[...] o diálogo interior da alma consigo mesma que se processa em silêncio recebeu o nome de pensamento.
“O Sofista”, Sócrates
TVSTRANGERTHINGS
DEAR READER
One Nice Bug Per Day
Cosmic Funnies
KIROKAZE
Sade Olutola
Game of Thrones Daily
Jules of Nature
Sweet Seals For You, Always

Product Placement
almost home
he wasn't even looking at me and he found me
No title available
Today's Document

blake kathryn
wallacepolsom

if i look back, i am lost
tumblr dot com
"I'm Dorothy Gale from Kansas"
2025 on Tumblr: Trends That Defined the Year
seen from India
seen from United Kingdom
seen from Lithuania

seen from United States
seen from United States
seen from United States
seen from United States
seen from T1
seen from United States
seen from United States

seen from United States
seen from United States
seen from United Kingdom

seen from United States

seen from United States

seen from United Kingdom

seen from United States
seen from Morocco

seen from United States

seen from United States
@writing-shadows
[...] o diálogo interior da alma consigo mesma que se processa em silêncio recebeu o nome de pensamento.
“O Sofista”, Sócrates
Quando alguém presume saber tudo e se julga capaz de tudo ensinar a outra pessoa por preço de nada e em pouquíssimo tempo, como não acreditar que seja brincadeira?
“O Sofista”, Sócrates
[...] a refutação é a maior e mais eficiente purificação, sendo forçoso concluir que o indivíduo que se eximir a esse processo, ainda mesmo que se trate do grande Rei, é impuro no mais alto grau, ignorante e deformado naquilo em que deveria mostrar-se mais extreme e mais belo, caso queiram alcançar a verdadeira felicidade.
“O Sofista”, Sócrates.
[...] há os que opinam que toda ignorância é involuntária e que nenhum dos que se julgam sábios se dispõe a aprender seja o que for daquilo em que se considera forte.
“O Sofista”, Sócrates.
Quando se imagina conhecer o que não se conhece. Talvez seja essa a origem dos erros a que está sujeito o intelecto.
“O Sofista”, Sócrates.
Sombras da Escrita completou 7 anos hoje!
You know the truth can be a weapon To fight this world of ill intentions A new answer to the same question How many times will you learn the same lesson?
Legendary, Welshly Arms.
Sombras da Escrita completou 5 anos hoje!
O Jogo da Morte
II – CABRA CEGA
~ 7 ~
De uma forma inteiramente estúpida, todos nós nos movemos para o galpão, a fim de testemunhar aquela loucura que Fabrício queria fazer.
Se havia diversas cabras na fazenda dos Costa, nunca chegamos a descobrir. Mas Fabrício apareceu arrastando uma delas, de pelos tão brancos quanto a esclera ocular, com uma corda espessa para um quadrado isolado no armazém onde o chão era de pedra cimentada, com montes de feno e outras quinquilharias se acumulando junto às paredes.
A cabra resistia a ser puxada. Não queria estar ali (nem a cabra, nem eu, no caso). Ela parecia pressentir que algo de ruim lhe iria acontecer. Suas patas faziam bolas de terra enquanto Ferdinando a arrastava ao longo do caminho até o galpão.
Quando conseguiu trazê-la, ele amarrou a ponta da corda da cabra a uma argola que pendia junto à parede e saiu do recinto para voltar portando um machado-de-mão.
- E então? – ele nos dirigiu a palavra, mostrando o machado de cabo curto. – Quem vai ser? – ele perguntou e Ferdinando riu atrás dele.
- Fabrício, você não devia estar fazendo isso. – disse Júlia, mas estava ali, participando com eles daquilo.
- Ah, cala a boca, vadia. – retrucou Fabrício. – Ninguém vai notar se uma cabra sumir.
- Mas vão notar se o chão amanhecer sangrando. – ela ralhou de volta, parecendo não ter escutado o impropério ao qual o primo lhe chamara. – E também não acho direito fazer o Ferdinando assistir isso.
- Você não acha nada. – ele disse, e seu tom de voz era sombrio e grave. Avançou rapidamente na direção da garota até ficar a poucos centímetros dela. – Sabe por quê? – como ela era mais alta que ele, os olhos dele encontravam-se da direção da boca dela. – Hein? Sabe, por quê? – sua voz e seu corpo tremiam de fúria.
- Por quê?
- Porque você não é nada. – ele respondeu, com gotículas de saliva dele pulando para o rosto dela.
Se ela sentia alguma coisa, nada demonstrou. Permaneceu tão imóvel quanto estava antes, com o rosto vazio de expressões e sentimentos. Talvez fosse prudente agir assim; afinal de contas, Fabrício tinha um machado na mão e estava disposto a matar uma cabra – ou assim dizia, pelo menos –, o que lhe impediria de brandir a arma contra uma pessoa?
Fabrício se afastou dela, pousou os olhos em cada rosto que estava ali com ele e se deteve um tempo a mais em mim.
- Talvez o nosso futuro-médico queira fazer sua primeira decapitação. – sorriu pra mim de forma bizarra.
É claro. Sempre sobra pra mim. Aquilo era ridículo, todo aquele circo que ele estava armando.
- Não vou tomar parte nisso. – respondi, polidamente. Não sorri. Ele que interpretasse isso da forma como quisesse. Fabrício havia enlouquecido; isso estava explícito na expressão facial dele. E não precisava de uma faculdade de medicina para diagnosticar-se tal fato. – Na verdade, – continuei. – acho que já estamos indo embora. – olhei para cada um que veio de carona comigo e vi certo alívio nos olhares deles.
- E eu acho que vão encontrar um pequeno empecilho, nesse caso. – disse Fabrício, com um sorriso macabro. Ele estendeu a mão direita e a lâmina do machado roçou no tecido da minha camisa. Ouvi alguém arfar, mas não sei quem foi, pois não alterei meu foco de visão dos olhos de Fabrício.
Ele não sabia com que estava lidando.
- Vai me usar de cabra, é? – incitei-o, levantando e abaixando as sobrancelhas. Meu sorriso cínico voltou aos lábios.
Eu sou um dragão, um monstro sem coração. Não seria um merdinha como ele que iria me afetar.
Senti vontade de tirar o machado dele e partir-lhe o maxilar com as costas da lâmina, apenas para lhe ensinar quem é que manda. A despeito da minha pretensão, permaneci quieto.
Ele sorriu também, girou a cabeça para um lado, depois para o outro e por fim balançou-a negativamente.
- Só estou apontando para a porta atrás de você, idiota. – ele riu como se aquilo fosse engraçado.
Permitir-me-ia girar e olhar o que havia atrás de mim, se o maior risco que eu corria estendia-se na minha frente? Por sorte, não tive que pensar acerca disso por muito tempo. Júlia arfou do meu lado e correu para a porta. Ouvi-a batendo contra a madeira, mas não ousei tirar os olhos dos de Fabrício. Ele ainda sorria pra mim, embora o olhar dele me parecesse sem foco.
- Ele nos trancou aqui! – anunciou Júlia. – Colocou um cadeado na porta! – aquilo pareceu atrair a atenção de Fabrício outra vez, ele olhou para a prima e gargalhou maldosamente.
- Talvez, afinal de contas, seja mais esperta que a Natália. – ele comentou, baixando o machado para o lado do corpo.
- O quê?! – gritou Cecília. – Você não tem o direito de nos trancar aqui!
Ele ignorou completamente os gritos de Cecília. Deu as cotas para mim e foi até a cabra. Abraçou o animal com a mão esquerda.
- Não precisamos mais de você. – ele disse, para a cabra! E eu é que sou o estranho. – Só da sua cabeça, mas não é nada pessoal, tá? – a cabra parecia desesperada para estar o mais distante possível de Fabrício.
Depois, ele transpassou a perna direita sobre a cabra, contraindo-a no vão que se formou. A cabra balia e forçava a soga onde fora amarrada. Ele mirou a visão para os meus olhos e permaneceu estagnado por alguns segundos.
Ninguém se atreveu a dizer nada. Todos o observavam atônitos.
- Se ninguém mais tem coragem – ele disse. – eu faço. – ergueu o machado bem alto e baixou-o violentamente contra a cabra, atingindo-a na nuca. O sangue espirrou por todo o lado, mas principalmente contra o próprio algoz. Todos os outros, incluindo Ferdinando, deram um passo para trás. Fabrício voltou a atingir a cabra diversas vezes até finalmente conseguir separar a cabeça do corpo.
A essa altura, Guilherme já havia vomitado e Cecília o ajudava a voltar a ficar em pé; Ferdinando se encolhera num canto e observava tudo com olhos esbugalhados; Natália havia se sentado num monte de feno e parecia que ia desmaiar e era acudida por Júlia; Elisa estava aos prantos num abraço forte de Rafael; e este jazia pálido, olhando para os próprios pés com uma expressão enjoada na cara. A expressão dele parecia dizer “preciso de uma bebida, e forte”.
Nunca haviam visto a morte. Nunca sentiram o cheiro ferroso de sangue que é tanto humano quanto animal. Eles nunca compreenderam que a vida é tão tênue e fraca quanto uma chama de uma vela.
Mas agora eles viam. Agora eles sentiam. Agora, a porta que jamais havia sido aberta para eles, não voltaria mais a ser fechada.
Porque nada se compara ao espetáculo da morte em seu ápice fulgor. E como acabava rápido! Você pode viver mais de oitenta anos, mas morre em poucos segundos. É nisso que consiste tudo. Não importa se você pratica o bem, ou se é uma desprezível sombra de ser humano: a morte trata a todos com a mesma equidade.
Verdades que eu já havia descoberto por mim mesmo.
Portanto, eu não me deixei abalar quando levei a mão direita e limpei os respingos vermelhos do meu rosto e os joguei para o chão de pedra.
