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KIROKAZE
🪼
he wasn't even looking at me and he found me
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@sextaventura
Sei que estou devendo um post sobre a experiência do New Voices, o curso de roteiristas estreantes que estou tendo o prazer de participar. Ainda não é esse. Mas uma amiga fez um post tão gostoso sobre a relação dela com textos e livros, que eu tive vontade de fazer a mesma coisa. Não estou acostumada com esse estilo mais pessoal, então pode ser que saia um grande relato sobre o que foram meus últimos dois anos, ao invés de algo útil para a sua vida. Vou linkar um conteúdo interessante de roteiro no final, só por precaução.
No dia 23 de abril de 2020 eu postei uma entrevista com a roteirista Mariana Tesch (das mais incríveis que conheci até agora, pesquisem). É a data de aniversário desse blog. Inclusive, me dando conta agora de que (1) é um blog taurino e que (2) eu esqueci de comemorar. Vou aproveitar para fazer isso agora. Apesar de ser uma produtora de conteúdo slow content, com foco no slow, foram dois anos de posts, vídeos e muita coisa que aconteceu na minha vida de lá pra cá. E começar a escrever aqui foi um marco importante que merece retrospectiva e agradecimentos.
Não sei se eu tinha muita ideia do que queria quando comecei o blog. Eu estava me formado em Mídias Digitais (UFPB) e começando a me dar conta de que trabalhar com design e edição de vídeo talvez não fosse exatamente a minha praia. É uma praia gostosa, mas não daquelas que eu faria sanduíche de atum pra passar o dia e ficar até os últimos raios de sol. Três meses depois a pandemia estourou e eu comecei a trabalhar remoto. Levar meu trabalho pra casa e ficar coladinha com ele me fez ter certeza de que eu gostaria de fazer outra coisa. E aí fui atrás dos livros de roteiro que eu tinha em casa. Comprei eles por conta do meu TCC, que foi um curta-metragem. Era pra ter sido só um roteiro, mas meu professor falou que não tinha nada de “mídias digitais” em dez folhas de papel, então eu gravei com celular e falei sobre a parte técnica da coisa. Mas o que eu queria mesmo era ter feito o roteiro. E infelizmente não gastei tanto tempo nele quanto gostaria, mas os livros ficaram em casa e me deram uma luz de algo que eu poderia fazer.
Por conta da pandemia, muitos eventos de roteiro migraram para o formato online. Foi a primeira vez que eu participei do FRAPA e fiz cursos de roteiro. Além dos zooms da vida pandêmica, também tive conversas com roteiristas habilidosos e pacientes que toparam responder minhas perguntas. E eram conversas empolgantes! Uma sensação de “pô, encontrei minha tchurma”. Queria ter mais conversas como essas e conhecer pessoas como eu, que queriam escrever um roteiro. Talvez trabalhar com isso? Nem falava em voz alta, porque achava muito surreal. Mas sabia que gostava do assunto e queria entender mais sobre estruturas, personagens, consciente e inconsciente. Me apeguei nesse desejo e comecei a mandar um monte de e-mail.
“Olá, pessoa! Tudo bem? Meu nome é Mariana, tenho esse blog aqui de roteiro e adoraria te entrevistar, pi pi pi”. Mandei vários desses e, na paralela, escrevia e fazia vídeos sobre os assuntos que estava estudando. Com o maior medo de estar falando merda, mas de lá pra cá tenho aprendido que os estudos estão sempre incompletos. Do mesmo jeito que em algum momento, alguém precisa tirar o roteiro da sua mão e dizer “Chega! Fecha esse arquivo e envia”. Na maioria das vezes o alguém é a gente mesmo, ou o prazo apertado. Foi bem bom o processo. Tiveram posts que eu curti muito, outros que não tanto, e os ocultados, que eu acesso quando estou com vontade de lembrar das vergonhas que já passei. Todos eles me ensinaram alguma coisa, e no meio disso também fui fazendo amigos de roteiro. Uma delícia.
Nos cursos, conversas e entrevistas, recebi as primeiras propostas de assistência de sala e foi isso que eu fiz durante 2021, o ano em que o meu slow content ficou mais slow. Além das salas de roteiro, eu ainda estava trabalhando como designer e editora de vídeo, e achei melhor focar para não surtar. Bom, foi lindo. A minha primeira sala, então, foi tudo pra mim! Três roteiristas maravilhosas que me acolheram e me incentivaram a falar o que eu tava pensando. Claro que ainda tinha o medo de falar merda. Não sei se ele vai embora, mas acho que vai diminuindo. E é até bom que ele fique ali, pequenininho. Ajuda a gente a se concentrar no próprio raciocínio e se assegurar, pelo menos um pouco, de que a informação vai chegar inteligível para os colegas. Falei pouco, falei bastante, falei merda e fiz várias atas. Foi um ano que não fiz cursos, mas me acalmei pensando que estava tendo uma super experiência. Ao vivaço. Cada sala que eu trabalhei me ensinou algo diferente, e foi muito bom ver várias histórias sendo desenvolvidas em grupo.
No final do ano passado eu decidi focar mais no roteiro do que nas minhas outras áreas. Não foi uma decisão fácil, e tive muita ajuda pra chegar nela. Achava loucura pular numa área relativamente nova pra mim, sem ter certeza se ia dar certo ou não. Mas não é sempre assim? Neo mesmo não sabia o que tinha atrás da pílula vermelha. A gente só toma uma decisão e espera pelo melhor. Uns meses depois, quando a moça do laboratório perguntou minha profissão no dia do exame de sangue, eu disse “Roteirista”. E ela falou “O que?? Não ouvi”, e eu disse “Roteirista!”. O pessoal da fila se assustou um pouco e eu também. Doideira que sou roteirista, mas é verdade.
Esse ano fiz o meu primeiro trabalho como roteirista jr. Já tinha colaborado nessa função em outros projetos, mas dessa vez foi real oficial, escrito no meu contrato. Dá uma alegria e um medo ao mesmo tempo. E hoje, nesse momento, está me dando um aperto bom no coração. De pensar na corrida maluca que foi isso. Queria dar um abraço em cada pessoa que fez parte desses últimos dois anos. Algumas eu já dei! E dizer que agradeço muito. Obrigada você que respondeu minhas dúvidas, que enviou livros e roteiros por e-mail, que deu entrevistas maravilhosas que eu leio e assisto até hoje. Que esteve junto nas salas de roteiro! Que fez comentários nesse blog e compartilhou ele com alguém. Confesso que não sei pra onde ele vai a partir de agora. Mas sei que escrever aqui só é uma sextaventura porque eu tenho sextamigos pra compartilhar. E com post ou sem post, espero que a gente se encontre por aí.
Não sei se você é entendido da Astrologia, mas achei interessante ter descoberto que esse blog é taurino. Touro é um signo que as pessoas geralmente associam à lentidão, a processar demais as coisas. Mas também fala de valorizar um processo de maturação para chegar no belo. Eu costumo ser bem ansiosa, mas amo coisas belas. E acho que a Sextaventura, taurinamente, está me ensinando o valor do tempo para construir uma bela história. Seja nas páginas, ou a minha própria.
*** Agora um conteúdo de roteiro! Você sabia que rolou uma aula ao vivo na Paradiso sobre o que fazer antes de chegar no primeiro ato de um roteiro? Com a Camila Agustini e o Aleksei Abib. Tá emocionante! Link: https://www.youtube.com/watch?v=_HIff2RPS0Q
Beatriz Leal é formada no curso de Cinema e Audiovisual da UFF. Defendeu a monografia “Memórias espectatoriais compartilhadas de uma mulher negra” (2020). Trabalhou como roteirista no projeto “A Memória da Luta Pela Libertação em África” (2019, CPDOC FGV), no Laboratório de Curtas Luzes da Cidade (Festival Primeiro Plano, 2019) e Laboratório Griô (Mostra de Cinema Negro Brasileiro, 2019). Atualmente, trabalha como assistente de roteiro e fez parte da equipe das séries “Vai Que Cola - 8a temporada” (2020, Multishow) e “As Seguidoras” (2022, Paramount+).
Instagram da Bia: https://www.instagram.com/adamastorbia/
Você acha que existe diferença entre “sorrir de forma enigmática” e “sorrir como quem guarda um segredo”? Enigmático pode significar muitas coisas. Nós estamos nos encontrando agora nesse texto, mas antes e depois dele levamos vidas diferentes, nas quais a palavra “enigmático” tomou sentidos também diferentes. Pra falar a verdade, eu até tenho dificuldade de associar enigmático a pessoas! Penso em filmes de mistério e fotos antigas que não têm história conhecida por trás, e a falta de contexto deixa a foto enigmática.
Enigmático me distancia. Mas dizer que a pessoa sorri como quem guarda um segredo… Isso me aproxima. Ela está sorrindo e guardando um segredo. Eu já fiz isso em algum momento da minha vida. Já vi pessoas fazendo isso. Pode ser um segredo bom que a pessoa não pode contar, e por isso está sorrindo. Ou pode ser que a pessoa seja má e esteja sorrindo porque quer ver o outro se lascar quando receber a notícia. Ou pode ser que esteja sorrindo porque não consegue guardar um segredo com naturalidade. Outras coisas vão ajudar a definir esse “sorrir como quem guarda um segredo”. História, personagem, intenção, situação. E que bom que temos elementos pra ajudar a decifrar o tipo de sorriso, porque acho mais interessante do que ter que usar a palavra “enigmático”.
Rian Johnson fez isso no roteiro de Knives Out - Entre Facas e Segredos (2019). Ele foi específico e criativo no uso das palavras. Essas especificidades criativas dele fizeram tanta diferença que eu li o roteiro como se fosse um livro de mistério, com a empolgação (ó) lá em cima. Além disso, acho que o universo da história e tudo o que aconteceu ficou mais palpável por conta dessa atenção especial às palavras. E isso acontece em todos os momentos do roteiro, mas eu gostaria de destacar as descrições de personagem, porque achei especiais. Antes de compartilhá-las, vou colocar aqui a sinopse do filme, caso você não tenha visto.
“Após comemorar 85 anos de idade, o famoso escritor de histórias policiais Harlan Thrombey (Christopher Plummer) é encontrado morto dentro de sua propriedade. Logo, o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) é contratado para investigar o caso e descobre que, entre os funcionários misteriosos e a família conflituosa de Harlan, todos podem ser considerados suspeitos do crime.” Fonte: Adoro Cinema.
A gente não precisa se preocupar com quem são os personagens, especificamente. Só as descrições já são um arraso.
