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Querida criança do universo,
Embora você pense já ter crescido muito - tanto que precise hoje dirigir sua atenção e esforço para libertar a criança interior - esta é apenas a sua percepção temporal de sua breve jornada humana. Daqui da onde te observo, do profundo e misterioso útero cósmico, eu prefiro te chamar por criança, para que se lembre do pouco que você sabe, e do muito que nunca virá a saber. Eu guardo os mistérios e os revelo a medida em que você está pronto para receber.
O Mago te ofereceu a semente, a água e a terra; te ensinou a arar e plantar, e te conscientizou do seu poder de escolha para que escolhesse as próprias flores. Agora cabe a mim te ensinar a lição mais difícil. Eu sou o tempo de espera onde as sementes repousam; do lado de dentro, profundo e silencioso da terra, eu guardo os mistérios de tudo que nela nasce, morre e renasce, sem nada controlar. Apenas contemplo a natureza como ela é, serenamente, em profunda meditação. E foi assim que adquiri minha sabedoria: observando, recebendo e interiorizando. Sem contestar nem interferir, aceito o irracional como parte do todo e o jogo de dualidades para mergulhar no mundo psíquico do ambiente e no inconsciente coletivo, e te guio intuitivamente para além do mundo aparente, te guio para dentro.
Criança, você tem lembrado de fechar os olhos para acordar seu mundo e calma interior? Ou você tem esvaído toda sua energia vital tentando controlar os fatores externos que não te pertencem, apenas para frustrar-se e culpar-se por suas limitações? Você tem se poupado da ansiedade e das armadilhas que a imaturidade do imediatismo provoca? E entregado os resultados dos seus esforços para o universo, confiando no ritmo misterioso dos planos divinos? A capacidade de realização sem o exercício do amor, da paciência e da persistência sobrecarregam os fracassos. Nem tudo se resolve com força. Aceita, criança, que se há yang, há o ying; se há o racional, há o irracional; se há acertos, há erros; se há luz, há sombras. É a interiorização da totalidade que te amadurece.
Meu bem, por que você ainda tem temido o lado oculto da lua, se tudo é sagrado? Embora enxergar à luz do sol te traga certa segurança , não confie nos seus olhos mais do que confia em seus instintos, que o Mago é também um grande ilusionista, e o que você pensa estar vendo pode ser tão real quanto o arco-íris. E se ainda não sabe como despertar seu instinto, pois bem, crescer exige abandonar…
É preciso abandonar a segurança do mundo aparente e mergulhar no próprio mundo avernal, lá no fundo da terra onde a luz do sol já não alcança, e onde os olhos de nada valem, pois que não há jogo de luz e sombra; apenas a escuridão total. E não podendo mais contar com a luz de fora, como um bicho que para sobreviver acorda seus sentidos, se acenderá a luz de uma sabedoria muito mais profunda: sua própria intuição.
Rita Oliva já tem um trajetória e tanto empunhando instrumentos desde muito nova e é um dos nomes responsáveis pelas bandas Parati e Cabana Café. Recentemente a artista representou as baterias da banda psicodélica BIKE durante uma gig pelo Nordeste. Além disso, com o lançamento do seu projeto solo Papisa ainda fresquinho saiu em turnê divulgando o novo trabalho.
Depois de um show inebriante na Casa do Mancha, trocou uma ideia conosco onde fala da ritualização utilizada para a criação do projeto, da ressignificação feminina e das delícias e agruras que é a liberdade em tocar sozinha e ter todo o poder de decisão em suas mãos.
Acompanha nosso papo:
W.: Pode se apresentar pra gente, por favor?
R.: Rita Oliva, 29 anos, eu sou de Jundiaí, mas eu moro em São Paulo faz dez anos. Eu tenho os projetos Cabana Café e Parati que estão em pausa agora e acabei de lançar o Papisa, que é meu projeto atual e solo.
W.: Conta um pouco da tua trajetória, onde tudo começou e como tu chegou até aqui.
