É muito confuso, dizem para você viver a vida com entrega, mas dão muito conselhos também para que não. E às vezes dizem coisas antagonicamente dessemelhantes.
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É muito confuso, dizem para você viver a vida com entrega, mas dão muito conselhos também para que não. E às vezes dizem coisas antagonicamente dessemelhantes.
Sinto o que preciso sentir
Sem me deixar consumir
Por muito tempo eu achei que poesia e prazer lírico não cabiam na realidade imposta do mundo.
Hoje estou convencida: não cabem.
Mas já não luto para que os aceitem.
Porque a guerra devora o prazer.
Pois é.
A guerra
Devora
O prazer.
E quando você deixa de sentí-lo você já perdeu.
Você está lutando por um amontoado de ossos. Já não há carne, tato, cor, sabor nem cheiro.
Você está discutindo pra defender seu ponto de vista, mas você já nem vê beleza ou profundidade no que diz.
Porque beleza e profundidade não se discute. Se desfruta. Se deleita. Se sente. Se delicia.
Não é que não hajam lutas para serem enfrentadas.
Nem guerras para serem vencidas.
Mas é que no final das contas não é sobre ganhar nem perder.
É muito mais sobre perceber que passar a vida inteira protestando a favor do gozo e da liberdade e não ter tempo nem espaço pra sentir o orgasmo de fundir-se com a vida ou de sentir-se livre não é heroico. É só mais uma forma de autoabandono. Mais um papel que te impuseram pra te distrair da revolução maior que é viver, que é amar, que é sentir prazer e experimentar um estado de poesia no meio deste turbilhão insano. Sem culpa. Sem medo. Sem pressa. Sem rancor.
E conscientemente se apropriar da sua presença, do seu querer, dos seus sentidos. Conscientemente amar sua vida sabendo que errar também está certo.
E finalmente aceitar que é desgastante e ineficaz tentar mudar o outro. E como o mundo é feito de muitos outros, é impossível mudá-lo como um todo.
É loucura passar a vida tentando convencer os outros do valor poético sem poder experienciar a inspiração.
Por isto já não perco mais meu tempo falando a quem não quer ouvir.
Eu não desperdiço as pérolas... eu as transformo em colares, e enfeito a mim, e saio por aí, sendo eu mesma o que eu queria que os outros fossem.
Enquanto se faz guerra não se faz amor, muito menos poesia.
E um mundo sem amor nem poesia não é um mundo que valha a pena lutar por.
Não há vitória sem gozo, e não há gozo na vitória que se vence sem prazer.
Que eu seja eu mesma um ode vivo ao prazer lírico de viver. 🌹
Havia um homem, de semblante preocupado e ombros tensos. Em suas costas o peso do mundo. Há tanto vivia em busca de água, vivia no fundo do poço. Água para beber não lhe faltava, mas que como neste conto água é sinônimo de felicidade, queria tanto quanto pudesse pra si. Por isto tentou represar a água. Tentou controlar seu curso. Tentou controlar a chuva. Mas só conseguiu que as nuvens o controlassem. Seu humor dependia de que chovesse, para encher sua represa até a borda. Ah, quando transbordava era festa. A vida valia a pena nestes dias. Mas em épocas de ausência, apenas sobrevivia e amaldiçoava os céus.
Até que um dia já velho, cansado, vazio de uma vida sem significado, lhe aconteceu de perceber que toda água que existe é a mesma água que sempre houve e que sempre haverá. A água que aqui inunda, é a água que dali seca. E vice-versa. E tanto faz. Fato é que a água da sua represa nunca lhe pertenceu. Pertence ao mundo como si, e sua pequena poça e o imenso mar formam uma água só. O maremoto que engole a cidade ou o deserto que a extingue não lhe cabe controlar. E tudo sempre será água. E que ele nunca conseguiu por seus feitos realmente represá-la. A água apenas lhe foi dada. Neste momento sentiu uma imensa gratidão por cada gota que um dia passou por si, num copo d'água, num banho de chuva, em um banho de cachoeira demorado que um dia precisou para lavar a alma.
Neste dia encheu alguns baldinhos, e levou até os poços vizinhos mais vazios que o seu. Com o semblante suave e os ombros soltos, pela primeira vez dormiu sem sede. Pois que neste conto água é sinônimo também de amor. E todo amor que existe é todo amor que sempre haverá. E não é possível represá-lo. Basta sê-lo.
