O Vulcão
24 de maio de 2020.
- sonho de quarentena
Os postes iluminavam a pequena cidade com uma tonalidade azul melancólica que contrastava no céu rosado de fim de tarde enquanto todos os moradores entravam em suas casas com o barulho do sino que alertava sobre o toque de recolher. O vulcão em erupção ao longe exalava um odor característico e muita fumaça, que passava pela cidade sem qualquer interferência na vida dos conformados moradores. As ruas eram estreitas e as paredes das casas eram todas pintadas de tons de roxo e azul. Havia uma árvore milenar no meio da rua principal, logo no centro da cidade, cujo tronco possuía curvas e uma espessura significativa. Chamava a atenção de todos por sua aparência triste, como se fosse apenas uma carcaça abandonada sem qualquer relevância, mas que ninguém ousaria tirá-la de lá, pois representava a alma da cidadezinha escondida entre as montanhas.
Assim que passei pela árvore desci do carro e toquei em seu tronco. " Não imaginava que ainda existiam árvores assim..." - disse ao meu primo, que também havia descido do carro. Ele se preocupava porque havia passado do toque de recolher e nada além da fumaça percorria as ruas da cidade pacata.
" Precisamos nos apressar, senão serei detido e eu não quero ir para a cadeia de novo. Você não sabe o que acontece com quem desobedece as regras por aqui." - ele caminhava desconfiado, olhando de um lado para o outro, procurando, entre as casas quase idênticas, a da sua amiga que por ora nos acolheria. -"Acho que é aquela." - e correu até a única casa de luz acesa.
A fumaça ficava mais densa à medida em que descíamos pela rua de pedras cinzas em direção à casa. Vultos brancos passaram por nós mas não conseguimos distinguir o que eram. Ao chegarmos lá, a porta estava aberta e subimos as escadas rapidamente.
"Rápido, apaga a luz!!!" - a amiga se escondia atrás do sofá rosa-pink e gesticulava com uma expressão medrosa na face. "fecho a porta também ?" - perguntei, ao desligar a luz, resposta a qual recebi com um gesto negativo seguido do dedo indicador sob os lábios trêmulos da dona da casa. "Eles podem desconfiar. Deve fingir que está tudo bem, sente-se no sofá e ligue a tv." - o meu primo cochichou para mim enquanto abraçava a sua amiga, agradecido.
Pouco tempo depois, uma figura estranha vestida de branco apareceu na porta e ficou parada lá, olhando para nós, sem pronunciar uma palavra.
"O que foi?! Não vê que estamos cuidando das nossas vidas ? Por acaso desobedecemos vocês ?" - o vizinho que morava no andar de baixo gritou, e o eco se fazia escutar por toda a rua.
"Não queremos problema, senhor. Só viemos conferir o motivo de a luz não ter sido apagada assim que o sino tocou."- a voz do homem era neutra.
"Só estava ocupada no banheiro, não pude vir aqui apagar. Sequer havia prestado atenção nisso. " - falou a amiga do meu primo. Eu estava sentada no sofá comendo o sanduíche que ela havia deixado ali em cima, e fingia que nada estava acontecendo. Tentava não olhar diretamente para o homem de branco que adentrava a casa em busca de algo suspeito. A TV ligada era o único barulho que se podia escutar. O homem saiu. O meu primo suspirou atrás do sofá onde eu estava e a amiga dele tomava um copo d'água com dificuldade, pois suas mãos tremiam de pavor.
"Eu não conheço vocês" - o vizinho falou da porta apontando para mim e para o meu primo -" não me coloquem nessa situação de novo senão denunciarei o seu rabo! Não tenho nada a perder com isso, só não quero ser torturado por ETs por conta da atitude irresponsável de desconhecidos." - e saiu.
"Como assim ETs?!" - perguntei, rindo.
"Os ETs moram naquele vulcão. Eles vêm aqui sempre a partir do final da tarde porque é quando as luzes dos postes se acendem. É difícil convencer os políticos de que eles existem… Todos pensam que somos loucos e nos abandonaram aqui para morrer."
"Não é para tanto." - riu o meu primo - " Os ETs não matam ninguém, talvez eles nem existam! Isso é discurso de terror para a gente obedecer o toque de recolher."