As roupas de Fabrício estavam ensopadas de sangue, que pingava aos borbotões. Então ele desenhou a estrela e o círculo conforme havia no livro, que abrira ao lado dele.
Depois ele olhou para a plateia. No mínimo, devia estar esperando aplausos; mas é claro que só encontrou ingratidão e eu quase pude sentir a frustração dele no suspiro longo e ruidoso que produziu.
- Seus fracotes. – ele riu e então encontrou meus olhos – Menos você, é claro. – ele voltou a rir.
- Já chega, Fabrício. – gritou Júlia, com sua voz oscilando entre graves e agudos. – Já fez o que queria, agora nos deixe sair!
- Cala a boca, sua putinha! – ele gritou para ela. – Fica quieta ou acaba como esse animal! – ele chutou o corpo da cabra morta para longe dos desenhos de sangue que havia feito. – Ainda não acabamos!
Fabrício pegou a cabeça da cabra e a depôs olhando para o teto no centro da estrela de cinco pontas. Pegou o livro nas mãos e veio na minha direção.
- Pega. – ele disse, empurrando o livro contra a minha barriga. O sangue nas mãos de Fabrício sujara o livro inteiro, e ele pingava, escorrendo em gordas gotas escarlates para o chão. Resisti, não peguei o livro, deixei que ele empurrasse contra minha barriga. Ele sorriu e levantou o machado que refulgia ao visco vital da cabra e encostou a lâmina no meu pescoço. – Você achou que antes era uma ameaça. – ele disse, pressionando a lâmina. – Isso é uma ameaça. – ele sorriu, o sorriso oscilou em seus lábios. – Pega a porra do livro. – ele ordenou.
Minha vontade era de toma-lo o machado e fazer picadinho de Fabrício ali mesmo, naquele instante, naquele lugar; passara o tempo em que apenas quebrar-lhe o maxilar bastava. Eu queria era pular sobre ele e lhe decepar a mão, depois o braço, os pés e, enfim fim, a cabeça.
É claro que ali não era o lugar, nem o momento certo para isso e haveria testemunhas de mais.
Além disso, eu não tinha a menor vontade de passar a estudar medicina de trás das grades.
Portanto, não tive como não obedecer, embora cada célula do meu corpo rogasse pelo assassinato dele, embora todos os músculos do meu corpo tremessem de ódio, embora toda a cena de eu matando ele não parasse de rodar como um filme empacado na minha mente.
- Agora lê. – ele mandou, voltando para junto da cabra. É bom mesmo que se afastasse de mim o quanto antes.
Observei as letras no livro e comecei a narrar.
- O jogo da Morte. Uma vez iniciado o ritual, o ceifeiro da Morte vos caçará um a um e um a um ele fará de vossas mortes as lembranças mais delirantes de que jamais deveriam ter iniciado tal ardiloso ritual.
“Existem várias formas de morrer. Há aquele dentre vós que será içado para o inferno através das lâminas da Morte. Outro irá por conta própria, porque a devassidão que alimenta também será o veneno que há de tirar-lhe a vida. Nenhum dispositivo jamais criado pelo homem irá sustentar a vida daquele que já é meu.”.
Fiz uma pausa para descansar a voz que tremia de raiva como todo o meu corpo.
- Por favor, pare. – pediu Júlia.
- Cala a boca! – Fabrício gritou para ela, depois me olhou. – Continue. – disse num tom mais brando.
- E não adianta fugir quando o desespero bater. Não terá em quem confiar, pois até mesmo as mãos amigas irão te matar. Se a vingança procurares, apenas o abismo do medo irás encontrar. – suspirei, entoar aquelas linhas acalmava um pouco meu ódio, entretanto me deixava mais tenso.
- Isso tudo é ridículo. – reclamou Natália, pálida, sobre o monte de feno.
- Nem mesmo o amor há de salvar, porque a paixão consumirá e dela nada irá restar. E por fim, haverá aquele que dentre vós a levantar-se perante si mesmo como a própria personificação da Morte. O senhor da Morte este será.
Contei as mortes descritas de maneira metafórica no livro e depois observei em quantos estávamos no galpão. Seis mortes no livro e nove pessoas no aposento.
Seis mortes e um sobrevivente: sete, que clichê.
Só que então, como estávamos em nove, seriam três sobreviventes. Três não era um número poderoso, até onde o meu conhecimento de ocultismo dizia. O que corroborava ainda mais para minha opinião de que aquilo era uma total bobagem.
Mas é claro que eu não acreditava em uma única palavra do que eu mesmo pronunciara.
- Que o jogo da morte se inicie. – terminei de ler.
- Que o jogo da morte se inicie! – gritou Fabrício, chutando a cabeça da cabra contra a parede.
[Imagem Original]
O Jogo da Morte
II – CABRA CEGA
~ 6 ~
Cecília era uma jovem alta e magra, com peitos e nádegas descarnadas. Tinha longos cabelos castanhos e uma face comprida, ossuda. Trata-se da mais nerd das alunas em sala de aula, devorava diversos livros por mês e não tirava nenhuma nota abaixo de nove. Contrastava muito com seu namorado, Guilherme, também alto – mais alto que ela – e raquítico. Guilherme, no entanto, não gostava de estudar e isso se via evidente em suas notas na faculdade – que eu supunha que nunca tivessem chegado a nove.
Se alguém chegara a pensar que, à influência de uma namorada inteligente, o rapaz pudesse se dedicar mais aos estudos, se enganaram: os dois continuaram exatamente como eram antes do relacionamento.
De todos no grupo, os dois constituíam naqueles mais distantes de nós. Cecília e Melissa haviam sido grandes amigas, mas ainda assim, ela e o namorado costumavam faltar aos encontros com certa frequência e havia algo em suas atitudes que me lembrava presunção.
Eu jamais gostei de Guilherme. Aliás, que eu saiba, pouca gente nutria bons relacionamentos com ele – a não ser, obviamente, Cecília. Algo nos modos deles me deixava levemente inquieto. Uma coisa era certa: eu, definitivamente, não confiava nada nele.
Quando os dois se juntaram a nós, nós jantamos e conversamos, mas nada a respeito do livro e de suas excêntricas e macabras figuras foi citado por ninguém.
Na sala de jantar, comprida e pouco arejada, havia uma cristaleira ostentando seu conteúdo com grande esmero sob nenhum grão de pó e uma tapeçaria persa estendida sobre a parede logo atrás da posição do patriarca na mesa.
As cadeiras no estilo imperial com as costas e a base estofadas mantinham um acento desconfortavelmente macio.
A grande mesa de jantar da família Costa fora construída com madeira de alta qualidade. O refinamento e o bom-gosto da família também se exibiam nos talheres de prata e louça de porcelana.
Não que a família Costa voltaria a nos servir louças de porcelana depois já termos quebrado alguns de seus mimosos exemplares.
Parecia-me uma verdadeira profanação comer pizza ou xis sobre esses pratos de estilo colonial, ou cortamos alimentos tão deselegantemente utilizando esses talheres tão finos. Simplesmente não combinava.
O jantar se seguiu de forma descontraída. Elisa e Rafael trocavam carícias e palavras doces que chegava me anojar. Por favor, se conhecem a dois dias e já ficam de papinho meloso.
Cecília e Guilherme, por outro lado, eventualmente trocavam algumas palavras. E Júlia e Natália conversavam sobre alguma coisa que parecia bastante profunda, pelo tom de voz delas. As duas vinham se tornando bastante mais próximas ultimamente.
- E aí, Martin, como anda os seus mortos? – gracejou Fabrício, da ponta da mesa.
- Olha, não vão muito longe, não. – respondi e ele sorriu, mastigando um pedaço de pizza com a boca semiaberta. E eu me pergunto como não querer matar uma pessoa que mastiga com a boca aberta? Não pode ser apenas eu que sente essa vontade. Certamente haveria de ter mais classe em utilizar a Sra. Faca Refinada para causar uma hemorragia fatal em alguém do que suportar isso, não é? Eu acho que sim. É claro que o resto do pessoal não deveria se sentir muito confortável em jantar com o sangue de Fabrício escorrendo pela mesa.
Exagerei? Talvez. Mas você sabe que eu não sou exatamente o tipo de pessoa comum.
- Eu não sei como você consegue trabalhar naquele lugar. – comentou Elisa; vivia dizendo isso, aquela fresca. – É tão... assustador. – simulou um arrepio.
- Você nunca entrou lá. – eu lembrei-lhe.
- Eu sei, mas deve ser; tem que ser assustador. – ela retrucou.
Eu sorri pra ela; só esperava que não houvesse nenhuma sujeira nos meus dentes.
- Depois de um tempo você se acostuma. – falei. – E além disso, não tem muito com o que se preocupar. Já estão todos mortos mesmo. – dei de ombros, ao passo que ela encolheu os dela.
- Eu gostaria que vocês parassem de falar disso enquanto comemos. – comentou Cecília, muito polida.
- Perdão. – eu disse, sorrindo falsamente.
- Nada contra você ou o seu emprego, claro. – ela disse, apressadamente. – É só que esse assunto não combina com a refeição.
Não sei porque, mas aquela onda de “morte não combina com comida” da Cecília me pareceu soar falsa vindo dos lábios dela, quase como se fosse esperado que alguém dissesse aquilo.
- Depois daquela imagem legal do livro enterrado, qualquer coisa pode ir bem durante a refeição. – disse Rafael de modo distraído e Elisa olhou-o bem fundo com a cara nervosa.
- Rafa! – Elisa ralhou. Haviam assinado um termo tácito em não tocar naquele assunto e o novato estraga tudo.
- Não estava enterrado! – corrigiu Fabrício, enquanto Cecília perguntava – Qual livro? – e Guilherme – Que imagem? – e Rafael reclamava – Que foi?!