Sou uma metáfora mal traduzida
Uso para cada palavra, uma outra,
Eu não sei falar de amor,
Então eu falo do tempo que passa,
Das coisas que me fazem rir,
Dos infundados medos que crio,
Das pequenas dores que sinto,
Das solitárias vezes que choro,
Das histórias de rodapé da vida,
Das escolhas que me distorcem,
Das distorções que me fundamentam.
Eu tenho falado,
E em cada pouca ou muita coisa que eu digo,
Tenho metaforizado minha forma de amor,
O meu formato de amar.
Eu sempre deixei o amor subliminado,
Até me subliminar toda
Em sua metáfora mal-traduzida,
Com medo do dia em que me pudessem interpretar.
.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Poema de 27 de março de 2009.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Quando escrevi esse poema eu não fazia ideia do que era Vedanta. Eu não tinha certeza do que sustentava esse Universo. Eu não sabia qual era minha verdadeira natureza. Mas eu tinha certeza de que havia amor, dentro do caos de sentimentos e pensamentos que me sondavam, havia amor. Contudo, eu achava que esse amor era frágil. Hoje eu sei que era o meu conhecimento desse amor é que era frágil. Hoje eu já não tenho medo de que esse amor seja desvelado, e que assumí-lo não me torna mais vulnerável, e sim mais forte, porque eu sei que a minha fonte é inesgotável. Hoje eu olho pros meus medos e pras minhas distorções de frente. E tento me desfazer do que posso, com consciência de que não posso me desfazer de tudo. E tudo bem, pois hoje nada pode diminuir o que realmente sou. O que me separa da fonte e me torna uma metáfora mal traduzida do amor é apenas ignorância. E a vida é uma jornada para vencer a ignorância da separação.
O que sou verdadeiramente é pleno como a fonte. É amor como a fonte. É felicidade como a fonte. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
pūrṇamadaḥ pūrṇamidaṃ pūrṇāt pūrṇamudacyate ।
pūrṇasya pūrṇamādāya pūrṇamevāvaśiṣyate ॥
“Aquilo é pleno. Isto é pleno. Do pleno vem o pleno. Tirando o pleno do pleno ou acrescentando o pleno ao pleno, apenas o pleno permanece.”
Saber o tempo de minguar, e o de expandir.
O tempo de esperar, e o de agir.
O tempo de falar, e o de ouvir.
O tempo de ficar, e o de partir.
Não é coisa que se aprenda só de ouvir, nem só de ler.
Há que viver.
Há que intuir.
Há que pausar e olhar pra si.
Há que apurar sua necessidade fundamental.
E torná-la seu bem maior.
Maior que o medo de se transformar.
Ou que a desculpa para não sair do casulo.
Mas menor que a pressa de rompê-lo sem estar pronto.
O tempo certo é o tempo que você precisa.
O tempo certo nasce da maturidade.
O tempo é a própria maturação, o processo de passagem da contínua transformação.
O tempo deixa de ser importante quando você descobre que ele faz parte do cenário,
Mas o protagonista é você.
O tempo é sobre você.
Sobre você saber que o que sente é importante,
E se saber digno de amor.
Do que for amor, você se enche.
Do que não for, se esvazia.
Onde houver amor, o silêncio, a permanência e a espera gratificam. A ação e a fala constroem.
Onde não houver, o silêncio aperta; a permanência pesa; a espera agoniza. A ação e a fala só destroem. Aí seu tempo excede.
Pois que o tempo de se amar é sempre.
Dias cheios, de pouco tempo livre, o cansaço chegando com o fim do ciclo de um ano em que muito aconteceu e que rapidamente passou.
Me deparo com essa flor, sua imperfeita geometria me parece perfeitamente aceitável. Me parece sagrada. Me sinto entregue enquanto a contemplo, porque a aceito exatamente como ela é. Em verdade, porque não tenho projeções nem expectativas, há espaço para que sua beleza me impressione. Esta flor é o que é, exatamente como é.⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Ao contrário, percebo que ao olhar pra mim há muita projeção sobre o que eu queria/devia ter realizado. Cobranças de excelência em diferentes papéis e funções, que em verdade não abarcam minhas limitações humanas, meus ciclos de recolhimento, minhas baixas emocionais ou as reviravoltas da vida.