R.: Sempre estive muito na música, comecei a tocar piano pequenininha, depois fui estudar canto, fui estudar bateria, arranhava meu violãozinho, então eu sempre fui muito ligada em descobrir banda nova, as bandas de hardcore chegavam na minha cidade e eu sempre ia nos shows, então eu tinha essa conexão forte. Tive banda no colegial com amigos, nada muito sério. Na faculdade comecei a ter banda autoral, me juntei com uns amigos que tinham banda, comecei a tocar, comecei a compor e a sentir que essa coisa era pra mim. Entrei no Cabana, a gente ficou sete anos trabalhando bem ativamente, também foi uma escola muito grande pra mim. A gente lançou um EP, vários singles, dois discos (um foi esse ano inclusive) e cresci muito, tanto em convivência, como banda na estrada, como instrumentista, porque antes eu só cantava, depois eu comecei a tocar synth. Depois fiz o Parati que é um duo, eu e o Zé e também foi outra coisa que trouxe muito crescimento. A gente gravou todos os instrumentos, produziu junto com o Alexandre Fontanetti e daí foi outra experiência porque a gente sempre compôs junto pro Cabana, mas dessas composições a gente nunca tinha conseguido produzir nós dois, foi um processo diferente que é batida eletrônica. E depois do Parati, enfim, fiz um show sozinha, calhou uma data lá que a gente calculou errado, tive que fazer e falei "caramba, curti essa vibe" de chegar e enfim, fazer meu lance e trouxe a Papisa com essa ideia na verdade, de ter autonomia. Com a Papisa foi uma de "se der a louca e eu quiser fazer uma coisa, eu vou fazer". E foi meio que esse o processo, foram mais ou menos 3 meses que eu trabalhei intensamente e fiz do jeitinho que eu queria, no meu ritmo. Queria sair em turnê, saí em turnê. Eu considero isso tudo um processo na verdade, sempre aprendendo com tudo o que eu faço, com todo mundo que tá a minha volta. E no meio desse caminho eu me percebi, pô sempre tive banda, sempre contei com apoio e de repente me vi sozinha e encarei as dificuldades disso também. Tomar decisão sozinha. Às vezes você precisa de um apoio, ou mesmo mão-de-obra pra fazer as coisas. E agora tô nesse processo e vendo que preciso me juntar com umas pessoas. Pra fazer turnê por exemplo eu tava naquelas de "vou pegar o meu carro e sair por ai correndo". E fazendo essa turnê que eu acabei de fazer lá no nordeste.
W.: Com as meninas da PWR...
R.: É, elas receberam a gente em Recife, mas eu fiz junto com os meninos do BIKE também e foi um aprendizado, porque você está na estrada e às vezes você chega de madrugada, às vezes numa cidade x, não tem onde ficar e eu sou muito atirada, às vezes saio do carro sozinha e vou, mas é muito bom ter um apoio. Então é esse processo de ir balanceado: estar sozinha x estar acompanhada.
W.: E de resto tu saberia dizer qual principal fator que contribuiu para que tu rumasse nessa escolha musical?
R.: Eu acho que é um processo muito interno, pra mim esse projeto novo significa uma liberação, eu meio que proclamei uma autonomia e como artista eu sempre tive banda, as decisões foram sempre muito divididas, eu gosto muito desse processo, mas eu quis experimentar uma coisa nova. Ter feito esse show sozinha em maio desse ano (2016) me trouxe uma coisa dessa autonomia mesmo. Pensei: "vou me jogar". Porque você tá sozinha, você tem a decisão, tem a parte legal que é mais rápido pra decidir o que você quiser, mas tem a parte do risco, que é só seu, você tá lá se expondo, dando a cara a tapa, então tem os dois lados, mas eu curto essa ideia, me trouxe esse gostinho de "vou me jogar no mundão e me atirar do precipício". A escolha musical pra mim é um processo menos racional, eu tinha uma banda que era mais de rock e meu projeto eletrônico que era mais calminho, mais suave e eu ritualizei a coisa mesmo na hora de compor e produzir. Eu montei um ambiente na minha casa, eu acendo incenso, acendo erva pra me conectar, tenho meu ritual com meditação que é pra me interiorizar e ser uma coisa mais fluida então acabou rolando, tanto que eu nem coloquei minhas ideias iniciais que eu queria misturar um pouco de eletrônico com uma pegada mais orgânica, mas, acabou ficando quase tudo orgânico, tenho ideia de beats, mas acabei fazendo pela fluidez da coisa, eu fui muito me guiando pelo que eu tava sentindo, tinha mais musicas, mas acabei escolhendo o que a música me falou. Fui tentando me guiar pela intuição mesmo, foi um processo diferente, tentando ser menos racional.
