Há algum tempo já não saio de casa. Não vejo o mundo, não sinto o chão. Não ouço palavras e nem sinto a pele. Com o tempo, você começa a esquecer como é sentir qualquer coisa além da saudade. Aperta o peito, dói os olhos, a respiração falha. O engraçado é que a última coisa que sinto é que estou em casa. Há algum tempo falo sobre não sentir ter um lar, e agora, é tudo o que tenho, ficar só. Há muito tempo não escrevo. Disso também me esqueci. Saudade não escreve bons textos. Insuficiência. De todos os textos que comecei, em poucos cheguei até o fim. A gente tem uma mania boba de querer que tudo seja do nosso jeito. Mas nada é. Estranho que eu não me lembro mais como é sentir estar viva. Pouca coisa faz sentido se a gente olhar de perto. A última coisa que eu queria era estar triste, mas as coisas são tão difíceis... Há algum tempo já não encontro o caminho para casa. Não vejo nada, a visão embaça, e o tato se esvai, o paladar, a risada, o olhar. A memória trai o tempo todo. Já não me lembro tanto das coisas boas. Quando a memória trai, é meu dever me vingar. Mergulhar, imaginar, ampliar. Dar voz ao que não ouço há muito tempo. Nadar contra o vazio, seguir pelo caminho mais difícil. A gente se acostuma a não sentir a ponta dos dedos quando faz frio. Há algum tempo faz frio sem parar. Isso tudo vai acabar um dia, e eu vou querer ter sentido o sol na pele mais uma vez.
29/05/20