Olhos de aço não é uma expressão que eu escuto todo dia. Talvez seja muito usada no inglês, não sei. Me faz pensar numa pessoa que não tem paciência pra ouvir os pormenores dos outros, que é imperativa e pouco sentimental. O fato da Linda ser elegante me faz pensar que ela usa as palavras primeiro. Não é o tipo de pessoa que vai voar no seu pescoço numa discussão, pelo menos não de primeira. “Falar e se vestir com um pouco mais de elegância do que a situação exige” me dá a sensação de deslocamento. Mas um deslocamento intencional: ela quer se colocar dessa forma, porque escolhe o que veste e o que diz. Pode ser uma pessoa que quer estar numa posição superior. E a preocupação constante (constante porque o roteirista diz “qualquer ocasião”) de “estar acima” me faz pensar que pode ser uma mulher competitiva. Rian Johnson também usou as palavras “elegante” e afiada”, que são necessárias. Elas estabelecem um campo. E dentro desse campo, ele tem a liberdade para continuar com descrições mais específicas. E vê como é o específico que ajuda a concretizar que tipo de personagem é essa?
Entrar falando ao telefone já não é uma atitude muito educada. A ação já fala por si. E aí, o Rian Johnson diz “rude e confiante”. Mas que tipo de rude e confiante? Do tipo que “coloca seus pés em cima de qualquer coisa”. Assisti a um filme essa semana que tinha um personagem rude e confiante. Mas ele aceitou comer um bolo que parecia horrível e fez perguntas cujas respostas não estava interessado em ouvir, só por educação. Ele era educado socialmente, mas dizia verdades duras com o tom de quem sabe todos os segredos do mundo. É também um personagem rude e confiante, só que de uma forma disfarçada. O Richard é rude e confiante de um jeito escrachado, não se importa com regras sociais. Não se importa em colocar o pé cheio de sujeira da rua no tapete caro que você acabou de comprar.
Eu gostei do “suavemente obediente”. Porque também existem os que são ansiosamente obedientes, que são atrapalhados e correm para obedecer. Ser suavemente obediente parece que a pessoa é conformada. Pode até querer coisas pra si, mas não o suficiente para lutar por elas. Nessa descrição, o roteirista usa a roupa para ser específico. Mocassim nem me diz muito, mas suéter me lembra Natal, papai noel e senhores aposentados. Só que o Walt é filho de um cara ricaço e não está nem um pouco aposentado. Tudo bem que trabalha com livros, um universo que aceita com mais carinho as pessoas de suéter. Mesmo assim, a combinação suavemente obediente + suéter faz a gente entender que o Walt é um gatinho no meio dos grandes negócios.
Aqui também tem as roupas da Joni para ajudar no específico da Joni. Esta personagem aparece pouco, mas mesmo assim fica marcada pelo seu estilo. Pessoas boho chic e de vestido florido me fazem pensar em pessoas que têm dinheiro e apoiam algum tipo de causa, ou filosofia de vida. A Joni tem uma empresa de skin care, mas quando um dos personagens descreve como “empresa de skin care”, ela diz que é “um lifestyle completo, com autossuficiência e reconhecimento das necessidades humanas”. Quando ela diz isso, o estilo faz o match com a personagem.
Existem muitos tipos de raivoso, mas quando o roteirista coloca que Jacob está sempre no celular, entendemos que é um raivoso mais no sentido de “me deixa em paz”, do que “vou te bater aqui, agora”. Ele aparece pouco, fala quase nada, mas não deixa de ter a sua singularidade.
O trabalho de encontrar formas interessantes de descrever cada personagem é uma etapa posterior, eu acredito. Porque antes disso o Rian Johnson teve que criar bons personagens, com camadas dignas de descrições como essas. E isso me faz pensar que:
Bons personagens ajudam a criar boas descrições.
Tem uma equipe inteira que vai ler este roteiro, e a maioria delas não fez parte do processo de escrita. Por isso, eu preciso escrever essas definições de um forma que inclua as pessoas nessa experiência.
Fazer descrições de personagens é divertido. Analisá-las também.
Se você quiser dizer algo sobre esse assunto, mas não conseguiu usar os comentários do Tumblr, a gente pode conversar pelo Instagram (@mar1cam1llo).
Bom fim de semana! E até a próxima sexta.
Estruturas de roteiro (na minha experiência) exigem dois olhos. Um deles é pra focar na lógica da estrutura, porque cada autor tem um jeito de explicar a mesma coisa, e um pouco mais pra direita ou mais pra cima faz diferença. Tipo quando a gente chega na casa da amiga e acha estranho ela estar guardando um leite azedo. Talvez ela tenha esquecido, mas talvez ela esteja fazendo uma receita que exija leite azedo. E se eu, achando que é o “certo”, jogo o leite ralo abaixo, vou estragar os planos dela. Cabou a sobremesa. Entender a lógica da estrutura, sem querer colocar a minha própria lógica ou outras referências no meio, me ajuda a chegar no resultado que o autor previu.
O outro olho é para ficar não ficar bitolada. E esse olho eu comecei a usar mais recentemente. Porque não dá pra ficar pregando a palavra do Robert McKee, do Blake Snyder ou da Jill Chamberlain (apesar de eu pregar um pouco a palavra da Jill Chamberlain). São receitas diferentes. Há algumas semanas, eu falei com a roteirista Alice Name-Bontempo e ela disse que quanto mais profundamente entendemos uma estrutura/teoria, mais vamos saber qual delas usar em cada projeto. Achei isso fantástico! E é com os dois olhos bem abertos que eu gostaria de compartilhar um pouco da minha experiência com o livro The Nutshell Technique, da Jill Chamberlain.
Jill Chamberlain é roteirista, professora e consultora de roteiros. A Nutshell Technique (a técnica da casca de noz?) surgiu das experiências que ela teve escrevendo, dando aulas e consultas, e consertando roteiros. Seus alunos e clientes pareciam estar errando em pontos muito parecidos e, na tentativa de solucionar essa dificuldade coletiva, ela encontrou uma chave no personagem principal. E criou esse esquema no estilo “faça isso e seu roteiro vai funcionar”. Ela usa o personagem principal para sustentar a estrutura. Eu amarro a cordinha nele, lá no início da história, e vou andando. Se chego ao final com a cordinha na mão e (isso é importante), ela fica bem retinha e tensionada quando eu puxo, significa que o personagem não caiu, nem soltou a corda e foi embora. Ele ainda está lá, o que significa que eu consegui criar uma história que se sustenta. Vai ser um bom roteiro? É uma história sem sal? Nesse momento não sabemos, mas a estrutura funciona.
E o que seria funcionar, né? Ainda não tomei meu cafezinho com a Jill para poder confirmar isso, mas vou compartilhar o que eu entendi. Ao meu ver, a técnica da casca de noz é uma estrutura com quatro ingredientes principais: protagonista (A), falha (B), força (C) e desejo inicial (D). Esses ingredientes precisam se comunicar, do contrário a receita não funciona. Vou pegar o exemplo de um filme que a autora analisou.
O Lado Bom da Vida 2013
(contém spoilers)
A imagem ficou ruim, né? Ainda não consegui ajeitar isso, é alguma coisa que o Tumlblr faz.
Ato I
Logo no início de um filme, o protagonista mostra o seu desejo inicial. Em O Lado Bom da Vida, analisado pela Jill Chamberlain, o desejo inicial do Pat é ser melhor para a sua esposa. Mas muitas pessoas querem ser melhores para suas esposas, maridos, companheiras… Por que isso dá uma história? Porque a falha do Pat é a sua falta de controle das emoções. No primeiro ato, descobrimos que a esposa o traiu e ele bateu violentamente no amante dela. Depois disso, foi diagnosticado com transtorno bipolar, passou oito meses numa clínica de reabilitação e recebeu uma medida de proteção para ficar longe da esposa. Se eu não consigo controlar minhas emoções e estou judicialmente proibido de chegar perto da minha esposa, o desejo inicial “ser melhor para a esposa” é uma tarefa bem mais difícil.
Eu marquei essa parte com estrelinha no livro da Jill, porque me ajudou muito. Ela explica que o seu protagonista é a pessoa que mais vai sofrer se ficar submetido àquela situação. Eu sei que uso muito exemplo de comida, mas só mais um? Se você me colocar na frente de um prato de brigadeiro e disser “coma”, o resultado dessa história é um filme experimental de uma mulher comendo brigadeiro por alguns minutos. Talvez eu peça um copo d’água pra conseguir dar conta do recado, mas é o máximo de ação que você vai ver. Se isso é um filme (seja uma comédia ou tragédia aristotélica), eu tenho que odiar comer brigadeiro. Minha avó, que cuidou de mim desde criança, amava brigadeiro com todas as forças do seu ser. E aí eu saio de casa, vou pro mundo e nunca mais ligo pra checar como ela tá. Mal sabia eu que ela estava muito doente. No meio de uma rave embaixo da Torre Eiffel, recebo a ligação da enfermeira dizendo que minha avó tem poucos dias de vida e tudo o que ela queria antes de morrer era um brigadeiro mexido pela netinha dela. Sua única neta. Eu corro para o aeroporto, enfrento um monte de burocracia pra chegar na minha antiga cidade, no hospital, no quarto da minha vó e mesmo assim, é tarde demais. Minha vó morreu. Ela nunca mais vai comer um brigadeiro mexido por mim. Anos depois, me pedem pra comer um prato de brigadeiro. Se a gente acompanhou essa história desde o início, vai pensar: “Putz, ela vai ter que comer?! Coitada!”. Agora sim, eu sou uma pessoa que vai sofrer comendo um prato de brigadeiro. Essa história maravilhosa já está registrada, por favor, não copiem. Aviso quando sair nos cinemas.
Ato II
Nesse momento, o personagem principal é testado na sua falha. No final do primeiro ato, Pat conhece Tiffany, uma mulher que está interessada nele. Pat só pensa em ficar bem para a sua esposa (objetivo inicial). Mas quando entende que Tiffany conhece sua esposa e fazer amizade com esta mulher pode ajudá-lo a chegar à ex-mulher, ele muda de postura. Começa a se envolver cada vez mais com Tiffany.
Na relação com Tiffany, os amigos e a família, Pat é testado na sua falha. Então, de novo, são personagens e situações que podem fazer com que ele perca o controle das emoções. O desejo de ficar bem para a esposa é o que faz com que ele continue caminhando, até chegar na crise.
Ato III
Até o momento da crise, no final do segundo ato, Pat é guiado pela falta de controle das suas emoções (falha). A partir daí, ele toma o primeiro passo em direção a sua força: saber controlar suas emoções. Nesse momento de crise, ele passa a não desejar mais o que tanto queria no início. Se ele queria ficar bem para a esposa, nesse momento, já não quer mais. E a partir daí vai tomando decisões com domínio das emoções. Ele troca a falha pela força.
O Lado Bom da Vida é uma comédia aristotélica, o que significa que nós vemos um personagem trocando sua falha por uma força. Na tragédia, o personagem se afunda na própria falha e se distancia da força. São caminhos diferentes, mas usando os mesmos elementos.
Talvez não tenha dado pra entender como esses elementos se comunicam, né? Ainda pegando o exemplo d’O Lado Bom da Vida:
1. Falha e força são características opostas Falta de controle das emoções X no controle das emoções.
2. O personagem precisa ser tensionado na sua falha Pat quer estar bem para a esposa, mas, para isso, precisa estar no controle das emoções.
3. O objetivo inicial vira do avesso, e essa virada está entre a falha e a força. Quando Pat queria estar bem para esposa, estava agindo pela falha. A partir do momento em que não deseja mais isso, age pela força.