Acabou que todo mundo riu da cacofonia de perguntas simultâneas; no entanto, a risada soou um tanto histérica, nervosa.
- Achamos um livro que havia sido cimentado junto com a parede da adega. – disse Fabrício.
- Nós dois. – grunhiu Ferdinando, sem conseguir pronunciar com êxito a letra “de”.
- Sim, Ferdinando, nós dois achamos. – concordou Fabrício.
- E lá vamos nós, de novo. – cochichou Júlia.
- Um livro sobre evocação de espíritos. – resmungou Elisa, fingindo um tremor. – E eu tive a má sorte de abrir numa página que mostrava uma imagem bem grande de uma das formas de se fazer isso. – continuou, fazendo uma careta para a palavra “formas”.
- Vamos tentar? – quis saber Guilherme.
- Opa! – alegrou-se Fabrício. – Certamente!
- Não, Fabrício! – disse Júlia em um tom cortante.
- É! – concordou Elisa. – É repugnante! Além disso, nem temos uma cabeça de bode pra fazer isso! – ela lembrou.
- Não é bode; é cabra, idiota. – rosnou Fabrício de volta.
- Hei! – reclamou Júlia. – Peça já desculpas, Fabrício! – ela soava como voz-de-mamãe.
- Olha lá o jeito com que fala com a Elisa! – Natália Werlang levantou-se e apontou o dedo para Fabrício.
- Vá se foder, Júlia! – retrucou Fabrício. – As duas!
- É! Vá se coder! – resmungou Ferdinando.
- Ferdinando! – ralhou Júlia.
- E pros seus governos, nós temos sim uma cabra aqui em casa. – continuou Fabrício. – Muito mais que uma, aliás.
Aquilo meio que me pegou de surpresa. Quer dizer, eu sabia que eles criavam animais, mas pensei que fosse apenas vacas, bois, cavalos; esse tipo de animal. Mas não era isso que importava mais agora.
- Você pretende mesmo matar uma cabra pra tentar fazer isso? – eu perguntei, meio incerto sobre se eu queria mesmo ouvir a resposta. Não que eu me importasse com a morte da cabra, muito menos com o fato de aquilo ser meio macabro, mas aquilo estava começando a sair de controle.
- Mas é claro! – respondeu Fabrício, como se a minha pergunta fosse totalmente óbvia. – Vamos todos ao galpão. – disse Fabrício, com sua face escurecendo e os lábios saltando para um sorriso maligno.
Ferdinando gargalhou medonhamente no silêncio que se seguiu.
[Imagem original]
O Jogo da Morte
II – CABRA CEGA
~ 5 ~
Seu Gilberto Moreira sentia um nojo horrível do que se via obrigado a fazer por causa de dinheiro.
Deixara a fornalha de barro tão quente que o galpão inteiro estava abafado naquela noite iluminada pelo forte brilho do luar.
Lua sacana, ele pensou. Tá claro de mais.
Foi uma puta sorte que a Cecília saíra bem naquela noite, assim não teria que mentir mais uma vez para sua princesinha.
Seu Gilberto e a esposa, D. Mônica, combinaram uma história para explicar para a filha sobre aqueles serviços extras que a mãe de Cecília conseguia arranjar para eles.
Ludibriaram a filha como se a D. Mônica tivesse alguns contatos do emprego antigo e que, assim, conseguia convencer alguns desses contatos a fazerem a incineração de documentos confidenciais e papeladas do tipo na fornalha da madeireira.
Só que isso não era a verdade.
Os tipos de contatos de Mônica não tinham nada a ver com velhos camaradas do serviço.
Seu Gilberto ficaria contente se a história que eles contaram para a filha fosse de fato a verdade por trás do que levava ele naquela noite a acender o fogo na fornalha.
Sempre ficava irrequieto e irritadiço quando aquelas noites chegavam.
Já tinhas as respostas prontas na ponta da língua para o caso de algum vizinho desavisado querer saber porque ele estava usando a fornalha. Queimando uns arquivos velhos, ele responderia. Mas ninguém nunca lhe perguntou.
Mentira em cima de mentira. Seu Gilberto detestava estar mentindo, para quem quer que fosse. Então, era óbvio que ficava muito irritado de ter que mentir para a própria filha.
O carro preto entrou no pátio e correu em alta velocidade para dentro do galpão.
Chegaram.
Afonso saiu do lado do motorista e Alaor saiu do lado do carona. Afonso avançou na direção de Gilberto e lhe estendeu a mão.
- Boa noite, Seu Gilberto. – disse o homem com cara de cavalo. Tinhas as feições rígidas e angulosas, com os ossos salientando-se sob a pele. O cabelo era ralo, curto e preto e o homem ainda mantinha uma barba de dois dias naquela cara feia. Sempre foi mais simpático que o outro. Ele julgava que o homem devia estar na casa dos quarenta anos.
Seu Gilberto apertou com força a mão do homem. Não nutria simpatia por nenhum dos dois. Grunhiu um comprimento de volta, mal humorado.
Alaor permaneceu ao lado do carro, braços cruzados e tão taciturno quanto sempre. Não fazia questão de esconder a total desconfiança que sentia por Seu Gilberto. E este também não fazia questão de demonstrar agrado diante da figura robusta e grave do homem.
Nossos santos não se batem.
Toda vez, Seu Gilberto desejava com vontade que fosse a última vez. Mas sempre vinha algum problema, algum gasto extra, alguma necessidade de um dinheiro que não existia. Então ele tinha que se submeter aquela situação tão detestável e que o irritava profundamente.
- Vamos logo com isso. – rugiu Gilberto.
Não confiava o bastante em nenhum funcionário, por isso se encontrava sempre sozinho com aqueles dois.
- Como queira. – respondeu Afonso.
Alaor moveu-se até o porta-malas do carro, com Afonso em seu encalço.
Gilberto aproximou-se dos dois, enquanto Alaor erguia o volume nos braços a fim de remover o conteúdo de dentro do porta-malas.
O pano branco escorregou pelos braços do homem gordo e caiu lentamente para o chão revestido de picotes de madeira. O corpo que o pano envolvia revelou-se pertencer a um jovem magricelo.
Não deve ter a idade da minha filha, refletiu Gilberto. E era isso que mais lhe anojava. Um guri.
O cadáver possuía um tom de pele tão pálido que só fazia evidenciar os hematomas arroxeados que trazia na face.
Eles ainda surram o coitado, mesmo sabendo que vão acabar matando ele logo depois.
Não achava certo aquilo, mas ele conhecia a família da mulher com a qual se casara, então não podia reclamar.
Mônica sempre fora o contato entre Gilberto e a corja.
Eles vêm desovar seus restos comigo, pensou, irritado.
Seu Gilberto não queria saber do que se tratava – não que tão pouco os homens o revelariam. Ele sempre imaginou que fosse dívida de drogas ou de apostas e jogos. Tanto fazia para ele se eram agiotas ou traficantes ou apenas assassinos. Criminoso é criminoso. E todos eles mereciam a prisão. Mas Gilberto acreditava que aqueles que matavam os bebês, as crianças e os jovens mereciam mesmo era a morte.
Encontrava calma ao saber que se a lei dos homens falhasse, a divina não lhes faltaria.
Só que aquela situação lhe fazia peso sobre o coração.
No final das contas, não sou tão melhor do que eles.
Isso fazia ele se sentir profundamente revoltado. Queria acreditar que não tomava parte no homicídio, por isso não era tão ruim assim; mas nunca conseguiu acreditar verdadeiramente nisso.
Sou o gari que limpa a imundície que os palhaços deixam para trás.
Alaor levou o corpo até a beirada da fornalha, mas hesitou e voltou um passo.
- Tá muito quente. – ele reclamou, com a voz mais fina do que um homem grandalhão como ele deveria ter.
- Deixe de ser fresco. – retrucou Afonso. – Dê logo um fim pra ele.
Ele tentou aproximar-se outra vez da fornalha, mas se afastou. Afonso bufou para o outro homem.
- Não quer que eu faça isso, né? – ralhou Afonso.
- Eu não consigo, porra. – reclamou Alaor. – Não dá. – Virou-se para Gilberto e lhe estendeu o corpo do rapaz morto. – Você esquentou de mais a fornalha, agora coloque você ele aí.
Gilberto avançou pisando duro no chão.
Fresco filho-da-puta, refletiu Gilberto.
- Me dá aqui esse guri. – rugiu Gilberto para Alaor. Absteve-se de chamar o desgraçado de veado, mas era o que desejava.
Alaor entrou o rapaz para Gilberto e este avançou para a fornalha. Tentou evitar a todo custo, mas não pôde deixar de olhar para a cara do garoto que estava prestes a atirar no fogo ardente. Por um breve instante seu coração ficou tão apertado que ele pensou que ia ter um ataque, porque, naquele breve instante, ele vislumbrou a própria filha nos braços.
Foi a pior sensação que Seu Gilberto já sentira em toda a vida.
Mas logo em seguida, percebeu que era só a própria mente lhe pregando uma peça, então colocou o cadáver para dentro da fornalha. Acabou se queimando ao fazê-lo, mas não emitiu um único resmungo ou muxoxo. Homem que é homem não se prende a essas frescuras.
O corpo fez as brasas e o fogo chiarem. Quando as chamas morressem, já teriam consumido completamente o corpo do rapaz. Então só sobraria os ossos. Aí Gilberto cataria, um a um, depois os esmagaria até que restasse apenas pó e os espalharia ao longo do pátio, de forma que se misturasse com os restos de madeira cortada, cascalho e terra. Ninguém nunca o encontraria. Longas noites de trabalho, aquelas.
- Tá feito. – grunhiu Gilberto.
Afonso voltou com uma maleta de dinheiro do carro.
