Entrevista com a roteirista Giuliana Heberle
Se você estiver lendo isso do computador, talvez queira dar um CRTL+/COMMAND+ na tela, porque o texto nesse template fica menorzinho.
Você lembra da primeira vez que escreveu uma história?
Talvez “primeira” vez seja uma coisa meio difícil, né. Nem todo mundo lembra da primeira vez. Mas, assim... algo que você lembre hoje e pense “nossa, eu já curtia escrever naquela época!”. Ou qualquer outra atividade, caso você esteja lendo isso e não escreva. Eu nunca escrevi muitas histórias quando era criança, mas lembro de fazer músicas pra lembrar os assuntos de provas da escola. Tenho aqui em destaque a música que fiz sobre o Minotauro, com arranjo original, e uma sobre os seis filos de algas marinhas, na melodia de “Raindrops Keep Falling on My Head”.
Ler o iniciozinho da primeira resposta da Giulianna me fez lembrar disso. Ela foi lá atrás pra buscar a resposta, e eu achei sensacional! Porque são lembranças que ficam com marca-texto na memória! A gente pode voltar nelas e perceber que ainda fazem sentido.
Eu conheci a Giuliana Heberle nos créditos da série Paralelo 30, uma sitcom sobre seis universitários que dividem um apartamento em Porto Alegre. E eu adorei conhecer essa cidade pelos olhos do Dodô, da Tina, Calzone, Val, Geraldo e Montse(!), além de me ajudar a entender o ritmo e enredos de uma sitcom no português brasileiro.
Para assistir à Paralelo 30, é só clicar aqui
A Giuliana foi uma das roteiristas nessa série, junto com Alessandro Engroff, Felipe Boff, Felipe Longhi, Giulia Góes e Leo Garcia. Nós falamos sobre isso e outras cositas na entrevista a seguir.
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Como foi que você começou a escrever roteiros?
Giuliana Heberle: Na segunda série, escrevi para minha professora, Fátima, uma história sobre um gatinho que fugiu da casa dos donos. Ainda guardo essa história em um arquivo morto, que mora com a minha irmã em Porto Alegre nesse momento.
Na minha cidade no Rio Grande do Sul não tem muita oferta de cursos de roteiro. Eu tava na faculdade, no curso de Design Visual, e pedi transferência pra Jornalismo, por achar que teria mais oportunidade de escrever. E tive, mas muito no freestyle. Todos trabalhos eu colocava como um desafio audiovisual.
Tendo em consideração que tem apenas duas Universidades pagas que oferecem o curso de cinema na cidade, e que na minha família sempre me colocaram no rumo do ensino público, desde o fundamental, me formei em Jornalismo mesmo. Então fui frequentadora de cursos livres, workshops etc.
Em 2015, a Eleonora e a Maria Elena, que tinham recém se formado na EICTV, ao retornarem resolveram dar um curso de Roteiro Audiovisual para Mulheres. Tinha que mandar uma carta de motivação. Fui aceita, e o curso, que custava cem reais simbólicos por mês, mais para ajudar na manutenção da Associação de Pesquisas e Práticas em Humanidades, onde aconteciam as aulas, durou seis meses. Aí que tudo começou nesse formato de roteiro.
Qual gênero você mais gosta de escrever? E por que você gosta?
Giuliana Heberle: É difícil essa. Escrevo muito fluxo de pensamento, poesia no papel, prosa, contos. No roteiro mais comédia, drama e animação. Gosto de poder ser crítica e reflexiva no drama. Na comédia é legal poder ser irônica e autodepreciativa. Na animação dá pra sair muito fora da caixa, pode acontecer tudo.
O que é mais prazeroso pra você nesse processo de escrita? E o que você não curte?
Giuliana Heberle: Como sou jornalista, minha escrita tem muito de fragmentos do cotidiano. Eu escuto muito. E adoro essa parte. De flanar, observar, contemplar. Colher material. Gosto de fazer fotografias do que me chama atenção, ficar filosofando sobre o porquê daquilo ter me fisgado. Às vezes alguém me pega para conversar, gosto muito disso. Do contato humano, de se colocar no lugar do outro, escutar essa voz e entender onde ela reverbera dentro de mim.
Já o contrário, o que não curto no processo, é quando sinto que me obrigo a escrever, que me espremo em prol de uma produtividade. Às vezes é necessário, mas é uma pressão, que acaba se repetindo por causa do sistema.
No início da quarentena eu recebi vários links de filmes e séries para assistir gratuitamente. Encontrei muita coisa legal, e a Paralelo 30 foi uma! Fiquei curiosa para saber do projeto. :) Você pode contar sobre como surgiu a ideia dessa série?