E essa pressão interna por adequação não me permite apreciar a beleza de ser por detrás da frustração de não ser: a minha própria geometria imperfeita e sagrada. Eu sou como sou e fiz o que posso. Não se trata de comodismo, mas de aceitação para achar leveza e perdoar meus tropeços. Leveza para abraçar o continuum esforço de me refazer e tentar novamente, onde quer que haja desejo livre de mudar e de crescer. E onde não houver, aprender a descansar. Sabendo que haverá inércia na atividade e na inatividade; que tudo que enche, mingua; que tudo que começa, se finda; que tudo que nasce, morre, e renasce. E nada está perdido, pois tudo está em contínua transformação.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
E por fim, saber que não existe nada perfeito. Nem nada imperfeito. Apenas a vida como ela é.
O melhor que eu pude até aqui. O melhor que eu quero alcançar para agora. E entre um e outro, espaço para o erro, para o autoperdão e para o descanso.
Querida fillha, querido filho,
Meu arquétipo já lhe é muito familiar. Poucas coisas são tão divinas e acessíveis quanto o amor maternal. Meu potencial mais pleno é mais facilmente alcançado na relação sagrada de mãe e filho, mas também é possível sentir relances de minha profundidade sempre que você se sente impelido a se dedicar e se doar a algo ou alguém com uma emoção que ultrapasse as questões morais e intelectuais; Minha energia flui em você sempre que encontra um enfoque apaixonado da vida, através do qual você entra em contato com a abundância e o poder de criação que emano.
Quando sou liberada e despertada em seu interior, as flores se abrem e as sementes frutificam. O Mago te ensinou a canalizar sua energia para plantar. A Sacerdotisa te ensinou a paciência e sabedoria que reside na espera e nas profundezas da terra. E eu sou, porfim, a colheita. Eu sou aquilo que te nutre e o fluxo que permite com que você flua e sinta. Você tem encontrado beleza em si e em sua vida? Você tem integrado as paixões e os prazeres à sua rotina? Tem conseguido dar e receber com amorosidade e emoção?
Vasculhe cuidadosamente seu coração para encontrar as áreas desertas, onde as convenções se sobrepuseram à naturalidade, e os protocolos substituíram os afetos, onde a rigidez acua sua espontaneidade ou onde quer que você esteja respondendo mecanicamente… lá, querida filha, querido filho, você precisa conscientemente me permitir vir à tona para te ajudar a fazer os cactos florescerem e à enxergar a vida microscópica que já existe nas areias do deserto, para que você perceba enfim que não há deserto, há apenas vida sem receber atenção.
Há beleza no caos, e em verdade, até seja preciso um tanto de caos para que a beleza se faça, como numa relva selvagem. É preciso que haja emoção, e quando há emoção, não há controle de tudo. O quanto você tem se permitido? Eu sou o chamado genuíno do coração para que você sinta, para que você tenha prazer, para que você se deixe emocionalmente ser tocado pelas pessoas, pelas ideias, pelas paixões e pelos sonhos.
E sou também o espaço interno de acolhimento que te traz a segurança necessária para que você caminhe. E é preciso que você comece a se dar conta das projeções desse acolhimento que você tem feito tentando me encontrar ou me reproduzir por aí afora. As figuras maternas que até agora cuidaram de você, o fizeram pela graça divina, mas ainda assim, o fizeram dentro de suas próprias limitações. Assim como você só o pode fazer igualmente dentro de suas condições. Embora eu seja uma força externa e palpável, é internamente que a maior cura reside.
A mãe ideal é aquela que você mesmo carrega em si, nas memórias arquetípicas em seu íntimo. E esta memória ideal não existe para que você siga brigando e se frustrando com as limitações do acolhimento que vem de fora. Perceba estas idealizações projetadas em diferentes figuras e circunstâncias, o que elas querem te dizer e te doar? Pois é disto que precisa. Esta memória que sonda seu imaginário é meu chamado para que você me integre internamente, para que perdoe as limitações e falhas de minhas manifestações externas, e possa agora dar a si mesmo o que faltar.
O mundo não pode ser sua mãe, nem você pode ser a mãe do mundo... mas você pode ser sua mãe no mundo. E o equilíbrio desse papel é que define seu próprio equilíbrio, e consequentemente, a prosperidade da colheita. Meu bem, agradeça até onde externamente meu papel pode ser cumprido e até onde pode cumpri-lo, e libere-se das projeções, para ser agora sua própria mãe e seu próprio filho, e crie nesta relação interna o máximo de beleza, harmonia, prazer e emoção que puder alcançar. Ao invés de exigir, dê seus próprios frutos, e antes de entregá-los ao mundo, saboreie-os antes você mesmo.
