afrodite já se está a queixar que o copo dela está vazio. Começa o teu turno.
Ganímedes olhou para trás, para a linha do horizonte onde Setúbal ainda brilhava, pequena e barulhenta. O rapto estava concluído. A ascensão tinha começado. E, pela primeira vez na história da mitologia, o copeiro dos deuses estava preocupado se teria deixado o gás ligado na sua kitchenette no Bairro do Viso.
A transição de Ganímedes da esplanada da Luísa Todi para a cobertura triplex do "Olimpo-Troia" foi tão abrupta como uma mudança de canal num televisor avariado. Num minuto, ele estava a limpar o balcão com um pano que já tinha visto dias melhores; no outro, estava de pé sobre um mármore tão branco e polido que conseguia ver o reflexo do seu próprio espanto. O ar ali em cima era diferente. Não tinha o cheiro a escape dos autocarros da Carris Metropolitana; era filtrado, ionizado e perfumado com uma essência subtil de "Ouro e Arrogância".
Zeus — ou Dr. Zé Vasconcelos, para os efeitos do contrato de arrendamento — gesticulou para o horizonte.
— Tudo o que vês é teu, miúdo. Ou melhor, é meu, mas tu podes servir aqui.
O deus, agora com um roupão de seda que custava o PIB de uma pequena nação, conduziu Ganímedes até ao bar. Não era um bar comum. As garrafas não tinham rótulos; tinham selos de cera com símbolos antigos. O gelo não vinha de uma máquina barulhenta, mas era esculpido diretamente de glaciares esquecidos por ninfas de águas geladas.
— O teu trabalho é simples — explicou Zeus, enquanto servia a si próprio uma dose generosa de algo que brilhava como luz líquida. — Mantém os copos cheios. A Hebe, a minha filha, era uma miúda despachada, mas decidiu tornar-se influencer de "vida saudável" e agora só bebe sumos verdes e recusa-se a servir álcool aos tios. O Olimpo estava a secar, Gani. E os deuses com sede são... digamos que o último empregado acabou transformado num vaso de begónias.
Ganímedes engoliu em seco. A imortalidade, ao que parecia, vinha com uma cláusula de risco profissional elevada. Ele recebeu o seu novo uniforme: uma túnica de linho egípcio, cortada por um alfaiate italiano que provavelmente tinha vendido a alma a Hermes, e umas sandálias de couro que se ajustavam sozinhas aos seus pés. De repente, o seu avental da "Pérola do Choco" parecia uma relíquia de uma era primitiva.
A primeira tarefa de Gani foi servir o banquete daquela noite. Os deuses tinham começado a chegar para o "Troia Summer Festival", uma reunião anual que a imprensa local pensava ser apenas um encontro de magnatas das criptomoedas.
Ares foi o primeiro a reclamar. O deus da guerra, que na Terra se apresentava como um mercenário de elite reformado com tatuagens tribais e um temperamento explosivo, atirou o copo para o chão.
— Isto é néctar ou é sumo de pacote?! — rugiu ele. — Eu pedi néctar de 1945, o ano da vitória! E onde está o meu choco frito? Disseram-me que o novo copeiro era de Setúbal!
Gani, mantendo a calma que só anos a lidar com clientes bêbados na noite de S. Tiago podem conferir, sorriu o seu sorriso mais magnético.
— Senhor Ares, o néctar está a decantar. Entretanto, tome este Moscatel de Setúbal, reserva especial de 2025. É o único líquido na Terra que consegue apagar o fogo de uma batalha ou começar uma nova.
Ares bebeu, rosnou de satisfação e sentou-se. Ganímedes tinha passado o seu primeiro teste: a diplomacia do balcão.
No entanto, o verdadeiro perigo não vinha dos deuses barulhentos, mas da sombra silenciosa que observava tudo de uma cadeira de baloiço de design escandinavo junto à piscina infinita. Hera, a rainha dos deuses, não estava impressionada. Para aquela ocasião, ela tinha assumido a forma de uma baronesa europeia de idade indefinida, com um chapéu de abas largas, óculos escuros que custavam o preço de um T2 no Bonfim e um sotaque alemão que cortava como uma faca de peixe.
Ela odiava Ganímedes. Não porque ele fosse ineficiente, mas porque ele era demasiado perfeito. Ele era um lembrete vivo das escapadelas do marido e da sua preferência pela beleza mortal sobre a etiqueta divina.
— Serviço amador — sussurrou ela, quando Ganímedes lhe serviu uma taça de ambrosia com uma folha de hortelã da Arrábida. — Na minha época, os copeiros tinham pedigree. Este cheira a maré baixa e a trabalho honesto. Que horror.