"Esse seu primo tem ideias malucas, não têm o menor fundamento."
"Os ETs são essas pessoas de branco que sequestram a gente para fins científicos e que ninguém vê porque todo mundo está sempre escondido dentro de casas escuras preocupado com coisas absurdas." - ele olhou para a janela e continuou- "Esse vulcão aí com certeza também é obra do governo para que a gente respire essa fumaça alucinógena e acredite nos ETs. Tô te dizendo, isso tudo é só mais um experimento deles e nós somos as cobaias." - Ele foi para o único quarto da casa e fechou a porta atrás de si.
Sua amiga riu e foi até a janela acender um cigarro. "Eu amo o jeito como o seu primo vê o mundo. É óbvio que ele é especial, a gente é que não dá importância."
"Ele é especial, sim. Tem um jeito único e perspicaz. O que será que tem aprontado durante todo esse tempo que esteve sumido ?"
"Só ele sabe. Não conversa com as pessoas normalmente e se comporta como se todos nós fôssemos muito burros por não enxergarmos a realidade como ele enxerga. Por acaso você sabe por que a polícia procura ele?"
"Tudo é um verdadeiro mistério."
"Bem…" - ela inclinou a cabeça para trás ao tragar pela última vez o cigarro antes de jogá-lo na rua - " O que quer que tenha sido foi bem grave, considerando a recompensa que estão oferecendo para quem o entregar…"
"ELES QUEREM O MEU CÉREBRO!" - ele gritou do quarto e nós caímos na gargalhada.
Olhei para o vulcão que cuspia lava com ferocidade. Quão bonita a natureza é! O céu permanecia róseo, porém mais escuro. O cheiro da fumaça já não me incomodava, pois havia me acostumado, bem como todos dali.
Assim que o sol surgiu timidamente por trás das montanhas as luzes melancólicas dos postes se apagaram e o sino tocou. Como esperado, todos saíram de suas casas e continuaram suas vidas.
Fui com o meu primo visitar um advogado amigo da nossa família há anos que possuía um escritório no centro da cidade. Ele afirmava ter visto um ET se transformar em humano e que o mesmo quase o raptara.
"Todo mundo aqui tem algum papo doido sobre a realidade dessa cidade abandonada por Deus, mas a verdade é que nós estamos morrendo envenenados aos poucos sempre que inalamos essa fumaça. Os únicos que vão se salvar mesmo são os malucos do hospício lá da montanha porque o vento não deixa a fumaça passar por lá. Acredita que eles dizem que o vulcão não existe?! E é porque ele está literalmente ao lado deles. " - o advogado riu e eu olhei de relance para o meu primo que estava pensativo.
Se passou pouco tempo até que finalmente assinamos o acordo. O meu primo iria para o hospício.
"Vi fotos e lá não parece tão ruim." - falei ao sairmos do escritório em direção ao carro, mas ele não parecia escutar, estava perdido em seus pensamentos. - "acho que essa árvore está morta."
Os galhos grossos enrolados da velha árvore alcançavam as casas ali perto e eu os observava com tamanha admiração. Como ela era grande! Ao voltar o olhar para o meu primo, ele havia sumido. O meu peito apertou e comecei a procurá-lo desesperadamente. As pessoas dali não tinham prestado atenção, disseram apenas que ele sumiu de repente.
O chão tremeu e as pedras que compunham a rua esquentaram consideravelmente. Corri até a casa da nossa amiga, mas tudo estava fechado. As luzes dos postes piscavam e o céu se tornou escuro conforme a densa fumaça cor de laranja se espalhava pelo ar se misturando com o azul das luzes pálidas oscilantes dos postes. O chão tremia com mais intensidade e o eco dos alarmes dos carros enchia o ambiente de terror. As pessoas estavam sumindo. Não conseguia enxergar sequer um palmo diante de mim. Tossia incessantemente enquanto tentava distinguir os vultos brancos que passavam por mim. Escutei o barulho dos galhos se quebrando e do fogo estalando cada vez mais perto e mais perto… meus pés ardiam e a minha garganta queimava até que já não sentia nada.












