O Houdini das Dívidas e a Dieta Milagrosa dos Ativos
Ou a arte de dever 60 mil milhões e ainda assim dormir como um anjo — ou, neste caso, como um ilusionista profissional. Patrick Drahi acaba de elevar o conceito de "desarrumação doméstica" a um nível estratosférico, provando que, no mundo da alta finança, os ativos são como as chaves de casa: quando os credores batem à porta, o segredo é mudá-los de gaveta até eles se esquecerem do que vinham buscar.
Drahi, o Houdini das Telecomunicações, está a executar o seu truque mais audaz: o "Desaparecimento do Colateral". É de uma elegância atroz. Enquanto os investidores olham para o Luxemburgo à espera de garantias, Patrick, num passe de mágica digno de Las Vegas, transfere os ativos para a Geodesia Holding. O resultado? Uma empresa que deveria valer fortunas apresenta um rendimento de 12 milhões de euros — sensivelmente o preço de um T3 de luxo em Lisboa ou de uma frota generosa de trotinetes elétricas.
Os credores, pobres almas que achavam que um empréstimo de 4,5 mil milhões era um assunto sério, estão agora a descobrir que a palavra de Drahi tem a solidez de um soufflé de queijo. Transferir a Altice Portugal e a Altice Caribbean para fora do alcance de quem emprestou o dinheiro não é "incumprimento"; no dicionário do magnata, chama-se "otimização de alcance geográfico das preocupações alheias".
É fascinante observar este desprendimento material. Drahi reestruturou a dívida em França, abdicou de percentagens, pôs tudo à venda e ainda teve o requinte de rejeitar 17 mil milhões pela SFR, porque, claramente, quando se deve 60 mil milhões, o que são 17 mil milhões senão trocos para o café?
No final do dia, a lição para o comum mortal é clara: se deves 500 euros ao banco, o problema é teu; se deves 60 mil milhões e consegues mover o teu império entre as nuvens do Luxemburgo e as Caraíbas enquanto os teus credores bufam de indignação no Financial Times, o problema é do sistema financeiro global — e tu és apenas um incompreendido artista da fuga.

























