Moda sustentável não existe (não sem a sua ajuda)
Comecei bem caça-clique mesmo. Como é que uma pessoa que escreve essa tumblr sobre o assunto há 2 anos e tem uma empresa de serviços para moda sustentável diz isso?
Não foi um acesso de loucura ou de decepção com a área. Só acho que devo uma satisfação (provavelmente pra mim mesma) sobre essa história.
Nos eventos que eu promovo, estou adotando um sistema de selos de sustentabilidade, são 5 eixos: VEGAN/ ARTESANAL/ LOCAL/ SOCIAL/ ECO. Esses selos não são certificações oficiais, a metodologia é principalmente a autodeclaração e uma investigação preliminar na comunicação da empresa. Como a maioria das marcas que eu convido pra participar é de gente conhecida ou que eu passo a conhecer com o evento, existe uma relação de confiança, mas eu não vou nos ateliês conferir se tem alguma costureira presa no porão.
Então por que os selos? Porque eu acho que o consumidor merece saber que aquela marca está se propondo a atingir o status de sustentável, mesmo que não esteja 100% lá ainda. Algumas estão quase lá, outras precisam fazer alguns ajustes, mas muitos fatores influenciam nessa jornada. O tipo de produto, a técnica, o acesso a materiais e tecnologias, Recife ainda está muito longe de ser uma capital da moda. Tudo isso piora de acordo com o porte da empresa, como só trabalhamos com microempreendedores, a sua produção é sempre em pequena escala, o que eleva os custos de tudo! O consumidor tem uma tendência a se preocupar apenas com a sustentabilidade do seu próprio bolso e esquece que toda essa cadeia precisa de incentivo.
O que a gente chama de sustentabilidade é um tripé AMBIENTAL - SOCIAL - ECONÔMICA, portanto, se um desses aspectos falha, todo o sistema se torna insustentável. Quando eu falei no título sensacionalista que NÃO EXISTE MODA SUSTENTÁVEL é no sentido que esse equilíbrio é dificílimo de atingir só com a ação da empresa, pois quem garante a sustentabilidade econômica é o mercado.
Outro empecilho pra atingir uma moda verdadeiramente sustentável (não o greenwashing ou marketing verde que a gente vê por aí) é o volume. Lembra no outro parágrafo quando eu falei que as pequenas marcas não podem produzir em grande escala, o que aumenta o custo? O problema das grandes marcas é o oposto, elas precisam produzir em grande escala pra manter baixos custos, mesmo que usem os materiais mais “ecológicos”, gerem empregos “dignos”, esse volume não vai ser absorvido em sua totalidade, virando resíduo.
Notaram as aspas nos materiais “ecológicos”? É porque não é simples assim! Existem fibras biodegradáveis, mas elas ainda têm uma pegada de água e energia considerável e são de difícil acesso. As fibras naturais usam terra e água, as orgânicas precisam de ainda mais água que as geneticamente modificadas e cultivadas com agrotóxicos. As fibras sintéticas derivadas do petróleo usam pouca água, mas consomem muita energia e demoram décadas, às vezes séculos pra se degradarem no ambiente. E se você optar pelo upcycling, tem a questão das microfibras que aumentam na lavagem de peças mais antigas…
Então a gente desiste e volta pras blusinhas de R$10? Não! Esse textão foi só pra dizer que vale a pena investir nas pequenas marcas locais e que a verdadeira moda sustentável só existe com uma mudança de atitude do consumidor. Não adianta comprar mil peças de algodão orgânico na H&M, por exemplo. Mas, caso você precise e ache que faz sentido, passa lá no Mercado Ourela - dia 02/07 no Marco Pernambucano da Moda pra a gente começar a mudança. Aos poucos, devagar e sempre, sem fórmula mágica.
Originalmente publicado por jet-grind