W.: E nesse processo de busca inspiração, quem te inspirou musicalmente e na vida?
R.: Na vida, as mulheres da minha família: minha irmã, minha mãe, minha vó, são mulheres que eu admiro e sempre tive uma inspiração grande, meu avô que morreu faz dois anos e também acabou me jogando nesse processo. Eu sei que ele seguiu muito o que ele veio fazer aqui e eu tenho um caminho bem diferente do dele, mas eu achei uma singularidade nesse processo de "putz, te admiro pelo que você fez e eu vou seguir o seu exemplo fazendo exatamente o que eu sinto que eu devo fazer ". Musicalmente eu tenho algumas referências: eu gosto muito da Juana Molina da Argentina, ela é uma mulher muito foda e ela era comediante, quebrou também uma coisa que esperavam dela, ela já era famosa na tv e tal e de repente ela quis fazer um projeto de música dela que era mais experimental. Não fez o que o público esperava, inicialmente o pessoal estranhou, mas musicalmente é algo que me chama a atenção e o conceito dela de visual que nega o padrão de beleza. É uma pessoa que abraça a velhice, por exemplo e isso me inspira muito a arte de forma geral, de questionar um pouco. Eu gosto muito de quem tem essa força de vir e questionar realmente e não agir de acordo com o que as pessoas esperam.
W.: Teve algum momento do percurso até agora que você sentiu que ia desistir da música ou se sentiu desencorajada por alguém?
R.: Acho que ano passado eu tive uma fase, que eu fiquei uns dois meses desprovida que banda, que eu ia relançar um disco do Cabana, tinha uma galera da minha banda com outras bandas, outra galera foi viajar e eu me via sozinha, com proposta de show e eu me via sem banda, não tinha ninguém pra fazer show comigo, eu tinha uma banda de seis pessoas e não tinha ninguém pra tocar. Eu não acho que fiquei desencorajada, mas isso foi o que me motivou a fazer e não depender de ninguém, então foi mais uma motivação, mas eu fiquei uns dois meses sem tocar.
Eu fui escrever, fui trabalhar com uma amiga minha num site que inclusive falava de equilíbrio e é um tema que me interessa e fiquei um tempo sem tocar, mas eu sabia que era uma coisa temporária, eu nunca me vi longe da música na minha vida. Foi uma fase, mas a música é um bichinho que já me tocou.
W.: Fala um pouquinho da concepção da Papisa, você já falou o que te levou a criar, mas o e processo criativo?
R.: Eu já tinha músicas e queria levar minhas composições pra frente, mas a Papisa tomou outro rumo, eu compus pra ela mesmo, foi realmente o processo de ritualizar, pegar o ambiente que eu me sinto bem, tudo baseado no que eu sinto e fazer as coisas em relação a isso. Também tive amigas próximas e isso foi novidade pra mim porque meu processo criativo sempre foi com homem, eu sempre tive bandas com homens ou enfim com o Zé que sempre foi um parceiro bem presente e de repente eu comecei a fazer as minhas coisas sozinha e eu me aproximei mesmo e tava numa fase querendo mais mulher em volta. Comecei a mostrar pra elas algumas demos e veio uma resposta bem diferente do que eu estava acostumada, acho que principalmente por ser fora da música, o feminino fora da música é uma coisa mais encorajadora mesmo, mais iniciativa. Os homens normalmente são mais críticos. Claro, sempre tive muito apoio dos meus amigos homens, não posso negar. Mas, eu me senti muito aliada das mulheres nesse processo. Isso me deu muita força e comecei a sentir.
