A Casa do Pôr-do-Sol (Parte VI)
Fernando sentia-se tonto, como se uma névoa se estendesse ao seu entorno. Estava fraco, parecia que seus músculos pesavam três vezes mais do que devessem.
Não se lembrava de ter sido carregado até a mesa de jantar e colocado sentado numa das cadeiras. Mas foi com a cara contraída contra o prato vazio que ele despertou.
Levou ainda tanto tempo para ele conseguir elevar a cabeça e observar ao seu redor que ele quase pensou que fosse acabar cochilando outra vez.
Então viu Joana diante dele, do outro lado da mesa, babando no prato branco de porcelana. E, fechando a cabeceira da mesa, jazia um Jofre abobalhado com o cérebro exposto pela falta do couro cabeludo e do crânio.
Fernando se lembrou de ter visto Petruccio levantando essa parte da cabeça dele e sorrindo seu malévolo sorriso, pouco antes de desabar desmaiado.
Parecia que fazia uma eternidade que isso havia acontecido.
Reparou também que o ambiente havia sido modificado. Via grandes tapeçarias que antes não estavam expostas, cortinas grossas junto às janelas e próximas do limiar entre o hall e a sala de jantar. Candelabros sustentavam amareladas velas que tinham aspecto de usadas.
A energia elétrica havia sido suspensa na pensão, ao que parecia.
Aline apareceu no campo de visão de Fernando no mesmo instante em que Joana começava a levantar a cabeça do seu próprio prato.
Aline estava acompanhada daquele sujeitinho perfeitinho de quem Fernando detestara desde o momento em que colocou os olhos. Fernando não reconheceu a roupa dela, mas notou que combinava com a de Christopher.
Tentou se levantar, apoiando as mãos na borda da mesa, mas tudo que conseguiu foi fazer os dedos resvalarem fracos de mais para suportar a obesidade com que o corpo dele parecia pesar. Caiu sentado de volta na cadeira no instante em que a namorada desmaiava e era segurada por Christopher.
Ele avançou na direção da mesa, carregando ela nos braços feito um noivo em dia de lua-de-mel.
Fernando estava possuído de um ódio que ele nunca sentira em toda a vida.
Christopher sorriu para Fernando, quando ficou exatamente às costas de Joana.
- Não pensou que eu fosse deixar ela cair no chão, não é mesmo? – disse.
- Seu filho-da-puta, eu vou matar você! – até falar era difícil. A língua parecia grossa de mais na boca, e mover os lábios se revelou uma tarefa mais árdua do que de comum.
Ele sorriu maldosamente e depôs Aline na cadeira ao lado de Joana.
- O que está acontecendo aqui? – perguntou lentamente Joana, cada palavra tendo uma duração dobrada de pronúncia.
- Um jantar, é claro. – respondeu Judith, vindo da direção da cozinha trazendo um fogareiro portátil consigo. Colocou o fogareiro sobre a mesa, entre Joana e Jofre.
Mas o que Fernando mais observava sobre a mesa era um machado ensanguentado deposto há distância de um braço dele. Se estivesse rápido o bastante para alcança-lo....
- O que vocês fizeram com ele?! – exclamou Joana, quando viu o namorado.
Judith voltara da cozinha agora trazendo uma frigideira. Também foi ela quem respondeu Joana.
- Ah, deixa de ciúmes. – ela deu de ombros, com um sorriso malicioso nos lábios. – Só tirei uma casquinha. – e então riu, uma risada falsa que tentava humilhar o ouvinte.
Fernando sentiu-se compelido a explicar à moça que Joana não compreendia metáforas nem mesmo em seu estado metal pleno, por isso não fazia ideia do Judith pudesse estar falando; ainda mais se estivesse com o cérebro tão lento quanto o dele.
Christopher foi para a cozinha e voltou trazendo uma injeção que aplicou no pescoço de Aline, para visível desespero de Fernando.
- Não. – respondeu Christopher à pergunta silenciosa que a expressão facial de Fernando fazia. – Primeiro vocês precisam ser como nós.