Na técnica da casca de noz, essa conta precisa fechar. E pra mim tem sido um norte fazer essas três perguntas para as histórias que estou escrevendo. Porque se uma resposta estiver desconectada das outras, alguma coisa está errada. E aí eu começo a pensar nesse problema e nas possíveis soluções.
Se você olhar a tabela da Jill lá em cima, vai ver que existem vários outros elementos nesse esquema. Ela explica cada ponto bem explicadinho no livro, mas eu achei que esses quatro (personagem, falha, força e objetivo inicial) ajudariam a fazer um resumo do que ela ensina no livro. A minha vontade era trazer em mais detalhes as palavras sábias da Jill Chamberlain, mas eu preciso trabalhar e ganhar dinheiro.
A técnica da casca de noz me ajudou a entender melhor isso que as pessoas chamam de estrutura clássica, e sou muito agradecida a esse livro. E também entendo que tem coisas que essa estrutura não explica. É como o comentário da Alice lá em cima: saber a fundo as estruturas ajuda a usá-las da melhor forma, e entender o que é melhor para a história que você está criando.
Como sempre, espero não ter falado besteira e vou adorar conversar sobre esse assunto! Aqui nos comentários ou nos do Instagram. Ah, e se você procurar no Google Imagens “Nutshell Technique”, vai achar a tabela vazia pra fazer suas próprias análises de outros filmes.
Um beijo! E até a próxima sexta.
Michel Carvalho (@michelcarvalhos) é roteirista, antropólogo, professor e pesquisa gênero, raça e sexualidade no cinema. Trabalhou como roteirista e pesquisador em muitos, muitos projetos! Nesse vídeo, sobre roteiro para documentário, falamos sobre os seguintes filmes:
▶️ Mussum, um Filme do Cacildis (2018) - disponível na Prime Video
▶️ Prazer em Conhecer (2020) - disponível no Globoplay
▶️ Torre das Donzelas - disponível no Now
Instagram do Michel: https://www.instagram.com/michelcarva...
A Carol Santoian é roteirista e produtora de conteúdo. 💜 Aprendi muito no canal dela, principalmente nos vídeos em que ela fala sobre cenas! Nos juntamos pra falar sobre isso e foi muito bom :) Se você quiser saber mais sobre roteiro, SUPER recomendo acompanhar as mídias da Carol:
Youtube: https://www.youtube.com/channelUCkXys...
Instagram: https://www.instagram.com/carolsantoian/
Há uns dois meses eu fiz um story pedindo sugestões de livros sobre comédia, um assunto que muito me interessa. Recebi dicas incríveis! Uma delas foi esse livro, indicação da Camila Augustini, que também fala de outras coisas maravilhosas no perfil do Instagram @escotilhavirtual.
Eu poderia resumir esse post dizendo “leia The Comic Toolbox, é muito bom ”. Mas aí também não teria assunto pra conversar e eu não quero causar um silêncio constrangedor entre nós. Vamos conversar sobre tipos de conflitos cômicos.
Do meio para o final do livro, o Vorhaus fala de ferramentas da comédia e alguns temas mais específicos dentro desse assunto, mas ele começa falando das bases. Como construir o seu chãozinho cômico antes de pular e fazer acrobacias. Os três tipos de conflito cômico funcionam praticamente da mesma forma que os conflitos da estrutura dramática clássica.
Pra gente falar desses três tipos de conflito, eu vou usar o filme Meninas Malvadas (2004).
Uma coisa importante antes de começar: você vai ler algumas vezes o termo “personagem cômico” e “personagem normal”. Essa foi a forma que o John Vorhaus, autor do livro, escolheu para definir perfis de personagens. Personagens normais são aqueles que parecem ter saído do nosso mundo. Os personagens cômicos também saíram do nosso mundo, só que tomaram várias doses de exagero.
Conflito Global
O John Vorhaus, autor do livro, diz que o conflito global é um confronto entre pessoas e seus mundos. E pode acontecer de duas formas: um personagem normal num mundo cômico, ou um personagem cômico num mundo normal. E é interessante como isso acontece em Meninas Malvadas.
A Cady (Lindsay Lohan), personagem principal, é uma adolescente que está entrando pela primeira vez na escola. Ela teve aulas em casa a vida toda e morou desde a infância em algum lugar do continente africano (não lembro se o filme fala qual cidade/país). À primeira vista, só pela descrição, a gente pode facilmente colocar a Cady como a personagem cômica num ambiente normal do ensino médio. E a Tina Fey, roteirista do filme, inverte essa lógica na história.
A personagem normal é aquela que não vai pra escola, não assiste tevê e cresceu no meio dos animais. E ela entra pela primeira vez no ensino médio, esse lugar com todas as roupas da moda, grupinhos e fofocas. Todas aquelas coisas que a gente já conhece sobre esse universo, só que a partir de uma perspectiva cômica. Olha só que interessante! Porque muitas histórias mostram como é legal e descolado ser um adolescente no ensino médio. Você pode ser legal e descolado sendo popular, como em As Patricinhas de Beverly Hills (1995); sendo um prodígio, como em Booksmart (2019), ou um deslocado, como em Superbad (2007).
Eu não sei se soa estranho pra você essa coisa do prodígio e do deslocado serem, na verdade, legais e descolados. Mas é a perspectiva de que ser adolescente é uma aventura, independente de qual seja o seu grupo.
E a perspectiva de Meninas Malvadas diz que ser adolescente é surreal! A gente vê todas as questões e dramas adolescentes no volume máximo, e acho que essa forma de olhar não é muito comum. Pode ser um dos motivos pelos quais esse filme ficou tão marcado e continua sendo atual, dezesseis anos depois.
Conflito local
"Existem dois tipos de conflito. Um fala de um personagem cômico contra um personagem normal, e o outro são dois personagens cômicos em oposição. Nos dois casos, o conflito é entre pessoas que têm uma ligação emocional. Isso não significa que essas pessoas se amem, ou até se gostem. Elas podem se odiar, mas claramente se importam.”
John Vorhaus
Como a gente entra na história a partir do olhar da Cady, que é uma personagem normal, a gente vai ter muitos conflitos entre personagem normal e personagem cômico. Essa personagem passa por uma transformação. Então, fico pensando que não é assim o tempo inteiro. Mas durante uma boa parte do filme, a Cady é essa pessoa normal que entra na selva adolescente, e os conflitos locais acontecem entre ela e as pessoas cômicas ao seu redor.
A gente também tem conflitos entre personagens cômicos. Quase todo mundo na escola é um personagem cômico, mas acho que isso fica mais evidente no grupo das populares, as plastics. Quando a Cady conhece as meninas, ela tem muitas reações que a gente teria (personagem norma-personagem cômico). Mas quando Gretchen (Lacey Chabert) e Karen (Amanda Seyfried) interagem, por exemplo, é uma conversa mais inesperada e a gente não se identifica da mesma forma (personagem cômico-personagem cômico). É um raciocínio que eu faço pra entender se tal personagem é cômico ou não.**
No filme a gente também tem a Srta. Norbury, o Sr. Duvall, os pais da Cady... outros personagens normais. E a relação dela com a Srta. Norbury acompanha esse processo de transformação da protagonista. No início, as duas se dão bem, se identificam. Quando Cady vai se tornando uma menina popular, ela e a Srta. Norbury entram em conflito e se afastam. E no final, quando a Cady volta a ser uma personagem normal, as duas se aproximam de novo.
Conflito interno
"Em um tipo de conflito interno, um personagem normal se torna um personagem cômico e a comédia é centrada na mudança de estado do personagem.”
John Vorhaus
É um pouco isso que a gente falou ali em cima, né? A Cady começa como personagem normal, se transforma em uma personagem cômica e volta a ser uma personagem normal. No início, a gente conhece conhece a infância da Cady na savana africana, os pais zoólogos e a relação saudável que ela tem com eles. Tudo isso é pessoal e vai se desfazendo à medida que ela se transforma em uma adolescente dissimulada. E isso corta o nosso coração. A gente quer que ela volte a ser como antes e faça as pazes com os pais, Janis e Damian. Ficamos esperando ansiosamente pelo momento em que ela vai fazer a virada, mas Cady não volta a ser a mesma. Ela reconquista a sua naturalidade depois de passar pelo pior do universo adolescente. Ela foi no lado oposto da sua personalidade e voltou com uma certeza maior de quem ela quer ser no mundo. De alguma forma, isso também faz parte da nossa história, e é por isso que conflitos internos fazem uma conexão mais real entre a história que é contada e a pessoa que está assistindo.
Inicialmente eu tinha pensado em usar filmes diferentes para falar desses conflitos, mas uma coisa que o John Vorhaus disse me fez mudar de ideia. Ele diz que as melhores histórias cômicas contêm os três tipos de conflito. Meninas Malvadas tem conflito global, local e interno. A história e transformação da Cady também refletem nos conflitos locais (amigos, pais e plastics), e no conflito global (A escola North Shore). Tudo conectado, tudo ligado e tudo pensado antes, eu acredito, da Tina Fey colocar os dedinhos no teclado e começar a escrever cenas e diálogos.
Eu já tinha escutado que comédia não é só piada, mas analisar esse filme pensando nos seus conflitos cômicos me fez ter uma ideia mais real de que uma história se constrói de dentro pra fora. Se o interior está bom, o resto acompanha.
É um pouco chato de comentar por aqui, mas a gente também pode se falar no Instagram (@mar1cam1llo). Isso fez sentido pra você? Você teve outras ideias, pensou diferente? Eu adoraria saber.
Primeira entrevista em vídeo. :)
E gostei muito desse formato: um assunto, um roteirista e uma pessoa que entrevista. Que tal? Nesse vídeo a Nina Kopko explica pra gente o que são personagens complexos e dá dicas valiosas pra quem criar os seus.
Nina Kopko trabalha com roteiro, direção e preparação de elenco. Foi diretora assistente do longa-metragem A Vida Invisível (dir. Karim Aïnouz, 2019), O Silêncio do Céu (Marco Dutra, 2016), entre outros longas e séries. Além de todas essas funções, ela também é tutora do Laboratório de Roteiros da Escola Porto Iracema das Artes. Nesse vídeo, ela fala com a gente sobre personagens complexos.
P.s.: O meu som está bem ruim (depois melhora um tico) e você também vai escutar alguns barulhos externos. Ainda assim, a gente escuta bem as respostas maravilhosas que a Nina dá. ❤️
Indicações da Nina:
📖 Livros
- Como criar personagens inesquecíveis (Linda Seger)
- Como escribir un drama (Lajos Egri)
- The nutshell technique (Jill Chamberlain)
- Diálogo: a arte da ação verbal na página, no palco e na tela (Robert McKee)
🎞 Filmes/Séries
- Uma Mulher sob Influência (1974)
- A Escuta (2002)
- BoJack Horseman (2014)
- Todo Mundo Odeia o Chris (2005)
- Fleabag (2016) - Atlanta (2016)
- Temporada (2018)
- Madame Satã (2002)
- O Piano (1993)
Entrevista com o roteirista Bruno Ribeiro
Eu geralmente opero no modo narrador de Ping Pong, mas me encanta conversar com pessoas que saboreiam as palavras, fazem pausas e levam a conversa para uma outra frequência. Quando dá certo, é bonito de ver. Uma pessoa vai se adaptando ao tempo da outra e as duas juntas criam uma nova frequência que combina o melhor dos dois mundos: o sabor do passo lento e a adrenalina do ritmo acelerado.