Uma amiga também foi pintar uma mandala na parede da minha casa e a gente foi tirando carta, fazendo todos os processos intuitivos e falei: "não, acho que eu quero uma sacerdotisa", essa figura da sacerdotisa também tinha me chamado muito a atenção por ser uma mulher, uma líder que depende dela mesma só e não tá associada a nada, não é mãe, não é filha, não é amante, é ela. Essa figura forte e feminina que eu falei: "putz, quero trazer pra minha vida". E daí veio o nome Papisa e tem muito a ver com essa busca minha, de uma figura feminina que eu consigo me inspirar nela. Não digo que me represente porque a gente tem muitas facetas internamente, mas é uma coisa que me inspira, essa figura me inspira, é raro uma líder espiritual por exemplo, é tudo homem, tudo dominado. Claro, nas civilizações mais nativas, indígenas têm mulheres sábias, uma figura matriarcal e é isso que eu sinto falta, nunca me identifiquei com religião patriarcal, de ser sempre o homem, uma visão sempre masculina, então eu tô nessa busca de aceitar o meu feminino interior e acho que o mundo precisa dessa energia, então a Papisa veio como fruto desse processo.
W.: Você diria então que a Papisa é uma persona?
R.: Sim, esse projeto representa essa persona, tanto de experimentação, porque pra mim musicalmente também representa experimentação, eu tenho feito show sozinha e com banda e minha banda eu formei pra fazer turnê, tenho muita vontade de tocar com outras mulheres, então tenho feito essa busca, então não tem nada muito fixo é bem mutável e sim é uma persona, porque eu tô montando essa persona em cima do processo de experimentar, então é bom se deslocar um pouco e se enxergar de fora.
W.: Ainda na questão da Papisa e de você Rita, em que momento vocês se encontram e se fundem numa só?
R.: Difícil, porque é uma persona, mas as músicas são muito pessoais por outro lado. Apesar de eu usar alguns arquétipos na música, uma coisa simbólica, eu gosto muito dessa abordagem, pensando em arte de ter uma coisa um pouco mais camuflada, mas acho que no cerne da questão, no íntimo de cada música é onde a gente se encontra. Porque eu não consigo me tirar de cada música, eu acabo sempre entrando numa questão que é muito intima pra mim, então nessa criação a gente tá muito conectada. Inevitável.
W.: A gente percebe que como você já referiu em outra pergunta, você está se envolvendo mais com mulheres, não só artisticamente mas no geral pra se inspirar, você tem tanto no selo que é a PWR, tanto na produção e na assessoria, você está rodeada de mulheres no momento. Isso foi uma escolha consciente ou simplesmente foi algo que acabou acontecendo?
R.: Um pouco dos dois, porque a Papisa já veio com a ideia de ser mulher, eu estava me assumindo como mulher, assumindo esse lado e reforçando pra mim mesma, é um processo muito interno e eu sempre estive do lado do Balaclava Records que lancei todos os meus projetos (a maioria) e a gente teve uma briga de agendas com a Papisa, então foi consciente porque uma banda na verdade que veio de Recife e ficou em casa, me viu gravando, o pessoal do Kalouv, eles fizeram a ponte e falaram "Rita, têm essas duas meninas: a Hannah e a Letícia vão lançar um selo, tem tudo a ver com o seu projeto". Eles pegaram todo o meu processo, a gente conversou muito sobre ele, são uns meninos muito sensíveis, muito massa. E eu conversei com elas e dai eu falei: "quero lançar com vocês, tem tudo a ver com o que eu tô fazendo". Por mais que estivesse começando o selo, com a Balaclava também foi assim, a gente lançou o Cabana super no comecinho do selo, então foi o destino trazendo uma coisa, não sei se o destino, mas a sincronicidade de fazer as mesmas coisas ao mesmo tempo com as mesmas datas próximas, calhou de ser e foi muito rápido. A gente conversou uma vez, fez dois skypes e ''vamos fazer, fechar essa parceria então" e foi muito divertido pra mim. Agora você acabou de falar: "você tá rodeada de mulheres" e isso pra mim ainda é surreal pensar, porque eu sempre estive muito rodeada de homem, então tá sendo novo e é uma escolha consciente, porque a minha ideia era fazer uma banda só de menina desde o começo, ainda não consegui, mas tô buscando. Foi por uma questão prática que eu não fiz ainda, questão de turnê, essas coisas e de proximidade, tenho muito amigo homem, muito homem que toca.