Giuliana Heberle: Fiquei feliz quando liberaram! Os criadores da série são o Leo Garcia, que coordenou a sala de roteiro que fiz parte, o Fred Ruas, que dirigiu, e o Beto, que produziu. Surgiu em 2010 e veio a se concretizar em 2017. A ideia foi falar sobre a cidade de Porto Alegre, que fica no paralelo 30, e por isso o nome da série, do ponto de vista de uma pessoa que não é gaúcha. E a partir disso fazer uma zoeira por não ser uma cidade nada turística, mas nós bairristas sermos apegados. Ao pôr do sol no Guaíba, por exemplo, e às pessoas.
Uma outra coisa que eu também curti é o fato de ser uma série de comédia! Como foi a preparação de vocês (roteiristas) nesse sentido? Vocês procuraram livros, séries ou filmes que ajudaram?
Giuliana Heberle: Com certeza! Várias referências sim. Friends é uma clássica de sitcom, assim como Seinfeld. Aí fomos buscando umas atuais, como Fresh Meat, que tava passando na Netflix, Easy também, e várias séries de comédia de 30 minutos que fomos levantando na época. Tem muita coisa que é legal saber também para se comunicar em grupo. Do tipo, personagem tal é tipo a Phoebe, sabe? Aí todos se entendem. É bom estar cheia de referências sempre.
Tina (Hayline Vitória) em “Genial!”, quarto episódio de Paralelo 30
Como foi a dinâmica de vocês na sala de roteiro? Como vocês organizaram as etapas e funções de cada um?
Giuliana Heberle: Tinha um briefing que eram seis personagens. Fomos discutindo, trazendo pontos para cada um, e eles foram tomando forma. Durante as tardes íamos anotando tudo num arquivo, não tinha assistente. Depois fizemos as escaletas, que é o processo que mais leva tempo. Criamos as tramas, as relações entre os personagens. É incrível como a coisa vai se edificando. Entram experiências próprias também. Teve um dia em que antes da sala fui almoçar na casa de uma amiga, e tava sem luz. Contei e acabou virando trama. O desenvolvimento de roteiro tem disso, acho uma alquimia louca a forma como isso acontece entre os autores. Cada um tem uma experiência, uma voz que complementa.
Depois de feitas as tramas, e as escaletas completas (ou quase), pegamos um episódio cada um (como eram seis, justo como o número de roteiristas, funcionou assim), e escrevemos. Depois lemos tudo junto, discutimos, aí trocamos, reescrevemos, e assim sucessivamente até o último tratamento.
Foram seis meses de tardes de criação com gaúchos, no frio, tomando mate. Eu curto sala de roteiro. Agora com a pandemia, temos que reinventar.
O que você considera importante na hora de escrever uma sitcom?
Giuliana Heberle: Acho que o clima entre as pessoas tem que ser de abertura e não de julgamento. A gente tem que abrir espaço pra bobagem, pra improvisação, pra espontaneidade. O Leo foi muito massa nesse sentido, nos deixando super à vontade, dando água quente pro mate e tal, pra gente se esquentar.
Dodô (Rodolfo Ruscheinsky) em “Genial!”, quarto episódio de Paralelo 30.
Eu sempre fico curiosa com a construção dos personagens. No início eu achei que era uma série de multiprotagonismo, mas depois pensei “talvez o Dodô seja o protagonista”. É isso mesmo? Qual raciocínio vocês usaram na construção dos personagens?
Giuliana Heberle: Engraçada essa percepção de o Dodô ser protagonista. Na sala a gente pensou que era o Calzone, de uma forma geral, por ele ser coxinha e a gente zuar muito ele. Mas no primeiro episódio é a Montse, por exemplo. Na construção das tramas, a gente tentou colocar uma A de cada personagem em cada episódio. No terceiro da Val. No quarto da Tina. No quinto do Geraldo. São sempre 3 tramas, A, B e C.
Você pode deixar aqui um livro, filme e/ou série que foram importantes pra você (como roteirista)? Pode ser mais de um!
Giuliana Heberle: Claro, com prazer! Palavra de Roteirista, do Lucas Paraizo, é uma enciclopédia coloquial de roteiro. Eu adoro ler entrevistas, então esse tá no meu TOP 1. Super recomendo. E um filme que me marcou muito foi A Excêntrica Família de Antônia, da Marleen Gorris. Adoro narrativas femininas.
Obrigada, Giu, por ter topado a entrevista! E por ter trazido um pouco do que foi o processo criativo da Paralelo 30. E se você quer assistir a série, saiba que ela vai ficar online gratuitamente por tempo limitado! É só acessar aquele link que eu coloquei lá em cima, ou procurar “Paralelo 30″ no Vimeo.
Até a próxima :)












