Ela.
(Parte 1)
Foi durante uma dessas noites em que não temos expectativa alguma que as coisas se desenrolaram.
Havia chego a pouco ao local marcado, iria encontrar um grande amigo. Víamo-nos com frequência e ainda assim era um bom companheiro de histórias. Incomum, tendo em vista minha propensão a enjoar das pessoas. É difícil manter o interesse. As pessoas cansam. Sempre reclamando e insistindo em seus próprios problemas como se nada pudessem fazer para resolvê-los. Por isso guardo poucos próximos a mim.
Naquela rua as coisas já estavam movimentadas. Uma sexta quente e abafada que fazia a noite se tornar extremamente propícia a se passar fora de casa. As pessoas inundavam o local: garotos querendo garotas que querem garotas que querem garotos. Era uma noite típica de um verão quente. Ainda.
Meu amigo chegou ao bar que combinamos e junto dele trouxe alguém. Junto dele trouxe Ela.
Minha reação inicial foi de estranhamento, afinal, não havia sido comunicado de tal presença junto ás nossas conversas rotineiras. Sentaram-se um ao lado do outro após me cumprimentarem. Ele é um rapaz bonito, bem apanhado. Ela, aparentemente, uma mulher reservada. Escutava tudo sem muitos comentários, sem muitas divagações como meu amigo e eu fazíamos.
O lugar era abafado, cheio de pessoas e com música alta vindo do piso inferior, onde se escondia um projeto de pista de dança num antigo sótão. As garrafas vazias, cada vez mais, se amontoavam nas mesas. O barulho, o calor, as pessoas rindo e gritando, se abraçando, se beijando, alguns, tentando serem beijados, outros. As coisas não mudam nunca nesses lugares, exceto, pela presença Dela.
Desde a sua chegada, pelo canto dos olhos, reparava nela. Olhava discretamente entre um gole e outro, quando se virava ou quando olhava meu amigo para lhe dirigir a palavra. Olhava seus olhos, grandes e castanhos. Com um brilho que nem mesmo a luz âmbar e tênue do local conseguia disfarçar. Pensava na sua pele morena e em como devia ser a sensação de tocá-la. Olhava seus cabelos pretos, sua boca, o sorriso aberto e acalorado e o discreto e, de certa forma, sensual.
Buscava, a cada nova análise, os ínfimos detalhes. Desde a marca de um possível banho de sol à leve esticada dos olhos feita com maquiagem que emprestava tons felinos e fortes àquele olhar.
Aquela mulher tinha uma presença forte, arrebatadora. A certa altura da noite, talvez por tal força, talvez pelas garrafas vazias, já não disfarçava mais. Havia me entregado a vontade de conhecer seus detalhes.
Fim da parte 1.
-R.S.Azevedo.