Às vezes Seu Gilberto imaginava que dentro da maleta estivesse um arma. Então eles lhe atirariam na cabeça para não ter mais que lhe pagar para usar a fornalha. Assassino é assassino, não importasse se matava um ou matava vinte.
Como sempre, isso não aconteceu dessa vez.
Afonso estendeu a maleta para Gilberto, que a pegou pela alça sem olhar para ela duas vezes. Usar o dinheiro de dentro da maleta que – ele tinha certeza – somaria exatamente o valor combinado, também deixava um gosto amargo na boca do dono da serraria.
Sou tão assassino quanto eles, pensou. Só não mato.
- Não vai conferir? – perguntou Afonso.
- Não. – grunhiu Gilberto.
- É bom fazer negócios com você. – sorriu o homem com cara de cavalo.
Não tão bom.
Gilberto grunhiu algo ininteligível em resposta.
- Quais são nossos nomes? – Alaor perguntou em tom sombrio, como sempre perguntava.
Seu nome é Alaor, gordo filho-da-puta; e o outro é Afonso, o cara com cara de esfomeado.
- Eu não faço ideia. – respondeu.
- Bom. – retrucou Alaor.
O dono da madeireira ficou a observar enquanto o gordo e o magro embarcavam no carro. Afonso deu ré e em poucos minutos estava feito: já nem via mais a luminosidade dos faróis.
Ele foi esquecido no chão da serraria, a marca do pneu desenhada em sua superfície: o pano branco que outrora envolvera o cadáver e agora alimentava as chamas da fornalha da serraria do Seu Gilberto.
[Imagem original]
O Jogo da Morte
II – CABRA CEGA
~ 4 ~
O livro estava rígido na lombada, quando se foleava suas folhas amareladas e algumas até mesmo corroídas. Abri-o numa das primeiras páginas. Havia uma figura estampada. Tratava-se de uma gravura de uma criatura que parecia um macaco, imberbe, de pele marrom, uma cara monstruosa que exibia dentes afiados manchados com sangue. O bicho não tinha calda e sua coluna era mais alongada do que de um primata, além de ser possível ver-se o relevo da coluna cervical sob a pele nas costas.
É, talvez não fosse tão semelhante assim a um macaco.
A legenda dizia: A gravura acima, desenhada pelo meu colega e amigo Jean Pierre Sandler, traz o meu retrato falado do chupa-cabra que atormentava Watermills.
Visualizei o título da página, “O chupa-cabra do vilarejo de Watermills”. Fazendo uma leitura rápida do conteúdo pude perceber que o autor descrevia como um monstro que atacava a criação de cabras no vilarejo estava assustando os moradores e como ele bravamente espantou-o ateando-lhe fogo – quase morrendo na tentativa – mas jamais encontrado quaisquer vestígios do corpo da besta. Nenhuma cabra voltou a morrer depois disso no vilarejo.
Muita coincidência ele estar passando pelo lugar justamente quando isso estava acontecendo.
- Um chupa-cabra? – eu questionei. – Você quer que a gente acredite nisso? – depois pensei melhor. – E o que é que um chupa-cabra tem a ver com invocação de espíritos?
- Ele narra no início algumas de suas façanhas para dar credibilidade ao livro. – disse Fabrício, como se explicasse um fato óbvio a uma criança de pouca idade.
- Credibilidade, é? – ironizei.
- Posso ver? – pediu Natália, no sofá à minha frente. Entreguei-lhe o livro.
- É isso que eu proponho para tentarmos essa noite. – anunciou com orgulho, o Fabrício.
- O quê? Caçarmos chupa-cabras? – perguntou Rafael; e, acredite, não era ironia.
- Não. – voltou o tom de explicação-óbvia à voz do Fabrício. – Invocar espíritos!
Ferdinando riu sua usual risada abobalhada e bateu palmas desajeitadamente, empolgado com a ideia. Fabrício sorria sombriamente para nós.
- Eu não gosto de brincar com essas coisas. – disse Elisa, temerosa.
- Você não parecia tão preocupada na casa da Natália. – retrucou Fabrício.
Elisa se empertigou no sofá, aproximando-se de Rafael.
- Jogo do copo é diferente, ninguém consegue levar a sério.
- Mas você bem que levou alguns sustos. – disse Júlia, adentrando a sala com três caixas de pizza. Júlia, irmão de Ferdinando, e prima de Fabrício, era alta e esguia, com longos cabelos castanho-escuros que caiam pelas costas. Costumava se vestir de forma simples, mas elegante. O vermelho lhe caía bem. Ela tinha um rosto bonito, mas seus olhos, da cor de jades, apresentavam com grande frequência uma expressão triste. – E aí, pessoal? – ela cumprimentou. Ao olhar para Natália, percebeu o livro nas mãos dela. – Eu não acredito que vocês dois estão lidando com esse livro de novo?!
Júlia avançou para a sala e largou as caixas de pizza sobre uma cômoda.
- Cala a boca, Júlia! – disse Fabrício, exaltando-se mais do que devia.
- É! Fala a bofa. – ecoou o retardado.
- Ferdinando, olha os modos! – recriminou Júlia, e Ferdinando afundou no sofá e baixou o rosto como que sentisse vergonha.
- Ah, vai servir a mesa, vai! Estou conversando com os meus amigos. – retrucou Fabrício. Júlia o observou com o que aparentava ser uma mescla de raiva com mágoa, mas pegou as caixas e saiu da sala.
Era inacreditável como o Fabrício tratava Júlia, como se fosse apenas uma empregada e que fosse menos do que ele de todas as formas. O que se revelava completamente errado, já que Fabrício fosse talvez a pessoa mais estúpida que já conhecera.
Quer dizer, tirando Ferdinando.
- Você não deveria tratar a Júlia desse jeito. – recriminou Natália. – Ela é tanto nossa amiga quando você.
Fabrício apontou para a porta por onde Júlia saíra.
- Vai lá, junto com ela, vai. – ele disse.
Diferentemente de Ferdinando – que tinha a desculpa de ser lesado – o comportamento do Fabrício não poderia ser descrito de outra forma que não: ignorante.
Natália se levantou e caminhou em direção à porta. Quando passou por Elisa, lhe estendeu o livro que ainda segurava e que talvez fosse o causador de toda essa situação.
Elisa pegou o livro e começou a folheá-lo. Ela se eriçou e balançou a cabeça em uma página.
- Isso aqui é muito macabro. – ela girou o livro na direção do grupo.
Na página da esquerda, havia apenas parágrafos de texto corrido, mas a página direita inteira estava coberta por um desenho de uma cabeça de cabra branca cortada que olhava para cima, no centro de uma estrela de cinco pontas desenhada com uma substância vermelha (supus que Jean Pierre, o tal do desenhista, queria fazer acreditar que fosse o sangue do animal), circunscrita num círculo de mesma coloração.
Uma clássica imagem sacrificial tão utilizada em filmes de terrores clichês. Quanta criatividade. O que haveria na próxima página? Um antigo hospício onde as almas-penadas dos antigos internos estavam a assombrar? Por favor.
- Pois bem, você acabou de escolher qual método iremos vamos fazer hoje à noite. – anunciou o Fabrício e Ferdinando riu com sua maneira desengonçada.
- O quê? Mas eu não estava escolhendo! – defendeu-se, Elisa, atirando o livro sobre a mesa de centro, como se afastasse de uma doença contagiosa.
- Tanto faz. – retrucou Fabrício, dando de ombros. – Agora já está decidido.
Quando Elisa ia abrir a boca para responder, ouvimos sons de pneus aproximando-se e depois de motor de carro desligando. Os últimos convidados haviam chegados; agora o grupo estava completo.
[Imagem original]
O Jogo da Morte
II – CABRA CEGA
~ 3 ~
Jaques ouvia os sons de metal colidindo no andar abaixo dele. Havia se acomodado no sofá puído de capa rasgada vermelha e barata. Escutava o som da água do chuveiro caindo sobre o piso no cômodo em frente.
Olhou ao redor e mal podia acreditar que aquilo era a casa segura.
Tratava-se de um apartamento que se situava sobre uma academia de musculação. Teoricamente, bastante discreto.
No teto um ventilador antigo rangia toda vez que completava seu lento ciclo de movimento infinito.
Na frente dele, Jaques podia ver uma parede que outrora – possivelmente em outro século – fora branca, mas que agora se mostrava encardida pelo tempo, mofo e infiltração de forma a ficar cinza feito concreto.
Todo o nervosismo de Jaques quanto à fuga se dissipara completamente quando haviam chegado ao lugar.
Explosivo devia ter desligado o chuveiro, pois o barulho de água caindo se cessara.
Lançou um olhar curioso a Santiago Colin, sentado no sofá perpendicular ao de Jaques. Ele trazia um notebook no colo e parecia bastante entretido nele para prestar atenção ao que estava acontecendo ao seu redor.
Do outro lado da sala, Santiago instalara uma impressora grandona sobre a mesa circular de tampo azul-celeste. Ao lado da impressora, Santiago deixara uma caixa contendo diversos tipos de papeis.
O lugar cheirava a tabaco, pois tanto Santiago quanto André fumavam muito. Jaques já experimentara uma vez, mas não teve a sensação de relaxamento que todo mundo dizia sentir após uma tragada.
No canto da sala, numa televisão antiga – grandalhona e de tela pequena – passava a enésima reprise de um seriado de comédia americano. Risadas falsas aos términos das piadas tinha a intensão de fazer o telespectador rir também (além de esclarecer aos mais idiotas que aquilo fora uma piada). No entanto, ninguém ria ali.
Jaques ouviu a porta do banheiro se abrir e teve de olhar duas vezes para confirmar que aquele ainda se tratava de André Muller.
Ele havia raspado completamente os cabelos, a barba e o bigode – o que revelava uma cicatriz há muito tempo cicatrizada, de uns cinco centímetros na diagonal e em curva, pouco abaixo da bochecha direita. E toda aquela ausência de pelos faciais fez uma diferença enorme na imagem do homem.