Fernando não tinha certeza se havia compreendido corretamente, e esperava que de fato não houvesse compreendido da maneira certa.
A injeção fez com que Aline acordasse.
Um cheiro bom de carne assada começou a vir da cozinha e foi seguido por D. Abigail, que trazia duas bandejas de prata. Serviu os dois pratos de carne para os quatro convidados à mesa.
- Para a nossa pequena assassina, um pouco da própria carne. – disse D. Abigail, estendendo a bandeja que continha um pé humano assado na direção de Joana. – Para os pombinhos, o coração de meu próprio Petruccio. – na bandeja restante, havia dois pratos, cada um contendo a metade de um enorme coração humano. D. Abigail pegou um dos pratos e colocou sobre o prato de Aline e o outro diante de Fernando.
- E Jofre? – Fernando ainda ousou questionar.
- Ele se tornou um vegetal, desde que lhe abrimos a cabeça. – disse Judith. – Nada mais apropriado do que ele produzir a própria comida. – falando isso, ela pegou o garfo de Jofre e fincou no cérebro exposto do rapaz, com a faca, ela cortou uma lasca do cérebro e esfregou contra a frigideira que havia sido arrumada sobre o fogareiro. A carne do cérebro de Jofre chiou durante alguns instantes, então Judith levou o garfo até a boca dele.
O cérebro não sente dor, lembrou-se Fernando. Descobrira isso em suas pesquisas sobre o próprio cérebro. Desde que foi identificado com aneurisma cerebral, começara a buscar informações diversas sobre o tema.
Jofre estava tão abobalhado que simplesmente ficou lá, observando o pedaço do próprio cérebro.
- Vamos, Jofre, abra a boca e coma isso. – insistiu Judith.
Jofre obedeceu. Abriu a boca e deixou que ela colocasse o garfo dentro dela, depois ele fechou e ela tirou o garfo vazio de lá. Jofre pôs-se a mastigar o próprio cérebro e Fernando observou anojado o rapaz engolir.
Percebeu que não era o único enjoado à mesa.
- Muito bem, Jofrinho. – disse Judith.
- Acho que vou vomitar. – declarou Aline, com a pele mais pálida do que Fernando podia se lembrar.
- Vocês também devem comer, ou a comida vai logo esfriar. – declarou D. Abigail, sem tirar o sorriso afetuoso de vovozinha dos lábios.
- O que vocês são? – perguntou Joana, completamente transtornada.
Fernando tinha uma resposta para ela.
Canibais, ele pensou. Comedores de carne humana.
- Tão humanos quanto você, querida. – respondeu D. Abigail. – Agora coma. – assumiu um tom de voz de avó-chata que insiste para um netinho comer seu bolo porque está muito magro.
Sem outra alternativa visível, Fernando pegou o garfo e a faca e pôs-se a cortar a metade dele do coração de Petruccio. Ficou com o pedaço de músculo diante da boca por dois segundos. Era difícil acreditar que era carne humana, pois tinha um cheiro desconcertante e assustadoramente agradável.
Mordeu o coração de Petruccio e engoliu rapidamente para não haver o perigo de se arrepender.
- Muito bem, criança. – disse D. Abigail.
Diante disso, as duas irmãs puderam-se a fazer o mesmo.
Fernando tinha que admitir que ao menos eles não haviam servido carne crua – o que seria bem mais difícil de engolir.
Joana tremia, mal conseguia cortar a carne do próprio pé assado.
- Tente na parte superior. – sugeriu Judith. – É onde tem mais carne em abundância.
Joana tremia. Fernando só não sabia dizer ser era de raiva ou de fraqueza.
- Vocês tem que comer tudinho. – declarou a velha.
Fernando só sentiu o gosto adocicado que sentira no suco depois da quarta mordida da sua metade de coração.
Envenenaram a comida, ele percebeu. Antes de terminarmos de jantar estaremos mortos.
Era uma visão bastante prática da situação.
Se eu estivesse mais forte, raciocinou Fernando, poderia usar aquele machado. Estava tão perto!