A entrevista aconteceu por escrito, mas tive essa mesma sensação lendo as respostas do Bruno, que me pareceu ser uma pessoa de fala calma (comecei lendo acelerado e terminei no combo das duas frequências). Bruno Ribeiro é roteirista, diretor e montador, e nessa conversa a gente fala um pouco da sua história roteirística e o processo criativo de dois curtas que ele escreveu, dirigiu e montou - “Pele Suja Minha Carne” (2016) e “BR3″ (2018). Você pode assistir “BR3″ clicando aqui e eu também vou deixar o link lá embaixo, pra deixar organizado.
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Algumas perguntas acho que eu sempre vou fazer, essa é uma delas. Qual caminho você fez até chegar a escrever roteiros?
Minha mãe tinha o ritual de me levar ao cinema e locadoras com frequência. Mesmo adorando assistir filmes, não se passava pela minha cabeça que aquele monstro projetado na tela um dia pudesse ser feito por mim. Desejava algo então que me parecia mais possível: ser escritor. Durante minha infância e adolescência tinha o hábito de usar as páginas que sobravam dos meus cadernos de escola para escrever contos. O cinema enquanto algo possível veio mais tarde, a partir de um professor de filosofia no começo do meu ensino médio. Ele exibia filmes em sala e os debatia com os alunos. Lembro em especial quando ele exibiu o Cinema Paradiso. O filme mexeu tanto comigo que eu comecei a pesquisar mais sobre cinema. Nessa época também comecei a baixar muitos filmes. Eu estudava em um Instituto Federal em Campos dos Goytacazes, e nessa escola havia uma biblioteca maravilhosa. Descobri que ela tinha vários livros sobre cinema, desde manuais de roteiro mais convencionais até livros de teoria cinematográfica. Comecei a ler aquilo tudo, e isso me levou a escrever meus primeiros roteiros. Escrever roteiros, mais do que um exercício, era a forma que eu encontrava de brincar de fazer os filmes que se passavam na minha cabeça, mesmo que só no papel. Em algum momento percebi que a brincadeira tinha se tornado séria e desde então nunca mais parei de escrever.
Pele Suja Minha Carne (2016)
Qual o seu gênero preferido? Por que ele é especial pra você?
Tenho certa desconfiança quanto a essas denominações. No geral acho elas imprecisas, apesar dos filmes que fiz serem frequentemente enquadrados no gênero drama. Acho que para uma discussão mais comercial sobre os filmes, talvez facilite se falar em gêneros cinematográficos, mas vejo tantos filmes se impondo contra essas caixas que tenho dificuldade em fazer essas denominações. Sem querer fugir à pergunta e correndo o risco de soar abstrato, eu gosto de filmes que tenham alguma pulsão de vida. Acredito que caibam todos os gêneros nisso.
Quais foram as formas que você encontrou de estudar roteiro?
Meu estudo mais pragmático de roteiro começou na biblioteca da escola que mencionei antes (não só com livros de cinema, mas com todo tipo de literatura que me encontrou naquele espaço) e a partir da análise de filmes que me interessavam. Acho que há sempre algum grau de autodidatismo em quem estuda cinema e a internet também foi uma forte aliada para que eu tivesse acesso a filmes e materiais que não encontraria em outro lugar. Gosto muito de ouvir pessoas falando de seus processos, então sempre procurei muitas entrevistas e debates com realizadores e roteiristas. Depois pesquisei cursos de cinema no Brasil e vi que o mais perto (e bastante elogiado) era o da UFF em Niterói. Passei no curso e ainda estou finalizando minha graduação. Nele fiz parcerias que vou levar pra vida e com as quais realizei meus primeiros curtas. Olhando em retrospecto, acho que ter assistido aos filmes que assisti e ter encontrado uma galera com quem eu pudesse ter alguma interlocução foi mais impactante na minha formação do que os conteúdos do curso em si.
Você também é montador, né! Acho essa relação interessante, porque pode fazer uma boa dupla com a escrita de roteiro (na minha opinião). Você já sentiu isso? Por exemplo, criar cenas já pensando na edição?
Sim! Geralmente se entende que é perigoso ser roteirista, diretor e montador do mesmo filme, mas sinto que ter feito isso, em especial nos meus primeiros filmes, foi um ótimo aprendizado para que eu me desenvolvesse em cada uma dessas funções. Saber que na ponta do processo eu teria que montar o que estava escrevendo me ajudou a ter essa visão do todo. Tenho dificuldade em escrever quando não consigo visualizar as cenas e como elas se montam, mas desde que comecei a escrever projetos para que outras pessoas dirigissem e montassem, percebi que é necessário algum desapego quanto a essas imagens que se formam na minha cabeça.
BR3 (2018)
Eu curti muito o seu curta-metragem, BR3! Você pode falar um pouco de como surgiu essa ideia?
O BR3 começou com uma imagem. Eu caminhava pela Vila do João, bairro da Maré, conversando com um amigo de lá e em algum momento veio na minha cabeça a imagem de uma mulher jovem que chegava naquele lugar com uma mala. Essa imagem continuou voltando na minha cabeça por algum tempo, até que fui em uma apresentação de dança de uma galera da Maré, e entre o grupo estava a Kastelany, e entendi imediatamente que ela era a mulher da imagem. Nessa época também conheci a Dandara através da peça dela (Dandara Através do Espelho) e a Mia através de um encontro por acaso em uma praça (a mesma praça onde a Kastelany faz sua coreografia no filme). As três tinham uma energia muito particular que me inquietou e seguimos conversando. Em um primeiro momento tentei escrever uma história onde as três se relacionassem de alguma forma, mas a partir das conversas que tivemos fui entendendo que seria mais interessante criar três histórias para cada uma delas, de forma que elas iriam circular e existir no mesmo território, mas não se encontrariam. A gente acreditava que assim as histórias teriam outras ligações possíveis e mais potentes, e hoje tenho a impressão de que acertamos.
Nesse curta você usou duas (que eu me lembre) músicas internacionais. Sobre isso, tenho três perguntas:
1. Essas músicas foram escolhidas já na etapa do roteiro?
2. É um processo muito complicado conseguir essas autorizações?
3. Você acha que vale a pena buscar músicas específicas para uma história?
1. Sim, foram escolhidas durante a escrita do roteiro.
2. Não conseguimos as autorizações. Ainda aguardo um processo da Beyoncé (rs). Sabíamos dos riscos e limitações que o filme teria por conta dessas escolhas, mas para mim elas eram imprescindíveis. Gosto de pensar na ideia do sample do hip hop aplicado ao cinema. Esse gesto de reciclagem é muito comum em obras artísticas de pessoas pretas, que dificilmente costumam ter meios para negociar os direitos de uso de outras obras. Sei que esse é um debate complexo, mas essa tá mais pra uma postura filosófica do que pragmática. Acho que desde o BR3 tenho evitado usar músicas sem os direitos para não prejudicar a vida do filme.
3. Acho que depende de cada obra. No caso do BR3, era essencial pra mim que usássemos Crazy in Love, por exemplo, porque foi a partir de uma coreografia da Kastelany com essa música que conheci a atriz e a personagem. Era importante pra mim manter certa integridade ao espírito daquele nosso encontro e do impacto que ele me gerou.
Uma coisa que eu achei interessante nos seus dois curtas é que eles respeitam o tempo. Às vezes, quando eu estou estudando, acabo colocando muita coisa numa cena (geralmente, nos diálogos), ou até mesmo enchendo de cenas que poderiam virar detalhes... Como funciona pra você essa história de dizer muito com pouco?
Acho que esse respeito passa por enxergar o tempo como algo vivo e belo. É quase um processo de meditação; quando você para pra enxergar a vida se desenrolando sem a necessidade de intervenções. Sinto às vezes uma necessidade ansiosa de colocar muito na página/tela, mas sempre me pergunto o que de fato é essencial para contar aquela história. Geralmente o mínimo necessário é a resposta. Agora um contraponto: é comum vermos em manuais de roteiro essa regra de não falar através de diálogos o que pode ser dito por imagens. Assim como na questão dos gêneros cinematográficos, desconfio dessa regra. Acredito que a verborragia pode nos informar muito sobre as personalidades dos personagens e a forma como eles se relacionam uns com os outros e com o mundo. A primeira cena de A Rede Social me parece um bom exemplo disso. Grande parte das informações que estão sendo ditas ali não acrescentam nada substancial ao arco principal do filme e poderiam ser mostradas de outra forma, mas o subtexto é riquíssimo e os diálogos têm uma cadência musical que dá um brilho à cena. Acho que os roteiros do Aaron Sorkin no geral têm essa qualidade. No fim, acho importante respeitar o que você sente que melhor te traduz na página e se deixar levar em alguma medida por isso.
Os seus dois curtas foram resultados de editais. O que você considera importante na hora de preparar um projeto para submeter a um edital?
Essa coisa de submeter projetos em editais é complicada. Tirando casos excepcionais, pra mim os filmes amadurecem muito lentamente, não só durante a escrita do roteiro, como em todas as etapas posteriores da produção. É comum eu estar no set ainda reescrevendo o roteiro, pensando se é isso mesmo. Falo isso porque a inscrição em editais e pitchings costumam cobrar uma compreensão do projeto que me parece um tanto injusta.
Dito isso, acho que há um tipo de linguagem específica para inscrição em editais. É algo que a gente enquanto roteirista acaba desenvolvendo a partir das tentativas, principalmente quando não temos alguma produtora para fazer isso por nós. Eu aconselharia quatro coisas: achar pontos fortes do projeto que sejam fáceis de comunicar e deixá-los na superfície da apresentação, ter alguns amigos da área que topem ler o projeto para avaliá-lo, ler outros projetos que já tenham sido selecionados em editais para entender essa linguagem que eu mencionei e ter algum grau de desapego pra saber separar o projeto que se vende do projeto que se realiza (o que se realiza contará muito com o acaso e as mudanças naturais de curso, e é importante respeitar isso).
Por último, vou pedir para você compartilhar com a gente um livro, filme, série... que foram/são importantes pra você como roteirista. Pode ser mais de um :)
Um livro que li não faz muito tempo e que me marcou bastante foi o Do Que eu Falo Quando eu Falo de Corrida, do Haruki Murakami (indicação de um amigo roteirista). Apesar do livro não falar de roteiro especificamente, acho bastante inspirador para quem encara a escrita como um modo de vida. Filme vou trapacear e citar a trilogia Before do Richard Linklater (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite). Foram filmes que assisti quando estava começando a estudar roteiro e me abriram muito a cabeça (recomendo bastante a leitura dos roteiros também). De série recomendo Atlanta, que tem um olhar pouco convencional para uma narrativa seriada e convoca uma liberdade criativa enorme (os roteiristas são pretos).