Querida criança do universo,
Embora você pense já ter crescido muito - tanto que precise hoje dirigir sua atenção e esforço para libertar a criança interior - esta é apenas a sua percepção temporal de sua breve jornada humana. Daqui da onde te observo, do profundo e misterioso útero cósmico, eu prefiro te chamar por criança, para que se lembre do pouco que você sabe, e do muito que nunca virá a saber. Eu guardo os mistérios e os revelo a medida em que você está pronto para receber.
O Mago te ofereceu a semente, a água e a terra; te ensinou a arar e plantar, e te conscientizou do seu poder de escolha para que escolhesse as próprias flores. Agora cabe a mim te ensinar a lição mais difícil. Eu sou o tempo de espera onde as sementes repousam; do lado de dentro, profundo e silencioso da terra, eu guardo os mistérios de tudo que nela nasce, morre e renasce, sem nada controlar. Apenas contemplo a natureza como ela é, serenamente, em profunda meditação. E foi assim que adquiri minha sabedoria: observando, recebendo e interiorizando. Sem contestar nem interferir, aceito o irracional como parte do todo e o jogo de dualidades para mergulhar no mundo psíquico do ambiente e no inconsciente coletivo, e te guio intuitivamente para além do mundo aparente, te guio para dentro.
Criança, você tem lembrado de fechar os olhos para acordar seu mundo e calma interior? Ou você tem esvaído toda sua energia vital tentando controlar os fatores externos que não te pertencem, apenas para frustrar-se e culpar-se por suas limitações? Você tem se poupado da ansiedade e das armadilhas que a imaturidade do imediatismo provoca? E entregado os resultados dos seus esforços para o universo, confiando no ritmo misterioso dos planos divinos? A capacidade de realização sem o exercício do amor, da paciência e da persistência sobrecarregam os fracassos. Nem tudo se resolve com força. Aceita, criança, que se há yang, há o ying; se há o racional, há o irracional; se há acertos, há erros; se há luz, há sombras. É a interiorização da totalidade que te amadurece.
Meu bem, por que você ainda tem temido o lado oculto da lua, se tudo é sagrado? Embora enxergar à luz do sol te traga certa segurança , não confie nos seus olhos mais do que confia em seus instintos, que o Mago é também um grande ilusionista, e o que você pensa estar vendo pode ser tão real quanto o arco-íris. E se ainda não sabe como despertar seu instinto, pois bem, crescer exige abandonar…
É preciso abandonar a segurança do mundo aparente e mergulhar no próprio mundo avernal, lá no fundo da terra onde a luz do sol já não alcança, e onde os olhos de nada valem, pois que não há jogo de luz e sombra; apenas a escuridão total. E não podendo mais contar com a luz de fora, como um bicho que para sobreviver acorda seus sentidos, se acenderá a luz de uma sabedoria muito mais profunda: sua própria intuição.
Talvez não tenhamos sido formalmente apresentados, e meu nome te remeta apenas ao mundo fantástico dos contos e fábulas de outrora. Esta é uma das formas pela qual me perpetuo no mundo, nas histórias recontadas pelas avós, nas lendas e nos mitos, criando a ponte entre o imaginário e o real, entre o simbólico e o referencial, entre a potencialidade e a realização. Mas meu poder se inicia antes da palavra. A palavra é que é, antes, resultado de minha arte: traduzir o incognoscível em conhecimento. Na mais remota existência humana, eu já trazia respostas através da mensagem oculta dos sonhos e da sincronicidade. Transito entre o subconsciente e consciente. Em mim os caminhos se bifurcam e a ambiguidade prevalece. Minha maior missão é te guiar à sua verdade, mas o meu método é a ilusão.
Meu caro aprendiz,
Como um mágico com sua cartola eu crio o fascínio que te atrai. Alguns tantos ficam hipnotizados diante meu espetáculo e lhe tomam como a realidade final. Mas você, caro aprendiz, não tem se satisfeito em não decifrar-me, não é mesmo? Você quer revelar o truque. Contemplando a natureza, seu coração anseia por também compreendê-la. Ao despertar o Louco em si você sente o impulso de renovação dos desejos que alimentam a vida e se desapega do excesso de passado e futuro que te impede de usufruir o presente momento. Contudo, sem analisar e aprender através de suas experiências, se tornará refém de sua imaturidade emocional. O desejo é a força que move o mundo, mas o intelecto é sua maior ferramenta alquímica, pois somente através da percepção, análise e da vontade consciente é que você poderá se autotransformar.