W.: Em relação ao que você acabou de falar dos meninos e toda experiência anterior que você tinha com homens e você continua tocando com homens, você chegou a tocar bateria com o BIKE.
R.: Sim, ainda tô fazendo alguns shows com eles.
W.: Mas como acontece essa contribuição artística com esses projetos que estão integrados na tua vida.
R.: Bom, o meu lance é a música, tô falando um monte de coisa de conceito e de ideal, mas o meu lance é a música, eu tenho uma grande paixão pela música, e esses projetos vem a partir disso, adoro tocar instrumento, porque eu adoro cantar, adoro compor, mas eu gosto também de fazer banda pras outras pessoas, então isso é uma coisa que acabou aparecendo pra mim, uma oportunidade com o BIKE, eles estavam sem batera e tinha uma turnê pra fazer e eu tinha gravado as minhas baterias e eles sabiam e enfim eles perguntaram: "cê topa tocar batera com a gente?" eu disse: "topo". Sentei, tirei as músicas e foi uma experiência diferente que não era uma criação minha, tirei as baterias do Gustavo que é o baterista e que criou e eu tenho essa coisa com a música, eu não sou muito fechada de "só vou tocar as minha músicas". Valorizo muito a música de uma forma geral e dentro do que eu gosto de fazer que é a música criada de uma certa forma. Não sei se de uma certa forma, mas eu tenho amigos que fazem música e eu acho uma delícia tocar e perguntar pra eles: ''você precisa de banda? vou ser sua banda".
W.: Sem nenhum tipo de limitação nem nada, você abraça (...)
R.: Abraço, mas claro, tem que ser uma música que eu goste pelo menos, eu tenho que me identificar de alguma forma com aquilo e de instrumento, tem estar dentro da minha capacidade de fazer. Normalmente eu falo sim,e daí eu vou ver se eu dou conta, mas se me perguntarem eu digo que vou dar conta e vou experimentando mesmo.
W.: Em relação a projetos femininos, (não sei se você tem essa noção, talvez agora com o teu projeto em específico), normalmente são lançados por selos independentes, por galera independente, tu acredita que de repente isso faz algum tipo de diferença no resultado final? Na dinâmica de trabalho?
R.: Comparado com mainstream ou comparado a trabalhar com homens?
W.: Acredito que comparado até mesmo com a Balaclava que é independente, mas ainda tão mais conhecido do que outros selos. Como a PWR e outros selos menores, porque a Balaclava tá com outro alcance nesse momento. Se tu sente como artista feminina tendo outros projetos que tem uma dinâmica diferente hoje em dia. Por ser um projeto essencialmente feminino.
R.: Olha tô falando bem pelo que eu tô sentindo agora. Apesar da PWR ser um selo que tá começando junto comigo, eu senti uma abertura e uma receptividade muito grande pela temática, pela questão feminina que eu acho que é uma coisa que tá muito em alta, então por mais que já lancei muitas coisas pela Balaclava e tenho consciência que eles estão super crescendo, fazendo um trabalho super legal de relevância acho que isso impulsiona muito, muita gente conheceu meu trabalho por causa da Balaclava, mas acho que essa questão feminina é muito forte e acho que as vezes até dá uma abertura grande, talvez se fosse um selo masculino, homens lançando por um selo do tamanho do PWR por exemplo, não teria tanta relevância, mas por trazer essa questão feminina, muita gente querendo ouvir e falar sobre isso, eu senti uma abertura muito grande do mercado e da mídia, acho que é uma questão que tem uma força.
W.: Então acaba tendo algum tipo de influência na dinâmica do teu trabalho e na forma como é projetada pro público em geral?
