O Marinheiro.
Ato 2
Sentiu o peito gelar como se agora o vento soprasse de dentro pra fora. Já não existiam mais estrelas.
O mar, antes agitado e bravio, se tornou uma planície negra e úmida. Suas mãos, sempre firmes e cerradas como se esperando um combate que nunca se aproxima, agora tremulam, afrouxam-se.
O Tempo parou. Abandonou-o.
Seu coração se debatia dentro da carcaça cada vez mais gelada. Pulsava com força, parecia esbravejar enquanto o cérebro lenta e tardiamente, brigava pra recuperar a consciência.
As tintas em seu corpo, talhadas a agulhadas, fervilhavam. Ganhavam vida conforme o formigamento da própria pele aumentava. Sentia como se elas fossem abandoná-lo. Sentia como se quisessem pular de seus braços, pescoço e pernas para não pagarem pelos crimes de seu portador. Suas pupilas eram, agora, duas bolas negras que se expandiam cada vez mais. Dois pontos escuros numa noite fria que tentavam a todo custo acomodar aquela visão. Tentavam entendê-la.
O quê lhe era enviado pelo Universo de águas? Dádiva ou maldição? Salvação ou perdição? O descanso tão desejado ou a punição tão merecida?
Recobrou os sentidos e saiu do labirinto de seus pensamentos, que ficavam para trás enquanto se arremessava ao Desconhecido.
Entregou-se ao mar. Integrou-se a ele.
Abandonou barco e passado a própria sorte enquanto se lançava à Morte. Ou à Vida?
Fim do Ato 2.
-R.S.Azevedo.










