Naquela manhã de terça-feira, Anna fez o que sempre fazia quando saía do trabalho direto para a casa de John: dormiu a manhã inteira. Enquanto ela dormia, ele costumava ficar trabalhando no computador e antes que ela acordasse ele começava a preparar o almoço, para que ela acordasse sentindo algum cheiro delicioso. Depois disso, enquanto ela fazia sua higiene, ele terminava de preparar a comida e colocava a mesa, deixando tudo muito bem apresentável. John possuía um senso estético muito apurado e frequentemente Anna sugeria que ele usasse esse talento para abrir um negócio, talvez uma galeria de arte ou um estúdio fotográfico, mas ele insistia que seu "dom" se limitava a folhas de salsinha nos ovos mexidos. Depois de almoçarem, John passava um café forte com aroma de baunilha enquanto Anna lavava a louça. Era nesse momento que os dois conversavam e se perdiam em planos para o futuro. Anna queria juntar dinheiro para comprar uma casa. Era a única coisa de que fazia questão, que ela comprasse a casa. Então eles se casariam e passariam a lua-de-mel no Egito. Quando voltassem a Chelsea seria o momento perfeito para tentar engravidar. Teriam primeiro um menino, a quem chamariam de Lucas. Dois anos depois, viria Liv, a princesinha do papai. A melhor parte dos planos que Anna e John faziam é que ambos sabiam que as chances de que as coisas realmente acontecessem dessa forma eram mínimas, mas só em saberem que tinham os mesmos sonhos e desejos já era uma realização. No fim do dia, a não ser que John precisasse trabalhar madrugada afora, o casal passava a noite ensaiando a família que queria começar. Anna adorava a sensação de dormir e acordar ao lado do namorado (embora "em cima" fosse uma expressão mais apropriada).
Naquele dia, Anna acordou tateando a cama à procura do namorado. Uma certa apreensão tomou conta dela quando percebeu que não havia nenhum cheiro vindo da cozinha. Os pensamentos sobre a ligação da polícia passaram a tomar conta da cabeça de Anna e ela experimentou uma sensação nada agradável. Desde que se entendia por gente, Anna sempre se virou sozinha. Ela não tinha ninguém para cuidar dela e precisou aprender a se bastar. Mas desde que conheceu John, Anna deixou de ser autossuficiente. Se alguém tivesse contado para ela que um dia precisaria de alguém da forma que ela precisava de John, é provável que ela não acreditasse. Anna era uma mulher segura e cheia de si, mas o medo de perder John lhe tirava o sono algumas vezes. A vida que levavam a preocupava demais. Por isso ela se apavorou quando procurou John pela casa e não o encontrou. Anna passou as mãos pelo rosto, num gesto meio desesperado, e decidiu procurá-lo pelo edifício. Vestiu um robe e desceu, perguntando a cada zelador e camareira se tinham visto John - ela precisou se esforçar bastante para se lembrar de perguntar pelo "Senhor Raymond", uma vez que só o chamava de John. Infelizmente, ninguém sabia informar sobre o paradeiro do rapaz. Com um aperto no peito, Anna voltou ao apartamento 305 para ver John entrando pela porta da cozinha como se nada tivesse acontecido. A dançarina abraçou o namorado tão forte que ele quase pensou que partiria ao meio. Percebendo as lágrimas no olhos dela, John aninhou Anna no peito e a acarinhou. "O que houve, meu amor?", perguntou, sem entender o que estava acontecendo. "Você sumiu!", disse Anna num tom que parecia acusá-lo de uma falha imperdoável. John sorriu de leve, mas percebendo o estado da namorada, apertou-a no abraço e tratou de justificar sua ausência. "Recebi uma ligação importante, não queria correr o risco de alguém me ouvir, então fui para a escada. Sinto muito por não ter avisado, mas não havia tempo..." Anna fungou, tentando se recompor. "Eu achei que...", ela não conseguiu terminar a frase. "Eu estou bem aqui, Anna, não precisa se preocupar!" Ela balançou a cabeça insistentemente. "Não aguento mais, John. Sinto muito mas eu não posso viver assim..." Aquelas palavras pareciam o fim do mundo para John. "O que está dizendo, Anna? Está terminando comigo?" As palavras saíram amargas pela boca do rapaz, mas Anna o tranquilizou negando com a cabeça, "Não, eu não poderia. Mas se as coisas continuarem assim, não sei por mais quanto tempo posso aguentar." John fechou os olhos. Já havia algum tempo que ele vivia assim quando conheceu Anna e ela o aceitou assim, mas por mais que pudesse soar injusto, se o preço que precisava pagar para que Anna continuasse em sua vida fosse mudar todo o seu modo de vida, ainda assim valeria a pena. "Tudo bem, Anna", respondeu num tom solene, "é a última vez, ok? Depois dessa, nos mudaremos para o Alabama e daremos início à vida que sonhamos, meu amor." As lágrimas voltaram a rolar no rosto de Anna, mas agora acompanhadas por uma levíssima sensação de alívio. "Você promete?" John sorriu para confortá-la. "Prometo."