Bruno, muito obrigada por compartilhar a sua história com a gente! Adorei cada pedacinho e com certeza vou voltar aqui pra reler as coisas que você disse. Fico muito agradecida :)
Links
BR3 (Curta-metragem)
Dicas de roteiro (um vídeo do Bruno Ribeiro no canal do Projeto Paradiso)
Entrevista com a roteirista Jaqueline Souza
Sabe quando você tá conversando com uma pessoa e aquilo faz muito muito sentido? E você quer dizer "Nossa, adorei isso que você disse! Me faz pensar que ta ra ra e tan tan tan...”? Eu senti falta disso nessa entrevista! Por escrito não dá pra dizer na hora o que a gente sente ou pensa. Senti falta disso em todas as entrevistas que fiz até agora, mas só me dei conta disso lendo as respostas da Jaque.
Jaqueline Souza é roteirista, já fez curtas, escreveu longas, trabalhou em séries e criou o Tertúlia Narrativa que, eu acho, é a maior fonte de informações online sobre roteiro na língua portuguesa. Foi uma surpresa muito boa saber que ela é uma das pessoas por trás disso e poder agradecer virtualmente, que por agora é o novo pessoalmente.
Jaque, ouvir a sua história me deu arrepio de plot twist e olhos quentes de emoção. Quando eu crescer, quero ser que nem você! Obrigada por compartilhar mais uma vez.
Agora vamos lá, entrevista.
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Quero começar dizendo que tava muito animada pra essa conversa. E quero muito saber da sua história roteirística! Como foi que você encontrou essa função? Como descobriu que gostava?
Jaqueline Souza: Que massa!! Muito feliz também com a conversa, sempre bom poder conhecer, trocar e conversar com uma mina preta, pensando em roteiro, que é uma das coisas que mais gosto no mundo!!
Começando bem do começo, eu nunca sonhei com uma profissão que não fosse nas artes. Logo muito cedo já sabia que queria trabalhar com cinema - provavelmente muito por conta do programa Zoom da Tv Cultura. E quando descobri que tinha alguém que fazia escrita em cinema, eu soube que queria fazer isso. Acho muito raro ouvir isso, as pessoas sempre parecem ter sido levadas a roteiro e pra mim, não. Foi uma busca. E eu sempre digo, que só foi possível porque quando eu disse pra minha mãe, ela não riu da minha cara, porque era algo completamente fora da nossa realidade. E eu não fazia ideia de como chegar lá, mas na ingenuidade, eu achava que só precisava fazer uma faculdade e pronto. Minha mãe era metalurgica, ninguém na minha família tinha feito faculdade até então. Fiz curso técnico profissionalizante em comunicação visual porque gostava de desenhar e achava que podia me dar uma base pra qualquer coisa que tivesse a ver com cinema. Na faculdade, passei primeiro em um curso de Letras, que eu não conclui, e só depois consegui entrar em Cinema. Lá tive bons professores, mas nada que aprofundasse em roteiro. Na faculdade, eu conheci o Marcos, meu parceiro, marido e sócio. Juntos escrevemos roteiros de curtas, dirigimos, mas por eu ter um perfil muito proativo para tentar fazer as coisas acontecerem, acabei caindo em produção. Passei por várias funções dentro do cinema, mas fiquei em produção por alguns anos. A gente abriu nossa produtora e também fizemos de tudo, institucional, casamento, etc. Mas sempre com aquela voz dentro da gente, dizendo que queria trabalhar com roteiro. A partir daí minha trajetória se confunde com a da Tertúlia. Os nossos estudos, muito autodidata mesmo, fundaram os primeiros passos com o site e no tentar migrar profissionalmente para o roteiro. Foi aos poucos. Daí rolou uma seleção de um argumento meu em um edital do Ministério da Cultura e as pessoas começaram a ficar de olho. O chute na porta foi quando o roteiro desse mesmo projeto foi selecionado para o Novas Histórias, que é nosso laboratório mais tradicional de roteiro. Eu era a primeira mulher negra entrando no laboratório e sai dele com uma bolsa de desenvolvimento do Projeto Paradiso, na época recém lançado. A busca continua, mas foi um momento decisivo para minha carreira.
Como é a sua rotina de estudos? E o que você faz pra se manter atualizada nessa área?
Jaqueline Souza: Eu sou uma pessoa que racionaliza muito processo, então escrevo, depois analiso, leio materiais que possam servir de inspiração. Também gosto muito de assistir referências e estudá-las, enquanto estou escrevendo. O que mais gosto é de fazer isso entre um tratamento e outro, porque tem um distanciamento que permite mergulhar com olhos frescos, entender as lacunas, os desejos do que você queria alcançar. Hoje meio que meus estudos são integrados ao próprio processo de escrita.
Qual é o seu gênero preferido de escrever? O que você curte nele?
Jaqueline Souza: Não sei se tenho um gênero favorito, mas eu adoro gênero em si. Mergulhei no terror há alguns anos por conta de um projeto específico, Incubo, que foi esse roteiro que me abriu portas no mercado. Começou como um estudo de gênero mesmo, eu tinha uma ideia antiga e depois do Corra!, entendi que aquele argumento era um filme de terror! O filme tem produção da Joelma Gonzaga Oliveira e será dirigido pela Renata Martins, que é uma diretora que eu admiro muito, e que também tem pensado sobre o terror como forma de versar sobre algumas experiências raciais. O terror é um gênero que me interessa muito, porque permite falar de sentimentos muito internos, porém de uma forma física. Mas eu também gosto de thriller e tenho estado cada vez mais apaixonada pelo fantástico. Amo comédias. E curiosamente, se eu fizesse uma lista dos meus filmes favoritos da vida, a maior parte deles seriam romances, mas ainda não me aventurei pelo gênero e adoraria.
Qual foi o primeiro roteiro que você escreveu?
Jaqueline Souza: Quando eu era adolescente, escrevi dois longas. Longa mesmo. Um deles era um filme coral, imitando Magnólia, que eu amava. Imitando mesmo. Tinha até uma sequência em que todas as histórias suspendiam e os personagem cantavam uma mesma música. Fiz até tentando formatar, fui atrás de roteiros de filmes que gostava pra ler. Tenho uma cópia dos roteiros até hoje. Apesar da qualidade naturalmente questionável, eu realmente considero que foram minhas primeiras experiências. O Cartier-Bresson dizia que suas primeiras dez mil fotos são as piores. E muito do nosso trabalho escrevendo é jogar fora, ideais, cenas, roteiros inteiros, mas pra jogar a gente tem que escrever. São nossas dez mil primeiras fotos. Depois, eu escrevi alguns curtas. Quando começamos a Tertúlia, eu e o Marcos tínhamos o hábito de desenvolver ideias, e disso, escrevemos juntos mais dois projetos de longa. Eu sempre falo que o Incubo é meu primeiro roteiro de longa escrito, mas antes dele, já tinha escrito muito, ele só foi o primeiro a emplacar.
Pelo que eu vi, você teve a experiência de criar roteiros sozinha e em equipe. O que você vê de prós e contras nessas duas experiências?
Jaqueline Souza: Sim! Tenho projetos solo, mas também trabalho muito em dupla e tenho experiência em salas de roteiro. Cada um desses formatos de trabalho, é completamente diferente do outro como metodologia, abordagem, estilo. Projetos solo são realmente um mergulho em você próprio. É onde seu estilo mais se materializa e se molda. É onde você mais aprende sobre você mesmo e isso é ótimo. Mas também é um processo muito solitário e no geral, mais lento…
Com trabalhos em dupla, eu tenho dois tipos de experiência, um mais pessoal e outro por demanda. Nesse primeiro, em geral, trabalho com o Marcos, que é meu parceiro de escrita oficial. A gente escreve juntos há anos, conhecemos o estilo um do outro e apesar de existir uma simbiose no jeito que escrevemos e pensamos, somos muito diferentes e isso sempre vem pra escrita de uma forma surpreendente. Recentemente tenho desenvolvido projetos pessoais com outras parcerias, pessoas que tenho uma boa relação e admiro o trabalho e também tem sido uma experiência ótima.
Agora outro formato é fazer trabalhos em dupla, em projetos por encomenda, em geral, com alguém que você não trabalhou antes. Também faço muito isso e acredito ter certa facilidade pra trabalhar assim. Sou muito flexível, gosto de conhecer o outro através do próprio processo e gosto acima de tudo de boas histórias, então não tenho vaidades a respeito de de quem é a ideia, mas sim se ela é boa ou não. Se a outra pessoa também é assim, ótimo, o processo é facilitado por que todo mundo tá indo pro mesmo lado. Ainda assim é difícil adequar a metodologia. Cada roteirista desenvolve um método de criação e trabalho para si e encontrar esse lugar que seja confortável para duas pessoas que mal se conhecem é complexo.
Sala de roteiro é um método coletivo mesmo de trabalho. É difícil dizer o que é cada uma das pessoas, porque tudo vira uma amálgama de todos. E existe dois processos em sala, que pra mim, são completamente diferentes. Um é a sala em si, outra é a escrita dos episódios. A voz que mais prevalece é a do chefe de sala. Aquele processo de refletir muito sobre o que vai escrever ( ou já escreveu), chegar a conclusões que algo não funciona e o porquê não funciona, que você passa ao longo de meses em um trabalho solo, em uma sala acontece na hora. É imediato. É um processo acelerado de criação.
Site Tertúlia Narrativa, na área dos artigos. Recomendo!
A Tertúlia Narrativa é um site fantástico! Aprendo muito com ele e fico feliz de saber que ainda tem vários assuntos pra fuçar por lá. Obrigada por ter criado tudo isso. Como foi que surgiu a ideia? E como tem sido pra você essa experiência do site? O que tem aprendido com ele?
Jaqueline Souza: Que lindo!! Muito obrigada! Pra gente é muito gratificante conhecer as pessoas e ver que de alguma forma influenciamos o aprendizado e o pensamento sobre roteiro pra tanta gente.
Pra gente, as coisas surgiram com advento do Kindle e dos livros virtuais. Tivemos acesso a livros de roteiro, resgatando nosso interesse da faculdade e que tínhamos tido tão poucas chances de estudar. Como não tínhamos dinheiro para fazer cursos de roteiro (e nem existiam muitos na época), nós baixamos a bibliografia de cursos e começamos a ler os livros que eram recomendados.
