Ele cortou a carne meticulosamente.
O pedaço ainda cru, vermelho, brilhava. Ao entrar em contato com a faca afiada, o sangue escorreu pela tábua. Ele tomou um cuidado extra cortando as grossas fatias, sabendo que sua impecável camisa branca estaria arruinada se uma única gota ali pousasse.
Um corte final, e era hora de temperar. Nada muito diferente, já que ele não usava muitas especiarias, sabendo que isso poderia estragar o sabor original.
Um pouco de sal, um pouco de pimenta, uma pitada de páprica, manjericão para acentuar ainda mais o gosto. A elegância dos pratos, da casa, da vestimenta, dele próprio... Tudo parecia quase absurdo quando contrastados com uma maneira tão simples de cozinhar – ou assim pensaria qualquer um que o visse cozinhando.
Feito isso, era preciso deixar a carne respirar por um tempo. A ironia da frase quase arrancou dele um riso áspero.
Mas era necessário manter-se por perto, por medo de que uma mosca indesejável aparecesse e tomasse conta de seu jantar. Então ele pegou a taça do outro lado do balcão.
O olfato apurado fez com que um arrepio subisse por sua espinha. A carne podia demorar um pouco; o vinho, por outro lado, estava no ponto certo.
Um gole curto.
Ele deixou o líquido passear por sua língua, tomar conta dos seus sentidos aos poucos. Ao engolir, não pode deixar de abrir um leve sorriso.
Não só os sabores dos jantares eram sempre únicos; assim acontecia, também, com o vinho.
Nove gotas de sangue eram o suficiente – nem muito, a ponto de estragar a bebida, e nem tão pouco, a ponto de ser apenas mais uma bebida entre tantas outras.
Seu olhar perdeu-se enquanto admirava a bela peça em sua frente. A coxa sempre fora uma das partes mais saborosas.
A idéia divertiu-o por um momento.
Morcegos.
Ah, estes eram pontuais em sua vida - década após década.
Ele ainda lembra de temê-los quando criança. Na pequena casa, no topo da colina, quando o clima estava úmido e abafado, muitos deles costumavam sobrevoar o lugar. Sua irmã contava todos os tipos de histórias no intuito de assustá-lo – e o fez muito bem. Ele sempre corria ao ver um dos animais voando ao redor, com medo de que este poderia drenar todo o seu sangue, até que ele caísse, seco, no chão.
Uma fantasia para enganar tolos (não muito diferente da que ele vivia todos os dias).
Virou as fatias ao contrário, sem prestar muita atenção.
Na adolescência, o medo cedeu espaço para a admiração. Dentre tantos heróis, o fascinava a idéia de um homem socialmente aceito como bom se deixar ser temido por algo ainda mais horrendo. Talvez porque eles fossem tão opostos. Talvez, em um breve momento, o jovem tenha imaginado que havia uma forma de reverter tudo: de morcego, virar homem. De monstro, virar humano.
Ele bebeu mais um pouco do vinho, deliciando-se com a nota metálica que transformava um vinho qualquer em uma bebida de deuses.
Já adulto, deixou de venerar a figura do morcego: passou a desejá-lo. De todos os livros que lera quando ainda era moço, jamais imaginou que, numa noite de inverno, era ele quem estaria em uma bela casa, provando sangue ainda fresco, enquanto sentia o cheiro de carne humana inundando seu ser.
Ainda assim, lembrava da época que as janelas ficavam abertas, e seu imaginário era tomado por idéias ensandecidas de um alguém em seu quarto, em uma madrugada quente. Ele queria que ele estivesse lá. Que o tomasse por inteiro, que o bebesse até o fim, que lhe presenteasse com o dom da imortalidade.
Hoje ele bebia o sangue, sabendo que isso não estenderia sua vida – se descobrissem, talvez até a encurtassem.
Colocou os pedaços na forma, ajeitando-os com perfeição.
Empanados, perderiam sua consistência. Fritos, perderiam o requinte. No forno ficaria estupendo.
Até há poucos anos, a luxúria deu espaço ao ódio. Morcego, vampiro, criatura das trevas – quem o animal imundo pensava que era? Não era nada. Era apenas mais um, camuflando-se nas noites escuras. Qualquer mito era mentira, e que vida miserável seria a de um ser que não é o que aparenta, que nem mesmo é tido como o que realmente é: uma piada modificada… tal como o próprio homem.
O cheiro começou a tomar conta de seus pulmões, e ele deu um último gole no vinho.
Mas hoje… Hoje era diferente.
Hoje, já mais maduro e envelhecido, com alguns cabelos brancos tingindo sua visão, ele era o morcego. Ele era o vampiro. Ele era o que todos julgavam conhecer, mas ninguém conhecia – com a exceção de uma pessoa.
Ele, agora, entendia o animal (incompreendido, talvez?). Ele lutava para sobreviver, ainda que ninguém visse. Ele era um predador, e podia ser altamente perigoso para as suas presas, sendo elas frutas, insetos, ou humanos. Porém, reconhecia que outros também tinham a habilidade de caçar. A verdade sobre os morcegos é que eles eram mais inteligentes, mais sábios, e tentavam não se deixar serem pegos. Assim como ele – um predador nato, que acreditava que jamais seria capturado.
- O cheiro está muito bom! Qual parte dele você usou?
Ele foi acordado de seu devaneio, deixando o olhar vagar até a sala.
Numa cadeira de veludo verde escuro, ofuscado pelo brilho da lareira ao fundo, um par de olhos azuis o olhava intrigado; de todos os sabores únicos, e olhos únicos, e coxas únicas, o jovem por inteiro, dentro e fora, era, acima de tudo (e de todos), único no mundo. Realmente um espécime raro.
- Coxa. - Ele sorri. - Achei que seria o mais ideal para uma noite fria como essa.
E aquele moço (que, ele sabia, seria seu fim), sentado ali, fitando-o com um sorriso jovial e conturbado nos lábios, era o verdadeiro predador.
E ele já não se importava em ser uma presa.