A puta da vidinha
Fazia já um ano que se tinham conhecido. Ele deambulava em palco, no seu casulo rítmico agarrado ao seu baixo. Ela emprestava, pela primeira vez, a sua voz grave e quente, sussurrada, às melodias indie folk wannabe da banda. A sala não estava cheia, o que a ele lhe permitia uma maior descontração (ou distração, como se preferir encarar). Olhava curioso para o gingar das ancas dela, a forma como se meneava ao som da música como que embalada por um mar encarneirado. A dado momento, percebeu que a ondulação do corpo dela se havia sincronizado com as notas que ele produzia. Sentiu-se tão fortemente ligado a ela que acabou por "meter um prego" de tanto que se distraiu. Ela era portuguesa, nascida e criada em Moçambique, não muito longe de Maputo. Branca por fora mas alma e sangue de negra por dentro. Uma branca com a terra enraizada e viva e alegre de África. Uma branca com cheiro a capim, a terra molhada e a fruta madura. Tinha crescido a correr livre pelas hortas e prados, sem hora de partir nem de chegar, livre. Aprendeu a usar todos os sentidos para conhecer o mundo mas, mais que a audição, que lhe desviava olhar e pensamento, era o olfacto que mais mexia com ela. Dir-se-ia que o seu vocabulário olfactivo tinha vários volumes, não podia ser compreendido ou definido por palavras já conhecidas. Apesar de toda a dimensão desse sentido, dado que só se consegue fazer vida do olfacto em laboratórios ou entre quaisquer quatro paredes, o desejo de liberdade levou-a para a música. Pôde assim correr o mundo a cantar, emprestando a voz aos mais diversos projectos e estilos. Com essa escolha conseguia ser verdadeiramente livre e ainda descobrir mais odores. Fascinava-a o cheiro a bafio dos palcos, o das cidades encharcadas, das bebidas nos bares e tascas e o do suor dos amantes, ébrios de paixão e êxtase. Ele, há muito que descobrira como a música alimenta paixões e inflama tesões e, naquele instante, apercebe-se como estava inflamado. Em palco. Vale-lhe que a sala está escura e semi-despida e ela de costas. Acabado o concerto, o convite para um copo e dois dedos de conversa. Surpreso (porquê ele?), tartamundeou um tímido assentimento. Iria, com muito gosto. Não mais a tinha visto, pela boa parte do ano, desde aquele fim de noite, início de manhã, em que acordou com o rebuliço da partida dela, deixando um lugar vazio, morno, na cama dele. A verdade é que, pela boa parte do ano, não mais aquela cama tinha visto outro casal. Soube da vinda dela a Antuérpia por um amigo. Não tinha querido procurá-la ou segui-la, preservando aquela noite como algo místico e inexplicável mas, face à inesperada presença dela tão perto, todo o seu corpo se agitou e incendiou novamente, de paixão. Ela chegou duas horas antes do concerto. Ia emprestar a voz, aquela voz, à música que um amigo ia dedilhar numa velha viola. A sala era pequena (as melhores) e parcamente iluminada. A acústica, típica de uma casa de madeira, e os odores também. Madeira, cera, tabaco e pó. Por muito mundo que conhecesse, aqueles eram sempre a marca de casa. Ele chegou hora e meia antes da hora. Conhecia o dono e pôde entrar e dirigir-se acanhadamente ao camarim dela. Aí, pela porta mal fechada, viu-lhe a silhueta iluminada e a sombra projectada na parede repleta de fotografias. A Ella Fitzgerald gemia num velho gira-discos. A voz dela, aquela voz, murmurava em sintonia. Bateu à porta com os nós dos dedos médio e indicador duas vezes. - Quem chega? - ouve do lado de lá. - Sou eu. - diz, com voz sumida. Ela abre a porta e, com os olhos arregalados e brilhantes, dá dois passos atrás, antes de se lhe atirar ao pescoço e beijá-lo demoradamente. Caíram no chão e deram expressão corpórea e carnal ao desejo que ambos sentiam pela boa parte do ano. Faltam dez minutos para o concerto. Ela tem de se preparar. Ainda a senti-la nos braços e no corpo, pede-lhe que fique depois do concerto. Que fique uma semana, um mês, um ano. - Não quero. Não me dou em gaiolas. As minhas asas são para voar. Não quero definhar presa a ti. Sou livre e vou continuar a ser. Esta noite foi o epílogo da nossa história. Espero que venhas a ser feliz e que a vida te dê o que procuras. - Adeus então. - disse ele com os olhos brilhantes, marejados de lágrimas.