- Porque não nos mataram logo que chegamos aqui? – questionou Fernando. – Seu filho estaria vivo agora. – dirigiu-se à velha.
Ela sorriu carinhosamente, como se explicasse o bê-á-bá a seu netinho preferido.
- Porque não teria graça, querido.
Então é disso que se trata, ele concluiu, da emoção, da tensão e do medo. Gostam de se sentirem mais poderosos que seus presas. Não conseguia mais pensar naquela família de malucos como humanos convencionais.
- Não... – Jofre começou a balbuciar, quando Judith lhe estendeu o que deveria ser o décimo pedaço de cérebro. – Não quero... – ele franzia a testa. – Dói.
- Coma que vai passar. – insistiu Judith.
- Eu não suporto mais isso. – disse Aline. Empurrou o prato que foi parrar no meio da mesa e arrastou a própria cadeira para trás. Quando tentou se levantar, Christopher já estava ali.
Fernando observou de olhos arregalados e sem ter o que fazer diante da cena. Christopher apunhalou Aline com uma faca no pescoço. Aline tentou falar alguma cosia, mas nenhum som saiu. Ela estendeu os braços e segurou-se nele, como se procurasse amparo para ficar em pé. Quando ele arrancou a faca do pescoço dela, uma torrente de sangue correu de dentro da garota. Aline foi escorregando, escorregando, escorregando na direção do chão, até que Fernando já não conseguiu mais vê-la.
Sentiu os olhos encharcarem-se de lágrimas, mas ainda conseguiu se conter.
Viu que Joana fazia uma careta estranha – e, julgou Fernando, não parecia por causa da irmã –, então ela tentou se levantar e caiu no chão. Fernando escutou Joana se debater e balbuciar alguma coisa ininteligível. Depois de um tempo, ela parou.
Jofre engolia o que viria a ser seu último pedaço de cérebro. Fernando viu ele estender a cabeça para trás e fechar os olhos. Se não estava morto, não tardaria a falecer.
Os três pares de olhos o observavam.
E Fernando não estava disposto a decepcioná-los.
Pegou o resto do coração de Petruccio com ambas as mãos e começou a rasgar a carne com os dentes com as poucas forças que tinha; mastigava e engolia tão freneticamente quando sua fraqueza lhe permitia.
Quando terminou, sentiu a própria cabeça pulsando, como se o seu aneurisma estivesse estourando dentro do crânio dele. E então o veneno fez seu efeito.
Fernando desfaleceu sobre o prato onde antes havia repousado metade do coração assado de Petruccio.
O mundo silenciou, a visão esmaeceu. O peso do corpo sumiu. Ele passou a flutuar num mar negro de inanição e isolação sensorial. Isso devia ser a morte.
Mas se era a morte, porque ele continuava pensando? Sempre imaginou que na morte houvesse a paralisia total das atividades mentais.
É claro que era apenas uma suposição.
Só que aquilo não se parecia com a morte. Quer dizer, quase nem parecia, senão, com um sonho escuro.
Não, tudo que Fernando não queria era escutar aquele som novamente. Aquele barulho lhe trazia recordações infelizes, lâminas no estômago.
Era o som que apenas Fernando ouvira, que vinha de detrás da parede com a fotografia do velho patriarca da família Kürten, na Casa do Pôr-do-Sol.
Queria que o barulho parasse.
Se estava morto, porque ele insistia em voltar a soar?! Tinha que ter terminado juntamente com o resto.
Então descobriu algo que o deixou em pânico.
O resto também continuava ali.
Os sons voltaram, e até pode vislumbrar uma certa luminosidade com os olhos. Sentiu a pele do braço arrepiar-se.
Ouviu os passos de D. Abigail pela sala de jantar, a bandeja tinindo quando ela colocou um prato sobre ela, a madeira do chão rangendo sobre o peso dos pés, a risada doentia-extasiada de Christopher, os sapatos de salto de Judith fazendo toc toc toc no soalho.
Era como se não houvesse morrido de verdade.
