Parte Quatro
Naquela terça, enquanto Anna ainda dormia, John separou todos os ingredientes para fazer o prato favorito da namorada. O rapaz estava prestes a acender o fogo quando ouviu o telefone tocar. Correu para atendê-lo, pois não queria que o barulho acordasse Anna, e viu o número no visor. Um arrepio percorreu a espinha de John, que olhou para os lados, tentando se certificar de que não havia mais ninguém ali. O telefone continuou tocando e Anna se mexeu na cama, fazendo John se lembrar da razão pela qual tinha corrido para atender aquela chamada. Pegou então o aparelho e saiu do apartamento, atravessando o corredor até a pesada porta que dava para a escada do prédio, e atendeu o telefone. Uma voz grave do outro lado da linha respondeu ao "Alô" de John. "Hora ruim, filho?" O rapaz sentiu calafrios, não esperava ouvir aquela voz tão cedo. Levou quase um segundo para acalmar os nervos e responder sem demonstrar sua surpresa. "O que você quer?" O homem do outro lado parecia empenhado em tirar John do sério. "Não foi essa a educação que te dei, Johnny, não seja rude com o papai!" Fechando os punhos com força, o rapaz respirou fundo numa tentativa de manter a calma e só então respondeu. "Eu não posso falar muito, então é melhor se adiantar." John quase pôde ouvir o homem sorrir. "Imagino que a senhorita Parker esteja sendo uma companhia encantadora, não é mesmo? Não vamos deixá-la esperando então, me encontre no café da 20th Street amanhã às 9 da noite." O homem desligou, deixando John temeroso. Ele soube que estava sendo observado e ficou preocupado com a segurança da namorada. Atordoado, voltou ao apartamento para encontrar uma Anna que chorava copiosamente. Não havia razão para deixá-la ainda mais nervosa, por isso John tratou de acalmá-la e não falou sobre o conteúdo da ligação.
Após concordarem que John deixaria a vida perigosa que levava que eles viveriam em uma casa de cerca branca no Alabama com bastante espaço para os filhos correrem Anna foi para o banho enquanto seu namorado ficou deitado na cama encarando o lustre. Perdido em seus pensamentos, John se lembrou de quando contou para Anna sobre sua vida e de como ela reagira. Os dois estavam sentados naquela mesma cama e ele não sabia como começar a falar. Após alguns minutos com a cabeça baixa, resolveu tentar, começando por alertar o tipo de conversa que estava por vir. "Anna, eu preciso te contar algumas coisas..." Anna franziu a testa levemente, mas foi John quem continuou a falar. "Eu não sou o homem que você pensa que eu sou, não sou o Sr. Certinho!" Anna percebeu que era algo que incomodava o rapaz e tentou ajudar, usando um tom carinhoso, quase maternal. "E por que não me diz quem você é então?" John respirou fundo e começou a contar. "Aos 13 anos eu descobri que o meu pai não era meu pai biológico, minha mãe já estava grávida quando eles se conheceram. Como qualquer moleque mimado, eu fiquei revoltado, me senti traído e quis conhecer o meu pai biológico, mesmo com os avisos da minha mãe de que eu ia me decepcionar. Então eu vim pra New York procurar por ele." Anna estava interessada na história de John. "E você encontrou?" Ele balançou a cabeça confirmando. "Eu descobri o telefone do trabalho dele e fui lá falar com ele. Ele era dono de uma gráfica, ou pelo menos eu pensei que fosse. Cheguei lá e falei com um dos homens que trabalhavam pra ele. Quando eu disse que era filho dele, o cara me olhou e me deixou entrar, acho que porque eu realmente pareço com aquele desgraçado. Mas o Randy - esse é o nome dele, Randy Raymond -, o Randy não fazia a menor ideia de que tinha engravidado a minha mãe." Anna ouvia a tudo com atenção. "E como ele reagiu?", perguntou a dançarina. John deu de ombros e respondeu. "No começo ele ficou meio cabreiro, sabe? Um garoto que ele nunca tinha visto antes chega do nada e diz que é filho dele... A minha mãe me disse antes de eu vir que essa manchinha aqui era igual a uma que ele tem, então eu achei que se ele visse, acreditaria em mim", disse o rapaz, mostrando uma marca de nascença em formato de folha que tinha no ombro e que Anna achava encantadora. "Quando ele viu, a expressão dele até mudou, parecia outra pessoa! O cara me abraçou, começou a fazer perguntas sobre mim, sobre a minha vida. Ele disse que sempre quis ter um filho pra cuidar dos negócios quando ele ficasse velhos..." John riu de leve, se lembrando da sensação que teve e se questionando sobre como pôde se enganar tanto. Anna quase podia ler os pensamentos dele e acarinhou o rosto do rapaz gentilmente. "Eu me senti acolhido, sabe? Mesmo a minha mãe sendo ótima e meu pai Bob me tratando como se eu fosse filho dele, eu sentia que eles não tinham muitas opções, eles que me criaram! Mas o Randy nem me conhecia, seria fácil pra ele me mandar embora... Eu fiz papel de otário, né?", John riu. "Claro que não!", Anna respondeu, compreensiva como sempre.