Este é o poder pessoal que te concedo. Um desejo sem ser canalizado e direcionado é apenas imaginação. A diferença entre o Louco à deriva da realidade e o artista, é que o último despertou o mago em si. Eu sou a sua capacidade de transformar a inspiração em criação, pois eu externalizo a luz. E também a sombra. Para que você enxergue as próprias sombras, eu as projeto onde você possa ver: do lado de fora. E sem dar-se conta delas, você será levado ao abuso de seu poder pessoal. Então, caro aprendiz, o que você tem feito para integrar os aspectos incongruentes do Louco em você e atingir a maturidade emocional? Sua resposta aos problemas que te cercam têm sido mero reflexo dos seus impulsos e padrões? Sua vida tem sido definida por suas reações ou ações? Cada vez que você se sente impotente e arrastado pelas forças externas, é o seu próprio inconsciente que opera no lado oculto de tudo que você se negou a encarar. Quanto mais evitamos, menos nos curamos. Quanto menos nos curamos, menos autonomia temos.
E por falar em autonomia, querido pupilo, o que você tem extraído de real das potencialidades em si e das possibilidades que te cercam? É necessária a coragem do Louco para libertar seu potencial. Porém impulso sem autoconfiança, direcionamento e ação prática não passa de ilusão. O que você tem feito de fato para dar vazão a seus sonhos?
Enquanto você acredita que a motivação do que você sente é causada pelas pessoas e coisas ao seu redor, ou que a solução criativa para direcionar sua vida para onde quer virá de fora, é porque ainda está hipnotizado pela mágica. Mas meu caro aprendiz, eu anseio para que você comece a desvendar o que realmente existe dentro da cartola para finalmente descobrir que todo o tempo era você a própria magia.
Créditos da imagem: freepik.
Certa feita, ouvi dizer que a missão da vida da é levar ao velho uma mensagem da criança que um dia ele foi, para que a vida se inscreva em um círculo redondo e infinito de recomeços, e não num quadrado limitante e insignificante. E que esta mensagem talvez seja assim:
Meu caro adulto,
Eu sou o Louco. Houve um tempo em que éramos quase como um. Eu, entre a ingenuidade e inconsequência, era a criança que nunca cresceu. E você, era a criança que permitia que sua espontaneidade irrompesse sem culpa dos desejos que eu te trazia do infinito mundo das potencialidades. Já muito nos divertimos. É verdade, muitas vezes você foi externamente tolhido a não me expressar. Tantas vezes que nossa relação se tornou inexpressiva. Hoje, de dentro do seu inconsciente, observo triste que me considere quase como um estranho, e eu tenha sido relegado inteiramente à categoria de inadequado. Às vezes te prego algumas peças, para que se lembre de mim. Aproveito algumas emoções infantis desencadeadas para me fazer presente e respirar um pouco os ares do mundo de fora. Mas logo você engole, o choro copioso ou a gargalhada descontrolada.
Amigo, quando foi a última vez que você conseguiu relaxar e viver uma experiência apenas por viver, sem estar cumprindo nenhum objetivo? Quando foi a última vez que você caminhou sem saber onde ia chegar, somente aproveitando o caminho? Você se lembra da última vez em que expressou livremente o seu querer? E que pôde se conceber para além dos sucessos e fracassos? Quando foi que a vida deixou de ser uma aventura para ser apenas uma sucessão de conquistas cujo êxtase você não consegue sustentar mais do que um curto período e já está afoito querendo sempre mais de mais alguma coisa? O que de tão especial havia na infância que preenchia o coração, no lugar deste vazio da insatisfação crônica que te assombra hoje?
Em que ponto você se apegou tanto ao que quer ser e provar, que a vaidade te tornou melindroso e te fez levar tudo para o lado pessoal, e já não há mais leveza para que você ria de si mesmo? Quanto tempo te leva hoje para que sua cólera se dissipe em risos? Amigo, o orgulho só te impede de recomeçar. Mas eu ainda te enxergo por detrás da sua arrogância e do seu mental rígido; reconheço no fundo dos olhos o menino ingênuo, cheio de incertezas, mas também cheio de vontade de ser feliz. Embora eu seja mesmo louco, e sem equilíbrio eu possa te acometer de alguma irresponsabilidade e inconsequência, eu me pergunto se a maior loucura e desequilíbrio não é esquecer a si próprio com uma agenda tão cheia que não fará nenhum sentido no completo esquecimento da morte.