Mas antes de perceber que também podia abrir os olhos, um fluxo intenso subiu de seu estômago e ele não teve outra alternativa senão pular da cadeira e acocorara-se no chão.
O vômito deixou um gosto horrível de bile na língua e na boca. Era verde e sangrento, quando Fernando conseguiu obter forças para levantar as pálpebras. Sentiu que o nariz também sangrava. Passou a mão pela cabeça e descobriu que o sangue escorria por todos seus orifícios faciais. Até mesmo dos olhos e sem dúvida dos ouvidos.
Sangue. O corpo humano se resumia nisso, no final das contas.
As veias se dissolvem e até a pele se decompõe. Sobra o sangue para confirmar que ali havia um ser vivo.
Quando se levantou, viu três pares de olhos arregalados a observá-lo.
Parecia que alguém houvera aplicado um filtro vermelho em sua visão. E a audição também estava comprometida, com tanto sangue em seus ouvidos. Os sons que ouvia eram abafados e aquosos.
Entretanto, o barulho que vinha da parede era inconfundível.
Martelava de dentro da mente dele.
Por que diabos aquilo não parava ou não sumia?! Tudo que Fernando desejava era fazer aquele maldito som parar!
Aquilo estava lhe deixando louco.
De posse de uma força que não sabia que tinha, ele avançou contra a mesa e agarrou o cabo do machado que havia ali em cima.
Contornou a mesa e passou por um estarrecido Christopher enquanto caminhava com respiração pesada por causa das gordas gotas de sangue que escorriam do nariz.
Avançou na direção do quadro do patriarca da família Kürten e pôs-se a machadar a maldita parede.
Ali o som era estarrecedor, ensurdecedor. Fernando precisava, ele tinha que fazer o maldito barulho parar ou aquilo iria enlouquecê-lo!
Então usava o machado contra a parede. O quadro de Heike Kürten caiu do prego que lhe sustentava, e, quando colidiu contra o rodapé, o vidro estourou em um milhão de pedacinhos.
Fernando não ouviu quando D. Abigail falou com seu filho.
- Christopher. – ela chamou. – Pegue a espingarda.
Também não viu quando o rapazote saiu da sala de jantar e voltou carregando a velha arma do senhor seu pai.
Fernando já havia feito um buraco que fizera a metade inferior da madeira da parede desabar em lascas e pedaços mal cortados no chão.
Dentro da parede havia um cemitério de restos de corpos humanos, meio comidos e bastante apodrecidos pelo tempo. Na maioria dos cadáveres cinzentos algum membro estava ausente.
Fernando não ouviu quando Christopher lhe chamou. Então Christopher avançou, a arma estendida, mirada na direção do outro rapaz. Quando chegou perto o bastante de Fernando, estendeu a mão para puxá-lo pelo ombro.
De alguma forma, o corpo de Fernando percebeu o movimento antes que ele se concluísse. Então, girou violentamente contra Christopher, acertando a lâmina do machado no meio da cara do rapaz.
Christopher cambaleou para trás.
- Atira! – gritou Judith.
Christopher tentou acertar a mira e acabou atirando contra Fernando e acertando-lhe na altura do estômago.
Fernando não sentiu a bala, nem dor alguma; também não se importou de haver mais um lugar a partir do seu corpo de onde escorria sangue.
Christopher escancarou a boca por isso.
- Como?! – ele perguntou, com um risco vermelho lhe rasgando a cara na diagonal.
- Você não pode me matar. – Fernando respondeu, sem ter ideia de que estivesse falando. Avançou na direção do outro rapaz. – Eu já estou morto.
Dizendo isso, levantou o machado bem no alto e jogou-o com toda força contra o rosto do rapaz. Uma esguichada de sangue violenta voou na direção da face de Fernando.
Aquilo golpe foi o bastante para matar Christopher.
- This is Halloween, bebê. – Fernando cantou.
As duas mulheres ofegaram, mas não era pela morte do filho ou do irmão. Atrás de Fernando, da parede, os cadáveres começaram a rolar para fora do buraco aberto. Como um fluxo de água que subitamente é aberto, o jorro de anos de corpos mortos foi inundando a sala.