Hera começou então a sua campanha de sabotagem passivo-agressiva. Ela não usava raios; usava a tecnologia moderna. Munida de um iPhone de ouro, ela passava o dia a publicar avaliações negativas em plataformas que só os deuses liam.
"O novo copeiro é lento", escrevia ela no DivinAdvisor. "A ambrosia estava morna e ele olhou para mim como se eu fosse uma turista alemã em busca de descontos. Não recomendo. Zero estrelas."
A pressão começou a aumentar. Ganímedes via-se a correr entre a cozinha industrial de alta tecnologia e o terraço, servindo Afrodite — que queria néctar com baixo teor calórico — e Poseidon, que tinha chegado diretamente do porto de Setúbal e exigia que a água da piscina fosse substituída por água salgada porque a sua pele estava a ficar "demasiado seca".
— Gani, traz-me um cinzeiro! — gritava Zeus.
— Gani, a minha toalha está húmida! — reclamava Apolo.
— Gani, o Wi-Fi do Olimpo não chega à zona das espreguiçadeiras! — queixava-se Hermes.
No meio deste caos divino, Ganímedes começou a sentir uma saudade estranha e dolorosa. Tinha saudades do Sr. Joaquim a gritar por causa de um prato partido. Tinha saudades do barulho dos carros na Luísa Todi e até das gaivotas que tentavam roubar comida. Ali, na imortalidade de Troia, tudo era perfeito demais, frio demais, e terrivelmente vigiado pelos olhos vingativos de Hera.
Certa noite, enquanto limpava as taças de cristal depois de uma orgia de néctar particularmente ruidosa, Ganímedes olhou para o outro lado do rio. As luzes de Setúbal brilhavam como pequenas brasas na escuridão. Ele era agora imortal, jovem para sempre e copeiro do criador do universo. Mas, enquanto Hera escrevia mais uma crítica negativa no seu blogue divino, Gani percebeu que a eternidade era muito tempo para passar a servir pessoas que nunca diziam "obrigado" e que se esqueciam de deixar gorjeta.
O que ele não sabia era que Hera estava a planear algo mais do que apenas más críticas. Ela tinha contactado a ASAE Divina. O estágio de Ganímedes estava prestes a tornar-se um problema cósmico, e Zeus, como sempre, estava demasiado ocupado a admirar o seu próprio reflexo na piscina para notar que a tempestade que se aproximava não era da sua autoria.
A rotura definitiva no Olimpo-Troia aconteceu na noite de S. Tiago, a data em que Setúbal se incendeia em feiras, carrosséis e o cheiro a sardinha assada atravessa o rio como um convite pecaminoso. Enquanto na margem norte a cidade celebrava a sua humanidade barulhenta, na cobertura do triplex de Zeus, a atmosfera era de um tédio cortante. Os deuses estavam na fase "melancólica" da imortalidade, aquela em que nem o néctar mais puro consegue disfarçar o facto de que já viram tudo o que havia para ver desde o Big Bang.
Ganímedes, porém, estava inquieto. Do seu posto de observação junto à piscina infinita, ele via os fogos-de-artifício subirem sobre o Auditório José Afonso. Ele sentia a falta da vibração do chão, do suor honesto de um turno de doze horas e da liberdade de poder mandar um cliente para o tártaro sem que isso causasse um incidente diplomático intergaláctico.
Hera, que não dormia nem deixava dormir, decidiu que aquela era a noite do golpe final. Disfarçada com um robe de seda de padrão de pavão, ela aproximou-se de Zeus, que tentava equilibrar um jarro de Moscatel na cabeça enquanto fazia um Live para o seu "InstaGod".
— Zé, querido — disse ela, com uma voz que soava a gelo picado. — O teu "achado" de Setúbal está a dar prejuízo. A ASAE Divina enviou-me um relatório. Ele não tem formação em higiene e segurança alimentar do Olimpo. Além disso, as críticas no TripAdvisor dizem que ele passa mais tempo a olhar para a margem de lá do que para as nossas taças. Ele quer voltar, Zé. Ele prefere o choco frito à nossa ambrosia.
Zeus, cujo ego era mais instável do que a economia mundial, sentiu uma pontada de ciúme divino.
— Preferir Setúbal ao meu triplex? — rugiu ele, fazendo com que o vinho no jarro transbordasse e criasse uma pequena tempestade sobre o porto de Setúbal. — Eu dei-lhe sandálias de couro italiano! Eu dei-lhe a imortalidade sem ele ter de pagar a taxa turística!
O deus levantou-se, transformando o seu robe em luz pura. O seu sotaque de consultor de luxo desapareceu, dando lugar à voz do trovão que faz tremer as fundações da Serra da Arrábida.
