Quando Otávio me bateu à porta, às dez horas da noite, eu tinha um livro diante mim. Não lia. À cólera, que me agitava durante toda a tarde, sucedera uma grande prostração. Parecia-me sem remédio a minha desgraça, depois daquela certeza, daquela terrível certeza.
Uma enfermidade havia me afetado há semanas e tomando todo o meu ócio, tomou minha paciência também. Em um dado momento desejei ser levado por Eros às graças do Olimpo, para encontrar enfim sublimidade e amor.
Em um dado momento da minha agonia, deixar esta vida; todavia, ainda não estava pronto para partir, pleo menos não antes de me despedir de Marisa. Eu necessitava dizer a ela que iria embora e amei-a em todos os sentidos que a palavra pode admitir.
-Trouxe o veneno. - disse meu amigo.
-Ainda não escrevi a carta a ela. - os olhos de Otávio assumiram demasiada languidez.
-Vou deixar o veneno aqui, então. - ele pôs o frasco sobre a minha escrivaninha e virou-se para partir.
-Não - exclamei, segurando-o pelo braço.
Ele se voltou para mim, lenta e descontentamente.
-Preciso de ti - engoli em seco -, pois não consigo matar-me a sangue frio.
-Então, por que queres tanto isto? - uma resposta se formou na em minha garganta, mas lá ela ficou.
-Por favor. - sussurrei por fim.
Rapidamente, escrevi uma carta que já pensara enquanto encarava o livro. No fim desta, ao lado de minha assinatura , caiu uma lágrima.
-Está pronta a carta. - disse com um último suspiro.
Meu caro amigo de infância tomou a carta em sua mão destra, de maneira um tanto grossa. Lentamente, eu aproximei o veneno de Romeu e Julieta de mim, levantei-me e encarei Otávio; ambos estávamos choros. Olhei para o veneno uma última vez, antes de virá-lo de uma vez pela goela abaixo.
Após cair, enebriado, por causa do veneno, lembro-me do mundo girando, do grito e lágrimas de desespero de Otávio e, no fim, seus lábios bebendo o veneno dos meus.