Em 2014, abriu o primeiro edital de Núcleos Criativos da Ancine. Nós juntamos um grupo de profissionais e propusemos um núcleo, que se alternava em suas atividades entre o desenvolvimentos das séries e estudos de roteiro. Chamamos o Núcleo de Tertúlia Narrativa. Fomos até a final do processo de seleção, mas não fomos contemplados. Um pouco depois, eu e o Marcos, estávamos bem quebrados financeiramente, fazendo trabalhos que pouco tinham a ver com o que gostávamos. E depois de uma crise de depressão, decidimos que precisamos fazer algo pela gente. Algo que gostássemos, que fosse nosso, um aceno pro futuro. A solução dentro das nossas possibilidades na época era criar um site, cristalizando nosso interesse por roteiro e pensando que isso poderia gerar frutos profissionalmente. Passamos uns 30 dias montando o site e os textos iniciais, junto com o Cipriano Wisky, nosso amigo de faculdade e também roteirista. E esse foi o começo de tudo. Pra gente, a Tertúlia é um projeto de vida. É uma extensão do nosso trabalho em formação, que tivemos durante anos voltados a oficinas de cinema e animação para jovens das periferias da Grande Curitiba. Só é em outro formato. Nosso maior aprendizado é que a troca é a forma mais eficiente de aprender algo. E que o saber precisa ser compartilhado, é uma ferramenta e tem que estar na mão de todos, democraticamente.
Você foi roteirista na série Boca a Boca, que vai estrear na Netflix esse ano! Como foi a experiência dessa sala de roteiro?
Jaqueline Souza: Meu sonho era participar de uma sala, eu sabia que estava pronta e tinha a capacidade para isso. Quando o Esmir me convidou, foi tudo muito rápido. E é um outro tipo de escrita, de processo. Foi minha primeira sala. A Shonda Rhimes compara uma série com um trem que não pode parar. Em um longa, você consegue parar e entender o processo, refletir sobre ele, fazer escolhas e daí voltar para escrever. Em sala, não. O ritmo não é seu, então você precisa entender e ir escrevendo no processo. Quando digo entender, não é trama. É o processo mesmo. Depois que você passa por esse processo mental de entender o funcionamento de uma sala e como você funciona dentro de uma, as coisas começam a tomar forma. Em cada projeto novo, ainda rola a descoberta sobre aquela sala em específico- porque cada sala é completamente diferente uma da outra.
Essa é a imagem que aparece quando a gente procura Boca a Boca na Netflix. Ainda tá bem misterioso, mas a gente pode clicar em “lembrar”, pra ser avisado quando a série estrear.
Quais são os livros, filmes ou séries que foram importantes para você como roteirista?
Jaqueline Souza: Minha formação é uma colagem gigante de coisas de lugares completamente diferentes. Acho que não lemos muito pouco sobre dramaturgia, em geral, a maioria dos jovens roteiristas lê direto livros sobre roteiro, e quando comecei a ler sobre dramaturgia foi onde o estalo realmente deu pra mim. Dentro disso, vou citar o Introdução à Dramaturgia da Renata Pallottini. E no lugar de filmes, vou falar de roteiros mesmo. Eu comecei a ler roteiro muito cedo e muitos deles foram muito importantes pra mim: o primeiro roteiro que li, o primeiro brasileiro, roteiros que influenciaram minha forma de escrever, etc. Vou destacar Shame do Steve McQueen e da Abi Morgan, porque foi o primeiro roteiro que li sem ter visto o filme antes. E só aí entendi o roteiro também como uma experiência de leitura.
Jaque, obrigada por ter topado! Foi muito bom ter lido isso e eu espero que tenha sido bom pra você também. :)
Essa entrevista também foi um oferecimento da Mariana Tesch, que me indicou a Jaque! E Nina Kopko, que também indicou a Jaque. Everybody Loves Jaque.
Entrevista com a roteirista Giuliana Heberle
Se você estiver lendo isso do computador, talvez queira dar um CRTL+/COMMAND+ na tela, porque o texto nesse template fica menorzinho.
Você lembra da primeira vez que escreveu uma história?
Talvez “primeira” vez seja uma coisa meio difícil, né. Nem todo mundo lembra da primeira vez. Mas, assim... algo que você lembre hoje e pense “nossa, eu já curtia escrever naquela época!”. Ou qualquer outra atividade, caso você esteja lendo isso e não escreva. Eu nunca escrevi muitas histórias quando era criança, mas lembro de fazer músicas pra lembrar os assuntos de provas da escola. Tenho aqui em destaque a música que fiz sobre o Minotauro, com arranjo original, e uma sobre os seis filos de algas marinhas, na melodia de “Raindrops Keep Falling on My Head”.
Ler o iniciozinho da primeira resposta da Giulianna me fez lembrar disso. Ela foi lá atrás pra buscar a resposta, e eu achei sensacional! Porque são lembranças que ficam com marca-texto na memória! A gente pode voltar nelas e perceber que ainda fazem sentido.
Eu conheci a Giuliana Heberle nos créditos da série Paralelo 30, uma sitcom sobre seis universitários que dividem um apartamento em Porto Alegre. E eu adorei conhecer essa cidade pelos olhos do Dodô, da Tina, Calzone, Val, Geraldo e Montse(!), além de me ajudar a entender o ritmo e enredos de uma sitcom no português brasileiro.
Para assistir à Paralelo 30, é só clicar aqui
A Giuliana foi uma das roteiristas nessa série, junto com Alessandro Engroff, Felipe Boff, Felipe Longhi, Giulia Góes e Leo Garcia. Nós falamos sobre isso e outras cositas na entrevista a seguir.
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Como foi que você começou a escrever roteiros?
Giuliana Heberle: Na segunda série, escrevi para minha professora, Fátima, uma história sobre um gatinho que fugiu da casa dos donos. Ainda guardo essa história em um arquivo morto, que mora com a minha irmã em Porto Alegre nesse momento.
Na minha cidade no Rio Grande do Sul não tem muita oferta de cursos de roteiro. Eu tava na faculdade, no curso de Design Visual, e pedi transferência pra Jornalismo, por achar que teria mais oportunidade de escrever. E tive, mas muito no freestyle. Todos trabalhos eu colocava como um desafio audiovisual.
Tendo em consideração que tem apenas duas Universidades pagas que oferecem o curso de cinema na cidade, e que na minha família sempre me colocaram no rumo do ensino público, desde o fundamental, me formei em Jornalismo mesmo. Então fui frequentadora de cursos livres, workshops etc.
Em 2015, a Eleonora e a Maria Elena, que tinham recém se formado na EICTV, ao retornarem resolveram dar um curso de Roteiro Audiovisual para Mulheres. Tinha que mandar uma carta de motivação. Fui aceita, e o curso, que custava cem reais simbólicos por mês, mais para ajudar na manutenção da Associação de Pesquisas e Práticas em Humanidades, onde aconteciam as aulas, durou seis meses. Aí que tudo começou nesse formato de roteiro.
Qual gênero você mais gosta de escrever? E por que você gosta?
Giuliana Heberle: É difícil essa. Escrevo muito fluxo de pensamento, poesia no papel, prosa, contos. No roteiro mais comédia, drama e animação. Gosto de poder ser crítica e reflexiva no drama. Na comédia é legal poder ser irônica e autodepreciativa. Na animação dá pra sair muito fora da caixa, pode acontecer tudo.
O que é mais prazeroso pra você nesse processo de escrita? E o que você não curte?
Giuliana Heberle: Como sou jornalista, minha escrita tem muito de fragmentos do cotidiano. Eu escuto muito. E adoro essa parte. De flanar, observar, contemplar. Colher material. Gosto de fazer fotografias do que me chama atenção, ficar filosofando sobre o porquê daquilo ter me fisgado. Às vezes alguém me pega para conversar, gosto muito disso. Do contato humano, de se colocar no lugar do outro, escutar essa voz e entender onde ela reverbera dentro de mim.
Já o contrário, o que não curto no processo, é quando sinto que me obrigo a escrever, que me espremo em prol de uma produtividade. Às vezes é necessário, mas é uma pressão, que acaba se repetindo por causa do sistema.
No início da quarentena eu recebi vários links de filmes e séries para assistir gratuitamente. Encontrei muita coisa legal, e a Paralelo 30 foi uma! Fiquei curiosa para saber do projeto. :) Você pode contar sobre como surgiu a ideia dessa série?
Giuliana Heberle: Fiquei feliz quando liberaram! Os criadores da série são o Leo Garcia, que coordenou a sala de roteiro que fiz parte, o Fred Ruas, que dirigiu, e o Beto, que produziu. Surgiu em 2010 e veio a se concretizar em 2017. A ideia foi falar sobre a cidade de Porto Alegre, que fica no paralelo 30, e por isso o nome da série, do ponto de vista de uma pessoa que não é gaúcha. E a partir disso fazer uma zoeira por não ser uma cidade nada turística, mas nós bairristas sermos apegados. Ao pôr do sol no Guaíba, por exemplo, e às pessoas.
Uma outra coisa que eu também curti é o fato de ser uma série de comédia! Como foi a preparação de vocês (roteiristas) nesse sentido? Vocês procuraram livros, séries ou filmes que ajudaram?
Giuliana Heberle: Com certeza! Várias referências sim. Friends é uma clássica de sitcom, assim como Seinfeld. Aí fomos buscando umas atuais, como Fresh Meat, que tava passando na Netflix, Easy também, e várias séries de comédia de 30 minutos que fomos levantando na época. Tem muita coisa que é legal saber também para se comunicar em grupo. Do tipo, personagem tal é tipo a Phoebe, sabe? Aí todos se entendem. É bom estar cheia de referências sempre.
Tina (Hayline Vitória) em “Genial!”, quarto episódio de Paralelo 30
Como foi a dinâmica de vocês na sala de roteiro? Como vocês organizaram as etapas e funções de cada um?
Giuliana Heberle: Tinha um briefing que eram seis personagens. Fomos discutindo, trazendo pontos para cada um, e eles foram tomando forma. Durante as tardes íamos anotando tudo num arquivo, não tinha assistente. Depois fizemos as escaletas, que é o processo que mais leva tempo. Criamos as tramas, as relações entre os personagens. É incrível como a coisa vai se edificando. Entram experiências próprias também. Teve um dia em que antes da sala fui almoçar na casa de uma amiga, e tava sem luz. Contei e acabou virando trama. O desenvolvimento de roteiro tem disso, acho uma alquimia louca a forma como isso acontece entre os autores. Cada um tem uma experiência, uma voz que complementa.
Depois de feitas as tramas, e as escaletas completas (ou quase), pegamos um episódio cada um (como eram seis, justo como o número de roteiristas, funcionou assim), e escrevemos. Depois lemos tudo junto, discutimos, aí trocamos, reescrevemos, e assim sucessivamente até o último tratamento.
Foram seis meses de tardes de criação com gaúchos, no frio, tomando mate. Eu curto sala de roteiro. Agora com a pandemia, temos que reinventar.
O que você considera importante na hora de escrever uma sitcom?
Giuliana Heberle: Acho que o clima entre as pessoas tem que ser de abertura e não de julgamento. A gente tem que abrir espaço pra bobagem, pra improvisação, pra espontaneidade. O Leo foi muito massa nesse sentido, nos deixando super à vontade, dando água quente pro mate e tal, pra gente se esquentar.
Dodô (Rodolfo Ruscheinsky) em “Genial!”, quarto episódio de Paralelo 30.
