Ela era linda , alta , loira e tinha um grupo de amigos. Ele era gordo,estava numa jaula e tinha um espaço pequeno pra viver. Estávamos na terceira série numa escola da grande SP, alunos por volta de dez anos de idade e em breve começaríamos a pré-adolescência.
A menina tinha pais ricos, era a favorita da escola, a escolhida da sala e queria legitimar sua hoste de amigas. Ele era um elefante transferido do circo para o zoológico e sonhava em fugir dali. Para fazer parte de sua turma de amigas, a moça decidiu, cada uma de nós terá um crachá com seu nome e só quem tiver o crachá será minha amiga e fará parte do grupo, vamos passear e brincar juntas. Ele chamou os animais do zoo para uma assembleia, queria saber quem gostaria de viver na floresta, montaram um plano e queriam fugir.
Nessa história, Eu estava em dois lados, o daquela que sonhava em fazer parte do grupo, mas não era lida como suficiente para fazer parte do grupo e ao mesmo tempo anotava a história ditada da professora que muito me intrigava e me incomoda até hoje. Aquela história era especial pra mim e ficou guardada na memória porque me identificava com o elefante, mesmo sendo magrinha e caindo bastante naquela época.
Olhando pra trás percebo que me identificava com a história, porque naquela época já ouvia histórias das colegas que diziam ter passado pela menarca e eu sabia que nunca poderia passar por não ter condições físicas para menstruar , já que meu estado intersexual não permite essa manifestação tão comum do corpo feminino no meu corpo. O que muitas mulheres chamam de benção para mim fazia-me sentir triste e incompleta. Sonhava com um mundo isso para mim , não fosse doloroso, assim como o elefante que junto com seus amigos, um dia foram graças ao seus plano viver na liberdade da floresta, Eu também queria encontrar o meu lugar no mundo, sentir parte de algo.
Ontem, recebi um comentário de uma pessoa que se sentia só como eu sendo intersexo. Ela achava que estava sozinha, assim como eu, até encontrar outros intersexuais no facebook e perceber nas suas histórias semelhanças, questionamentos, amizade e carinho. Não nascemos homens, nem mulheres e mesmo sendo “normalizados” sentimo-nos indefinidos e sem iguais, mas a resposta ao meu texto mostra o quanto somos ainda invisíveis e desamparados.
Apesar disso, vejo hoje que faço parte de um grupo que ainda precisa ser reconhecido e ver suas lutas tornarem-se realidade em meio a nossa sociedade. Nossa condição biológica pode ser chocante, não somos parte da binariedade,ao nascermos não nos deram um crachá, mas ele chegou depois sem nos perguntar se queríamos. Ao descobrirmos nossa condição passamos a nos questionar e lutar para incomodar o padrão binormativo de gênero até porque somos uma “transgressão” da própria natureza ao padrão social estabelecido. Queremos ser vistos , ouvidos e nossas pautas reconhecidas. Creio que um dia isso ainda será possível e que o objetivo deste blog de fazer o intersexo discutido e conhecido , irmanando os indivíduos na mesma condição será real.
Estamos só começando e queremos lembrar que :
INTERSEXOS EXISTEM E RESISTEM!!!