Jaques pôde notar – não sem certo espanto – que André tinha olhos azuis.
Vestia roupas improvisadas, porém completamente comuns: uma camisa branca, jeans azuis e um sapato esportivo.
E então, trazê-lo para esta casa segura, improvisada sobre uma academia de musculação, fez todo o sentido do mundo.
Ele ainda parecia um amontoado de carne de dois metros de altura, mas entre os fisiculturistas que deveriam frequentar o estabelecimento logo abaixo deles, André seria apenas mais um.
Explosivo sorriu e Jaques não se lembrou de já ter visto nada mais assustador na vida.
Santiago assoviou, provavelmente pensando a respeito da mesma transformação pela qual Explosivo havia passado.
- Uau. – ele disse, largando o notebook sobre o sofá e levantando. – O que um banho não faz com uma pessoa, não é mesmo? – ele questionou e riu.
Explosivo não respondeu. Não precisava. Aquela reencarnação do diabo não precisava fazer nada que não quisesse. Ninguém o obrigaria.
- Ok, venha cá. – Santiago chamou. Ele pegou o notebook e andou até a mesa. Vasculhou sua mochila e tirou de dentro uma câmera fotográfica digital que, para Jaques, pouco entendedor de fotografia, parecia bastante profissional. Ainda tirou um cabo de dentro da mochila e conectou a câmera ao notebook. – Fique de frente para essa parede do lado da porta do banheiro e não sorria. – instruiu Santiago e Explosivo postou-se conforme fora solicitado.
Jaques se levantou e se aproximou da tela do computador.
Santiago pressionou o botão na câmera digital e um flash momentaneamente clareou por completo o pequeno aposento.
Jaques observou o magrelo de olhos grossos de aros negros e cavanhaque negro teclar alguma coisa no teclado e dar alguns cliques no mouse. Santiago alimentou a impressora com alguns papeis da caixa que ele trouxe consigo e a máquina ganhou vida. Jaques observou enquanto os novos documentos falsificados de Explosivo eram emitidos.
Santiago, com uma habilidade adquirida com o tempo, cortou, dobrou e plastificou os documentos. Ao olhar observador de Jaques, pareciam bastante verdadeiros.
O próprio Santiago parou um momento para avaliar o seu trabalho e pareceu aprovar o que viu.
Entregou os novos documentos de Explosivo ao seu dono, e disse, com um sorriso malicioso nos lábios:
- Muito prazer, César Casarin.
[Imagem original]
O Jogo da Morte
II – CABRA CEGA
~ 2 ~
Eu não sei exatamente porque aceitei o convite, mas me peguei dizendo que iria quando Natália Werlang me ligou convidando para uma das rotineiras jantas que costumávamos fazer.
O Fabrício morava a alguns quilômetros da cidade, então isso significava que eu teria que sujar a lataria do meu Gol preto com a terra poeirenta do chão batido da estrada que levava à casa dele no interior bucólico de Ilha Velha.
Passei na casa da Natália e depois pegamos Elisa e Rafael – já aos beijos –, que nos esperavam na praça.
Rafael tinha carro (é claro; afinal de contas, Elisa não ficaria com alguém que não tivesse carro), mas não conhecia o trajeto para a casa de Fabrício, por isso iam de carona comigo. Ao menos, foi o que Natália me informou.
Natália tinha cabelos negros, ondulados e longos que margeavam uma face em forma de coração. Traços faciais simples e leves, lábios um pouco grossos e bochechas gordinhas e rosadas. Ela mantinha um olhar misterioso, às vezes ausente, mas, acompanhado do sorrisinho malicioso, completavam sua comum indolente expressão de deboche e leve ar de superioridade.
Hoje, ela pintara as unhas de vermelho-sangue e trajava uma camiseta apertada e escura que lhe envolvia o corpo bem cuidado e cujo decote representava uma distração perigosa. Sobre as pernas, usava uma calça jeans justíssima. Ela gostava de ser apreciada – isso era evidente.
O tal do Rafael, pelo o que Natália me falou ao longo do caminho, seria a mais recente adição ao grupo: Elisa costumava mudar de pretendente mais rápido do que conseguia fazer uma simples conta de adição. Algumas pessoas são assim.
Elisa tinha cabelos lisos e castanhos de uma tonalidade escura, estatura baixa e brilhantes olhos verdes deixavam uma primeira impressão marcante em qualquer pessoa que passasse o olhar despretensiosamente sobre ela. Ela costumava perfumar o corpo com fragrâncias pungentes e enjoativamente doces.
Elisa era a “garota bonita” do grupo, bem mais bonita que a Natália, pelo menos se levar em conta apenas o aspecto físico de ambas. Só que Elisa... bem, digamos que não era a mais inteligente.
Já o Rafael, o mais novo affaire de Elisa, se portava como um garotão. Alto, porte atlético, loiro, cabelo cuidadosamente arrumado para parecer bagunçado caracterizavam o rapaz. Vestia uma camisa polo que ficava ridiculamente apertada nele.
Para a falar a verdade, eu não gostava muito daquelas reuniões. Provavelmente a única razão para eu comparecer era Melissa. Aliás, era apenas por causa dela que eu ia. Afinal de contas, eles eram os amigos dela.
Então, eu não conseguia compreender o que eu fazia ali, naquele instante, me dirigindo para mais uma dessas encenações sociais das quais eu detestava tanto. Eu que, de todos os outros, tinha mais motivos para me afastar, tinha um argumento bem convincente para não ir. E não o utilizei.
Era nítido no comportamento das pessoas que elas fingiam se preocupar comigo em função da morte da Melissa. Perguntavam como eu estava, se eu conseguia dormir bem, se eu precisava conversar. É claro que nenhuma dessas ofertas ou condolências eram de verdade; figuravam apenas como meras cordialidades sociais. Eu bem que gostaria que eles não o fizessem. Por quanto tempo mais a sombra da morte dela se estenderia sobre mim?
É claro que em contrapartida eu deveria me portar de uma forma mais sóbria, mais contida, para que eu pudesse realizar meu personagem da forma correta nessa trama da vida.
Ainda bem que mentir nunca foi um grande problema para mim.
Os dezessete quilômetros até o casarão antigo da família do Fabrício foram transpostos com a estação de rádio horrível da cidade, cuja transmissão era seguidamente entrecortada por chiado, até que, nos últimos três quilômetros, ela sequer sintonizasse mais.
Desliguei o rádio e um silêncio incômodo tomou conta do carro. Como eu estava dirigindo, eu não ligava: tinha mais com que me preocupar. Mas era impossível não notar a leve tensão que chegou acompanhada da quietude.
- Falta muito pra chegar? – perguntou Rafael, com sua voz macilenta. Como é que ele conseguia escutar a própria voz o dia todo sem querer se matar, eu não era capaz de explicar.
- Não. – dissemos Elisa e eu em uníssono.
Quando enfim chegamos, pudemos vislumbrar o Fabrício nos esperando ao lado do primo Ferdinando no caramanchão. Então eles se olharam, e a troca de olhares entre os dois sobre o soalho de madeira foi bastante intensa e cheia de significado.
O que ela denotava eu não saberia dizer.
Os dois sorriram sombriamente enquanto eu desligava o motor do carro e puxava o freio-de-mão.
De estatura mediana, mais baixo que eu, com seus cabelos ruivos semelhantes a um ninho de pássaros de tão revoltado que ele se apresentava, Fabrício se estendia de braços cruzados próximo às escadas de madeira que davam acesso a casa.
Ele tinha uma cara redonda pontuada de espinhas e seu corpo tinha formato de barril – algo derivado das inúmeras bebedeiras das quais gostava bastante de participar. Vestia-se de modo simples, parecendo não se importar com o que é de marca ou com o que é caro.
Em contramão, o seu primo Ferdinando, alto e pálido, sofria de alguma síndrome que lhe deixava “bobalhão” apesar de ter somente dois anos a menos que Fabrício. Ele ria em diversos momentos, certos ou errados – quando os outros riam também, mesmo sem entender a piada, durante solenidades e velórios – e a risada soava infantil e totalmente retardada. Pra mim, a risada de Ferdinando soava até medonha – e eu tinha certeza que não era o único que pensava assim, embora jamais tivesse comentado isso em voz alta.
Ninguém gostava muito quando o encontro se realizava no Fabrício por causa do Ferdinando. Mas eram primos, e bastante próximos, por mais estranho que pareça.
Dizem que a demência de Ferdinando faz parte da praga que a mãe de Fabrício jogara na própria irmã. Nunca se soube direto qual era a briga entre as duas, mas discussões familiares não faltam em parte nenhuma do mundo.
De fato, a mãe de Ferdinando morreu no parto do garoto; o retardado até tentou ir para a escola, mas não deu muito certo; e a Sra. Costa, bom, ela continuava mais viva do que nunca.
A ampla sala do casarão da família do Fabrício tinha a simplicidade harmônica da era colonial, com janelões que possibilitavam uma iluminação espetacular ao cômodo durante o dia e suas venezianas que se transformavam em luxuosos detalhes quando se as fechavam.
O recinto continha três grandes sofás macios que datavam de muitos anos atrás, mas com o cuidado que a Sra. Costa aplicava neles, estavam tão bem conservados quanto se fossem novos. A família gostava muito de preservar o passado e isso estava visível para qualquer um.
Ao lado das grandes portas duplas esculpidas em carvalho (dados providos com um sorriso de satisfação no rosto pela Sra. Costa, na primeira vez que em foram até lá), postava-se um grande e barulhento relógio de pêndulo que brandia, à meia-noite, um som cavernoso.
