“Equipe ômega, no meu escritório em cinco minutos!” A voz esganiçada de Dr. Everett ecoou pela sala de treino dos ômegas na mensagem enviada através dos alto-falantes. Imediatamente, largaram tudo o que estavam fazendo e subiram por diversos andares até a cobertura, onde se localizava a sala do diretor da academia.
Everett estava sentado em sua cadeira de couro e virado para as janelas escuras, já que dali era possível enxergar o horizonte da capital sul-coreana, um festival de luzes de prédios imponentes. Os quatro estudantes não conseguiam visualizar a imagem de Everett, o que denunciava que ele estava preocupado e seria uma missão complicada, urgente.
“Preciso que vocês façam duas coisas por mim, por nós e por todas as vidas que estão sob nossa tutela.” Iniciou o tipo discurso introdutório para justificar mais uma missão suicida. “Preciso que vocês interceptem o carregamento do patogênico chamado Rubro. Demorou um pouco para que nossa equipe entendesse a mensagem recolhida, mas agora tudo faz sentido.” O velho girou a cadeira, fazendo com que seu óculos soltasse um feixe de luz em direção aos mais novos. “Eles vão explodir a barragem de Paldang para espalhar a substância através das águas e infectar todos os jovens dotados… Preciso que vocês vão até o armazém e localizem o laboratório, destruam qualquer traço daquela substância. Uma maneira de neutralizá-lo é levando até seu ponto de ebulição, 2.862 °C. Se precisarem, se livrem de todos eles. Vocês estarão protegidos por mim de qualquer consequência posterior.” Everett encarou cada aluno por alguns segundos até de continuar.
“Assim que vocês destruírem tudo, vão para Paldang e retirem os explosivos da barragem. Façam pela madrugada e através do Rio Han, não quero nenhuma testemunha humana. Entenderam? Pois vão, agora! Só temos esta madrugada para evitar o pior.”
INSTRUÇÕES OOC
Esse momento foi presenciado apenas pelo Dr. Everett e os integrantes da equipe Ômega.
Individualmente, cada integrante receberá um cenário individual por DM OOC mediante confirmação de participação. O prazo, em OOC, para o envio dos self-paras é até quinta-feira (03/09) até 23:59. Em IC, a missão acontecerá entre hoje, 27/08 e amanhã, 28/08 de madrugada.
As pontuações para os estudantes serão distribuídas da seguinte maneira:
Quatro (4) pontos para a execução dos poderes;
Quatro (4) pontos para o desenvolvimento de acordo com o cenário enviado;
Dois (2) pontos para criatividade geral;
Como de costume, o cenário será registrado/narrado no tópico que será criado para a missão no servidor do Discord da comunidade, assim todos poderão entender em OOC a missão.
Cecília Moreira caminhou ao longo do galpão. O lugar tinha uma atmosfera escurecida, mas a luz do sol passava através dos vãos que se formavam entre as tábuas tortas e retorcidas das paredes. O chão ali era de cascalho sobre a terra, mas sempre havia pequeninos pedaços de madeira voando pelo ar, o que deixava toda a parte interna da construção com aspecto de sujeira.
Então, quando saiu para o ar fresco, achou o dia agradável. O vento lhe fez soprar algumas centelhas de madeira contra o rosto e assim ela pôde descobrir onde o pai estava.
Olhando na direção do vento, avistou o pai a serrar um tronco de árvore que devia ter metro e meio de diâmetro. Ela nunca se interessara pelos detalhes do trabalho da madeireira, mas, pelo tamanho, pelo aspecto e coloração, julgou se tratar de um grande carvalho. Adiante, Cecília avistou um caminhão onde três funcionários do pai e o mais o motorista descarregavam toras para o pátio da serraria.
Quando o pai a avistou, ele parou de serrar a árvore com a serra elétrica e passou a mão pela testa. O nome do pai era Gilberto Moreira, mas todo mundo conhecia ele por Seu Gilberto. Tinha a pele de coloração marrom, pigmentada pela exposição diária ao sol sem qualquer proteção. Os cabelos negros eram ralos e secos, exibia uma grande área careca no topo da cabeça. Tinha braços grandes e fortes em decorrência do esforço físico exigido pela profissão ao longo de todos esses anos.
Com cinquenta anos, o Seu Gilberto ainda se mostrava tão forte quanto quando novo, mas Cecília conhecia a verdade. Em casa, ele vinha começando a reclamar de dores nas costas com mais frequência. Só que era muito orgulhoso para demonstrar essa fraqueza diante de seus peões e amigos de bar.
