'O Pentelho' faz 20 anos: curiosidades sobre o estranho e sombrio filme de Jim Carrey
Jim Carrey era a maior estrela do cinema nos anos 90. A comédia 'Ace Ventura - Um Detetive Diferente', de 1994, havia sido um sucesso surpreendente, e os quatro filmes que o ator fez em seguida — 'O Máscara', 'Débi e Loide: Dois Idiotas em Apuros', 'Batman Eternamente' e a sequência de 'Ace Ventura' — foram triunfos de mais de U$ 100 milhões nos Estados Unidos. Por este motivo foi uma surpresa ouvir o anúncio de seu próximo filme, uma comédia estranha, sombria e idiossincrática que levou Carrey a um novo e não muito agradável extremo.
Jim Carrey e Matthew Broderick em 'O Pentelho: O Cabo Aventura' (Everett)
No fim de 1995 todos queriam trabalhar com Carrey, e a Sony deu um passo quase sem precedentes e ofereceu U$ 20 milhões a ele — um valor que nenhum ator jamais havia recebido antecipadamente por um único projeto — para estrelar um filme chamado 'O Pentelho: O Cabo Aventura'. O resultado, quando o longa foi lançado há 20 anos, em junho de 1996, foi um filme que ninguém estava esperando, do qual pouquíssimas pessoas gostaram, e que acabou por mostrar um pouco da direção que as comédias cinematográficas iriam tomar nas duas décadas seguintes.
O projeto teve início quando Lou Holtz Jr., promotor de justiça e filho de um famoso ator de comédia, escreveu seu primeiro roteiro, que ele descreveu como "uma comédia sobre um carente instalador de TV a cabo, do qual é impossível se livrar." O roteiro chegou às mãos dos produtores Andy Licht e Jeff Mueller. Licht disse ao Los Angeles Times que era "a comédia independente perfeita que custaria entre U$ 3 milhões e U$ 5 milhões," e atores incluindo Andrew Dice Clay e Chris Elliott foram sondados para o papel principal.
No entanto, não demorou para que Chris Farley, estrela de Saturday Night Live, se envolvesse com o filme. A Columbia Pictures comprou o projeto e deu a ele um orçamento muito mais alto do que os valores definidos inicialmente. Quando Farley desistiu do papel devido a um conflito de agenda, o chefe da Columbia, Mark Canton, fez à Carrey a famosa proposta de U$ 20 milhões (com o orçamento total chegando aos U$ 40 milhões), fazendo com que alguns rivais começassem a prever um desastre. "Eles começaram algo que levou toda a indústria por um caminho irreversível," disse um executivo da 20th Century Fox ao Entertainment Weekly. "Eles irão destruir a indústria."
Carrey também teve seu momento de criatividade e convenceu a Sony a contratar Judd Apatow, na época com 29 anos, para produzir e reescrever o filme. (Apatow fez a performance de abertura de Carrey em uma turnê de comédia stand-up, e posteriormente foi trabalhar no programa The Larry Sanders Show). Quando as esperanças de Apatow de dirigir o longa foram esmagadas, ele persuadiu o estúdio a contratar Ben Stiller, com quem havia trabalhado na série The Ben Stiller Show, da Fox, antes do ator fazer sua estreia na direção com a bem-avaliada comédia de 1993 'Caindo na Real'.
Com Carrey ansioso para explorar novos territórios na comédia, eles concordaram em levar o roteiro original de Holtz — que Apatow comparou posteriormente a 'Nosso Querido Bob?', com Bill Murray — por uma direção mais sombria. "O que eu queria era fazer uma comédia que satirizasse os suspenses com psicopatas como 'Cabo do Medo', 'A Mão que Balança o Berço' e 'Atração Fatal,'" Stiller disse ao The New York Times.
A nova versão da história, com inúmeras alterações de Apatow, ainda que o Writers Guild of America tenha se negado a dar crédito a ele posteriormente, mostrava o arquiteto Steven Kovacs (interpretado por Matthew Broderick), recentemente abandonado por sua namorada (Leslie Mann), em uma amizade com o obsessivo instalador de TV a cabo Chip, interpretado por Carrey. Mas o que inicialmente seria uma amizade benigna vai se tornando algo cada vez mais perigoso quando Chip sabota o relacionamento, o emprego e a vida de Steven.
