EU SÓ QUERIA PERTENCER
Quando comecei a me relacionar, uma das primeiras coisas que aprendi não foi amar, mas sim mentir.
Mas isso é um spoiler, pois, naquele momento, eu apenas estava fazendo o que era possível, usando as ferramentas que eu tinha para ser normal no espaço que eu ocupava.
Eu queria apenas ser igual aos meus amigos. Aliás, eu não tinha outras opções. A vida me apresentou, desde cedo, um roteiro a ser seguido: eu precisava estudar, namorar, casar, ter filhos, netos, ser bem-sucedido e viver feliz para sempre ao lado de minha esposa.
Eu já estava estudando e, quando chegava da escola, ia encontrar meus amigos para brincar. Depois de um tempo, eles começaram a falar sobre suas namoradas. Naturalmente, esse assunto invadiu nosso meio. Cada um falava de suas experiências, e foi quando eu percebi que estava ficando de lado. Eu não tinha o que compartilhar.
Então me coloquei para jogo. Comecei a ouvi-los, a entender como funcionava isso de beijar, pois era o primeiro passo para ser inserido naquela roda de conversas. Então, como eu já disse, fiz o que pude, e pude muito pouco, pois a primeira menina que eu beijei, aos 11 anos de idade, era uma pretendente de um dos meus amigos.
Ele já falava sobre ela. Estudavam na mesma escola quando nos apresentou. Logo, ela nos chamou para sua casa para passarmos mais tempo juntos, e aquela intimidade maior me fez despertar o interesse em querer também algo a mais. Eu não sei se era exatamente aquilo que eu queria, mas era a minha oportunidade de finalmente dar o meu primeiro beijo e ser visto como normal no meio daquele grupo.
Não lembro ao certo como cheguei nesse assunto com ela, mas não demorou para estarmos escondidos atrás de um prédio no Palácio. Eu, sem ter nenhuma experiência, me aproximei da boca dela sem saber o que precisava ser feito. Houve o encontro dos nossos lábios e ela disse:
— Acompanha o que eu fizer, eu te ensino.
E ali eu beijei pela primeira vez.
Sem dúvidas, marcou minha vida. Mudou uma chave na minha cabeça. Agora eu era normal. Agora eu tinha assunto para falar com meus amigos.
E meu amigo, que gostava dela?
Eu, sinceramente, não sei como ele lidou com isso. Mas, naquele momento, eu acreditei que não fiz nada de errado.
Foi nessa época que eu também conheci a menina ruiva que havia citado anteriormente, através do mesmo amigo. Seja lá o que fosse, ele gostava dela também. Eles tinham algum tipo de relação, e eu virei amigo dela.
Comecei a frequentar sua casa, brincar com ela e suas irmãs. Chegava o fim de semana e eu passava o dia inteiro com elas, brincando, conversando, rindo. Criamos uma linda amizade.
Depois, essa relação deles nem existia mais, e ela me contava sobre suas outras relações. Éramos tão jovens para estar preocupados com isso, mas não estou aqui para questionar, apenas para relatar o que aconteceu.
A amizade com a menina ruiva cresceu de forma natural. Eu gostava de estar ali, na casa dela, cercado por conversas, brincadeiras e uma sensação de acolhimento que eu não sabia explicar. Ela era uma presença constante na minha rotina, alguém que eu procurava sem precisar de motivos.
O tempo foi passando e, como acontecia com todos ao meu redor, começaram a surgir as perguntas. As pessoas queriam saber se estávamos namorando, se eu gostava dela, se havia alguma coisa acontecendo entre nós.
Parecia impossível para os outros enxergar uma amizade entre um menino e uma menina sem transformar aquilo em romance.
Talvez tenha sido nesse momento que a mentira começou a se tornar um hábito silencioso.
Não uma mentira elaborada, daquelas construídas com a intenção de enganar, mas pequenas omissões, respostas convenientes e comportamentos que me mantinham dentro do roteiro esperado.
Eu sorria quando faziam brincadeiras, deixava que imaginassem certas coisas e, muitas vezes, até alimentava interpretações que não eram verdadeiras.
Era mais fácil.
Mais fácil do que explicar algo que eu mesmo não compreendia.
Mais fácil do que admitir que, enquanto meus amigos falavam das meninas de quem gostavam, eu observava a conversa tentando descobrir o que havia de diferente em mim.
Eu escutava atentamente suas histórias, decorava seus interesses, aprendia quais eram as reações esperadas e as reproduzia como quem estuda para uma prova importante.
Durante muito tempo, achei que crescer significava isso: aprender a representar o papel que esperavam de mim.
E eu me esforçava.
Me esforçava tanto que, às vezes, até acreditava no personagem que estava construindo.
Mas a verdade tem um jeito curioso de sobreviver. Ela pode ficar em silêncio durante anos, escondida atrás de sorrisos, relacionamentos e expectativas, mas continua ali, esperando o momento em que não será mais possível ignorá-la.
Naquela época, porém, eu ainda estava longe de entender isso.
Eu só queria pertencer.
E assim, a gente começou a namorar.


















