O QUE FICA
Ontem, recebi a notícia da partida de uma pessoa querida.
Sinto uma inquietação na mente, como se eu devesse fazer algo com isso, mas sei que não há o que fazer. Talvez seja apenas a informação da partida passando pelo meu corpo e eu tentando, mais uma vez, encontrar um lugar para processar essa sensação.
A morte é a ponte que nos leva para o outro lado, não morremos, deixamos de existir no mundo físico para viver no mundo espiritual.
Receber a notícia da passagem de alguém próximo, com quem ainda tínhamos planos juntos aqui, traz a sensação de inquietude, pois eu já passei por isso antes, e eu, que fiquei aqui, com vários questionamentos, busquei dentro de mim mesmo me confortar.
Eu tenho um grande amigo que partiu quando tínhamos 19 anos. Ali, era, sem dúvidas, o menino que eu queria para sempre por perto de mim, de alma leve, sorriso fácil, amigo que me queria por perto também, me chamava sempre para confraternizações importantes de sua família, visitávamos um ao outro, fazia questão de me ligar no meu aniversário, chamava para passear na Ponta Negra, me convidava para ir comer pizza, no final fazia questão de levar os dois dedos de refrigerante que sobravam na garrafa, deixando seu pai zangado, e ria muito daquilo.
Era um menino alegre, íamos para shows juntos, tinha seu jeito leve de levar a vida, amava viver, super inteligente, estava estudando na Universidade Federal, estava tirando sua habilitação e aguardando, naquele ano, o show da sua vida, do Coldplay. Tinha feito uma tatuagem do álbum da banda no braço, surpreendendo todos com sua ousadia.
Eu amava nossa amizade aqui na Terra, sou grato eternamente por ter tido ele como meu amigo. Amigo, de onde você estiver, que você possa estar bem, seguindo sua evolução espiritual. Respeitava muito você e quero muito poder lhe reencontrar um dia. A data do seu aniversário aqui no plano terrestre está chegando, dia 30 de maio, e sempre estarei emanando todos os melhores pensamentos para você.
Estou relatando tudo isso para exemplificar uma pessoa que, sem dúvidas, ainda tinha muitos momentos para viver, compartilhar, e a vida nos surpreendeu, ele se foi muito breve, jovem, cheio de sonhos. Nós não sabemos nada sobre nosso roteiro da vida, a gente só vive um dia de cada vez.
O tempo é relativo. Por horas, a gente acha que o tempo não passa, as horas demoram, nada acontece, mas quando chega essa notícia de que mais uma pessoa se foi, a gente percebe que o tempo é breve, a vida é curta e tudo o que temos é o agora, para viver e aproveitar com aqueles que a gente ama.
Parece uma coisa clichê, mas a vida é isso, a vida é clichê e tá tudo bem. É uma única vida e precisamos entender que somos todos únicos: acertos e erros, amores e desamores, amigos e colegas, família, trabalho, religião, esporte, música, viagens, é tudo isso na mesma vida o tempo todo. É um ciclo.
Temos essa única vida para viver tudo e aprender, entender, respeitar, aceitar que somos únicos, e é isso tudo que temos para aproveitar, não deixar para depois, pois a saudade é apenas uma dor no peito, uma lembrança, uma imagem, e isso não preenche.
O que nos preenche é a certeza de ter vivido tudo que podemos com aquilo que, de fato, faz sentido para nós.
A passagem de uma pessoa querida traz à tona a lembrança de que não temos todo o tempo do mundo, que cada dia é uma oportunidade que temos de aproveitar para sermos gentis, amorosos, pessoas melhores.
O amor é a única salvação. O que nos sustenta para seguir em frente é ter a consciência tranquila de que estamos respeitando nosso eu interior, que estamos fazendo as escolhas certas diante das possibilidades que temos em nossas mãos.
Talvez, no final, a inquietação que senti não fosse porque eu precisava fazer algo, mas porque eu precisava sentir. Sentir a saudade, sentir a ausência, lembrar das pessoas que passaram pela minha vida e entender que cada encontro deixa algo dentro da gente. Talvez a vida seja isso também: carregar um pouco daqueles que amamos dentro de nós, até o dia em que nossos caminhos se encontrem novamente.