Mas dentre os mais insanos e fantasiosos desejos que fico criando aqui no fundo do seu ser, talvez haja aquele um que faça a vida significar realmente. Dos desejos é que nascem os sonhos. Naquela época você talvez ainda fosse muito pequeno para diferenciá-los ou para buscá-los. Mas se existe um motivo nobre pelo qual você amadureceu, é para isto. E é para agora. Meu caro adulto, não é muito tarde para lembrar daquela criança, e embora não possa mais ser tão inocente e despreocupado quanto antes, ainda há tempo de permitir um quê do brilho da minha loucura para devolver à vida o entusiasmo da aventura, a flexibilidade perante o imprevisível e a coragem de abraçar o desconhecido.
Trilha Selvagem dos Arcanos: A Carta do Louco.
Porém, estamos tão condicionados e desconectados que, a priori, esta palavra pode causar estranhamento, quando não medo. Esta palavra que se tornou a antítese da civilização, como se em algum momento realmente houvéssemos deixado de ser produto do todo. Rompemos com nossa origem e falamos da natureza em terceira pessoa, como se ela fosse algo alheio a nós, ou melhor, nós alheios à ela.
Se há felicidade real nesta vida, ela não está na superfície efêmera de todas as coisas, mas dentro. É preciso percorrer um caminho desconhecido e oculto ao cerne do coração. Ali, no centro de nós, de onde pulsa nossa essência livre e a força para exercermos nossa inteireza. A plenitude requer a coragem de ouvir e seguir nossa intuição selvagem.
Ousamos dizer, em nossa prepotente ignorância, "salvem-na". A Pachamama que sobreviveu a eras glaciais, chuvas meteóricas e erupções vulcânicas... não precisa de nós. A Pachamama renasce das cinzas e do gelo, nem a nossa mais requintada tecnologia é tão poderosa. A Pachamama que ainda quando extinta, será apenas mais uma luz que se apaga no infinito incontável de galáxias e estrelas em constante expansão.
Não apenas para estarmos fisicamente vivos. A nossa intuição selvagem nos chama constantemente de volta à fonte para que restauremos nosso equilíbrio. Adoecemos não somente porque nos alimentamos cada vez de forma menos natural, mas também agimos e pensamos. Ignoramos nosso conteúdo selvagem com medo da ausência total de controle.
Mas nós precisamos dela, intrinsicamente.
Estamos indo pelo asfalto cinza e pré concebido por medo de adentrar a selva e precisar criar a própria trilha. A estrada nos parece mais segura, mas definhamos no caminho, sem sombra, sem frutas, sem cheiro de terra, sem água corrente, sem liberdade de criar.
Mas nosso medo é infundado. Observe bem a Natureza, sua essência é autoreguladora. Todos seres buscam equilíbrio. Nossa intuição selvagem não é um elemento desordenador e descontrolado. Muito pelo contrário, o selvagem é aquilo em nós que nos salva do nosso medo de sermos inteiros; do medo de assumir e buscar o que nos faz feliz.
11 de outubro de 2019.
A falta de coragem de assumir nossa vulnerabilidade perante o outro implica na nossa falta de transparência. Omitimos perguntas chaves na construção dos nossos relacionamentos e, covardemente, assumimos a posição mais confortável para o ego: pressupor e concluir por nós mesmos, de um lugar onde dificilmente nos perceberemos errados, já que ao outro não é dada a chance de se mostrar como um personagem muito mais profundo do que julgam nossos rasos julgamentos. ⠀⠀
Neste jogo mental de 'achismos' vivemos monólogos travestidos de diálogos. Pensamos ouvir as vozes do funcionamento de outra mente, mas são apenas os ecos de nossos parâmetros limitados e pensamentos viciosos, projetando do lado externo os fantasmas com quem lutamos internamente - reflexos de nossos medos e fantasias, perpetuados em jogos de rejeição, inferioridade, inseguranças e vitimismos.
Estes sentimentos aliados à nossa dificuldade em sermos emocionalmente honestos nos tornam suscetíveis a aceitar a maçã envenenada das presunções. Nós a mordemos na ânsia de preencher o espaço vazio deixado pela ausência de clareza e escuta em nossas relações. Mas o máximo que obtemos são pensamentos envenenados contra o mundo, que nos lançam em um sono profundo, inconscientes de nós mesmos. Quanto mais real acreditamos ser o que o outro sente e pensa, mais adormecidos estamos.
