O Abismo da Alma
Há verdades que a vida nos ensina através da dor. Uma delas é que o amor de mãe, aquele que os poetas cantam e os filhos esperam, nem sempre existe da forma como imaginamos. Mas descobri algo mais profundo: mesmo diante de uma mãe narcisista, distante ou que nos adotou apenas no papel, o coração do filho insiste em amar. É como se a alma carregasse uma dívida ancestral que precisa ser paga, não importa o preço.
Mergulhei no poço. Não uma vez, mas repetidas vezes. Cada mergulho me levava mais fundo, e a cada retorno à superfície, eu trazia menos ar nos pulmões.
Os mestres da constelação familiar dizem que a prosperidade não floresce enquanto não resolvermos as feridas com a mãe. Mas como resolver o que exige duas mãos, quando apenas uma se estende? Um problema precisa de duas partes dispostas a consertar. Quando isso não acontece, uma delas se transforma em veneno.
A resposta parecia simples: afastar-se.
Com dinheiro no bolso, a distância é geográfica, prática, indolor. Mas e quando estamos no fundo do poço — não apenas emocional, mas profissional, energético, existencial? Quando precisamos reconstruir tudo do zero e, ao mesmo tempo, aprender a desapegar daquilo que nos afunda?
E se não conseguirmos?
E se a força acabar justamente quando mais precisamos dela? E se não houver um ombro onde encostar para descansar, nem que seja por um instante?
Vi as portas se fecharem, uma após a outra. Os amigos desapareceram como sombras ao meio-dia. O amor partiu sem despedida. E ali, naquele silêncio ensurdecedor, comecei a questionar tudo: a fé que professava, a vida que carregava, o meu próprio valor como ser humano.
É nesse ponto que me encontro agora.
Buscando respostas que talvez não existam. Ou que existam, mas estejam escondidas no único lugar onde ainda não tive coragem de olhar: dentro de mim mesmo.













