Karma police, arrest this man, he talks in maths || Nathan&Matthew
A sorte de Nathan nunca fora muito vasta; é certo que, quando pequeno, não era dado às quedas, e que, quando adolescente, a correspondência de amores vinha fácil; no entanto isso nunca quis dizer, de forma alguma, que a sorte fora uma entidade presente durante muito tempo na sua vida: ele nunca acreditou na sorte. O destino talvez possa culpa-lo por tê-lo o abandonado tão cedo - foi de sua própria índole optar pela descrença na sorte -, o que, todavia não muda o fato de que Nathan teve de encarar a responsabilidade ainda muito cedo, obrigado a negar a procura de culpados metafísicos para problemas reais; ele sempre preferiu culpar pessoas físicas ao invés de culpar o destino, e se apoiar na própria capacidade e competência ao invés de apoiar-se sobre a sorte. Era assim que ele havia sido ensinado. Durante toda a vida o rapaz sentia os cabelos da nuca eriçarem ao ouvir seus superiores o elogiarem com corteses "Mas que sorte!", odiava a sorte por recusar-se a culpa-la por tormentos e por, mesmo assim, a maldita roubar-lhe os créditos de méritos construídos sem a menor de suas ajudas. Nos últimos tempos, entretanto, Nate não se importaria de ser ajudado por ela. Especialmente naquela quarta-feira ele pensava que, certamente, poderia fazer uso de um pouquinho de sorte. Afinal, estava tendo um dia daqueles: à princípio, havia chegado atrasado à aula; mas só havia chegado atrasado por ter sido coagido a trocar de roupas após embaraçosamente ter derrubado café sobre si mesmo; mas, só havia derrubado café sobre si mesmo, na desesperadora pressa de tentar encontrar, em meio à seus bolsos, o celular que imaginava ter perdido - havia apenas o esquecido no quarto -; e, finalmente, só havia o esquecido no quarto por ter dormido um pouco além das contas depois uma noite de sono intermitente. Enquanto caminhava pelos corredores do Instituto, o francês permitia-se um novo pensamento: alguma hora o karma há de mudar. Nathan já deveria ter se acostumado a sua própria sorte: ela não mudaria tão cedo, ou, ao menos, - como o rapaz estava prestes a descobrir - ela não mudaria naquele dia. Após seu efeito dominó de catástrofes particulares e de um ciclo de aulas semeada ao mau humor, Nate se dirigiu ao restaurante com o otimista pensamento de que, finalmente, teria um pouco de paz. Ele pegou a fila para o buffet e caçou com o olhar algum garoto agradável aos olhos com o qual poderia compartilhar uma mesa, localizou-o, virou-se para pegar a comida e, repentinamente, sem mais nem menos, desafiando algumas leis físicas o rapaz assistiu o chão se aproximar. Escorregou, mas não caiu. É claro que, depois de um dia daqueles, um pequeno escorregão não era lá a maior de suas preocupações. O francês olhou ao seu redor e notou que ninguém havia percebido seu pequeno vacilo além dele próprio, de qualquer maneira, não deixou de desconfiar. Havia aprendido nas semanas anteriores que não haviam muitas pessoas com as quais poderia confiar; imaginou que talvez tivesse algum mutante capaz de manipular o equilíbrio alheio. Nathan sabia que uma das coisas das quais poderia se gabar eram seus reflexos, e estes já haviam o traído por uma vez aquele dia. Contrafeito, limitou-se a pegar a bandeja de refeição e a pôr-se a caminhar, sorridente, para a mesa de seu possível alvo. Não achava provável que seus reflexos fossem capazes de lhe traírem por uma terceira vez naquele dia.