Perpendicular a dois sofás e em frente ao terceiro, existia uma lareira de mármore branca em cujo íntimo jazia o negror e a frialdade de carvões queimados. Sobre o console, pequenos bibelôs e alguns porta-retratos foram cuidadosamente arrumados pela Sra. Costa para que não passar nem impessoalidade, nem exaltação exacerbada da família ou da riqueza.
A Sra. Costa certamente representava o ideal feminino de dona-de-casa exemplar implantado na cabeça das pessoas quando elas ainda nem passavam de meras crianças. É claro não se podia dizer o mesmo acerca do marido.
Conquanto, em público, bebesse pouco e gracejasse moderadamente, o Sr. Costa era conhecido por ter noitadas de bebedeira e farra em bares e bordéis até que lhe o dinheiro na carteira pudesse pagar ou que estivesse acordado para aproveitar.
Com os negócios, o Sr. Costa bancava o esperto e raramente cometia erros. Apesar de todos os defeitos que pudesse possuir, ninguém podia dizer que ele se tratava de um mal administrador. Ele recebera uma grande herança, em dinheiro, terras e imóveis, dos pais (criadores de gado de corte e latifundiários), e conseguira duplicar a montante mesmo com suas farras.
Fabrício, apesar disso, não parecia ligar para todo o dinheiro que não tardaria a encher sua conta bancária que, mesmo hoje, deveria possuir muito mais saldo que a minha.
Enquanto conversávamos, esperando a Cecília e o Guilherme – agora o único casal “oficial” da turma – o Fabrício comentava a respeito da última janta, que havia sido na casa da Natália.
- Lembram-se daqueles joguinhos ridículos que jogamos? – perguntou o Fabrício, com uma expressão ansiosa na cara e os olhos brilhando de entusiasmo.
Com certeza eu lembrava. A Natália propôs fazermos tentativas de comunicação com “almas do além-túmulo”. O jogo do copo mostrou-se tão frustrante quanto o tabuleiro de Ouija. É claro que não foi surpresa alguma para mim, já que eu sempre me considerei cético a respeito de qualquer assunto relacionado à Religiosidade, Pós-Morte & Cia Ltda.
Como todo mundo confirmou que sim, sem muito entusiasmo, o Fabrício continuou. Reparei que Elisa explicou rapidamente para Rafael o que havia acontecido.
- Eu encontrei um livro... – mas foi interrompido por um som gutural proveniente de Ferdinando, algo que eu acho que significava “hei”, mas não tenho certeza. – ...ok, o Ferdinando e eu encontramos um livro que foi cimentado junto com a parede da adega aqui de casa.
- E daí? – Natália franziu o cenho. Também não havia compreendido onde ele queria chegar.
- Nós estamos fazendo umas reformas aqui em casa e vamos refazer as paredes da adega porque é muito antiga e está muito precária. – explicou rapidamente o Fabrício. – Enquanto desmanchávamos uma das paredes...
- A dos cundos! – grunhiu penosamente Ferdinando, com sua pronuncia de “a” mais parecendo com “ã”. Certamente ele queria dizer “A dos fundos”, o retardado.
- ...nos deparamos com um livro que estava no meio da parede. – continuou Fabrício, ignorando completamente o primo.
Ele levantou-se e foi buscar o livro na estante que dividia a mesma parede do relógio-de-pêndulo. Voltou carregando um livro que eu julguei conter umas quatrocentas páginas. Tinha capa dura, preta, com letras garrafais prateadas brilhando em seu título e no nome do autor da obra.
O Fabrício sentou-se de volta em seu lugar e exibiu a capa do livro para que nós todos pudéssemos ler.
Leu o título e o autor em voz alta para todo mundo tomar conhecimento.
- “Invocação de Espíritos e Demônios”, por August Priest. – ele pronunciou, numa voz lenta e cheia de pompa.
Se eu disser para você que uma porta bateu naquele momento, você vai achar bastante previsível, eu sei; mas, ainda assim, todo mundo levou um susto quando uma janela se fechou de repente, assim que Fabrício terminou de falar.
[Imagem original]
O Jogo da Morte
II – CABRA CEGA
~ 1 ~
Jonas dormia profundamente em seu flat quando o telefone celular o despertou com seu toque de volume elevado e aspecto urgente.
Ele pulou na cama ao acordar tão repentinamente. Voltou os olhos para o velho rádio relógio que o acompanhava fielmente há mais de quinze anos.
03h 59 am.
Os dígitos no mostrador resplandeciam a um verde fantasmagórico e, juntamente do brilho da tela do celular, revelavam-se como as únicas fontes de luz provenientes de dentro do quarto. Do lado de fora, o luar tentava se espreitar através das persianas.
O que Jonas sabia era que nenhuma notícia boa chegava àquela hora da madrugada.
O primeiro pensamento que ele teve foi em relação à filha, Amanda. Ela tinha apenas três anos, e foi o único motivo que fez o inspetor adiar a inevitável separação de sua então cônjuge.
Olhando no display do celular, identificou o número que chamava. Era da Central da Polícia. Ele não gostou nada daquilo. Mas também nem sequer pensou em não atender. Apertou o botão da insígnia verde no aparelho e o colocou junto à orelha.
- Armanskij. – ele atendeu.
- Inspetor, desculpe importuná-lo nesse horário. – disse uma voz masculina do outro lado do telefone. A voz não lhe era estranha, mas ele não conseguiu identificar. Sentia a mente um tanto quanto lenta, ainda entorpecida de sono. – Acabou de chegar aqui na central a informação de uma fuga na Penitenciária de Serra Rochosa.
O inspetor ainda não conseguira compreender o motivo da ligação: o fato de um preso fugir na cidade vizinha não lhe cabia diretamente.
- Sim. – ele respondeu, apenas porque o outro homem não falou mais nada. – Quem está falando?
- Aqui é o Miguel, chefe. – o inspetor imediatamente associou a voz à pessoa. Miguel Batista era um policial de Ilha Velha. Devia estar de plantão àquela noite. Recriminou-se mentalmente por não ter reconhecido a voz do policial.
- Sim. – repetiu o inspetor. – Miguel, porque está me ligando?
- O preso que fugiu – começou o policial, mas hesitou um instante. – é André Müller. – ele informou. – Não conseguiram recapturá-lo.
Merda, pensou o inspetor. Agora compreendia. Explosivo.
Explosivo tornou-se um dos maiores casos-problemas que a região e os distritos já haviam visto. Ele tinha um gosto sádico por montar bombas caseiras e usá-las para causar atentados e tumultos. Foi o que lhe garantiu a adequada alcunha.
Mas explodir as coisas fazia tão-somente parte dos hobbies de André. Ele gostava de ver as coisas pegando fogo – literalmente. Profissionalmente, por assim dizer, Explosivo se tratava de um eficientíssimo assassino de aluguel – que podia simplesmente matar a vítima como aplicar nela torturas cruéis, dependendo do que lhe era contratado.
Era conhecido que ele trabalhava para os principais criminosos relacionados ao narcotráfico da região. Também se suspeitava que ele prestava seus “serviços” para agiotas e cafetões.
É claro que o fato de o homem ser um armário apenas dificultava as coisas para a polícia.
O inspetor não estava acostumado a levantar a cabeça para ter que encarar quem quer que fosse. Não chegava a ter que fazer isso para olhar nos olhos de André, pois a diferença de altura entre eles era ínfima, embora preocupante.
Há alguns anos atrás, depois de muitos corpos estripados e cenas de crimes violentas, Armanskij bolou um plano para capturar Explosivo que se revelou um sucesso.
Armanskij ficou bastante conceituado e conhecido pelo fato de ter conseguido prender André Müller. É claro que não era prestígio ou fama que ele buscava. Pelo contrário, estava tão furioso com toda aquela carnificina produzida por Explosivo que a única coisa que Armanskij queria vê-lo atrás das grades.
Ainda se lembrava do último diálogo que tivera com ele.
- Sua sorte não termos pena de morte por aqui. – disse Armanskij para o criminoso. – Você vai ficar preso para sempre. – continuou, enquanto conduzia o homenzarrão para o carro de polícia.
O homem o fitou nos olhos de forma raivosa.
- Nós ainda vamos nos ver outra vez, detetive. – o homem ameaçou, antes de o inspetor fechar a porta com uma força maior do que a necessária.
Foi a última vez em que Armanskij vira o homem.
- Achei que seria bom avisar o senhor. – Armanskij ouviu a voz de Miguel através do telefone, o que lhe chamou de volta à vida real.
- Sim, muito obrigado, Miguel. – respondeu Armanskij. – Fez muito bem me ligando.
- Obrigado, senhor. – a mudança na tonalidade de voz do homem do outro lado da linha foi tangível. – Boa noite. – disse, e desligou.
Jonas ainda ficou com o telefone colado ao ouvido durante alguns segundos, depois levou o celular de volta ao seu lugar na cômoda.
O quarto emergiu em trevas novamente.
Precisava avisar Suzana, sua ex-mulher. Mas não queria alarmá-la, ligando agora à noite. Explosivo tentaria atingi-lo, disso ele não tinha a menor dúvida. E isso punha em risco tanto Suzana quanto Amanda – e ele simplesmente não podia permitir que alguém fizesse mal à filha. Não. Ele nunca se perdoaria se algo acontecesse com sua filha.
Olhou para o retrato da menina sobre o criado-mudo e sentiu-se agitado.
Enquanto refletia sobre o que ele podia fazer para garantir a segurança da filha, ouviu o lençol se esticar ao lado dele. Girou a cabeça na direção da mulher.
A policial Paula Lima se ergueu na cama e apoiou a cabeça na mão direita, com o cotovelo sobre o travesseiro.
- O que aconteceu? – ela perguntou, alisando o braço do inspetor com a mão esquerda.
Ele sabia que era errado. Ele sabia que o relacionamento dos dois jamais devia ter se iniciado. Mas agora já era tarde demais para tais receios lhe incomodarem de verdade.
