Olha quem acaba de comprar seu ingresso para o parque de diversões Delphic! Ela mesma, 𝙎𝙄𝙀𝙍𝙍𝘼 𝙂𝙊𝙇𝘿𝙎𝙏𝙊𝙉𝙀, uma NEPHILIM que possui 24 ANOS. É de conhecimento geral que ela está matriculado em CIÊNCIA FORENTE na Universidade St. Patricks. Os mais próximos dizem que ela pode se mostrar manipuladora e determinada, mas o mais engraçado é a semelhança incrível com LÉA SEYDOUX .
❛ ࿐ 𝒃𝒊𝒐𝒈𝒓𝒂𝒇𝒊𝒂 —
I • PRÓLOGO
A Natureza é caótica — bela e intrinsecamente caótica. Quando o Altíssimo deu vida às suas forças fundamentais, sabia que com elas viriam consequências: terremotos, erupções vulcânicas, tempestades e furacões são provas gloriosas da fúria e violência que moldam a essência de nosso plano físico. Há uma revolta e verdade inerente aos aspectos que regem o universo que nem mesmo a perfeição d’Ele é capaz de apagar: para se haver ordem é necessário que se haja o caos.
Por bilênios anjos designados aos domínios elementais têm sido responsáveis pelas forças que fomentam o Universo. Distantes do maniqueísmo que rodeia crenças humanas e até mesmo celestiais, eles são como correntezas que seguem o fluxo dos cosmos. Orgulhosos, irrefreáveis — embora ainda extremamente fiéis a Yahweh. Antes de cair, o pai de Sierra Goldstone era um deles.
Araqiel — ou Arkas — carregava dentro de si a fúria primitiva da natureza em sua forma mais pura: se deleitava com a calmaria que precedia e então sucedia a tempestade, com os desastres naturais e a revolta do universo diante de estímulos espontâneos. Seu coração enchia-se de alegria com o eterno looping de ordem e caos que regava os detalhes do macrocosmo. Amava fazer parte dele. Quando seu patrono Gabriel lhe dava o poder para (ou melhor, lhe permitia) ser a matriz de grandes feitos na humanidade, ele não se importava porque, acima de tudo, aquilo era de sua essência.
Com o tempo, no entanto, suas ações foram cada vez mais minimizadas diante daquelas feitas por seres humanos: desastres ambientais acarretados pela ganância, ações descomedidas em busca de poder… eles estavam tornando-se a própria praga. Aceleravam cada vez mais o fluxo do caos. Tudo estava errado, destrutivo até.
Diante da imensidão de tudo aquilo, o anjo entristeceu-se e amargurou-se. Sua revolta e desejo por justiça começou pequena, mas sagaz: “O bater de asas de uma borboleta é capaz de causar um tufão do outro lado do mundo”, e foi assim que deu-se início a época em que seria chamado de Halaliel — o lorde do Karma. Tsunamis, ciclones que destroçavam centros urbanos, erupções que dizimavam cidades inteiras eram uma amostra sutil do que era capaz. Conhecendo as regras que regiam o planeta, por anos a fio a origem de seus feitos passou despercebida pelos Arcanjos. A cada dia que sucedia, porém, seus princípios e senso de justiça divina eram nublados por uma quase sádica ânsia por destruição. Foi quando a alcunha que lhe fora dada passou a correr em veneração pela boca dos humanos que Gabriel, por fim, arrancou suas asas e lhe deu a sentença do Expurgo.
Embora tivesse se tornado um Caído, não considerou se juntar à causa do Anjo Sombrio — conhecia Lúcifer o suficiente para saber que seus motivos eram e para sempre seriam regados a egoísmo. O objetivo de Arkas, agora, era encontrar uma forma de dar fim àquele ciclo de caos irredutível que atormentava a natureza humana. Após tantos milênios, não mais acreditava que seu Deus levantaria para o Juízo Final — desejava acabar com tudo ele mesmo. Para isso, precisaria encontrar uma forma de ir contra os Arcanjos. Para isso, precisaria encontrar uma forma de matá-los. Para isso, precisaria encontrar o Livro de Enoque.
II • APÓS A QUEDA
Suas buscas o levaram a conhecer Tatiana: uma enfermeira, estudante e praticante de Magia do Caos e, acima de tudo, nephilim. Já familiarizada com o mundo celestial, a mulher tinha na manga a amizade com um ofanim de nome Ahren — antigo protetor de sua mãe humana.
Em segredo dos Arcanjos, o anjo da guarda a guiava em sua busca atrás da mesma coisa que Arkas procurava: o Livro.
O objetivo do Caído era se aproximar o suficiente da nephilim para manipulá-la a fazer o juramento. Ela era ardilosa e incisiva. Arkas passara tempo demais caminhando entre os humanos para reconhecer suas facetas, então quando a mulher escolheu se juntar a ele (mesmo parecendo ser alertada pelos próprios sentidos e por Ahren) em uma busca por fins iguais, soube que seus olhos cristalinos escondiam algum esqueleto no armário. Isso, no entanto, não a impediu de desejá-lo e amá-lo nos meses que avançavam em sua caçada juntos. Também não impediu Arkas.