Eu sempre fico curiosa com a construção dos personagens. No início eu achei que era uma série de multiprotagonismo, mas depois pensei “talvez o Dodô seja o protagonista”. É isso mesmo? Qual raciocínio vocês usaram na construção dos personagens?
Giuliana Heberle: Engraçada essa percepção de o Dodô ser protagonista. Na sala a gente pensou que era o Calzone, de uma forma geral, por ele ser coxinha e a gente zuar muito ele. Mas no primeiro episódio é a Montse, por exemplo. Na construção das tramas, a gente tentou colocar uma A de cada personagem em cada episódio. No terceiro da Val. No quarto da Tina. No quinto do Geraldo. São sempre 3 tramas, A, B e C.
Você pode deixar aqui um livro, filme e/ou série que foram importantes pra você (como roteirista)? Pode ser mais de um!
Giuliana Heberle: Claro, com prazer! Palavra de Roteirista, do Lucas Paraizo, é uma enciclopédia coloquial de roteiro. Eu adoro ler entrevistas, então esse tá no meu TOP 1. Super recomendo. E um filme que me marcou muito foi A Excêntrica Família de Antônia, da Marleen Gorris. Adoro narrativas femininas.
Obrigada, Giu, por ter topado a entrevista! E por ter trazido um pouco do que foi o processo criativo da Paralelo 30. E se você quer assistir a série, saiba que ela vai ficar online gratuitamente por tempo limitado! É só acessar aquele link que eu coloquei lá em cima, ou procurar “Paralelo 30″ no Vimeo.
Até a próxima :)
Anotações sobre logline
Se você é uma pessoa do bem, de vez em quando deve procurar alguma coisa doce para comer em casa. Não importa se é pegando um biscoito na despensa ou encarando uma receita, a gente tem o costume de se movimentar em busca de açúcar.
Imagina que essa vontade chegou e, dessa vez, você decidiu fazer um bolo. Aqui na minha cabeça eu vou fazer um bolo de limão, fica à vontade pra escolher o seu.
E você encontra duas receitas legais. Uma delas é só o texto, e a outra tem o texto + a foto de um bolo lindíssimo! É o seu bolo crush. Se as duas receitas são parecidas, eu vou arriscar dizer que a gente vai naquela que tem a foto do bolo lindo.
Essa imagem me ajudou a entender o que é Logline. É como uma receita, que explica um passo a passo de forma bem resumida, mas não é qualquer receita. Precisa ter uma imagem, algo que faça a gente salivar e dizer “é isso que eu quero comer/assistir/ouvir”.
“A logline é um breve resumo, com uma ou duas frases, que visa despertar o interesse na essência da história. As melhores loglines descrevem com precisão a tensão psicológica implícita dos personagens principais, assim como a situação que enfrentam e que riscos correm.”
Jaqueline M. Souza, no Tertúlia Narrativa
Uma das coisas que eu acho mais interessantes em estudar/escrever roteiros é que eu preciso estar constantemente pensando no outro. E eu preciso pensar que Mirela estava vivendo a vida dela e num desses dias esbarrou com a minha logline, e que pra ela é uma história totalmente nova.
Se eu escrever uma logline pensando em mim, ela pode sair apenas descritiva e eu nem notar. Mas se eu pensar na Mirela, eu vou querer que ela entenda e se interesse pela minha história. Isso muda muita coisa. E querer escrever para a Mirela e outras pessoas me fez ir atrás desse assunto, e procurar formas mais sistemáticas e atraentes de escrever essas duas frases que são tão importantes.
Na internet você encontra vários modelos, e talvez (pergunte aos especialistas) seja uma questão do que funciona melhor pra você. Eu fiquei com dois modelos que estão no vídeo do Studio Binder, “How to write a Logline”. Vou colocar aqui embaixo.
No vídeo, eles criam alguns exemplos a partir desse modelo, e eu resolvi fazer o mesmo com os filmes e séries que assisti durante a semana. Não foi tão simples quanto eu pensei! Mas aqui está um exemplo.
O Que Fazemos nas Sombras
*Achei mais fácil fazer com o modelo #n2.
Viago Deacon e Vladislaw são três vampiros que moram juntos e tentam se adaptar ao mundo moderno enquanto permanecem nas sombras de Wellington, Australia.
“Viago, Deacon e Vladislaw são três vampiros” - Protagonista.
“que moram juntos” - ação
“e tentam se adaptar ao mundo moderno” - meta
“enquanto permanecem nas sombras de Wellington, Austrália” - o que está em jogo. Essa parte ficou meio implícita, né. O que está em jogo, na verdade, é a possibilidade de eles serem descobertos.
Se você procurar logline de filmes e séries no Google vai ver que existem MUITAS e é um exercício divertido ficar tentando encontrar protagonista, ação, incidente incitante... até pra ver como as pessoas dão aquele gostinho nas loglines.
No vídeo do Studio Binder, por exemplo, o narrador mostra a substituição que ele faz na logline de Star Wars. Ao invés de chamar o protagonista de “um garoto órfão”, eles chamam de “Luke Skywalker, um garoto espirituoso da fazenda”. Além de ficar bem mais atrativo, você tem um spoiler bem menos danoso.
Eu vou continuar praticando as loglines e caso encontre mais coisas interessantes, adiciono nesse post. Acho que aqui não tem um espaço para colocar comentários, mas se você quiser conversar sobre loglines eu estou no Instagram! @mar1cam1llo.
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MATERIAIS NA INTERNET
TEXTO Logline: seu roteiro em uma linha. (Tertúlia Narrativa)
VÍDEO How to write a Logline (Studio binder)
* Esse é, sem dúvidas, o meu vídeo preferido sobre Logline no YouTube. Infelizmente, não está em português, mas eu usei ele como base para fazer esse post e traduzi algumas coisas nesse texto que eu escrevi. Caso você saiba um pouco de inglês, ajuda se você ativar a legenda e tentar acompanhar.
Entrevista com a roteirista Mariana Tesch
*Se você estiver lendo isso do computador, talvez queira dar um CRTL+/COMMAND+ na tela, porque o texto nesse template fica menorzinho.
Não conheço roteiristas, não sou amiga de roteiristas e acho que nunca falei com um pessoalmente, apesar de gostar do assunto. Então, não dá pra saber se todos os roteiristas são assim, mas depois de conversar com a Mariana eu tenho uma impressão muito boa de todos. Se você está lendo isso e é um roteirista, acho que eu já gosto de você.
A Mariana Tesch é roteirista e professora de roteiro. Escreve/escreveu roteiros para séries, e esse foi um dos motivos de eu ter chegado até ela. Durante a entrevista falamos de algumas em que ela trabalhou:
*Oswaldo - Cartoon Network
Você encontra episódios no YouTube ou na Netflix
*Clube da Anittinha - Gloob
Você pode assistir no YouTube ou Globoplay
*Coisa Mais Linda (2ª temporada) - Netflix
A segunda temporada ainda não saiu, mas você pode assistir a primeira na Netflix.
Como foi o primeiro contato com uma pessoa que faz esse negocinho muito legal de escrever, o cimento da entrevista foi “se eu tivesse a chance de conversar com uma (um) roteirista, o que eu gostaria de saber?”. A Mari foi botando tijolinhos com muita leveza e humor, e no final surgiu um daqueles prédios que as pessoas olham na rua e falam “olha só aquele prédio... interessante, né?”. Foi bem divertido de fazer e agora eu vou parar de falar pra você poder ler. Tchau.
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Como foi que você chegou a escrever roteiros?
Mariana Tesch: Na minha época de prestar vestibular, roteirista não era uma profissão que aparecia naqueles caderninhos que (supostamente) te ajudam a escolher uma carreira. Lembro de cogitar engenharia do petróleo porque tinha uma nota de corte baixa e porque, por alguma falta de noção, não me parecia tão tenebroso naqueles tempos. Eu não fazia a menor ideia do que fazer. Comunicação Social me dava a opção de postergar um pouco a decisão, porque tinha habilitações pra escolher depois: jornalismo, audiovisual, publicidade... Então foi uma escolha mais por eliminação que por amor ao cinema. Eu até que gostava de filmes, mas nunca fui cinéfila.
Eu passei em Comunicação na UnB e acabei indo pro Audiovisual porque achava Jornalismo muito sério e Publicidade detestável. Durante a graduação, a gente teve poucas aulas de roteiro. Eu gostava de escrever, mas nem pensava nisso como possibilidade de futuro. Não tinha rolado o boom das séries ainda, não existia Netflix, Amazon, nada, e o que eu tinha na cabeça era mais a imagem do "diretor cineastão autor", que escreve e dirige o próprio filme. E eu não queria dirigir porque não gosto de set. Fiz estágio de edição em uma TV Espírita e depois na EBC. Aprendi um monte sobre roteiro editando, mesmo sem ter consciência na época. Achei que fosse virar editora. Fiz curso de After Effects e até que gostava mais ou menos. Quando a graduação acabou, emendei um mestrado em Educação na UFRJ, no Rio, porque ainda continuava semi perdida. Pensava em misturar cinema e educação, trabalhar com adolescentes. Mas nada muito sólido. Eu estava no começo do mestrado no Rio quando vi o edital da CAPES-Fulbright pra estudar roteiro nos Estados Unidos. Eu não tinha experiência nenhuma, só tinha feito um curta universitário e olhe lá. Estudei pro TOEFL, preparei todo o material com capricho e ganhei a bolsa.
Foi só nos Estados Unidos, durante o mestrado lá, que virei roteirista mesmo. Meus colegas e professores me chamavam de "writer" e eu acabei acreditando. Quando voltei pro Brasil, não sabia direito como entrar no mercado. Nunca tinha morado em São Paulo e não tinha amigos roteiristas. Mas tinha amigos editores... Voltei pra edição: um "freela merda" mal remunerado atrás do outro. Eu pegava as sobras, tudo o que meus amigos não queriam pegar, duzentas mil horas de bruto. Mas... como eu tinha uns roteiros que tinha escrito durante o mestrado, mandei pra alguns festivais e ganhei uns prêmios. O primeiro prêmio que ganhei foi um segundo lugar no concurso de longas do FRAPA - Festival de Roteiro de Porto Alegre, em 2015. Hoje eu colaboro com a programação do FRAPA e produzo as rodadas de negócios, de tanto que eu amo esse Festival. Foi lá no FRAPA que comecei a conhecer outros roteiristas.
Como sou bem legal, engraçada e inimiga do fim, começaram a me indicar pra trabalhos e aí deslanchei. Mentira. Demorou um pouco ainda. Em 2016 e 2017, dei bastante aulas de roteiro. Agradeço muito ao Steven, do Instituto de Cinema (InC), por ter me chamado pra dar aulas lá. Dei aulas no MBA do LA Film Institute também e dei algumas oficinas no SESC aqui em São Paulo, e acabei indo pra Campo Grande e Natal para dar cursos em uma parceria do InC com instituições de ensino dessas cidades. Acho que foi só em 2018 que virei roteirista em tempo integral. Acho importante falar que além dos amigos de FRAPA, tive algumas mentoras pelo caminho, mulheres roteiristas muito generosas que tiraram um tempo pra sentar comigo e me dar dicas valiosas. A Paula Knudsen foi a primeira maravilhosa. Logo que voltei dos EUA, a gente conversou por horas e ela me deu todo o panorama do mercado de SP, me falou de caminhos possíveis, e passou a me indicar pra muita coisa. Hoje em dia, conto muito com a mentoria da minha amiga incrível gênia Camila Agustini, uma das roteiristas mais fodas do Brasil, quiçá do mundo.