Este é um sono difícil de despertar, pois da mesma forma que projetamos nossos algozes do lado de fora, esperamos lá também encontrar os heróis, soluções mágicas e rápidas como um beijo encantado. Mas neste conto não existe fada, bruxa, princesa nem príncipe no cavalo branco. Você é o único personagem apto a montar e segurar as rédeas do cavalo selvagem de suas emoções e pensamentos, não porque possa controlá-lo, mas para ensiná-lo a ser livre sem atropelar nem dar coice em nada no caminho.
Nesta jornada haverão tombos, muitos deles, mas a outra opção é passar toda estória dormindo, vítima de uma mente que recria sempre os mesmos pesadelos. Também não será um conto de felizes para sempre. Mas pode ser sim um conto de feliz, agora, bem aqui, cavalgando sem saber onde vai dar.
Desperte e troque uma maçã envenenada por um coração sincero. 🍎
2 de outubro de 2019.
Imagem: Hanna Vickrs' flickr.
Era início da estação de florir. Uma roseira percebendo outra roseira triste e sem flor, deu-lhe o único botão que tinha: 'veja, meu bem, não fiques mais triste, esta é a minha prova de amor. Sei que ficando feliz, brotarás seus próprios botões. E reconhecendo meu sacrifício, me retornarás em dobro o que te dei'.
A outra roseira ficou feliz e no meio da estação já estava toda em flor. Tão florida que se ocupou inteira das abelhas e outros pequenos insetos que vinham atraídos por seu pólen e perfume.
A roseira ao lado se indignou com tamanha ingratidão. Tanta era sua frustração e amargura que naquela estação só deu espinhos. No desespero de sua solidão, aceitou a companhia de algumas lagartas que lhe devoraram as folhas. Por fim, sem flores e folhas, se sentia tão sem valor que secou. No trincado de suas folhas mortas, jaz uma lição. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
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Quando se perceber fazendo pelo outro esperando alguma coisa em retorno, faça uma pausa antes e respire. Prossiga se perceber que o simples ato de doar ou contribuir basta para preencher seu coração. Se recolha quando não for e cuide primeiro de si. Cuidando bem de si em algum momento se descobre o outro. O verdadeiro outro, e não aquele projetado por nossas carências e expectativas.
O que quer que façamos esperando retribuição ou reconhecimento faz parte de um jogo de promessas e escassez. A expectativa que depositamos no outro é um contrato de letras miúdas ou invisíveis em que responsabilizamos a contraparte pelo que sentimos, quando não por nossa felicidade.
Quem não reconhece o próprio valor e amor-próprio, abre mão de si para ser valorizado e amado externamente. Sem ter consolidado as bases do próprio amor, mendiga e negocia afeto. Aceita que companhias e hábitos destrutivos cheguem e permaneçam.
Mas se cuida bem de si, diz não quando a única coisa que tem é um botão de flor imaturo, pois sabe que primeiro precisa cuidar da própria maturidade e abundância. Até que cheia de flor e amor próprio, doa sem que doa. Doa porque o mínimo que deseja pro outro é a felicidade e o amor que já construiu pra si. E este mínimo também é o parâmetro interno para que não aceite lagartas, e atraia borboletas.
15 de setembro de 2019.
F
Fecho os olhos ou abro. Tanto faz. As paisagens internas transbordaram para fora. Abstraio a realidade como quem sonha, pois foi assim que me ensinou o mar: a espuma das ondas se desfaz dentre os dedos quando tento segurá-la. Então eu mergulho para dentro delas e sinto as bolhinhas a me acariciar, pois o máximo que posso obter é receber o momento. Não podendo absorvê-lo, nele me absolvo. Não me agarro, não me apego, sem mais culpa, me entrego ao ir e vir da maré. Seu gosto salgado tem sabor de lágrima. Talvez seja isso que deixe a gente tão leve de banho de mar. É uma bacia de choro guardado lavando a alma. Um choro de toda terra. Um choro de todos nós. E quem chora o que precisa, depois ri melhor. Ri imenso como o oceano. Ri de felicidade de saber que tudo é água. Tudo é Deus. Tudo é Deusa.
A Deusa age na lua cheia fazendo as águas encherem. Minha rainha prateada, que é tanta emoção assim que mal cabe no peito? Ela me olha do alto, ela reflete no mar, ela me responde através de minha própria intuição: emoções que vem e que vão, como onda, é tudo forma. As formas marinas de se expressar - onda mansa ou agitada, rasa ou profunda, grande ou pequena, fraca ou forte. As formas divinas de se manifestar.