Um cheiro pútrido tomou conta do ambiente.
- Aaaaah! – gritou Judith.
Os altos castiçais colocados para decoração do jantar à meia-noite foram empurrados pelos corpos e acabaram tombando sobre os cadáveres. A chama das velas rapidamente fez da pilha de restos de homens e mulheres mortos uma grande pira funerária. O fogo se alastrou, consumindo os defuntos, subindo pelos panos das cortinas, tomando conta da construção inteira de madeira.
No meio deles, Fernando se agachou e vomitou outra vez. Quando se voltou a ficar ereto e focou os olhos, viu os cadáveres levantando-se do chão. Corpos pútridos em chamas, amputados de vários membros, caminhando ou se arrastando da maneira que podiam, na direção da senhora e da senhorita Kürten.
Judith ainda gritava de pânico.
- Grite como uma banshee, filha-da-puta. – falou Fernando, totalmente inconsciente do ato. – Porque eles estão famintos. – conseguiu ainda gargalhar sem sequer perceber que o fazia.
Era como se ele próprio fosse um fantoche, com alguém de verdade a controla-lo. Era como se tudo que ele fizesse, falasse ou pensasse não fosse verdadeiramente originário dele próprio.
A mulher velha e a mulher nova se amontoavam de olhos arregalados, completamente estarrecidas, contra um canto da sala, longe da saída e de qualquer janela – o único lugar do aposento intocado pelo fogo até então.
Alguns cadáveres já haviam chegado em Christopher e eles mordiam e puxavam os músculos, comendo o rapaz. Outros avançavam na direção das duas mulheres.
Alguns mortos vieram para o lado de Fernando.
Fernando não achou justo, uma vez que fora ele quem os libertara, mas aceitou o fato.
Foi tomado por uma fraqueza subida. Como se toda a força que ele houvesse usado para abrir o buraco e matar Christopher houvessem apenas lhe acometido naquele instante.
As pernas não eram mais o suficiente para mantê-lo em pé. Caiu de joelhos no chão, a tempo de ver os cadáveres em chamas abocanhando a velha D. Abigail, enquanto Judith tentava lutar contra eles – completamente em vão.
Então a visão foi interrompida porque os cadáveres haviam chegado até ele também. Percebeu que fizeram um círculo em torno dele, mas não demonstraram nenhuma intensão de ataca-lo.
Fernando olhou para cima e contou sete homens mortos a lhe estender o que lhes restava de braços sobre ele.
Então compreendeu. Não estavam tentando comê-lo, estavam tentando protege-lo.
Foi o último pensamento que teve antes de desmaiar, pela enésima vez em menos de seis horas.
Quando acordou, pela manhã, a primeira coisa que sentiu foi o calor do sol a aquecê-lo. Depois sentiu uma brisa ou um vento qualquer contra a pele. Estava machucado e sentia dor pelo corpo inteiro. Não sabia que horas eram, mas o sol estava alto no céu.
Levantou-se e olhou ao redor.
Estava bem no centro de um monte de madeira queimada e ossos carbonizados, ao redor de terra e no meio do nada.
Lembrava-se de tudo que havia acontecido ali, embora mais parecesse um pesadelo do que realidade.
Se não estivesse vendo a plantação de abóbora, talvez pensasse que tivesse ficado louco.
Mas aquilo havia acontecido. E ele sobrevivera. Ele, o mais fraco, o mais problemático, o mais esquisito.
Jamais descobriria como isso acontecera.
Achava que jamais entenderia tudo aquilo que acontecera.
Sentia-se novo, no entanto. Apesar das dores, escoriações e hematomas que tinha pelo corpo. Sentia-se como se houvesse renascido, entre fogo, fumaça e sal.
De alguma forma, soube que estava curado do aneurisma. Era algo que ele simplesmente sabia.
Sabia também que estava vivo, mais vivo do que jamais estivera, e sentia uma vontade imensa de continuar a viver.
Deu um passo em frente, sem saber o que esperar do futuro, mas certo de que não sobrevivera por acaso.