sabia que soluço estava ali porque sentia os braços a envolvendo por trás, mas ainda não tinha coragem de encará-lo. era desesperadora a forma com que não conseguia parar de chorar, que a respiração se tornava falha, os soluços presentes e o coração mais acelerado do que jamais esteve. a dor vinha dilacerante, como se alguma parte de si estivesse morrendo naquele momento. quanto mais apertado era o abraço do marido, mais astrid se sentia culpada. sabia o quanto ele queria um filho pela animação em sua voz sempre que falavam do assunto, pela forma que planejavam o futuro sempre com uma presença a mais e ali, sofrendo pela possível perda, astrid entendeu que também queria aquela criança. profundamente.
o ouvia falar, mas a voz parecia tão distante. a nevoa de sofrimento permanecia densa demais para ser atravessada, mas se manteve no abraço, agora apertando o braço alheio de volta como se o abraçasse e, por consequência, se abraçasse também. os beijos espalhados pelo corpo a acalmavam, aos poucos, mas não eram capaz de fazê-la conter as emoções. a traseira da cabeça foi encostada no peito do outro, os olhos já inchados, fechados. queria gritar, barganhar, implorar para os deuses; porém tudo o que conseguia fazer era tentar respirar, com grande esforço. as palavras do marido, pouco a pouco, iam fazendo sentido para a guerreira que tentava se agarrar àquela sensação de segurança que ele proporcionava. queria focar no futuro, nas novas possibilidades e oportunidades, mas a dor ainda estava fresca demais. o vazio ainda era avassalador.
finalmente, astrid permitiu que soluço a virasse e retribuiu o beijo carinhoso sem precisar pensar demais. se não fosse pelos braços que a envolviam, muito provavelmente já estaria de joelhos no chão. porém se agarrava no outro, ainda em silêncio, porque era como se as palavras estivessem presas na garganta. era como se estivesse sendo sufocada pela dor. queria dizer tanta coisa, queria se desculpar e explicar, queria retribuir as promessas, mas apenas o encarou e esperou que ele a entendesse. os olhos espelhavam o sofrimento que carregava, da mesma forma que espelhavam o amor que sentia por ele.
no fim, não conseguia ter noção do tempo que haviam passado embaixo do chuveiro antes de astrid conseguir se recompor minimamente. conseguia respirar e se manter em pé sem ajuda, mas nem por isso o soltava, mantendo o abraço mesmo quando a água corrente havia sido desligada. "obrigada por estar aqui." a voz rouca pela falta de uso arranhava a garganta, erguendo-se para encostar a testa na semelhante. os narizes se roçavam e, após ter parte das lágrimas secadas por soluço, fazia o mesmo com ele. odiava ser o motivo do sofrimento alheio também. "eu não preciso de espaço, só preciso de você. já passamos por tanta coisa ruins juntos, vamos— vamos conseguir passar por isso também, não é?" recordava-se da morte do sogro, da morte dos guerreiros que tinha visto crescer e dos que haviam lutado consigo em batalhas. nada parecia tão perfurante quanto aquele sentimento, mas assim como os ditos de soluço: astrid era forte. precisava ser.