Relacionamento entre pessoas que trabalham num mesmo lugar geralmente não terminavam bem.
- Explosivo fugiu da prisão. – ele disse, inexpressivamente.
Paula recostou-se contra a cabeceira da cama. Ajeitou os cabelos castanho-escuros para trás das orelhas e percorreu o rosto do inspetor com seus olhos investigadores.
- Está preocupado com sua família? – ela perguntou, no mesmo tom do inspetor.
- Com Amanda, sim. – respondeu Jonas, com cuidado.
- Devia escalar um guarda pra sua ex-mulher. – sugeriu Paula.
- Suzana não aceitaria. – Jonas deu de ombros, mas não descartou a ideia. – Ela diria que é desculpa minha para controlar a vida dela. – fitou a parede vazia do quarto à frente dele.
- Afinal, tecnicamente, você ainda é solteiro. – Paula disse o que o inspetor deixara propositalmente implícito. A voz soou amargurada e em tom ferido. Ela se afastou do inspetor, colocou os pés no chão do outro lado da cama.
Paula há algum tempo fazia pressão para que Jonas abrisse o jogo sobre o relacionamento dos dois. Dizia que não aguentava mais ter de ficar se escondendo. Argumentava que eles já estavam em um relacionamento e que isso não havia prejudicado o trabalho dos dois, então não seria nada ruim os dois irem à público sobre isso.
É claro que havia o outro lado: fora o fato de ele ter idade de ser pai de Paula, ele era, tecnicamente, chefe de Paula. Ela poderia argumentar que as coisas não iriam mudar se os dois tornassem pública a relação dos dois, mas ele tinha certeza de que isso iria acontecer. Basta dar nome à uma coisa para que ela mude.
Mas é claro que Jonas tinha mais com o que se preocupar naquele momento do que com mais uma das crises de amante não-reconhecida de Paula.
Observou em silêncio ela se afastar, catando as roupas pelo chão do quarto e as vestindo rapidamente. Colocou a calcinha cor-de-rosa bebê e vestiu a camisa sem se incomodar em colocar o sutiã primeiro. Depois se contorceu colocando a jeans azul. Deu uma mexida no cabelo e avançou na direção da porta.
Quando estava saindo, ela olhou para trás, abriu a boca como se fosse começar a falar alguma coisa; depois, fechou, sem dizer nada, balançou a cabeça e saiu fechando a porta ruidosamente.
Jonas permaneceu na cama, inerte. Pensou em chama-la pelo nome, dizer qualquer coisa que a fizesse se sentir melhor, mas optou por não fazer nada disso.
Não era a primeira vez que brigavam a respeito deste mesmo assunto; e ele sabia que não deveria ser a última briga deles sobre isso. Mas eles sempre acabavam voltando a ficar juntos.
No início, chegou a pensar que ela apenas queria uma promoção ou algo assim, ao se deitar com ele. Mas ela nunca pediu nada em troca. Na verdade, a única coisa que ela queria era que o relacionamento deles não fosse escondido. Parecia um pedido justo, que tipo de mulher gostaria de se submeter à um relacionamento dessa forma? Entretanto, não era uma coisa que Jonas estava disposto a conceder.
Voltou a se deitar, deslizando o corpo para entre os lençóis. Sabia que não iria conseguir dormir, então apenas ficou deitado pensando em todas as coisas que desmoronavam sobre ele.
[Imagem original]
O Jogo da Morte
I – POST MORTEM
~ 8 ~
Anoitecera de forma escura silenciosa. Do lado de fora do Onyx preto, apenas os barulhos dos grilos podiam ser ouvidos. As mãos de Jaques Zanata se moviam sobre o volante de forma nervosa, mesmo com o carro desligado. Na mente, a dúvida persistia.
Não vai dar certo, o pensamento lhe agoniava e o deixava mais agitado.
Tinha de dar certo.
Parado junto ao acostamento da rodovia sinuosa e solitária de acesso a Serra Rochosa, sob o luar claro de mais e sentindo as estrelas que pulsavam no manto negro da noite a lhe agourar, ele permaneceu a observar a mata fechada à direita do carro.
- Vamos! – ele resmungou.
Ele sabia que se as coisas não dessem certo, ele estaria muito ferrado. Não é como se ele pudesse falhar.
E Jaques sentia como se tudo somente pudesse levar ao fracasso daquela missão. Ele, ali, parado junto ao acostamento, mesmo com os vidros escuros talvez fosse possível ver que havia alguém ali dentro. E se alguém o visse, desconfiasse e chamasse a polícia? Era uma hipótese.
Claro que desde que ele chegar ali, apenas três veículos passaram na estrada à esquerda dele.
Bateu com as mãos no volante.
- Vamos, droga! – torceu em voz alta.
Ainda levou mais dez minutos para ele vislumbrá-lo.
O homem entrou no carro arfando.
Jaques o observou calado. O havia visto apenas em foto, e, verdade seja dita, aquele homem era muito mais assustador pessoalmente. O homem era grande. Com seus dois metros de altura, músculos cheios de tanto terem sido trabalhados e costas largas, André mais parecia um urso do que um ser humano. Os cabelos negros, compridos e malcuidados, as diversas tatuagens e a barba espessa também não ajudavam em nada na questão de aspecto.
Jaques sentiu o carro inclinar quando o homenzarrão entrou e teve a impressão de que a porta do carro jamais se abriria novamente tamanha a força aplicada no movimento brusco. Se sentia atordoado, atônito.
- Que é que você está esperando? – o homem de uniforme caqui perguntou de forma brusca, entre uma arfada e outra. A voz dele era rouca e grave. – Todos os policiais do presídio aparecerem?
Recobrando os movimentos, Jaques abanou a cabeça e ligou o carro. Pôs-se a dirigir em silêncio na rodovia, serra acima.
Enquanto Jaques dirigia em silêncio, o homem abriu o porta-luvas e revirou o conteúdo lá dentro até encontrar o que queria. Pegou o plástico transparente, tirou-o do porta-luvas e fechou a portinha. Abriu o plástico e tirou de dentro o revolver. Analisou-o, sentiu o peso e o ajustou à mão. Nunca houve no mundo duas coisas que combinassem mais do que os dois.
André Müller sorriu.
Jaques olhou de soslaio para o presidiário em fuga que transportava. Lembrou-se da alcunha do mesmo, “Explosivo” e de que ele preferia ser chamado pelo apelido.
Era importante lembrar dessas coisas.
Sentia-se mais relaxado, agora. As coisas pareciam estar dando certo, ao contrário do que parecesse indicar anteriormente.
Esse aí deve ter dado trabalho no presídio, ele pensou.
É claro que um cara como Explosivo somente teria sido colocado em um presídio “comum” em função das influências certas.
- Tem um chicle aí? – o homem perguntou subitamente.
Jaques franziu o cenho.
- Aí no porta-luvas. – respondeu Jaques. Achou um tanto quanto estranho o pedido. Geralmente o pessoal que sai de um confinamento pede por cigarros ou bebidas. Quando Explosivo achou o que queria, ele continuou. – Você acaba de sair da prisão e isso é a primeira coisa que você pede? – não pôde deixar de perguntar. Às vezes os comentários e as gargalhadas são assim, não se tem como evitar que surjam e não se pode fazer mais nada depois que são pronunciados.
É claro que Jaques se arrependeu no memento em que sentiu os olhos do homem lhe fuzilando o rosto.
- O que eu quero você não tem. – ele respondeu, tão sem expressão quanto quando perguntou pelo chicle.
Jaques se sentiu enrubescer.
É Jaques, refletiu, cale a boca e dirija.
Aquela iria ser uma longa estadia.
Viu de canto de olho o homem rasgando o papel e colocando o chiclete na boca. Também notou que Explosivo manteve com ele o pacote. É claro que não iria brigar por causa disso.
- Os papéis? – o homenzarrão perguntou.
Jaques apenas indicou o banco de trás com a cabeça. Nesse caso, quanto menos palavras melhor.
André se voltou para o banco de trás e pegou a pasta com os documentos que ele havia solicitado. Abriu e tirou um maço de umas dez ou quinze fotos tiradas por um detetive particular de confiança.
Passou algumas e parou em uma onde era possível se ver em detalhes o perfil de um homem de meia-idade e cabelos grisalhos entrando na delegacia de polícias de Ilha Velha.
Seja lá quem fosse, esse cara iria ficar em maus lençóis em breve.
[Imagem original]
O Jogo da Morte
I – POST MORTEM
~ 7 ~
Cecília Moreira caminhou ao longo do galpão. O lugar tinha uma atmosfera escurecida, mas a luz do sol passava através dos vãos que se formavam entre as tábuas tortas e retorcidas das paredes. O chão ali era de cascalho sobre a terra, mas sempre havia pequeninos pedaços de madeira voando pelo ar, o que deixava toda a parte interna da construção com aspecto de sujeira.
Então, quando saiu para o ar fresco, achou o dia agradável. O vento lhe fez soprar algumas centelhas de madeira contra o rosto e assim ela pôde descobrir onde o pai estava.
Olhando na direção do vento, avistou o pai a serrar um tronco de árvore que devia ter metro e meio de diâmetro. Ela nunca se interessara pelos detalhes do trabalho da madeireira, mas, pelo tamanho, pelo aspecto e coloração, julgou se tratar de um grande carvalho. Adiante, Cecília avistou um caminhão onde três funcionários do pai e o mais o motorista descarregavam toras para o pátio da serraria.
Quando o pai a avistou, ele parou de serrar a árvore com a serra elétrica e passou a mão pela testa. O nome do pai era Gilberto Moreira, mas todo mundo conhecia ele por Seu Gilberto. Tinha a pele de coloração marrom, pigmentada pela exposição diária ao sol sem qualquer proteção. Os cabelos negros eram ralos e secos, exibia uma grande área careca no topo da cabeça. Tinha braços grandes e fortes em decorrência do esforço físico exigido pela profissão ao longo de todos esses anos.