R.: Eu tenho a impressão que sim, eu gosto de ver banda que têm mulher, por exemplo. Agora quando eu tava no Nordeste eu conheci a Gabi do My Magical Glowing Lens, conheci a Larissa do Ventre e eu tô nessa busca de valorizar quem tá tocando e eu sinto que não é só minha essa valorização, eu sinto que as pessoas estão querendo mesmo. Quando eu lancei meu primeiro single e eu gravei tudo. As pessoas tinham essa curiosidade. "Uma menina gravou tudo?" Ainda é um padrão de pensamento que eu não sei o que as pessoas pensam, mas que não espera que uma mulher vá fazer isso. Então eu acho que ainda tem esse impacto e tomara que tenha cada vez menos impacto isso, que seja mais natural e seja: "Vamos avaliar o trabalho pelo que ele é e não porque é uma mulher fazendo". O Girls Rock Camp por exemplo, acho que é uma iniciativa incrível e que familiariza e naturaliza essa questão pras pessoas mais novas. É normal ter uma mulher na bateria, é normal ter uma menina no baixo, não é uma coisa a ser valorizada e estimulada, mas que seja pra gente conseguir olhar direto pro trabalho e não ficar assim tipo "há mas é mulher né..." e não focar no gênero. Vamo tirar o foco no gênero e colocar no trabalho.
W.: Tu participa de algum coletivo ou movimento de mulheres hoje em dia?
R.: Não participo. É uma busca bem individual, faço trabalhos e outras coisas não relacionadas ao feminismo diretamente, mas outras coisas que têm o tema que rodeia, mas não, nenhum movimento que eu tenha aderido.
W.: Então a tua experiência com várias bandas e vários projetos, o que tu consegue observar, que a recepção e a forma como a mulher é encarada no mundo mudou nos últimos anos?
R.: Eu sinto uma abordagem diferente das pessoas que eu sou mais próxima, hoje em dia eu sinto uma reformulação no pensamento, eu sinto que as pessoas estão reformulando ainda, não acho que é uma mudança de: "era assim e ficou assim" mas acho que existe um senso comum e de repente com esse monte de questionamento, os homens começaram a se questionar também. Eu sinto meio que uma geleia. O pessoal saindo de uma estrutura que tava super acostumada e começando a olhar pras outros ângulos e tentando se adaptar . Eu vejo isso na questão dos homens e das mulheres também, porque as vezes eu me questiono, será que eu tô na defensiva? Por exemplo, fazendo essa turnê eu percebi que as vezes não sou eu que tô na defensiva, as vezes eu chego conversando inclusive com o Diego que tá tocando baixo comigo e por exemplo agora quando a gente voltou e tava conversando eu comentei: "lembra daquele show que o cara chegou metendo a mão no meu amplificador e opinando" e ele falou: "ah, você tem que dar uns tabefe nele". Tipo: "Não, é assim mesmo!" Então você tem que ficar muito assertiva, muito dura e objetiva, dar uns tapas mesmo pra ele entender que você sabe o que você quer. E o Diego me falando: "eu achei interessante que ele mexeu no seu amplificador e no seu som e ele não fez no meu". Ele aceitou do que jeito que é. É assim. É assim. E eu já tive que falar: "cara, você tá achando isso da minha voz, mas ela é assim mesmo. Esse efeito é assim mesmo que eu quero". A partir dessa postura, eu senti um respeito de volta, mas, ainda exige isso. Ou tocando dois instrumentos. Chego tocando guitarra, o cara já não dá muita bola, sinto uma coisa meio que deixando você de escanteio, você vai arrumando as outras coisas, arruma a bateria e: "ah, você toca vários instrumentos". Senti uma coisa meio que falando no mesmo nível, mas parece que eu preciso provar alguma coisa.
W.: Essa constante aprovação né, acho que mulher em qualquer área tem esse feeling de ter que se provar toda hora e essa é a principal reclamação das meninas que a gente tem entrevistado. Quase sempre tem alguém mexendo no equipamento, ou questionando ou duvidando... É muito recorrente.