- O Josiel ligou. – informou Cecília, direta; assim como o pai, não gostava de perder tempo com desnecessidades. – Conseguiu estourar o Ford outra vez. – fez uma careta para o pai. De que o estado do velho caminhão da serraria estava precário, todo mundo sabia. Só que a situação do veículo vinha se tornado bem mais precária desde que contrataram o tal do Josiel como motorista.
- O que aquele bagaceira fez dessa vez? – resmungou o pai.
- Parece que foi a caixa do caminhão. – respondeu Cecília.
- Mas que filho-da-puta sem vergonha. – rugiu o homem que não perdia uma oportunidade de vociferar palavrões. – Primeiro me fode com o motor, agora quebra a caixa.
- Acho melhor a gente largar ele, pai. – opinou a filha. – Só nos tem dado prejuízo.
- Também tô achando. – concordou o pai. – Puta merda, a gente não podia gastar essa grana esse mês. – era verdade. O pai podia gostar mais de colocar a mão na massa, mas tinha completo domínio do próprio negócio na cabeça. Antes de Cecília se disponibilizar para ajudar o pai a gerir a serraria, ele fazia tudo sozinho. E por isso, quando Cecília começou, quase tinha vontade de chorar. Seu Gilberto tinha baixa escolaridade, então deixara os papeis todos desorganizados, numa bagunça complicada de se achar. Mas com o tempo ela acabou identificando um padrão na folia do pai e aí foi bem mais fácil colocar o escritório em ordem. – O veado falou onde tava?
Cecília franziu a testa.
Ele falou?, ela tentou se lembrar, mas não conseguiu.
- Deve ter falado – eles sempre falavam onde estavam. – mas eu não me lembro agora. – Quer que eu ligue para ele?
- Sim. – respondeu o pai. – Diga que a próxima vez que colocar os pés aqui vai ser pra assinar a demissão.
- Vamos ter que pagar os trinta pra ele. – lembrou Cecília.
- Pagava até sessenta se o demônio saísse das minhas vistas pra sempre. – resmungou o pai.
O pai fez uma careta. Parecia mais velho agora. Cansado, talvez. Cecília podia imaginar o que ele estava para falar.
- Liga também pra tua mãe. – ele continuou. – Diga pra ela ver sobre a incineração. – Cecília sabia que o pai só aceitava esse tipo de serviço em casos extremos, então achou prudente não contestar.
Há muito tempo atrás, antes mesmo de Cecília nascer, o pai tinha junto à serraria uma grande fornalha a qual a prefeitura pagava para usar para queimar parte do o lixo produzido pela cidade. Mas desde que as novas leis ambientais haviam sido escritas e colocadas em práticas, a prefeitura teve de abrir um aterro e se adaptar em relação as queimas, então não precisou mais utilizar os serviços da madeireira para isso.
Desde então, o grande forno de barro permanecia frio quase o tempo inteiro. Mas a mãe de Cecília, D. Mônica, trabalhou anos em um escritório contábil e por isso fez alguns contatos bons e volta e meia quando o pai precisava de mais dinheiro, ela aparentemente conseguia convencer alguns desses contatos a se livrar do “lixo confidencial” queimando na fornalha da serraria. O que Cecília não entendia é porque o pai não gostava desse tipo de serviço. Quer dizer, era algo meio contra o ambiente e tudo mais, mas o pai certamente não era um ativista do Greenpeace.
- Tá legal. – respondeu Cecília, voltando na direção do galpão. Vislumbrou os homens derrubando as toras no pátio, faltavam apenas três agora. Lá dentro as sobras de madeira flutuavam com o ar onde mais dois funcionários do pai picavam um tronco em peças circulares de menos de cinco centímetros de profundidade.
Ela passou por eles consciente dos olhares que lhe seguiam, embora não por muito tempo. Sabia que não era bonita de corpo, era alta, com pouca carne nos seios e nas nádegas, e possuía uma barriguinha que detestava. Depois de um tempo trabalhando ao lado dos homens, uma mulher consegue quase pensar como um.
Cecília subiu as escadas de metal até o escritório, no alto. Tratava-se de um cubículo com isolamento acústico – algo que ela solicitara, uma vez que não conseguia suportar trabalhar ou falar no telefone com o barulho das serras nas madeiras. Lá dentro só se escutava um leve ronronar – um leve sussurro constante e suportável, com o qual ela até já estava acostumada.
Fez as duas ligações que o pai pediu – sendo tão delicada quanto o pai, ao falar com o motorista.
As seis horas da tarde chegaram, trazendo Guilherme junto delas; mas o sol continuava tão quente quanto se fosse 3h.
Ele adentrou o escritório, lhe deu um selinho e se sentou na cadeira em frente à mesa de Cecília.
- E aí? – ele perguntou.