Com cinquenta anos, o Seu Gilberto ainda se mostrava tão forte quanto quando novo, mas Cecília conhecia a verdade. Em casa, ele vinha começando a reclamar de dores nas costas com mais frequência. Só que era muito orgulhoso para demonstrar essa fraqueza diante de seus peões e amigos de bar.
- O Josiel ligou. – informou Cecília, direta; assim como o pai, não gostava de perder tempo com desnecessidades. – Conseguiu estourar o Ford outra vez. – fez uma careta para o pai. De que o estado do velho caminhão da serraria estava precário, todo mundo sabia. Só que a situação do veículo vinha se tornado bem mais precária desde que contrataram o tal do Josiel como motorista.
- O que aquele bagaceira fez dessa vez? – resmungou o pai.
- Parece que foi a caixa do caminhão. – respondeu Cecília.
- Mas que filho-da-puta sem vergonha. – rugiu o homem que não perdia uma oportunidade de vociferar palavrões. – Primeiro me fode com o motor, agora quebra a caixa.
- Acho melhor a gente largar ele, pai. – opinou a filha. – Só nos tem dado prejuízo.
- Também tô achando. – concordou o pai. – Puta merda, a gente não podia gastar essa grana esse mês. – era verdade. O pai podia gostar mais de colocar a mão na massa, mas tinha completo domínio do próprio negócio na cabeça. Antes de Cecília se disponibilizar para ajudar o pai a gerir a serraria, ele fazia tudo sozinho. E por isso, quando Cecília começou, quase tinha vontade de chorar. Seu Gilberto tinha baixa escolaridade, então deixara os papeis todos desorganizados, numa bagunça complicada de se achar. Mas com o tempo ela acabou identificando um padrão na folia do pai e aí foi bem mais fácil colocar o escritório em ordem. – O veado falou onde tava?
Cecília franziu a testa.
Ele falou?, ela tentou se lembrar, mas não conseguiu.
- Deve ter falado – eles sempre falavam onde estavam. – mas eu não me lembro agora. – Quer que eu ligue para ele?
- Sim. – respondeu o pai. – Diga que a próxima vez que colocar os pés aqui vai ser pra assinar a demissão.
- Vamos ter que pagar os trinta pra ele. – lembrou Cecília.
- Pagava até sessenta se o demônio saísse das minhas vistas pra sempre. – resmungou o pai.
O pai fez uma careta. Parecia mais velho agora. Cansado, talvez. Cecília podia imaginar o que ele estava para falar.
- Liga também pra tua mãe. – ele continuou. – Diga pra ela ver sobre a incineração. – Cecília sabia que o pai só aceitava esse tipo de serviço em casos extremos, então achou prudente não contestar.
Há muito tempo atrás, antes mesmo de Cecília nascer, o pai tinha junto à serraria uma grande fornalha a qual a prefeitura pagava para usar para queimar parte do o lixo produzido pela cidade. Mas desde que as novas leis ambientais haviam sido escritas e colocadas em práticas, a prefeitura teve de abrir um aterro e se adaptar em relação as queimas, então não precisou mais utilizar os serviços da madeireira para isso.
Desde então, o grande forno de barro permanecia frio quase o tempo inteiro. Mas a mãe de Cecília, D. Mônica, trabalhou anos em um escritório contábil e por isso fez alguns contatos bons e volta e meia quando o pai precisava de mais dinheiro, ela aparentemente conseguia convencer alguns desses contatos a se livrar do “lixo confidencial” queimando na fornalha da serraria. O que Cecília não entendia é porque o pai não gostava desse tipo de serviço. Quer dizer, era algo meio contra o ambiente e tudo mais, mas o pai certamente não era um ativista do Greenpeace.
- Tá legal. – respondeu Cecília, voltando na direção do galpão. Vislumbrou os homens derrubando as toras no pátio, faltavam apenas três agora. Lá dentro as sobras de madeira flutuavam com o ar onde mais dois funcionários do pai picavam um tronco em peças circulares de menos de cinco centímetros de profundidade.
Ela passou por eles consciente dos olhares que lhe seguiam, embora não por muito tempo. Sabia que não era bonita de corpo, era alta, com pouca carne nos seios e nas nádegas, e possuía uma barriguinha que detestava. Depois de um tempo trabalhando ao lado dos homens, uma mulher consegue quase pensar como um.
Cecília subiu as escadas de metal até o escritório, no alto. Tratava-se de um cubículo com isolamento acústico – algo que ela solicitara, uma vez que não conseguia suportar trabalhar ou falar no telefone com o barulho das serras nas madeiras. Lá dentro só se escutava um leve ronronar – um leve sussurro constante e suportável, com o qual ela até já estava acostumada.
Fez as duas ligações que o pai pediu – sendo tão delicada quanto o pai, ao falar com o motorista.
As seis horas da tarde chegaram, trazendo Guilherme junto delas; mas o sol continuava tão quente quanto se fosse 3h.
Ele adentrou o escritório, lhe deu um selinho e se sentou na cadeira em frente à mesa de Cecília.
- E aí? – ele perguntou.
- “E aí” – ela repetiu, com tom discriminatório. – Isso é jeito de se falar com uma mulher? – ela sorriu a contragosto. – Ainda mais a namorada.
- Falo assim justamente porque é namorada. – ele respondeu.
- Ah, é? – ela insistiu. – Então se estivesse tentando me cantar a história ia ser diferente?
- Dúvidas? – ele sorriu para ela.
Cecília semicerrou os olhos.
- Tá bom. – ela disse. – Em casa a gente se acerta. – aquelas palavras que os homens detestavam.
- Tudo bem. – ele respondeu. – Me desculpe, meu amor. Mas e então, como foi o seu dia? – ele perguntou, notavelmente polido de mais. – Melhor assim?
- Bem melhor. – respondeu Cecília, acenando com a cabeça em aprovação. – Foi normal. E o seu? – ela pediu.
- Tranquilo. – ele disse. – Teu pai comentou que o motorista quebrou a caixa do caminhão.
- Sim. – confirmou Cecília. – Mas é a última vez que ele quebra alguma coisa, isso eu garanto.
- Você falando desse jeito dá até medo. – ele riu, mas depois ficou sério. – Vai sair caro o concerto da caixa do caminhão. – disse Guilherme.
- Diga-me algo que eu não saiba. – respondeu Cecília.
Guilherme sorriu. Seu Gilberto costumava provocar Cecília dizendo que, apesar da altura dela, ela conseguira encontrar um rapaz maior do que ela. Mas era maior só mesmo em altura, porque Guilherme era magro de mais, quase raquítico. Era quase cômico colocar o pai e o namorado lado-a-lado: aquele era mais baixo que Cecília, mas possuía uma estrutura corporal pesada, enquanto Guilherme era alto e muito magro.
- Ah! – ela se lembrou de repente. – Temos uma janta pra ir sábado.
O sorriso do rapaz morreu.
- Com aqueles seus amigos? – perguntou Guilherme.
- Sim. – respondeu Cecília, mas não sem antes dar um belo suspiro. – Na verdade, eu ia mais por causa da Melissa; era uma boa amiga. – Cecília sentia-se estranha pensando em Melissa no passado, ainda não havia se acostumado com a ideia de que ela estava morta.
- Mas então, porque ir agora? – questionou Guilherme.
- Vamos só mais em algumas. – disse Cecília. – A gente vai se afastando aos poucos, até que eles já nem nos convidam mais.
- Podia alegar luto pela Melissa e a gente fazer alguma coisa, tipo, só nós dois.
- Tipo o quê?
- Algo tipo... pelados, no seu quarto ou no meu. – ele deu de ombros, sorrindo zombeteiramente.
- Muito saidinho, o senhor, não acha? – ela fingiu estar recriminando ele, mas não conseguiu esconder o sorriso dos lábios.
- E então, o que você acha?
- Hum... – ela até gostou da ideia, mas... – Eu já confirmei.
- Certo. – concordou Guilherme, exibindo seu descontentamento. Ela sabia que ele detestava aquelas jantas e não nutria nenhum afeto pelas pessoas que iam nela.
- É claro que podemos pensar sobre a sua ideia no caminho de volta da janta. – Cecília piscou para ele e não teve como conter uma gargalhada.
Ele acabou rindo com ela – o que não era muito comum para Guilherme.
Quando a graça acabou, ele se levantou.
- Vamos?
- Vamos.
Saíram do escritório para o ruído grosseiro das serras. Cecília desligou as luzes e trancou a porta com o cadeado. Desceram e foram falar com seu Gilberto.
- A gente já vai indo, tá pai? – disse Cecília.
- Tudo bem. – o pai respondeu, não prestando muita atenção neles. – Vejo vocês em casa.
- Não fica até tarde. – pediu Cecília, queria que o pai cuidasse mais da própria saúde; se preocupava com ele.
- Tá claro ainda! – ele retrucou. – Tem que aproveitar enquanto é dia. Não é sempre que é verão.
- Você que sabe. – Cecília deu de ombros; se ele próprio não queria se cuidar, ela não podia obriga-lo. – Até mais tarde. – deu um tapinha nas costas do pai, porque ele estava banhado de suor e ela não ia beijá-lo num rosto pegajoso como aquele.
Se afastaram e Guilherme subiu na moto primeiro. Cecília pegou o capacete e o colocou na cabeça, depois prendeu-o abaixo do queixo e sentou-se atrás do namorado, agarrando-se bem forte em torno do mirrado abdômen dele.
Partiram logo. Cecília sempre detestou andar de moto, mas gostava do jeito como cortavam o vento em alta velocidade. Sentimentos tão opostos só podiam partir de um ser humano mesmo.