É a dinâmica impermanente do estar. Mas para estar é preciso ser. Para ter forma de onda é preciso ser água. Para sentir algo é preciso ser amor. Sem amor nada sente, nada é ciente. Até a dor é o amor ferido na gente. E toda forma ensina alguma coisa antes de se desmanchar na imensidão, no infinito.
E diante a infinitude tudo é ilusão escorregadia e fugaz como um peixe que a gente tenta agarrar pelas mãos; mas na mão nada fica. Nem espuma. Nem peixe. Ninguém pode levar nada da vida do mar. Do mar da vida ninguém pode nada levar.
Que resta? Nadar.
Lue cheia em peixes, 13 de setembro de 2019.
Quando já não preciso esperar que o mundo me surpreenda, me agrade ou me conforte; quando me vejo livre da necessidade de ter ou fazer; quando silêncio significa paz, e solidão significa consciência da minha presença ... só então posso sentir ao mesmo tempo alegria e liberdade.
Às vezes nos encontramos suspensos, seja pelo medo, pelas incertezas ou pela inércia do desânimo. Talvez nos atinja uma sensação de estar perdido ou de ser incapaz, na vida como um todo ou em alguma área dela. Nos sentimos presos e reféns de nossas tendências ou das circunstâncias. Talvez ainda leve um tempo para que transitemos do vitimismo para abraçar a nossa responsabilidade na situação em que nos encontramos. E é neste espaço transitório onde o viajante, já não conseguindo caminhar, precisa encarar este arcano, o pendurado.
Acreditamos que o mundo, as pessoas, as circunstâncias estão de cabeça para baixo, e seguiremos culpando o mundo externo até que estejamos prontos para perceber que somos nós os invertidos. O louco, na sua jornada, terá que encarar a morte nos olhos para deixar morrer o que for preciso para que ele possa crescer e seguir. E sobre isso já escrevi aqui. Mas calma. Cal-ma. C-a-l-m-a. Ainda é cedo, ainda não estamos prontos, ainda estamos em negação pois não amadurecemos o suficiente. E tudo bem. Tudo bem não estar pronto. Antes de seguir para a força crua e ceifadora da morte, precisamos aceitar as lições do arcano anterior, ou corremos o risco de mortes mal morridas, destas que deixam fantasmas a nos perseguir.
Faça um pouco de silêncio para o ouvir o pendurado, ele quer te mostrar que, apesar da força dos fatos e das circunstâncias, é a sua perspectiva o que realmente te enfraquece diante deles. Mas antes que você se condene, antes que você tente brigar consigo mesmo, e forjar caminhos impostos de fora pra dentro, o pendurado quer que você aprenda esperar o ponto da doçura da transição, do caroço para a polpa. Quem morde uma fruta que não está madura, amarga sua experiência. Algumas coisas levam tempo, mas levam o tempo que precisam levar. E enquanto o momento não chega, aproveite a vista de cabeça para baixo para conhecer prismas sobre si mesmo que você ainda não havia percebido. Você está trocando a noite pelo dia, pois bem, nem sempre é tudo claro e ensolarado, mas só a escuridão te permite conhecer as estrelas. Quanto mais escuro, mais constelações.
A verdade é que a vida, na sua infinita sabedoria, sabe que enquanto estamos em movimento e dentro dos trilhos, tendemos a ficar desatentos à nossas paisagens internas e cairmos no modo automático do trem que sabe exatamente onde a estrada vai dar. Mas não sabemos. Descarrilados, frente à nossa impotência e ignorância, nosso vício por fórmulas prontas se prova disfuncional, quando não obsoleto. E sem a segurança do trilho, nos sentimos desamparados, até desesperados com o que parece o fim da estrada. Mas não é. Não é o fim. E também não é fácil. Mas à medida que aprendemos a dialogar com nossa condição com aceitação e paciência; à medida que reprogramamos as vozes autoritárias e duras que absorvemos das pessoas de fora pelo som e ritmo de nossa própria voz, trocamos gradativamente a rispidez julgadora herdada por uma firmeza compreensiva e amorosa; trocamos, por fim, o desconforto de nossa posição pela entrega. E nela, começa a descortinar a possibilidade de inventar um novo caminho.
Há agora uma nova consciência adquirida no tempo de suspensão, que nos permite doçura e até um certo entusiasmo no movimento da foice da morte que poda o velho para que brote o novo. No final, você vai descobrir que sem a carga forçada que você vinha acumulando nos vagões, sem o trilho ditado, o que sobra é mais liberdade e leveza para deixar de proteger seus medos debaixo das asas, para que o pendurado descubra no exercício da sua livre vontade o que o motiva a voar.