A convivência com meus avós maternos fez com que eu desenvolvesse um padrão muito alto para admirar alguém. Não que eles não tivessem defeitos — tinham, e os do meu avô eram até mais fáceis de apontar: hiperfoco obsessivo, cheio de dar opinião sobre a vida dos filhos, colecionista. Nada grave. Só na vida adulta tive noção de que o que sentia por eles não era motivado apenas pelo laço de sangue; entendi que não encontraria pessoas assim tão facilmente, que foi um privilégio.
Eles eram pobres, mas, ainda assim, meu avô estava convicto de que cultura era importante e fez algo incomum para os homens da época: deu prioridade ao estudo das filhas, “pra nunca serem submissas e sofrer na mão de marido”. Trabalhou muito por isso. Ele não era progressista; era justo. Quando minha mãe casou grávida de mim, ele ficou muito decepcionado e não foi ao casamento. O desgosto maior foi ouvir meu pai gritando com ela e com a gente sempre que passava pela nossa rua, confirmando seus receios. O horror dele quando soube que meu pai não gostava que eu ficasse “só desenhando” e que me batia… Enxergar o quanto ele se sentiu impotente para me tirar daquela situação reverberou em mim como uma dor ainda maior que a minha.
Minha avó era de outro mundo. Nada do que se poderia esperar de uma senhorinha de interior: alheia à religião, desinteressada em fofoca, cuidava de animais de rua e de pessoas nessa mesma condição. Ela não era “boazinha”, não passava essa impressão exatamente, mas carregava um tipo de distinção que fazia qualquer um ficar desconcertado por não ser capaz de tanta empatia quanto ela. Algo nessa postura parecia menos emocional e mais racional, como se fizesse o resto de nós — meros mortais — compreender que a vida humana carecia de sentido se não estivéssemos dispostos a cuidar uns dos outros. Ela era semianalfabeta, mas poderia costurar para uma boutique. Gênia na arte de criar moldes. Uma vez eu estava sentada com ela no sofá, eu lendo e ela assistindo ao jornal, quando começou uma reportagem sobre as travestis e a violência que um grupo havia sofrido. Ela fez um comentário que nunca esqueci: “coitado deles (sim, ela usou o pronome masculino), né, imagina a dificuldade que é pra essas pessoas arrumarem um emprego”.
Meu padrão é muito alto porque tive referências dos melhores da nossa espécie. Na minha constante revolta com outros seres humanos, tive que escutar da minha mãe, uma vez, que nem todo mundo era como meus avós; que aquilo, na verdade, era muito raro e que tive contato com uma amostragem distorcida. Eu mesma me pareço muito mais com minha avó paterna: sagaz, cronicamente irritada, misantropa, bem-vestida e capaz de dar uma facada em alguém (e ela o fez).
Meus avós guardavam meus desenhos, mas os entregaram aos meus pais, que tinham o maior descaso, e quase nenhum chegou às minhas mãos. Meu avô, fissurado em pássaros, me fez desenhar um pica-pau usando apenas a descrição dele e uma observação de relance, a uns 70 metros de distância, à qual tive acesso. Eu só conseguia pensar no do desenho animado.