Pedro, eu vou te escrever outra carta e, como as anteriores, será boba, inútil, chata. Hoje é segunda-feira, mês de agosto. Tô na aula de história do Brasil. Ontem o domingo foi mais do que péssimo, e o dia de hoje já teve várias dores (não só minhas). Você acha mesmo que eu nunca vou ser feliz? Você é igual ao resto que acha que eu não tento? Um gato subiu em meu colo e pediu carinho, meu pai voltou pra casa bêbado mais uma vez, seu pai foi grosso com sua irmã e comigo, mas, dessa vez, eu me segurei para não falar nenhum desaforo. Essa gente grande se vê no direito de nos falar absurdez e ainda temos que ser maduros o suficiente para não falar nada. Tive sonhos /nojentos/, Pedro, não quero nem te contar. As imagens passeiam pela minha cabeça como uma espécie de tortura, sendo que dias já se passaram. Ah, olha só, acharam que você era meu irmão. Sabe o garoto que tava dando em cima de você? Então..., hoje ele me deu um beijo, segurou meu rosto entre as mãos e disse que eu era muito fofa; depois, ele disse que isso era de família. Porra, eu fiquei extremamente chocada. Alguém te acha fofo, isso é uma novidade para mim. Eu comentei com minha amiga: "Pedro é /muito/ frio, ele não é nem um pouco fofo". Eu deveria ter falado direito: "Pedro é /muito/ frio com os outros, quase ninguém conhece seu lado fofo". Eu sei a verdade e quero acreditar nela por tudo no mundo, mas, às vezes, parece que é mentira, entende? Ah, deixa, acho que você nunca me entende mesmo. Agora eu já tô no ônibus voltando pra casa. Sentei onde bate muito sol. Tô na Casa do Comércio, The Smiths acabou de tocar em meus ouvidos, agora Legião Urbana. Lembra quando você veio me falar, todo animado, para eu assistir As Vantagens de Ser Invisível, porque o Charlie era muito parecido comigo? Eu disse que "não, claro que não, já vi esse filme, a gente não se parece". "Se parecem, sim! Os dois escrevem e você ainda gosta de The Smiths!!!". Ora, Pedro, /tanta/ gente escreve e gosta de The Smiths... Bom, mas aí, você me mandou assistir de novo com outro olhar, e eu fiz isso, e chorei em todas as outras 20 vezes. São tantas feridas que são cutucadas... Não sei se é alguma coisa do destino e/ou universo, mas começou Asleep e eu não sei mais de nada. Sei que amo você e sinto falta da sua voz fina feminina e sinto falta de nossas risadas juntas. Sinto falta até de chorar por você. Sempre vou escrever, Luiza.