Embora mais tarde eu passasse a suspeitar que minha mãe tenha ido embora com outra pessoa, meu pai nunca confirmou isso. Ele dizia apenas que ela percebeu ter cometido um erro casando-se tão jovem e que não estava pronta para ser mãe. Meu pai não incitava o desprezo por ela, nem a elogiava, mas fazia questão de que eu a incluísse em minhas orações, não importando onde ela estivesse nem o que havia feito. "Você me faz lembrar dela", ele dizia ás vezes. Até hoje, nunca troquei uma única palavra com ela, nem tenho qualquer desejo de fazê-lo.
Acho que meu pai era feliz. Digo isso porque ele raramente demonstra emoções. Abraços e beijos foram raros durante minha infância e, quando os recebia, me pareciam sem vida, algo que ele fazia por dever, não por desejo. Sei que me amava pela maneira como se dedicou a cuidar de mim, mas ele tinha quarenta e três anos quando nasci e parte de mim acha que meu pai seria melhor como monge do que como pai. Ele era o homem mais silencioso que já conheci. Pouco perguntava sobre o que estava acontecendo na minha vida, e embora raramente irritasse, tampouco brincava. Vivia para a rotina. Cozinhava ovos mexidos, torradas e bacon para mim todas as manhãs, e me ouvia falar sobre a escola durante o jantar, que ele também preparava. Agendava consultas ao dentista com dois meses de antecedência, pagava suas contas aos sábados pela manhã, lavava as roupas no domingo á tarde e saía de casa todos os dias exatamente 7h35. Ele era socialmente desajeitado e passava longas horas sozinho todos os dias, despejando pacotes e maços de cartas nas caixas de correio ao longo do seu percurso. Ele não namorava, nem passava as noites de fim de semana jogando pôquer com os amigos; o telefone permanecia em silêncio por semanas. Quando tocava, era engano ou um operador de telemarketing. Sei o quão difícil deve ter sido para ele me criar sozinho, mas ele nunca se queixou, mesmo quando eu o decepcionei.
Eu passava a maioria das noites sozinho. Com os deveres do dia finalmente concluídos, meu pai se enfiava em seu escritório para ficar com suas moedas. Era a grande paixão da vida dele. O que lhe dava mais felicidade era ficar sentado em seu gabinete estudando um boletim e um negociante de moedas chamado Greysheet e tentando descobrir a próxima moeda que ele adicionaria á sua coleção.