Sobre você falar que não gosta de set, também não sou muito fã. Mas você acha que teria interesse em participar se a ideia da série/filme fosse sua?
Mariana Tesch: Teria curiosidade em dar uma passadinha no set. Se a série ou o filme forem criações minhas e se eu tiver muito carinho pelo projeto (tipo um primeiro longa), o sonho é achar uma diretora parceira que se apaixone pela história, que respeite o roteiro, mas que se sinta livre pra criar em cima.
Qual o seu gênero preferido? O que te encanta nele?
Mariana Tesch: Gosto de comédia. Acho que gosto de sensação de vergonha alheia, de riso culpado e, no geral, de como a comédia evidencia o ridículo dos hábitos.
Qual foi a sua primeira experiência escrevendo roteiros?
Mariana Tesch: A primeira vez que escrevi um roteiro foi durante a graduação. Era um curta sobre a primeira menstruação de uma menina.
(Pra levantar dinheiro pro curta, meu avô doou uma leitoa pra ser rifada na cidade onde eu nasci, a grande Mogi Mirim. Meu pai obrigou os amigos a comprarem as rifas. Ele é bom de lábia. Vendeu todas. A gente conseguiu a grana e fez o filme. Hoje não sou mais a favor do sacrifício animal em prol do audiovisual universitário).
Qual é a parte que você mais gosta no processo de escrever? E a parte que não dá tanto prazer?
Mariana Tesch: Eu gosto muito do "clique", da hora que a solução vem, sabe? Eu penso, penso, penso pra resolver um negócio que não se encaixa, ou pra ter uma ideia nova, ou pra me livrar de um furo no roteiro, experimento um monte de coisa que não dá certo, até que uma hora o "clique" vem. Depois do "clique", a sensação que me dá é de que ele era óbvio, de que era a única escolha possível. Enfim, o "clique" é uma delícia. A parte que não me dá prazer é ter que arrumar uma solução média pra colocar no lugar do "clique", por falta de tempo ou por incapacidade mesmo.
Aqui no Brasil a gente não tem uma formação acadêmica em roteiro, como acontece em outros países. Como você foi fazendo os seus estudos na área?
Mariana Tesch: Falei, na pergunta 1, sobre a bolsa que ganhei para estudar nos EUA. Mas acho fundamental continuar estudando sempre. Leio bastante sobre roteiro e continuo fazendo cursos com pessoas que admiro. Só para citar alguns ótimos que fiz nos últimos anos: um de séries com o David França Mendes, um de criação de personagens com a Nina Kopko, e um de escrita (mais geral) com a Bianca Santana.
Quais são as funções mais frequentes nas salas de roteiro das quais você já participou?
Mariana Tesch: Essas são as funções frequentes nas salas que participei:
- Assistente
- Roteirista (aqui às vezes rola de ter uma divisão clara de quem é junior e quem é sênior. Mas às vezes não)
- Roteirista chefe
Eu nunca fui assistente, nem chefe.
Nos Estados Unidos tem a pessoa que transita entre set e sala (showrunner?). Essa pessoa existe aqui? É o roteirista chefe?
Mariana Tesch: O showrunner normalmente é criador e produtor da série. Ele pode ser o roteirista chefe, mas nem sempre. Às vezes, ele é mais um supervisor/editor dos roteiros finais. Aqui no Brasil, poucas séries têm showrunners. A figura do diretor ainda é muito forte. Sei que o 3% tem o Pedro Aguilera que é showrunner. Acho que o Felipe Braga foi showrunner do Samantha! e lembro que a Carina Schulze, além de roteirista, foi showrunner do Gaby Estrella também. Deve ter outras, mas a maioria ainda funciona sem showrunner.
Você já participou ou ouviu falar de salas de roteiro que funcionam remotamente? Acha que existe mais vantagens no trabalho presencial?
Mariana Tesch: Eu e a Rita Piffer, que é uma roteirista fodona que mora no Rio, minha parceira de escrita em vários projetos, já fizemos algumas salas remotas pra levantar bíblias de venda e roteiros, que funcionaram super bem. Na verdade, a gente manda melhor virtualmente que pessoalmente. Como a gente não quer passar horas no Skype (porque tela cansa), a gente enrola menos, foca e rende mais em menos tempo. Agora eu estou em uma sala virtual (com uma assistente e com o coordenador de desenvolvimento) e tem dado certo. Não sei se há mais vantagens no trabalho presencial. Por causa da quarentena, minha tendência é falar sim, né? Que o trabalho presencial é muito melhor, que a gente se diverte, se permite divagar mais, se encosta, se beija... Mas é que eu acho sala virtual uma solução ótima pra contratação de roteiristas fora do eixo, sabe? Pra dar uma diversificada nas mesmas carinhas do Rio e SP, então não vou defender o trabalho pessoal não... apesar da saudade.
Como foi o processo de criação de bíblias pra você? Já fez alguma sozinha?
Mariana Tesch: Eu gosto de criar bíblias do zero, pesquisar muito, inventar personagens, construir universo, entender o coração da série. Acho que nunca fiz uma bíblia inteira sozinha. Acho bom ter alguém pra trocar uma ideia, discordar, argumentar, falar umas besteiras em voz alta, ver como as ideias batem na outra pessoa. Eu tenho algumas bíblias originais que escrevi com meu sócio, Lucas Zacarias, que é um puta roteirista. E trabalho bastante com a Rita Piffer. Escrevemos bíblias de venda, ou seja, a produtora chega com uma ideia bem incipiente e contrata a gente pra desenvolver, ainda sem canal atrelado.
Eu sempre fico impressionada com séries que contam histórias completas em pouco tempo! Eu vi o episódio que você escreveu para o Clube da Anittinha e fiquei imaginando como deve ser escrever um episódio de 5 minutos. Como é essa dinâmica?
Mariana Tesch: No caso do Clube da Anittinha, eu não estive na sala de roteiro. Eu recebia a sinopse pronta por email, abria a escaleta, mandava, recebia feedback da Janaina Tokitaka, roteirista chefe maravilhosa, fazia uma segunda versão da escaleta quando precisava e depois partia pro roteiro. Então a sinopse já chegava bem curtinha pra mim. Às vezes eu tinha que aumentar um pouquinho, criar mais beats, e às vezes tinha que diminuir, cortando as barrigas. Mas, no fim, acho que é só entender a estrutura do episódio mesmo. O que acontece no primeiro minuto? Como a protagonista tenta resolver e em quanto tempo? Ela resolve? Que horas? Como? Em que momento entra a música? E por aí vai...
Quanto tempo durou a criação das séries Clube da Anitinha e Oswaldo (pensando na parte de roteiro)? Vocês fizeram tudo juntos do zero ou já existia algum argumento?
Mariana Tesch: Oswaldo
4 dias de sala para levantar as sinopses, 2 meses para abrir 2 roteiros.
Mês 1 de escrita: Semana 1 - sinopse longa / Semana 2 - escaleta / Semana 3 - roteiro v1 / Semana 4 - roteiro v2
Aí repete isso no Mês 2 pro segundo roteiro.
Em cada semana de escrita, tinham idas e vindas de feedback do roteirista chefe, dos diretores e do criador. Acho que isso rolou 3 vezes:Sala de 4 dias - 2 meses de escrita - sala de 4 dias - 2 meses de escrita - sala de 4 dias - 2 meses de escrita. Cada roteirista escreveu 6 roteiros. Então uns 6 meses e meio de sala.
(Eu amei a experiência de sala do Oswaldo. Aprendi muito! O Suza é um puta chefe de roteiro e os diretores Antônio e Beto são incríveis!)
Anittinha
Você pode perguntar pra Jana em quanto tempo eles criaram a primeira temporada da série. No meu caso, recebi algumas sinopses para abrir os roteiros em casa sem participar da sala. Acho que a gente tinha um pouquinho menos de uma semana para a escaleta e uma semana para o roteiro.
Quando você começa a trabalhar em uma série de um gênero que nunca trabalhou, ou que não tem tanta intimidade, o que faz para entrar na linguagem do projeto?
Mariana Tesch: Procuro estudar mais sobre o gênero em questão, sobre como funciona esse "molde da narrativa" que organiza premissa, personagens, estrutura, e que tem arcos de personagem e dramático específicos. Pra isso, leio roteiros de filmes/séries do gênero e vejo e estudo séries/filmes parecidos com a série ou filme que tenho que criar.
Você também trabalhou na segunda temporada de Coisa Mais Linda. O que é diferente quando você chega em uma série que já está sendo feita?
Mariana Tesch: Quando eu entrei na sala da segunda temporada, a primeira ainda não tinha estreado, mas eu pude ver alguns episódios não finalizados e ler todos os roteiros. A diferença é essa, né, os personagens estão prontos, o universo está dado. A gente "só" precisa criar novas histórias... Não sai do zero. É óbvio que criamos novos personagens pelo caminho, mas todo o resto já está ali, o coração da série já existe. Já criei séries do zero, mas para bíblia de venda, não em salas formais com a produção garantida. Nesses casos, o que muda é a quantidade de pesquisa anterior e isso de ter que levantar algo do zero mesmo, entender sobre o que é a série, experimentar caminhos até encontrar o que faz mais sentido.
Quais são as diferenças entre escrever para serviços de streaming como Netflix e escrever para TV?
Mariana Tesch: Não sei se tem diferença não. (No meu caso específico com a Netflix, a gente escrevia e fazia a sala em inglês, porque a chefe de sala/criadora é americana. Mas sei que esse não é o caso de toda sala da Netflix aqui no Brasil).
Acho que eu te enchi de perguntas! Espero não ter te dado muito trabalho com elas. Por último, eu queria pedir para você deixar aqui alguns livros e filmes que marcaram a sua trajetória como roteirista. Pode ser um de cada, também :)
Mariana Tesch: De livro, vou mandar um clichezão de roteirista, mas que me marcou bastante quando li, porque mostrava os processos criativos, as possibilidades de caminhos e escolhas, que é o "Como contar um conto", do Gabriel García Márquez. De filme, tiveram vários. O que me deu um empurrãozinho pro Audiovisual, quando eu era adolescente, foi o "Gummo" do Harmony Korine. Mas acho que o que me marcou mais pra trajetória de roteirista foi "O ano passado em Marienbad".
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Eu agradeço muito a Mari por topar essa entrevista! E a Camila Agustini, que eu conheci no Instagram @escotilhavirtual (inclusive, sigam), por ter me apresentado essa pessoa.
E ficamos por aqui. Até a próxima entrevista!
Ps.: Aqui também tem outros conteúdos além das entrevistas. Não é muita coisa não, mas fica à vontade.