Para finalizar o primeiro dia do doce dezembro! #viravira #novinhamaior #tchuca #pinguinha #docedezembro #fimdefesta #sómaisuma #amizade #amodemais (em Santa Cevada)
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Para finalizar o primeiro dia do doce dezembro! #viravira #novinhamaior #tchuca #pinguinha #docedezembro #fimdefesta #sómaisuma #amizade #amodemais (em Santa Cevada)
«Sharknado» por Nuno Miguel Pereira (c7nema)
Artigo original
Terá sido uma missão ingrata embora bem-intencionada a que levou Nuno Miguel Pereira (NMP) a cobrir, através do modelo crítica, a sessão única e especial de Sharknado no ecrã do El Corte Inglês. O telefilme do canal SyFy, que por ser tão manhoso motivou até o Buzzfeed a suspender as suas listas sobre gatos durante quase três minutos para lhe dedicar artigos, tornou-se famoso não por ser um típico filme com boas intenções que saíram goradas de forma hilariante devido a um conjunto risível de razões mas por ter sido pensado, escrito e produzido com esse propósito, o de pertencer ao glorioso subgénero do tão-mau-que-é-bom (TMQEB). Este objetivo poderá parecer pouco ambicioso a quem, por exemplo, nunca tenha assistido a mais de uma hora do canal SyFy, aquele canto do cabo cujo conteúdo diário pode ser equiparado a uma versão com répteis de um qualquer reality-show sobre misses de bairro pobre brasileiro a lutar pelo prémio de Melhor Bunda: é tosco, não faz qualquer sentido mas consegue agarrar-te por um estranho efeito hipnotizante.
Ora, filmes maus há aos pontapés e isso nunca impediu ninguém de os analisar de forma qualitativa. Aliás, parece-me evidente que o que transforma um qualquer filme num filme mau é primeiro o que a obra oferece - ou falha em oferecer - e em segundo a apreciação que é feita dela, sendo a visão do crítico, nos melhores dos casos, a dum público informado com paciência e falta de uma carreira séria para a querer passar para um papel. Mas assim que o filme alcança o estatuto de TMQEB e todo o culto a ele associado começa a estar menos preocupado com as nuances do argumento e mais com a mosca pousada inadvertidamente na cara do protagonista, será justo fazermos uso das mesmas regras?
Afinal, é por isto que não é contrassenso que filmes realmente maus (falhanços ultra medonhos de gente como a Troma Entertainment, Ed Wood ou João Botelho) sejam acarinhados por gente que se diz cinéfila mesmo sendo péssimos exemplos de bom cinema: se realmente atrozes nas características certas, tornam-se a mais pura fonte de comédia, ou “meta comédia” se quisermos levantar o dedinho quando bebermos cerveja. Se seguirmos a ideia feita de que a comédia é essencialmente a tragédia das outras pessoas, como resistir a um género em que a tragédia começa no próprio filme, em que os protagonistas não são os atores com mais tempo no ecrã mas sim todos os intervenientes que tornaram possível esta cena? Ou esta? TMQEB é um refúgio de pseudonisses em que a crítica deixa de fazer sentido porque o que nos deixa presos à cadeira é exatamente tudo o que é passível de ser criticado. Um amor que se cultiva e, quando genuíno e livro de ironias, consegue despertar o tipo de paixões que torna possível a resistência de fenómenos como Troll 2, Manos The Hands of Fate, The Room, Planet Nine from Outer Space e A Mulher Que Acreditava Ser a Presidente dos Estados Unidos da América. Por todo o mundo continuam a fazer-se encontros regulares em salas de cinema tolerantes para celebrar e existência de obras-primas como as citadas, excetuando a última que não tem nada para celebrar.
Existem, especialmente desde o advento da Internet, inúmeros sites e canais de Youtube que se dedicam ao escrutínio destes monumentos à inépcia, mas todos eles partilham as mesmas características base: a orientação humorística e a aplicação de regras específicas ao género. Um site como genial Redlettermedia por exemplo tem mesmo uma rubrica que denominaram «Best of the Worst» onde são vistos e discutidos três DVD e VHS terríveis para de seguida se decidir qual deles deve ser amarrado às traseiras dum carro em movimento, queimado com gasolina enquanto simula um strip ou simplesmente esmagado por um bloco de cimento atirado dum escadote. Gente que respira cinema a ignorar o cliché de escola em prol duma hora bem passada a gritar com o televisor. Isto é, para mim, a crítica possível de um filme realmente mau. Contrastemos com o texto de Nuno Miguel Pereira.
O texto de NMP é um passo na direção certa seguido dum espalho na lama com direito a triplo salto, nota 10. É positivo logo à partida pois qualquer cobertura deste tipo de (raros) eventos na imprensa especializada portuguesa é de louvar, tendo em conta o quase anonimato das recentes iniciativas de mostrar filmes beras (na tradição das saudosas sessões dedicadas a Ed Wood no Cine 222) que trouxeram The Room ao Nimas e agora Sharknado ao Corte Inglês. É louvável que Nuno Miguel Pereira tenha apreciado a sessão e feito questão de a divulgar, mas discuto aqui a forma que encontrou para o fazer ou que se viu forçado a utilizar.
O texto, embora aguado, sem direção e com muito escassas referências ao ambiente da sala (principal indicador de sucesso deste tipo de iniciativas), tenta sublinhar de forma anormalmente positiva o quão mau o filme é seja pelo plot absurdo, pela representação medonha ou pela Tara Reid. NMP usa a ironia e a palavra "pinguinha" para tentar descrever um tipo de filme radicalmente diferente do típico em sala para no final lhe dar uma pontuação na mesma escala que utilizou para avaliar «Runner Runner» (Jogo de Risco) dias antes, felizmente desta vez sem chamar a um ator e argumentista oscarizado como Ben Affleck de "homenzinho".
Se estamos perante um filme propositadamente mau, projetado numa sessão de pura celebração disso mesmo, o que estamos a avaliar quando damos nota 3/5? Quais foram os critérios de avaliação utilizados? Porquê 3 e não 1, ou mesmo 5? Quem acha que isto é meramente um pormenor não só está absolutamente certo como estará provavelmente perdido na Internet há horas e não conhece o blog onde está. Eu explico: apesar da impossibilidade de avaliar o filme da mesma forma que qualquer outro, comprovada pela falta de especificidade do texto, foram seguidos os mesmos códigos numéricos e de análise, sem falar da mesma temível secção de "o melhor" e "o pior". Ora, isso é injusto para o filme, é injusto para quem o projetou na sala e especialmente injusto para o leitor, que procurou o c7nema para ficar informado.
Fica a ideia falsa de que estamos perante uma comédia ligeira feita para quem se quer simplesmente distrair, quando a realidade mostra um filme francamente mau, terrível, trágico, inábil, foleiro, daninho, funesto, pavoroso, satânico, maligno, e que é bom exatamente por isso. Tivesse o C7nema ignorado os seus códigos por uma vez que seja ou, sei lá, ter feito uma reportagem divertida e informativa sobre essa forma de contracultura em vez duma crítica aguada, mal orientada e potencialmente enganadora, Sharknado e outros maus filmes bem mais interessantes poderiam começar a ter a projeção por cá que merecem. Assim, é difícil deste lado não pensar que isto foi apenas mais uma oportunidade perdida não só de promover o bicho como de inaugurar uma secção de reportagem no C7nema. Crítica é que isto não foi.
- Reles