astrid não conseguia mais contar nos dedos das duas mãos quanto tempo conhecia soluço. não saberia identificar na história dos dois quando se apaixonou, quando o viu como seu porto seguro ou quando ele se tornou tudo o que a guerreira precisava. porém haviam datas que guardava na memória, como o dia do casamento dos dois e aquele fatídico dia depois da destruição de pride lands. após o matrimônio, a possibilidade de ter filhos era explorada com calma; astrid era uma guerreira, ainda tinha um exército para liderar e soluço ainda tinha um mundo pra explorar. porém o início das tentativas aconteceu de forma muito natural e, quando perceberam, um mês depois, estavam rindo do fato, nus no chão do quarto que dividiam.
a chegada dos perdidos foi uma surpresa para todos, mas mais ainda para o casal que precisou considerar a possibilidade de uma gestação em meio a toda aquela bagunça e incerteza. astrid ainda não tinha certeza se gestava, apenas contava os dias atrasados de sua menstruação e se perguntava como contaria para soluço que, agora que decidiram parar de tentar, ela poderia já estar grávida. a festividade de boas vindas aos perdidos se sucedeu, assim como o final inesquecível do baile em que se questionou se toda a sua ilha havia sido destruída também.
como se já não bastasse, pesadelos inquietos fizeram parte da noite de astrid e a mulher acordou assustada, precisando tomar cuidado ao se levantar porque não queria acabar acordando o marido também. necessitava de um banho, de um café reforçado, de respostas; e foi criando uma lista mental que se despiu, permanecendo imóvel por alguns segundos ao encarar o líquido avermelhado que não deveria estar ali. engoliu a seco e, em silêncio, adentrou o espaço do chuveiro.
de alguma forma, esperava que a água levasse a tristeza que havia sido instaurada no coração. não sabia se o sangue significava uma menstruação que até então só estava atrasada ou se a possibilidade de uma gravidez havia sido encerrada precocemente por causa de todo o estresse na noite anterior. conforme pensava e se culpava, os olhos enchiam de lágrimas. ao rolarem pelo rosto, se misturavam com a corrente e ali astrid percebeu que não teria qualquer controle do choro, que não teria como amenizar a dor ou fingir que já não pensava em nomes de bebês. cobrindo a boca com uma das mãos para pelo menos abafar os sons sofridos, sequer percebeu que não estava mais sozinha.