- “E aí” – ela repetiu, com tom discriminatório. – Isso é jeito de se falar com uma mulher? – ela sorriu a contragosto. – Ainda mais a namorada.
- Falo assim justamente porque é namorada. – ele respondeu.
- Ah, é? – ela insistiu. – Então se estivesse tentando me cantar a história ia ser diferente?
- Dúvidas? – ele sorriu para ela.
Cecília semicerrou os olhos.
- Tá bom. – ela disse. – Em casa a gente se acerta. – aquelas palavras que os homens detestavam.
- Tudo bem. – ele respondeu. – Me desculpe, meu amor. Mas e então, como foi o seu dia? – ele perguntou, notavelmente polido de mais. – Melhor assim?
- Bem melhor. – respondeu Cecília, acenando com a cabeça em aprovação. – Foi normal. E o seu? – ela pediu.
- Tranquilo. – ele disse. – Teu pai comentou que o motorista quebrou a caixa do caminhão.
- Sim. – confirmou Cecília. – Mas é a última vez que ele quebra alguma coisa, isso eu garanto.
- Você falando desse jeito dá até medo. – ele riu, mas depois ficou sério. – Vai sair caro o concerto da caixa do caminhão. – disse Guilherme.
- Diga-me algo que eu não saiba. – respondeu Cecília.
Guilherme sorriu. Seu Gilberto costumava provocar Cecília dizendo que, apesar da altura dela, ela conseguira encontrar um rapaz maior do que ela. Mas era maior só mesmo em altura, porque Guilherme era magro de mais, quase raquítico. Era quase cômico colocar o pai e o namorado lado-a-lado: aquele era mais baixo que Cecília, mas possuía uma estrutura corporal pesada, enquanto Guilherme era alto e muito magro.
- Ah! – ela se lembrou de repente. – Temos uma janta pra ir sábado.
O sorriso do rapaz morreu.
- Com aqueles seus amigos? – perguntou Guilherme.
- Sim. – respondeu Cecília, mas não sem antes dar um belo suspiro. – Na verdade, eu ia mais por causa da Melissa; era uma boa amiga. – Cecília sentia-se estranha pensando em Melissa no passado, ainda não havia se acostumado com a ideia de que ela estava morta.
- Mas então, porque ir agora? – questionou Guilherme.
- Vamos só mais em algumas. – disse Cecília. – A gente vai se afastando aos poucos, até que eles já nem nos convidam mais.
- Podia alegar luto pela Melissa e a gente fazer alguma coisa, tipo, só nós dois.
- Tipo o quê?
- Algo tipo... pelados, no seu quarto ou no meu. – ele deu de ombros, sorrindo zombeteiramente.
- Muito saidinho, o senhor, não acha? – ela fingiu estar recriminando ele, mas não conseguiu esconder o sorriso dos lábios.
- E então, o que você acha?
- Hum... – ela até gostou da ideia, mas... – Eu já confirmei.
- Certo. – concordou Guilherme, exibindo seu descontentamento. Ela sabia que ele detestava aquelas jantas e não nutria nenhum afeto pelas pessoas que iam nela.
- É claro que podemos pensar sobre a sua ideia no caminho de volta da janta. – Cecília piscou para ele e não teve como conter uma gargalhada.
Ele acabou rindo com ela – o que não era muito comum para Guilherme.
Quando a graça acabou, ele se levantou.
- Vamos?
- Vamos.
Saíram do escritório para o ruído grosseiro das serras. Cecília desligou as luzes e trancou a porta com o cadeado. Desceram e foram falar com seu Gilberto.
- A gente já vai indo, tá pai? – disse Cecília.
- Tudo bem. – o pai respondeu, não prestando muita atenção neles. – Vejo vocês em casa.
- Não fica até tarde. – pediu Cecília, queria que o pai cuidasse mais da própria saúde; se preocupava com ele.
- Tá claro ainda! – ele retrucou. – Tem que aproveitar enquanto é dia. Não é sempre que é verão.
- Você que sabe. – Cecília deu de ombros; se ele próprio não queria se cuidar, ela não podia obriga-lo. – Até mais tarde. – deu um tapinha nas costas do pai, porque ele estava banhado de suor e ela não ia beijá-lo num rosto pegajoso como aquele.
Se afastaram e Guilherme subiu na moto primeiro. Cecília pegou o capacete e o colocou na cabeça, depois prendeu-o abaixo do queixo e sentou-se atrás do namorado, agarrando-se bem forte em torno do mirrado abdômen dele.
Partiram logo. Cecília sempre detestou andar de moto, mas gostava do jeito como cortavam o vento em alta velocidade. Sentimentos tão opostos só podiam partir de um ser humano mesmo.