Tatiana carregava em seu íntimo o desejo por poder e conhecimento. Sabia que se fizesse o juramento, tornaria-se imortal — o que ela queria, desde o início, era exatamente o mesmo que ele. O que Araqiel não desvendou, no entanto, aquilo que ele não soube ler nas entrelinhas, seria o seu fim: a mulher desejava não apenas tornar-se imortal, mas também queimar sua pena para que pudesse aproveitar da imortalidade sem estar presa a um juramento. Só que os planos foram mudando, as intenções também… ambos agora se amavam e zelavam um pelo outro. Até que, após o juramento, tudo estourou. Foi quando a nephilim soube de fato o que Araqiel planejava para o futuro da humanidade que tomou sua decisão: não podia permitir que seu amado continuasse caminhando pela terra. Não agora que carregava uma criança em seu ventre. Queimou a pena.
Embora o anjo caído nunca tenha descoberto sobre o fruto que havia gerado, Tatiana enxergava o risco que a criança corria só pelo azar de ter nascido em seu ventre. Araqiel não era uma criatura sem conexões; ele representava uma causa na terra, detinha de um propósito, aliados e inimigos. E agora estava aprisionado e queimando no Inferno. Alguém, alguém daria um jeito de achá-la procurando por respostas. Ela não podia correr o risco de permanecer com Sierra. Então fez sua escolha: aos seis meses de vida Sierra Goldstone era deixada aos cuidados do orfanato St. Philomena. Um pedido para que Ahren, de agora em diante, zelasse por sua segurança foi atendido.
III • SIERRA
Crescer sem nenhuma figura parental é um processo doloroso e solitário, principalmente quando a criança em questão parece incapaz de criar laços e conexão com qualquer coisa que não fossem animais e plantas. Por muito tempo, conforme os cachos dourados de Sierra ondulavam pelos corredores frios do orfanato, as irmãs da igreja pesavam a possibilidade de sua indiferença gélida ser um desvio mental patológico — algo com o qual precisavam se preocupar dentro da casa de Deus —, mas a chegada súbita de uma garotinha chamada Isis e o despertar de uma alegria genuína nas feições antes mórbidas da nephilim foi o suficiente para acalmar os nervos das mulheres.
À medida que os anos corriam, Sierra sempre ao lado de Isis aprendia a moldar-se e enfrentar os desafios diários que residiam entre as paredes de St. Philomena, pois nem mesmo a casa do senhor parecia livre dos pecados que rodeiam os humanos. Sua nova amiga era como um anjinho em sua vida: entendia e apreciava como ninguém seus gostos peculiares, só que o mais curioso, era que conforme Sierra crescia, a garotinha parecia deter de segredos que mais ninguém compreendia sobre o mundo da angeologia. Entre risinhos e sussurros em quartos e áreas escondidas no jardim do instituto, pouco a pouco lhe era apresentado contos sobre o armagedom, arcanjos e nephilins.
Ahren primeiro veio como Isis: permaneceu por um longo, longo tempo no orfanato antes de partir. Então, anos depois, manifestava-se como uma mulher com quem Sierra conversava em suas idas à igreja. Em todas as vezes, Ahren revelava sua identidade e fazia algum pequeno ato celestial como prova de que dizia a verdade. O ofanim previa que caso um dia ousasse seguir outro caminho, Sierra ainda descobriria a verdade sobre o que espreitava das sombras de seu mundo — e na guerra que culminava aos poucos, inocência não tinha perdão.
De tudo o que aprendeu entre os variados diálogos com Ahren, o fato de nephilins não possuírem anjos da guarda era o que às vezes chamava-lhe a atenção. Quando o questionamento se agitava em meio aos seus pensamentos, ela os retraía de imediato, pois algo dentro de si sabia e sussurrava, bem baixinho, que ali existia uma ligação com sua origem. E se fosse assim, ela preferia não saber. Olhar para trás jamais estaria nos seus planos.
Pronta para atingir a maioridade, Sierra não mais se surpreendia com as pequenas ocasionalidades do mundo celestial; tampouco quando Ahren vinha a revelar-se em um novo corpo. Mas existiu um episódio fora dessa curva. Quando um anjo caído cruzou seu caminho e quis forçá-la a jurar lealdade, foi difícil esconder o espanto e admiração assim que o ofanim, dessa vez em sua forma infantil e angelical, apanhou o inimigo ao brandar uma espada flamejante. Agradecia imensamente por tê-lo quase sempre por perto, mas ali entendeu a importância de proteger-se em uma cidade como Coldwater.
Com os sentidos e habilidades nephilim despertados, agora tanto a sagacidade silenciosa que espreitava o olhar de Sierra quanto a defesa ensinada por Ahren tornariam-se armas essenciais para se guardar e usar naquele olho do furacão.
Um pequeno apartamento em Sleigh Ville sustentado por seu trabalho no cemitério já lhe era suficiente quando ingressou na St. Patricks. Agente funerária e estudante de ciência forense. Não é incomum ver moradores do complexo cochichando sobre a estranheza da introspectiva garota que, de semana a semana, parecia dar luz a mariposas de diferentes cores que voavam por sua janela — isso quando não estava organizando velórios, estudando ou investigando e analisando a presença de potenciais anjos caídos e nephilins naquele pandemônio silencioso que era Coldwater.
❛ ࿐ 𝒂𝒓𝒔𝒆𝒏𝒂𝒍 —
Por enquanto, nenhum.















