Com um golpe de martelo na mandíbula, Leonard iria sentir aquilo por semanas, mas não conseguiria lembrar de onde vinha aquela dor. Enquanto estava consciente de tudo o que estava acontecendo naqueles poucos instantes antes de vir a amnésia de memórias recentes, teve foco para segurar o braço de Oh Dae-su antes de levar mais uma martelada. Desta vez, direto no olho. Torceu o braço do sujeito que gritou com um som estranho. Não era um grito qualquer. Parecia que estava faltando alguma coisa para o som parecer realmente humano. Um gordo com tetas enormes arranca o martelo da mão daquele oriental maluco e grita “Isso não pode!”. Oh Dae-su não interrompe seu urro descomunal para dar uma joelhada no abdômen de Leonard. Ele se curva sentindo o impacto em algum lugar entre o baço e o pâncreas. Com o rosto voltado para o chão, Leonard vê uma meia dúzia de fotos polaroid. No meio de uma luta, não havia como entender mais o que elas significavam. Ele sabia que tinha algo a ver com vingança. Sua mulher foi morta. Ele precisava se vingar. Era natural. É o que homens fazem. Mas ele não lembrava. Alguém ali no porão do bar do Moe chamava ele de Dory e dizia para revidar. Dory? Por que diabos aquele gordo com tetas de puta chamava Leonard de Dory?
Enquanto tentava entender as polaroids, Oh Dae-su juntava as duas mãos e golpeava Leonard pelas costas. Ele cai no chão. Rosto bem ao lado das fotos. Sangue do canto da boca começava a escorrer. Leonard sente mais pancadas em suas costas. Ritmo de socos de gorila que amassa um leopardo que chegou perto dos filhos. Leonard ouve uma de suas costelas quebrar, mas não grita. Se aquele sujeito estava fazendo aquilo, era porque Leonard finalmente tinha encontrado o assassino de sua mulher. Agora estava impotente, e sua vingança não se completaria. Aquele pensamento encheu Leonard de ódio, e ele arrancou forças sabe-se lá de onde para rolar para longe. Oh Dae-su estava em um estado de transe tão grande que nem percebeu que Leonard não estava mais ali. Socou o chão com tamanha força que fez um buraco no piso. O chão se vingou enfiando uma lasca de cimento dentro da carne de sua mão. Leonard levanta e olha para Oh Dae-Su. Levanta o pé e chuta o coreano no meio da boca. Mais um daqueles sons desumanos ecoam pelo ambiente. Oh Dae-su fita Leonard dentro dos olhos e fala algo, Leonard não entende. Não era nada na lingua materna daquele oriental. Era outro barulho. Do meio do som, uma gargalhada. É aí que Leonard percebe que dentro da boca de Oh Dae-su há apenas um resto de língua. Da ponta até a metade, cortada. Sem nenhuma precisão cirúrgica. Oh Dae-su aceita com gargalhadas cada novo soco que Leonard lança contra o queixo. Os homens em volta primeiro vibravam, mas agora começavam a silenciar. Como se nunca tivessem visto uma luta daquelas antes. E eles tinham visto muitas de suas lutas. No meio da plateia de homens, Tyler sussurra algo como “Isso é muito bom”. Leonard ouve e lembra que aquela era a voz de Tyler Durden. Mas quem era Tyler Durden? E Oh Dae-Su? Quem era Oh Dae-su? Não. Ele não tinha nada a ver com a morte da mulher de Leonard. O que eles estavam fazendo ali então? Era um clube onde homens lutam tentando entender o porquê de estarem ali. Fazia um pouco mais de sentido. Só um pouco. Com o rosto empapado de sangue, Oh Dae-su se atira contra a perna de Leonard e morde a canela. Ele poderia não ter língua, mas os dentes ainda funcionavam bem. Leonard cai mais uma vez e começa a sentir a sola do pé descalço de Oh Dae-su pisando em seu rosto. Uma, duas, três, quatro vezes. A plateia de homens cheios de cicatrizes em volta estava mais quieta que um funeral. Eles não pediam para parar. A regra é: quando alguém pede para parar, a luta acabou. Nenhum deles pedia para parar. A dor parecia ser um prêmio. Oh Dae-su olha a sua volta e, antes de pisotear Leonard pela quinta vez, para. Se atira no chão e deita ao lado de Leonard. Os dois olham para o teto enquanto Tyler e o resto da plateia se aproxima. Era impossível para Leonard ler as tatuagens em seu corpo. O sangue manchava tudo e cobria a maior parte das letras. Sua rotina já era um estado permanente de confusão, mas agora era diferente. Absolutamente nada fazia sentido. Exceto uma coisa. Leonard cospe sangue e consegue murmurar: Eu só queria lembrar. Oh Dae-su faz um gesto de escrita e alguém alcança um bloquinho e um lápis. Escreve algo e mancha a folha branca com caneta e sangue. Estica para Leonard ler: “Eu só queria esquecer”.
Texto de Paulo Biscaia Filho e ilustração de DW Ribatski.
Leonard Shelby foi interpretado por Guy Pearce em Amnésia (Memento), filme baseado em Memento Mori de Jonathan Nolan, escrito e dirigido por Christopher Nolan em 2000. Oh Dae-su foi interpretado por Choi Min-sik em Oldboy, filme baseado no mangá homônimo de Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi, escrito por Park Chan-wook, Lim Chun-heyong e Hwang Jo-yun, e dirigido por Park Chan-wook em 2003. Tyler Durden foi interpretado por Brad Pitt em Clube da Luta (Fight Club), filme baseado no romance homônimo de Chuck Palahniuk, escrito por Jim Uhls e dirigido por David Fincher em 1999.
Sobre Cafés e Cigarros é uma série de breves viagens literárias promovidas por Atomic Tangerine.
ohdae-su replied to your post: also, quick opinion poll.
If you ever wanted to move company being trained as a supervisor would look good on your C.V & would be useful if you wanted to move upwards again but I think it depends whether you think the qualifiction/extra money is worth the more stress.
see, i want out of retail asap, but my degree doesn't finish for another year and all the new job posts are for supervisor roles these days, so it might benefit. even if i did apply, i probably wouldn't get it because my HR manager hates me anyway :)