R.: É uma falta de consideração pelo que você tá fazendo. Ou assim, por exemplo, tava lá nessa produtores, pessoas que trabalham com as bandas. Eu passei por isso como baterista do BIKE, fazendo essa turnê eu já me senti medida de cima embaixo. "Ah, você é a nova batera?" E na hora você sente que tá sendo validada pelo seu visual, não pelo que você tá fazendo. A gente tem isso desde pequena que você tem que ser linda e a gente ouve isso e consciente ou inconscientemente e vai pra dentro e isso quando eu falo da Juana Molina por exemplo, ela tem essa quebra. "ó, meu trabalho é esse, eu não vou pintar o cabelo, vou usar uma saia meio de bruxona e o meu visual é esse e fodasse, eu não vou ficar tentando ser bonita". Então isso eu tô falando é uma inspiração, óbvio, eu acho também vaidade muito válido, eu gosto de me arrumar, eu gosto de me maquiar, mas é a questão do peso que isso tem dentro de um ambiente profissional por exemplo, eu quero ser valorizada pelo que eu tô fazendo, eu gastei muito mais tempo ensaiando nesses instrumentos do que eu gastei me maquiando. Então, porra, cê vai medir o meu trabalho se a minha perna tá assim ou assada. Não né, isso é um complemento, uma outra coisa, é outro lugar que tem que ser colocado.
W.: Levando em conta tudo isso. Qual tu acha que é o papel da mulher na cena independente hoje em dia?
R.: Acho que o papel da mulher, eu não consigo atribuir, eu me espelho por mim, eu tento fazer o meu melhor e agir de acordo com o que eu sinto e ser verdadeira comigo mesma, acho que a mulher pode buscar aquilo que ela acredita e musicalmente a mesma coisa, dentro da habilidade dela ela buscar o que representa ela e a forma como ela vai criar a partir disso, independente de ser mulher ou homem, acho que é mais individual, acho que o papel da mulher é ir além das barreiras internas e externas que dão pra ela e focar no que ela acredita, no trabalho, fazer um trabalho direito, sendo ela mesma e acho que essa questão do gênero, acho que o femininismo traz muito isso, acho que o feminismo é uma quebra de gênero, a gente não dá tanto valor ao gênero e a gente dá valor as pessoas como indivíduo. Então, acho que é essa busca individual mesmo da mulher de que ela quer como pessoa, o que ela quer criar, como ela quer criar , ter uma coisa livre dos limites impostos por ela mesma e não pelos outros.
W.: Mas ainda assim, tu acha que a colaboração com homens nesse meio musical é essencial, é vital para que a gente caminhe nessa direção de a gente alcançar como mulher o lugar próprio, o devido respeito. Você acha que tem que existir essa colaboração dos homens apesar de tudo?
R.: Eu não acho que é uma regra, eu vejo mulheres trabalhando com mulheres e acho ok e tem mulher que grava em estúdio, tem mulher que faz vídeo. Eu acho que não tem que ser uma barreira do tipo "eu só posso trabalhar com mulher então". Eu acho que isso é mais maleável, acho que se você tem pessoas em volta que podem te ajudar, abraça. Se você se sente bem trabalhando com outras pessoas, vai fundo. Porque poxa, já tem tanta barreira e você vai colocar mais uma? Isso eu senti no meu processo, eu queria muito uma banda só de mulher, mas de repente eu me vi numa turnê ou de fazer outros shows ou no estúdio de amigos que eu já conheço e eu vou aproveitar isso. Claro, valorizar o trabalho das mulheres que estão à sua volta, esse cuidado, a gente direcionar esse foco pra trazer outras mulheres pra perto, acho muito importante. Saindo um pouco daquela coisa da disputa que sempre foi passado pra gente de que "mulher, uma quer comer a outra" e não é bem assim e precisamos desconstruir, valorizar e trazer pra perto, acho importantíssimo, desde que seja uma somatória e não uma barreira. Se não, a gente vai fazer a mesma coisa, a gente vai excluir e acho que o princípio feminino é acolher e integrar.
W.: E voltando a referências que a gente falou lá no início, o que tu tem escutado ou tem curtido ouvir?