— Ganímedes! — gritou ele, fazendo com que todos os copos de cristal na cobertura estalassem. — Queres ser mortal de novo? Queres voltar para a mediocridade das gorjetas de dois euros e dos turnos de domingo?
Gani, que estava a polir uma taça de prata, olhou para o deus.
— Com todo o respeito, Dr. Zé... senhor Zeus... lá em baixo, as pessoas riem-se de verdade. Aqui em cima, vocês só se riem dos outros. Eu prefiro o barulho do Sado ao silêncio deste mármore.
A fúria de Zeus foi imediata, mas não foi a fúria da destruição; foi a fúria da posse. Se Ganímedes não queria ser o seu copeiro privado em Troia, seria o seu copeiro público para a eternidade.
— Se amas tanto essa cidade, então vais vigiá-la para sempre! — declarou Zeus. — Mas não como um homem. Vais ser o farol dos bêbados, o guia dos perdidos e o símbolo de que o copo nunca deve estar vazio!
Com um gesto largo, Zeus agarrou Ganímedes pelos ombros. O corpo do jovem começou a dissolver-se, não em cinzas, mas em fotões de alta intensidade. A túnica de linho transformou-se em plasma estelar; as sandálias de couro tornaram-se cometas. Num grito que foi confundido com o maior foguete da Feira de Sant'Iago, Ganímedes foi lançado para o firmamento.
Mas houve um erro de cálculo. Zeus tinha bebido demasiado licor de poejo e a sua pontaria divina estava afetada. Em vez de colocar Ganímedes na esfera das estrelas fixas, a milhões de anos-luz de distância, o rapaz ficou "preso" na atmosfera superior, mesmo por cima da cidade de Setúbal. A interferência magnética das antenas da operadora NOS e os vapores persistentes da zona industrial da Mitrena criaram um fenómeno surrealista: Ganímedes não se tornou uma constelação clássica composta por pontos de luz. Tornou-se um Holograma Cósmico Gigante.
Naquela noite, os setubalenses pararam. No céu noturno, entre a lua e o Castelo de São Filipe, apareceu a figura de um jovem de caracóis dourados, segurando um jarro de barro de Azeitão. De forma contínua e silenciosa, o vulto vertia um líquido âmbar que, ao cair, se transformava em poeira estelar antes de tocar nas águas do Sado.
A sátira final deu-se quando as agências de marketing perceberam o potencial da coisa. Em poucos dias, a imagem de Ganímedes no céu não era vista como um milagre religioso ou um fenómeno astrofísico, mas como a maior campanha de publicidade exterior da história de Portugal. A Câmara Municipal de Setúbal apressou-se a declarar a "Constelação do Moço do Balcão" como Património Imaterial da Humanidade, enquanto o Sr. Joaquim, na Luísa Todi, colocava uma placa na porta do restaurante: "Antiga Casa de Ganímedes — O Único Estabelecimento com Empregado no Espaço".
Hera, em Troia, sorria vitoriosa. Tinha-se livrado da presença do rapaz na sua cobertura, embora agora tivesse de fechar as cortinas todas as noites porque a luminosidade do holograma do ex-copeiro era de 500 mil lúmens, o que arruinava os seus banhos de lua.
E quanto a Ganímedes? Lá em cima, suspenso entre o oxigénio e o vácuo, ele descobriu que a eternidade era, afinal, bastante tolerável. Ele tinha a melhor vista do mundo. Ele via os pescadores saírem ao amanhecer, via os namorados trocarem promessas nas muralhas do forte e, acima de tudo, via que o seu jarro infinito parecia abençoar as vinhas da região. O vinho de Setúbal nunca soube tão bem como depois daquela noite.
Diz a lenda urbana que, em noites de nevoeiro cerrado, quando a estátua de Bocage parece ganhar vida, Ganímedes desce um pouco mais baixo, até ao nível dos telhados da Baixa de Setúbal. Nessas noites, se deixares um copo vazio no parapeito da janela, acordarás com um leve cheiro a néctar divino e a brisa marinha. Ele continua a ser o copeiro, mas agora serve a quem realmente tem sede: os mortais que, entre uma imperial e um prato de choco, ainda têm tempo para olhar para cima e sonhar com deuses que usam óculos de sol.
O mito de Ganímedes em Setúbal fechou-se assim: nem príncipe, nem escravo, mas uma marca registada no céu, lembrando a todos que, nesta cidade, até o rapto mais terrível pode acabar em festa, vinho e uma excelente vista sobre a Arrábida.











