Diário do copo meio cheio
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Diz uma amiga que costumo olhar mais o copo meio vazio do que meio cheio. Resolvi então fazer um relato do copo meio cheio hoje pra você que me lê e pra mim que aqui escrevo. Essa é uma nota mental compartilhada com todos meus leitores. Vamos aos fatos:
- Decidi que eu tinha direito a ser feliz: Em 3 de agosto de 2015, resolvi que mesmo que a família e a igreja dizendo que não seria possível tentaria encontrar um amor, ter uma relação amorosa, sexual. Isso ainda não aconteceu, mas foi o start pra todo um processo de mudanças nos últimos 2 anos.
-Decidi correr atrás da minha história: Depois de passar a infância , adolescência e parte da vida adulta desconfiando que minha mãe tinha segredos sobre meu passado, um documento deu a luz e o resto vocês já sabem. Hoje sei que sou intersexo, fui operado e hoje tento recompor e recomeçar a minha história. Não tem sido fácil, mas ando lutando.
- Decidi sair da igreja: Vivi uma vida de castração durante os 33 anos que vivi na igreja evangélica. Essa vivência me marcou, fez feridas enormes, mas me fez conhecer pessoas legais lá dentro que como eu tentam sair da caixa, o que não é nada fácil. Estou hoje num processo de reconstrução da minha espiritualidade, não por osmose, mas por experiência, reflexão, tentativa e erro. Ainda vai demorar para sarar as feridas abertas pela religião, mas sigo tentando não perder a fé de que o universo tem um alter que o coordena, mas que não deseja interferir em nossa vida.
-Estou em processo de reconstrução de identidade: Essa tem sido a parte mais dura de tudo até agora e um embate diário. Vivi anos da minha vida tentando usar máscaras para agradar pais e amigos e seguindo essa fórmula acabei perdendo minha real identidade. Não sei quem sou, não sei do que gosto ou do que realmente penso e tenho como valores, pois o medo de perder quem me rodeia fez com que eu assumisse máscaras que permitissem que essas pessoas ficassem e não saíssem. Muitos se foram, poucos ficaram, a convivência familiar piorou, farpas pra todo o lado. Resolvi recomeçar do 0 e dar um tempo da família até ter forças suficientes para enfrenta-los.A dor é de parto que laceia o ventre pra uma vida nova nascer e ela nascerá e espero me encontrar.
Tornei-me Ativista Intersexo e LGBT: Essa tem sido uma das partes mais lindas e prazerosas dessa jornada. Lutar por um mundo mais plural e justo sempre foi meu ideal. Ao descobrir a minha condição e o que foi feito comigo e outras milhares de crianças, resolvi abraçar a causa por mim e por elas. O futuro não pode pertencer a uma sociedade com um olhar bifurcardo, o plural precisa ser reconhecido como natural. Cirurgias cosméticas e compulsórias precisam ser proibidas e a condição intersexo precisa sair da sombra pra que pessoas como Eu que sempre se sentiram fora da norma e sozinhos possam estar juntes, se abraçando , se conectando e lutando pra que crianças hoje e amanhã não passem pela dor que nós passamos hoje. Além disso, a população LGBT precisa ter sua liberdade e seus direitos garantidos e é contra o estupro corretivo, a bifobia, lesbofobia e transfobia que decidi também lutar. Sociedade não tem padrão, robôs tem. Pelo direito a humanidade plural respeitada , Eu Luto. Sou um grãozinho nesse mundão de areia, mas se eu puder fazer alguma diferença , já me sentirei feliz. Apresentei o lado meio cheio do copo hoje, acho que dá pra tomar um café ou uma cerveja pra comemorar. Vocês que me acompanham na vida e no facebook sabem do lado vazio do meu copo e meu desejo é que eu possa olhar pro meio cheio do copo da vida mais vezes. Termino meu post com uma pergunta pra vocês? Qual o lado meio cheio do copo de vocês. saberiam dizer? Vamos espalhar amor-próprio e desembaçar o olhar da vida hoje? Comente aqui ou compartilhe seu lado meio cheio do copo com quem você quiser e assim quem sabe você faz o dia de alguma mais feliz, senão o seu próprio.