Em uma sessão de comentários gravada em 2010 para o DVD, Carrey disse: "quanto mais dinheiro as pessoas me pagam, mais eu quero me rebelar." Com a data de estreia travada e cronograma de produção apertado (as filmagens começaram em dezembro de 1995 e o longa chegou aos cinemas seis meses depois), o estúdio tinha poucas chances de suavizar a história, apesar de ter ficado supostamente "consternado" com exibições iniciais. Pelo menos Stiller e Apatow foram convencidos a não matar o personagem de Carrey, como originalmente planejado.
O marketing tentou vender um filme mais leve. "O trailer era um pouco ridículo com a música no estilo 'oom-pah-pah,'" disse Stiller na sessão de comentários, mas não foi possível escapar da enorme sombra provocada pelo salário imenso do protagonista. "Sempre que alguém falava do filme, era para comentar que Jim ganhou um absurdo por ele," disse Apatow posteriormente ao A.V. Club.
Talvez por causa disso os críticos tenham sido majoritariamente hostis após a estreia do longa. "Uma comédia sinistra e ácida de Jim Carrey que apaga a fronteira entre o humor anárquico e a malícia sociopata," disse Janet Maslin no The New York Times. Mesmo com a recepção predominantemente negativa, a bilheteria não foi um desastre total — a estreia arrecadou pouco menos de U$ 20 milhões, e o valor total chegou a lucrativos U$ 60 milhões nos Estados Unidos — cerca de metade do que os sucessos anteriores de Carrey arrecadaram.
A reputação do filme é, até certo ponto, merecida. A performance de Carrey é abrasiva, mesmo considerando os seus padrões de atuação. O longa é engraçado, mas raramente faz o espectador rir em voz alta, e a ideia de uma comédia inspirada em obras no estilo de 'Atração Fatal' parece fora de época agora que o subgênero não está mais em alta.
Por outro lado, aqueles que classificaram o filme como profundamente subestimado, algo que mais e mais pessoas fizeram ao longo dos anos, também estão certos. Stiller dirige com muita habilidade, e Carrey está completamente destemido e comprometido. É uma rara comédia com substância, que permite fazer tanto conexões pessoais. "Eu costumava assistir a 10 horas de televisão por noite durante a minha infância. E não acho que isso fez bem para mim," Apatow disse posteriormente, quanto políticas, com um senso quase Chayefskiano da capacidade de mídia de corromper. "Em breve todas as casas norte-americanas irão integrar sua televisão, telefone e computador... Você pode fazer suas compras de casa, ou jogar Mortal Kombat com um amigo do Vietnã," diz Chip em um momento.
A sensibilidade para a comédia de Stiller ainda não era amplamente conhecida na época. Dois anos depois ele ganhou fama como ator graças a 'Quem Vai Ficar com Mary?', e seu projeto seguinte como diretor, 'Zoolander', foi um grande sucesso. Uma década depois, Apatow se tornou o maior nome do gênero de comédia do estúdio, graças a longas como 'Ligeiramente Grávidos', 'O Virgem de 40 Anos' e outros. Seus filmes costumam ter sua esposa, Leslie Mann, no elenco: eles se casaram após se conhecerem durante as filmagens de 'O Pentelho'. A influência sombria do longa também pôde ser notada em comédias de sucesso mais recentes, como 'Papai Noel às Avessas' e 'Eastbound & Down', série da HBO.
Quanto a Carrey, sua sequência de triunfos absolutos havia acabado, mas a estrela não foi muito prejudicada — seus maiores sucessos, como 'O Mentiroso' e 'Todo Poderoso', ainda estavam por vir. Além disso, o filme serviu como uma prévia interessante de suas intenções futuras, que o levaram a longas mais dramáticos como 'O Show de Truman: O Show da Vida' e 'Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças'. Não é de se espantar, portanto, que Carrey afirme que não gostaria de ter feito nada diferente. "Eu ainda estou vivendo daqueles U$ 20 milhões," disse ele nos documentários do DVD. "É uma pena que meu dinheiro tenha prejudicado a diversão."
Oliver Lyttelton