R.: Vai ficar passando playlists na minha cabeça. Eu tô numa época que eu tô muito receptiva, pra criar a Papisa eu fiz uma playlist exclusiva mas que não é exatamente o que eu tô ouvindo agora. Coisas que me inspiram que eu coloquei ali. Agora tô num momento que o que o Spotify me indica pra ouvir, eu ouço e daí vou atras das bandas e procuro e também gosto muito dos amigos me trazendo referências. Então eu realmente tô muito aberta a muita coisa.
W.: Então de repente é mais fácil perguntar um ou mais artistas que tenham sido cruciais nesse teu projeto.
R.: A Juana Molina, a St. Vincent tem uma expressão muito grande, a PJ Harvey, eu tô focando muito em mulheres com certeza. A Feist é uma pessoa que já ouvi muito e me inspira muito. É tem essas referências ai. E tenho ouvido muita coisa nova e fica meio difícil separar.
W.: Você já pensou nos passos pro futuro com esse teu projeto. Tem alguma coisa definida?
R.: A minha ideia é tocar e fazer show. Tanto que eu não parei agora pra fazer disco e lancei EP porque eu queria tocar. Por isso que casou tudo: turnê e selo. Porque pensei em aproveitar esse tempo que eu tenho e sair tocando. E a minha ideia é exatamente desenvolver as minhas músicas no palco, observando a resposta das pessoas e tô muito com essa ideia de sair tocando sozinha, guitarra, voz, programação, looping ou com banda, me juntar com outra banda que esteja em turnê, mesmo que o BIKE, como foi nesse esquema que foi muito interessante. A minha ideia é de movimento mesmo, não quero ficar parada. Eu tenho um projeto de disco pro ano que vem e quero desenvolver em algum momento que eu quero parar pra fazer o disco, mas ainda quero tocar, quero ouvir o público e desenvolver essas músicas no palco.
W.: O que você diria pra alguém (sobretudo mulher) que está iniciando e dando seus primeiros passos?
R.: Sentiu vontade faz, acho que é o principal.Se a gente pensa muito vem a censura, Então é massa seguir aquela faísca inicial sabe? Eu digo isso porque é o que eu faço. Me deu vontade de fazer e mil pessoas falam: "você tá louca". É tirar um pouco o racional e deixar um pouco da vontade própria. É fácil falar, mas é difícil aceitar, mas acho que é isso. E se livrar um pouco das mil censuras que a gente mesmo se impõe. Encontrei nessa turnê meninas e fiquei muito feliz, vieram falar: "pô vi o seu projeto que legal, também tenho o meu. E faz anos que tô com as minhas músicas,ainda quero lançar, mas acho que elas estão velhas". E tudo isso são barreiras que a gente mesmo se coloca, a partir do momento que você vai lá, faz e coloca pra fora, se cobra menos.Eu sou muito da opinião de fazer, coloca na prática, sai da teoria, faz e espera o retorno disso. O máximo que vai acontecer é você aprender aquilo e não acho que existe dar certo ou errado, sempre dá certo se você tirar um aprendizado daquilo. Minha opinião é isso. Faz sem depender muito de aprovação. Arrisca.
Confira aqui a playlist inspiradora da Rita para compor o EP "Papisa":
https://open.spotify.com/user/12143990120/playlist/6DncmzUXxBdwMMwjUl0bdI
PAPISA
Spotify: https://open.spotify.com/artist/0DvW5foWWFUfe8xHEtPtNE
Facebook: https://www.facebook.com/pg/papisabrisa
Soundcloud: https://www.youtube.com/watch?v=ECMdTnKEOvI
WANWTB // 2017
Papisa – Amor Delírio https://cenaindie.com/album/papisa-amor-delirio/
La Suma Sacerdotisa como juguete noventero
Papisa Juana
La papisa Juana fue una legendaria mujer papa de la Edad Media que se supone reinó desde 855 hasta 858. Después de que su historia fuera popularizada por el escritor italiano Giovanni Boccaccio (1313-1375), se colocó una estatua de ella junto a las de otros papas en la catedral de Siena. Durante la Reforma, su estatus fue un objeto de controversia.
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